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Mostrando postagens com o rótulo Viagens

A sombra da rota da seda, de Colin Thubron

A sombra da rota da seda Colin Thubron Tradução de Otávio Albuquerque L&PM 408 páginas Centenas de motivos incitam sua partida. Entrar em contato com novas identidades humanas, preencher um mapa em branco. A noção de que este é o coração do mundo. A busca pelas formas multifacetadas da fé. Você viaja porque ainda é jovem e quer viver aventuras e ouvir o som das suas botas pisando na terra. você viaja porque é velho e precisa entender alguma coisa antes que seja tarde demais. Você viaja para ver o que pode acontecer. Ainda assim, seguir a Rota da Seda é como seguir um fantasma. Essa trilha se estende pelo coração da Ásia, mas oficialmente não existe mais, tendo deixado para trás apenas marcas de seu frenético ápice: fronteiras forjadas, povos não catalogados. As estradas se bifurcam e se perdem em desvios por toda parte. Não há um só caminho, mas inúmeros, formando uma teia de opções. A que escolhi se estende por mais de 11 mil quilômetros e tem alguns trechos...

O bom viajante segundo Elias Canetti

O que é a língua? O que ela esconde? O que nos rouba? Ao longo das semanas que permaneci no Marrocos, não tentei aprender nem árabe nem os dialetos bérberes. Não quis perder nada do poder exótico dos seus gritos. Queria ser atingido por seus gritos, tal como eles eram, sem enfraquecê-los devido a um saber artificial e insuficiente. Não havia lido nada sobre o país. Seus costumes me eram tão estranhos quanto seus habitantes. O pouco que se aprende sobre um país e um povo durante uma vida facilmente se esquece nas primeiras horas. Mas restou-me a palavra Alá e esta eu não pude evitar. Com isso eu estava equipado para a minha experiência mais frequente, mais comovente e duradoura: a dos cegos. Em viagens aceitamos tudo, a indignação fica em casa. Olha-se, escuta-se, encantamo-nos com as coisas mais terríveis, porque são novidades. O bom viajante não tem coração. Elias Canetti, Vozes de Marrakesh. L&PM, 1987, p. 28. Tradução de Marijane Lisboa

Como Marco Polo

Philippe Valéry (1964) é um sujeito corajoso - e sortudo. Abandonou um emprego em uma multinacional americana, depois de ter passado pela embaixada francesa no Japão, para se dedicar a um sonho: refazer, mais de 700 anos depois, o percurso de Marco Polo pela rota da seda. O resultado está no livro Par les sentiers de la soie: a pied jusqu'en Chine , editado na França pela Transboreal (2003) e que aguarda tradução por aqui. Li como exercício de francês.  O percurso levou dois anos e 10.000 km; de Marselha a Kashgar (China), passou por Veneza, Istambul, Geórgia, Uzbequistão... o mesmo percurso de Marco Polo e por onde passaram Alexandre o Grande e Gengis Khan. Uma condição: o percurso teria de ser feito à pé, tal como no "projeto inicial". O difícil foi explicar isso, de forma convincente, para os diversos guardas de fronteira. É bem verdade que ele iniciou a aventura em 1997, antes, portanto, do 11 de Setembro. Mas passou pelo Afeganistão já (ainda) em plena guerr...

Lisboa

Terminando a série sobre Portugal... ficamos no hotel Lisboa Plaza, na Travessa do Salitre, próximo à bela e sofisticada Avenida da Liberdade. Caminhando poucos minutos, chega-se à Praça dos Restauradores e ao Rossio. Daí, pega-se a rua do Carmo, bem à direita, e duzentos metros depois, chegamos à famosa Rua Garrett. Duas livrarias: a famosa Bertrand do Chiado, na Garrett, e a bem menor mas igualmente interessante Ferin, na Rua do Carmo, logo abaixo dos Armazéns do Chiado. É claro que não se poderia deixar de visitar o café A Brasileira, com sua estátua do Fernando Pessoa e seus pastéis de nata (só em Belém se pode usar a denominação "pastel de Belém"). Dela saem algumas ruas que vão em direção ao Tejo: Na mesma Garrett, um pequeno refúgio, com alguns bons restaurantes. Os táxis são muito baratos. De Belém para o hotel não gastamos oito euros, o que, sob o sol do verão a 40 graus, é um alento. Demos um outro pulo para lá, para comer um pastel de Belém ...

Lisboa - Parque das Nações

A Lisboa contemporânea está no Parque das Nações, região da cidade que sediou a Expo 98. O moderno complexo, próximo à estação de metrô Oriente, tem um shopping centre (Vasco da Gama), a torre Vasco da Gama - o edifício mais alto da cidade - e o Oceanário como pontos principais.  No Parque das Nações, vemos a mão de Santiago Calatrava. É dele o projeto da estação do Oriente. É torcer para que o projeto de revitalização do Porto do Rio saia realmente do papel,   para as Olimpíadas de 2016, com sua participação no tal Museu do Amanhã.  Um teleférico nos conduz por cerca de 1000 m, saindo do Oceanário e chegando à torre. Vê-se o rio Tejo e a ponte Vasco da Gama, além de todo o conjunto urbano. Abaixo, aproximamo-nos da torre. No Oceanário, somos recebidos pelo simpático Vasco: O Oceanário de Lisboa já é uma referência em termos mundiais. Tubarões, pinguins, peixes tropicais. Muitos restaurantes no complexo, mas preferimos almoçar no próprio Oce...

Lisboa: Torre de Belém

Colocado agora entre o Museu da Marinha e o Museu dos Coches, entre alguns meios de navegar nas águas e outros de ser transportados em terra, o viajante decide ir à Torre de Belém. Um poeta disse, em hora de rima fácil e desencanto pátrio, que só isso fazemos bem, torres de Belém. O viajante não é da mesma opinião. Viajou bastante para saber que muitas outras coisas fizemos bem feitas, e agora mesmo vem de ver as abóbadas dos Jerónimos. Fez de conta Carlos Queirós que não as viu, ou desforrou-se na torre da dificuldade de encontrar rima coerente para o mosteiro. Em todo o caso não vê o viajante que utilidade militar poderia ter esta obra de joalharia, com o seu maravilhoso varandim virado ao Tejo,  lugar de mais excelência para assistir a desfiles náuticos do que para orientar as alças dos canhões. Saramago, Viagem a Portugal, p. 359. Saindo do Mosteiro, partimos para o almoço na Cervejaria Portugália, em frente ao Padrão dos Descobrimentos - que admiramos almoçando. O restaur...

Lisboa - Mosteiro dos Jerônimos

O viajante vem para a rua, é um viajante perdido. Aonde irá? Que lugares irá visitar? Que outros deixará de lado, por sua deliberação ou impossibilidade de ver tudo e falar de tudo?E que é ver tudo? Tão legítimo seria atravessar o jardim e ir ver os barcos no rio como entrar no Mosteiro dos Jerônimos. Ou então, nada disto, ficar apenas sentado no banco ou sobre a relva, a gozar o esplêndido e luminoso Sol. Diz-se que barco parado não faz viagem. Pois não, mas prepara-se para ela. O viajante enche de bom ar o peito, como quem levanta as velas a apanhar o vento do largo, e ruma para os Jerónimos. Saramago, Viagem a Portugal, p. 357. No nosso caso, partimos da Praça Figueira, ao lado do Rossio, para pegarmos o elétrico 15, que nos deixou em frente ao Mosteiro. Um bonde que, para nosso azar, não tinha ventilação - sem ar condicionado e com todas as janelas hermeticamente fechadas, sob uma temperatura de quase 40 graus. Sair e entrar no Mosteiro foi quase uma experiência extrasensorial...

Lisboa - Castelo de São Jorge

Até agora não falou o viajante do castelo dito de S. Jorge. Visto cá de baixo a vegetação quase o esconde. Fortaleza de tantas e tão remotas lutas, desde romanos, visigodos e mouros, hoje mais parece um parque. O viajante duvida se o preferiria assim. Tem na memória a grandeza de Marialva e Monsanto, formidáveis ruínas, e aqui, apesar dos restauros, que num princípio reintegrariam a fortaleza na sua recordação castrense, acaba por ter significado maior o pavão branco que se passeia, o cisne que voga no fosso. O miradouro faz esquecer o castelo. Nem parece que naquela porta morreu entalado Martim Moniz. É sempre assim: sacrifica-se um homem pelo jardim dos outros. Saramago, Viagem a Portugal, p. 364-5. Saramago fala de Martim Moniz; segundo a lenda, ele se sacrificou, colocando o seu corpo no vão de uma das portas do castelo. Evidentemente, morreu esmagado, mas seu ato permitiu que os portugueses chegassem a tempo e, com a porta aberta, invadissem o castelo. Trata-de de uma ant...

Tomar

Entra em Tomar pelo lado oposto ao Castelo dos Templários, dá, por via do alojamento, as necessárias voltas, e, não havendo hoje tempo para mais, verá a Igreja de São João Baptista e a sinagoga. Saramago, Viagem a Portugal, p. 279. A primeira sinagoga de Portugal foi construída no século XV e encerrada em 1496, por ordem de Dom Manuel I, que determinou a conversão obrigatória dos judeus. Boa parte partiu para o Mediterrâneo, chegando até a Turquia... O Convento de Tomar é o pórtico, é o coro manuelino, é a charola, é a grande janela, é o claustro. E é o resto. De tudo, o que mais toca o viajante é a charola, pela antiguidade, decerto, pela exótica forma octogonal, sem dúvida, mas sobretudo porque vê nela uma expressão plástica perfeita do santuário, lugar secreto acessível mas não exposto, ponto central e foco à roda do qual gravitam os fiéis e se dispõem a figurações secundárias. A charola, assim concebida, é, simultaneamente, sol radiante e umbigo do mundo. ...

Ferreira do Zêzere

Estivemos em uma cidade não visitada pelo viajante Saramago: Ferreira do Zêzere, a minutos de Tomar.  Paulo Alcobia Neves, primo de minha esposa, nos guiou pela pequena vila, de cerca de 2 mil habitantes, bem próxima a Tomar, onde vive. Paulo conhece a vila como poucos; conta-nos cada detalhe de sua história e das pessoas que hoje dão nome às suas ruas. Está, no momento, dedicado à restauração desta capela, de Nossa Senhora da Penha de França: Almoçamos com Paulo na Quinta dos Valadas, em companhia de seu proprietário, o comendador Sérgio Melo, sua família e seus amigos. Antes do almoço, Ana Isabel Melo nos levou a uma visita pela propriedade. Para as crianças, foi uma surpresa ver os animais lá criados, de javalis a raposas, passando por avestruzes - que enlouquecem com relógios, câmeras fotográficas, celulares e qualquer coisa que lhes apareça pela frente. E partimos, à tarde, para Tomar. 

Santarém

Santarém é uma cidade singular. Com gente na rua ou toda metida em casa, dá sempre a mesma impressão de encerramento. Entre a parte antiga e os núcleos urbanos mais recentes  não parece haver comunicação: está cada qual no lugar onde foi posto e sempre de costas voltadas. O viajante reconhece uma vez mais que se tratará de uma visão subjectiva, mas os factos não desmentem, ou melhor, confirma-o a ausência deles: em Santarém nada pode acontecer, seria outro palácio da Bela Adormecida se soubéssemos onde encontrar a bela. Tem, porém, a cidade as Portas do Sol para desafogar ao longe. Teria, acrescenta duvidosamente o viajante. É que o esplendoroso panorama, a grande vista sobre o rio e os campos de Almeirim e Alpiarça, ainda mais acentuam a sensação de isolamento, de distância, quase de ausência que em Santarém se experimenta. Saramago, Viagem a Portugal, p. 306. Passamos pela cidade onde se encontra, em repouso, o nosso prezado Álvares Cabral.  A sua igreja, in...

Palácio de Queluz

Está na sala de D. Quixote, onde se diz que nasceu e morreu D. Pedro IV. Não é este princípio e este fim que comovem o viajante: não faltava mais nada que lacrimejar por coisas tão comuns. O que em verdade o perturba é a incongruência destas cenas da vida  do pobre fidalgo manchego, zelador de honra e justiça, louco apaixonado, inventor de gigantes, posto em tal lugar, neste Palácio de Queluz que leu o rocaille à portuguesa e o neoclássico à francesa, e mais errou do que acertou. Há grandes abusos. O desgraçado Quixote, que comia pouco por necessidade e vocação e castidades forçadas padecia mais do que a conta, foi à força metido numa corte com uma rainha que não queria saber de continências e um rei que as fazia muito ao faisão e ao chispe. Se é verdade que nasceu aqui D. Pedro, se nele houve, a par de interesses familiares e dinásticos que convinha assegurar, real amor da liberdade, então D. Quixote de la Mancha fez quanto pôde para vingar-se da afronta de o pintarem nestas ...

Cascais e Estoril

Estas terras marginais são predilectas do turismo. O viajante não é turista, é viajante. Há grande diferença. Viajar é descobrir, o resto é simples encontrar. Por isso se há-de compreender que passe sem particulares demoras por estas amenas praias, e se nas ondas pacatas do Estoril decidir dar breve mergulho, fique este sem menção. Saramago, Viagem a Portugal, p. 352. Como o ilustre viajante, apenas passamos pelas duas cidades. Nada contra o turismo; foi uma questão de tempo. O amanhecer enevoado nos inibiu de pensar em praia. Há diversos hoteis, de todos os tipos e para todos os tipos - aí incluindo os bolsos, que nunca deverão ser muito desguarnecidos. A cidade é mesmo cara mas merece uma tarde tranquila. Não mais que isso.  Em Estoril, a grande atração é o cassino. E seguimos em frente, rumo ao Palácio Nacional de Queluz.

Sintra

A estrada, sinuosa, estreitíssima, vai contornando a serra como um abraço. Abóbadas de verdura protegem-na do Sol, separam o viajante ciosamente da paisagem circundante. Não se reclamem horizontes largos quando o horizonte próximo for uma cortina cintilante de troncos e folhagens, um jogo infinito de verdes e de luz. Seteais aparece insolitamente com o seu grande terreiro relvado, afinal pouco mais do que um miradouro para a planície e um cenográfico ponto de vista para o Palácio da Pena, lá no alto. Explicar o Palácio da Pena é aventura em que o viajante não se meterá. Já não é pequeno trabalho vê-lo, aguentar o choque dessa confusão de estilos, passar em dez passos do gótico para o manuelino, do mudéjar para o neoclássico, e de tudo isto para intervenções com poucos pés e nenhuma cabeça. Mas o que não se pode negar é que, visto de longe, o palácio apresenta uma aparência de unidade arquitectónica invulgar, que provavelmente lhe virá muito mais da sua perfeita integração na ...

Óbidos

Mas Óbidos merece todos os mais louvores. É bem possível que a vila tenha um modo de viver um pouco artificial. Sendo lugar obrigatório de passagem e permanência de visitantes, toda ela se compôs para tirar, não um retrato, mas muitos, com a preocupação de em todos ficar favorecida. Óbidos é um pouco a menina de tempo antigo que foi ao baile e espera que a venham buscar para dançar. Vemo-la muito composta na sua cadeirinha, não mexe uma pestana e está raladíssima porque não sabe se o caracol da testa se desmanchou com o calor. Mas, enfim, a menina é mesmo formosa, não há que negar. Saramago, Viagem a Portugal, p. 330. No caminho para Óbidos, passamos por Caldas da Rainha, e o senhor Bernardino conta que a rainha estava por aquelas bandas quando se sentiu muito mal. Toda a comitiva parou, preocupada; um pastor disse aos guardas que havia um lugar, malcheiroso, que fazia muito bem às suas cabras. O guarda prendeu o sujeito, que teria comparado Vossa Alteza com uma cabra. No m...

Nazaré

Que veio o viajante fazer à Nazaré? Que faz em todas as povoações e lugares onde entra? Já se sangrou em saúde, já declarou que viajar não é isto, mas sim estar e ficar, e não pode estar sempre a dizê-lo. Porém, aqui terá de retornar a ladainha para que lhe seja garantida a absolvição: devia estar e ficar para ver os pescadores irem ao mar e do mar voltarem, oxalá que todos; devia saber a cor e o bater das ondas; devia puxar os barcos; devia gritar com quem gritasse e chorar com quem chorasse; devia pesar o peixe e o salário, o morrer e o viver. Seria nazareno, depois de ter sido poveiro e vareiro. Saramago, Viagem a Portugal, p. 296. Esperava pouco de Nazaré e, talvez por isso mesmo, tenha sido surpreendido. De Batalha, esperava algo magnífico - como de fato é o Mosteiro. De Nazaré, não sabia o que esperar, e pensei inicialmente em um ponto de apoio para um passeio de dez horas num carro. Observou o senhor Bernardino as mulheres de preto - que perderam filho ou marido para o mar -...

Alcobaça

O que de notável a fachada do mosteiro tem, é a perfeita integração dos seus diferentes estilos, tanto mais que o barroco com que culmina não faz qualquer esforço para se aproximar do gótico do portal. É verdade que este é diminuido na sua possibilidade de competição com os restantes elementos da fachada pelo facto de ter as arquivoltas lisas, sem decoração, e estar ladeado por pilastras brancas. O conjunto, portanto, apresenta uma organização e uma movimentação barroca que as duas janelas manuelinas que enquadram a rosácea não modificam. As torres sineiras são o triunfo do estilo, repetido até à exaustão por todo o País. Saramago, Viagem a Portugal, p. 297. Lá chegamos depois do almoço; as crianças cansadas e o sol estourando. O mosteiro me interessou mais por guardar os restos de D. Pedro e Dona Inês, os imortais amantes que esperam o fim do mundo para se levantarem e continuarem o amor no ponto em que os "brutos matadores" o cortaram, se tais continuaçõe...

Batalha

A viagem não é longa, o viajante pode ir devagar. E, para seu maior descanso, deixa a estrada principal e segue por esta, modestíssima, que faz companhia ao rio Lis. É um modo de preparar-se em paz para enfrentar o Mosteiro de Santa Maria da Vitória. O viajante escreve estas palavras muito seguro de si mas em seu íntimo sabe que não tem salvação possível. Onde dez mil páginas não bastariam, uma é demais. Tem muita pena de não estar viajando de avião, assim poderia dizer: "Mal pude olhar, ia muito alto" Mas é pelo chãozinho natural que vai, e está quase a chegar, não há aqui fugir um homem ao seu dever. Mais fácil tarefa foi a de Nuno Álvares, que só teve de vencer os castelhanos. Saramago, Viagem a Portugal, p. 291. Estamos em Batalha conduzidos pelo senhor Bernardino, que nos conta detalhes da paisagem e da história do país. O Mosteiro de Santa Maria da Vitória é o conhecido Mosteiro de Batalha - a batalha a qual se refere é a de Aljubarrota, que fica há menos de ci...

Fátima

São muitas as voltas para chegar a Fátima. Há certamente caminhos mais rectos, mas dos lados donde o viajante vem, com mistura de mouros e judeus, não é de estranhar que tenha achado o percurso longo. Hoje, a imensa esplanada é um deserto. Só lá ao fundo, ao pé da Capela das Aparições, se juntaram algumas pessoas, e há pequenos grupos que se aproximam ou afastam distraidamente (...) O viajante, que é impenitente racionalista, mas que nesta viagem já muitas vezes se emocionou por causa de crenças que não partilha, gostava de poder comover-se também aqui. Retira-se sem culpas. Saramago, Viagem a Portugal, p. 285. Definitivamente, Saramago não gostou de Fátima - o conjunto arquitetônico, esclareça-se. Viemos, ao contrário do viajante, de Lisboa, com o senhor Bernardino. No caminho, percebemos a diferença entre o Brasil e um país que não se pode dar ao desplante de desperdiçar terra: em quarenta minutos, passamos por vinhas, macieiras, pereiras, figueiras, oliveiras, além de...

Viagem a Portugal, de José Saramago

Viagem a Portugal José Saramago Companhia das Letras, 2010, 486p Resigne-se pois o leitor a não dispor deste livro como de um guia às ordens, ou roteiro que leva pela mão, ou catálogo geral. Às páginas adiante não se há-de recorrer como a agência de viagens ou balcão de turismo: o autor não veio dar conselhos, embora sobreabunde em opiniões. É verdade que se acharão os lugares selectos da paisagem e da arte, a face natural ou transformada da terra portuguesa: porém, não será forçadamente imposto um itinerário, ou orientado habilmente, apenas porque as conveniências e os hábitos acabaram por torná-lo obrigatório a quem de sua casa sai para conhecer o que está fora. Sem dúvida, o autor foi aonde se vai sempre, mas foi também aonde se vai quase nunca. Na apresentação a Viagem a Portugal, Saramago já avisa que turista é uma coisa; viajante, outra. O autor é viajante; passa por lugares quase fantasmas, sombras de um passado medieval mas que parecem adquirir, ainda que por in...