domingo, 27 de janeiro de 2019

27 de janeiro, por Adam Zagajewski

Não é a primeira vez que o poema aparece por aqui - mas hoje é dia 27 de janeiro, portanto:

27 DE JANEIRO
Dia gelado. Um sol de inverno. Branco vapor.
Mas nesta sexta-feira não sabíamos
o que celebrar, e o que chorar –
o Dia Memorial do Holocausto
ou o aniversário de Mozart.
Nossa memória ficou perplexa.
A imaginação perdeu o rumo.
No parapeito da janela, uma vela chorou
(fomos convidados a acender velas),
mas a suave música do jovem Mozart
chegou até nós pelos altifalantes, em estilo rococó,
a época das asas de prata e não dos cabelos grisalhos
que conhecíamos de Auschwitz,
idade dos figurinos, e não da nudez,
da esperança, e não do desespero.
Nossa memória ficou perplexa,
a imaginação cresceu, perdida em pensamentos.


(do Poesia Ilimitada)

27 de janeiro - um recado de Primo Levi

Em 27 de janeiro de 1945, o campo de Auschwitz era libertado pelos soviéticos.


É isto um homem?
(Primo Levi)

Vocês que vivem seguros


em suas cálidas casas,

vocês que, voltando à noite,


encontram comida quente e rostos amigos, 


                       pensem bem se isto é um homem 

               
                       que trabalha no meio do barro,

                       que não conhece paz, 

                       que luta por um pedaço de pão,

                       que morre por um sim ou por um não.

                       Pensem bem se isto é uma mulher, 

                       sem cabelos e sem nome, 

                       sem mais força para lembrar,

                       vazios os olhos, frio o ventre,

                       como um sapo no inverno.

Pensem que isto aconteceu:

eu lhes mando estas palavras.

Gravam-na em seus corações,

estando em casa, andando na rua,

ao deitar, ao levantar;

repitam-nas a seus filhos.

                        Ou, senão, desmorone-se a sua casa,

                         a doença os torne inválidos,

                         os seus filhos virem o rosto para não vê-los.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A ilustre casa de Ramires à venda

A ilustre casa de Ramires está à venda - sério. Aqui.

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Uma pechinca: 990 mil euros. A família proprietária (há mais de quatro séculos) reconhece o potencial turístico, mas admite não ter condições de explorar a Casa da Torre da Lagariça.

De acordo com a reportagem:

"Apesar de no livro A Ilustre Casa de Ramires não existirem referências directas à Casa da Torre da Lagariça, investigadores e historiadores não têm dúvidas em apontar as coincidências geográficas e toponímicas da obra e dos lugares em Resende. O padre Joaquim Correia Duarte, membro da Academia de História, nas suas várias monografias sobre a história do concelho, defende mesmo que “Resende acaba por ser cenário principal ou secundário de quatro das obras mais importantes” do escritor".

Meu projeto de criar uma rede de hotéis literários poderia decolar...

Um leitor: Julien Sorel

- Pois bem, preguiçoso! Vai continuar a ler esses malditos livros enquanto está de guarda na serraria? Leia de noite, quando vai perder seu tempo na casa do cura, isso sim.

Julien, embora atordoado pela força do golpe e todo ofendido, aproximou-se de seu posto oficial, ao lado da serra. Tinha lágrimas nos olhos, menos por causa da dor física do que pela perda de um livro que adorava.

- Desça daí, animal, quero falar com você.

O barulho da máquina outra vez impediu Julien de ouvir a ordem. O pai, que havia descido, não querendo se dar ao trabalho de escalar novamente o mecanismo, foi buscar uma comprida vara de derrubar nozes e com ela bateu-lhe no ombro. Mal Julien chegou ao chão e o velho Sorel, enxotando-o rudemente à sua frente, empurrou-o na direção de casa. "Sabe Deus o que vai fazer comigo!", pensava o rapaz. De passagem, olhou tristemente o riacho onde caíra o livro; era de todos o que mais prezava, o Memorial de Santa Helena.

(O Vermelho e o Negro, Stendhal, tradução de Raquel Prado, Cosac Naify, p. 35-36).


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Noites brancas, de Dostoievski



Mais novo, sempre lia algum autor russo nos escaldantes meses de verão do Rio. Todos podiam estar se dissolvendo à minha volta, mas havia um certo consolo em ler alguma história passada numa São Petersburgo ou numa Moscou - para não falar de algum ponto esquecido na Sibéria - congelada pelo tal General Inverno. 

No final de semana anterior ao Natal, finalmente leio Noites brancas, um daqueles livros que conhecemos antes mesmo de termos lido. Entre duas excelentes opções disponíveis para o leitor brasileiro, fiquei com a edição da Companhia Penguin, com a tradução de Rubens Figueiredo (um luxo, aliás, termos agora que escolher qual das boas edições da 34 ou da Companhia das Letras).

O problema de traduzir do russo não foi exclusivo do Brasil. Carpeaux já reclamava:

Dostoievski apareceu aos europeus ao lado de Turgeniev e Tolstoi; e nada mais natural do que a confusão entre eles: as traduções medíocres e pouco exatas não permitiram descobrir a imensa diferença dos estilos. Também se ignoravam as diferenças da condição social: Turgeniev e Tolstoi eram grandes senhores rurais; Dostoievski, um intelectual pequeno-burguês, homem da cidade.

O Sonhador caminha pelas ruas de São Petersburgo, sozinho, sem amigos ou conhecidos, mas que é capaz de "conversar" com a própria cidade - como se a arquitetura tomasse vida e expressasse sua opinião a respeito das últimas novidades... O sol mal se põe no verão russo. Na primeira noite, contudo, encontra uma jovem, desesperada e em prantos. Aproxima-se dela como nunca havia feito com ninguém; irá consolá-la. Ao longo das próximas noites, a aproximação improvável cresce, até o final abrupto da história.

Nos tempos de boas locadoras, hoje tão longínquos, consegui assistir à versão de Luchino Visconti (Le Notti Bianche, 1957), com Marcello Mastroianni e Maria Schell. Visconti troca São Petersburgo por Livorno. Aqui, o trailer:


Fique com os dois. Poucos grandes autores foram tão - e tão bem - levados ao cinema quanto Dostoievski.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

2018

2018 foi um ano atípico para este blog, que promete voltar à assiduidade dos seus primeiros anos.

Numa retrospectiva, diria que o melhor livro de não ficção que passou por aqui foi o livro de Peter Frankopan - The Silk Road: a new History of the World. Como disse naquela ocasião, um livro que, na melhor tradição da língua inglesa, um texto de alta qualidade e extremamente agradável, contando a história da civilização através do comércio.

Foi um ano mais dedicado à não-ficção, sem dúvida. O livro da Lília Schwarcz, sobre a história da Biblioteca Nacional,não foi, de forma alguma, um lançamento de 2018, mas tive o prazer de conhecer a autora num evento aqui em Belo Horizonte. O incêndio do Museu Nacional, quando estava no início da leitura, mudou radicalmente o estado de espírito do blog. 

Por fim, a monumental História dos Judeus, de Simon Schama. O primeiro volume caminha até 1492. O autor dedica especial atenção ao início do antissemitismo cristão, a partir das ideias de São João Crisóstomo, bem antes da Idade Média - o que fere o senso comum...

Na ficção, destaco o romance de Igor Stiks, o romance-documentário de Olivier Guez sobre Mengele, e Jogo de Cena em Bolzano, de Sandor Marai. Não resenhada neste blog, a última leitura de 2018, o romance Eufrates, do brasileiro André de Leones, também merece todas as atenções - inclusive desta biblioteca, tão relapsa durante o ano que se encerrou ontem. O post fica para os próximos dias.