quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Conto da semana, de Thomas Bernhard


Pisa e Veneza

Os prefeitos de Pisa e Veneza tinham concordado em molestar os visitantes de suas cidades, que havia séculos se encantavam em igual medida tanto com Pisa como em Veneza, mandando transferir, em segredo e da noite para o dia, a torre de Pisa para Veneza e o campanário de Veneza para Pisa, instalando-os no novo local. Mas não conseguiram manter segredo de seu intento e, justamente na noite em que pretendiam mandar transportar a torre de Pisa para Veneza e o campanário de Veneza para Pisa, foram internados no manicômio: naturalmente, o prefeito de Pisa no manicômio de Pisa e o prefeito de Veneza no manicômio de Veneza. As autoridades italianas lograram tratar a questão dentro do mais absoluto sigilo.

O conto está em O Imitador de Vozes, Companhia das Letras. Tradução: Sergio Tellaroli.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Advogados nada Ilustres - Pierre Pathelin


A farsa mais duradoura da literatura francesa, Maistre Pierre Pathelin, foi representada pela primeira vez por volta de 1464, repetindo-se até 1872. Pathelin é um pobre advogado faminto de casos. Convence um negociante de fazendas a vender-lhe seis varas de pano, e convida-o para jantar naquela noite a fim de receber o pagamento. Quando o comerciante chega, Pathelin está de cama ardendo em fingida febre, e afirma nada saber a respeito das varas ou do jantar. O comerciante sai indignado, encontra o pastor de seu rebanho, acusa-o secretamente de dispor de vários carneiros e convoca-o perante um juiz. O pastor procura um advogado barato e encontra Pathelin, que o aconselha a fingir de idiota e a responder a todas as perguntas com o bé do carneiro. O juiz, iludido com os bés e atrapalhado pela mistura de queixas do comerciante tanto contra o pastor como contra o advogado, proporciona à França uma frase célebre ao pedir a todas as partes: Revenons à ces moutons – Voltemos a esses carneiros; e por gim, desesperando de extrair qualquer lógica da confusão, encerra o caso. O triunfante Pathelin pede a sua paga, mas o pastor responde apenas “bé” e o mentiroso esperto é enganado pelo simplório. (...) Rabelais deve ter rememorado Pathelin quando imaginou Panurge, e Molière reencarnou Gringoire e o autor desconhecido desta peça.

A Reforma (História da Civilização, VI), de Will Durant, p. 85. Record, 2002. 

Prefácios


“Pela metade do século XX”, diz a Encyclopaedia Britannica (XVI, I oa), “a literatura sobre Napoleão já contava com mais do que 100.000 volumes”. Por que ajuntar mais um a essa pilha? Não temos melhor motivo do que dizer que as Parcas repetidamente esqueceram-se de nós, e nos deixaram para uma vida passiva, de pacíficas leituras, após 1968 (...).

Will (1885-1981) e Ariel (1898-1981) Durant – A Era de Napoleão (vol XI de sua História da Civilização). 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O Romancista Ingênuo e Sentimental, de Orhan Pamuk



Convidado a participar do ciclo Charles Eliot Norton da Universidade Harvard, Pamuk se inspirou no Sobre a Poesia Ingênua e Sentimental de Schiller (1795) para suas palestras. 

Se você está cansado do discurso do fim do romance, ou meio deprimido por acreditar nisto, o livro é uma excelente pedida. Pamuk ressalta que nunca se leu e escreveu tantos romances. 

O grande prazer de ler os romances, afirma, está na habilidade do leitor em ver o mundo não "de fora", mas pelos olhos dos próprios personagens. Essa capacidade diferenciaria o romance de todos os demais gêneros.

Desde o início, avisa que o seu favorito é Anna Karenina. Mas falará de Guerra e Paz, além de autores como Melville (sua observação sobre o "centro" de Moby Dick é muito didática), Calvino, Borges, Nabokov, entre outros.

Nunca participei de um curso de Escrita Criativa, mas imagino que eles devem ter uma linha semelhante à do livro de Pamuk. 

Algumas considerações interessantes – como nós, Pamuk integra a periferia – o romance é um gênero em sua origem essencialmente europeu, ainda que hoje já esteja “globalizado”. Ele lembra que por muito tempo os autores não europeus eram assombrados pela imposição de criar uma “Anna Karenina”, um “Dom Quixote” de suas nacionalidades.  Ou quando faz uma distinção curiosa entre autores “verbais” e “visuais” (Homero estaria neste último grupo; inúmeras imagens nos vem à mente quando lemos sua Odisseia ou a Ilíada, mais do que a história propriamente dita).

A Companhia das Letras lançou o livro no final de novembro (leia o primeiro capítulo), pouco depois de eu ter comprado a versão Kindle...

Conto da Semana, de Slawomir Mrozek

O conto da semana é novamente do polonês Slawomir Mrozeck, O Leão. Da mesma coletânea de outro conto já comentado aqui, desta vez trata de um leão, em Roma, cuja função era comer os cristãos. O Imperador dá o sinal, os leões avançam, mas um deles, para espanto de todos, prefere comer sua cenoura.

Gaius, cuja função era assegurar o espetáculo - fazendo com que os leões efetivamente trabalhassem - usa o chicote com mais força, mas o leão retruca - deixe-me em paz.

- Você não precisa comê-los; basta correr atrás deles e rugir um pouco...

Mas o leão estava irredutível: depois ninguém vai acreditar que eu não os comi. Por que vocês não fazem pessoalmente? Por que os leões? 

Os romanos têm asma, são velhos...

Velhos?  Você é mesmo um político. Nunca te passou pela cabeça a possibilidade de os cristãos chegarem ao poder? Leia nas entrelinhas... Constantino O Grande vai chegar a um acordo com eles cedo ou tarde. E vocês vão tentar se reabilitar, dizendo: nunca fizemos nada, foram os leões.

Mas os outros leões estão trabalhando normalmente...

- Bestas estúpidas, sem noção. 

Por fim, Gaius pergunta: você testemunharia em meu favor, dizendo ao menos que eu não te forcei a nada?

E o leão: Salus Republicae summa lex tibi esto - e voltou à sua cenoura...

Tradição Natalina no Rio - O Quebra Nozes

Já é tradição no Rio a montagem do balé O Quebra-Nozes, de Tchaikovsky, no Theatro Municipal, fechando a temporada em dezembro (se não me engano, a versão de Dalal Achcar é apresentada desde 1981). Desta vez, fomos com as crianças, que ainda não conheciam o local - por si só, um programa. É a primeira visita que faço desde a conclusão da última grande reforma.

No balé, para as crianças, a surpresa em constatar que muitas músicas já lhes eram familiares (evidentemente que sem saber que se tratava de uma obra do compositor russo), além do encantamento com a história e os cenários. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Havel na Hrad



Em 19 de novembro, Václav Havel, que se achava praticamente em reclusão domiciliar na região rural ao norte da Boêmia, voltou à tumultuada capital, onde os comunistas estavam perdendo o controle, sem que houvesse aparecido alguém que lhes tomasse o poder.

(...)

Por meio de um acordo, Dubcek foi eleito presidente da Assembleia Federal. A presidência do país coube ao próprio Václav Havel – ideia implausível e que tinha sido por ele educadamente descartada quando, apenas cinco semanas antes, as multidões nas ruas de Praga conclamavam: ‘Havel na Hrad” (Havel para o Castelo). Já em 7 de dezembro, entretanto, o dramaturgo chegara à conclusão de que aceitar o cargo talvez fosse a melhor maneira de facilitar a saída do país do comunismo; em 28 de dezembro de 1989, a mesma Assembleia Comunista que sancionara leis que até então haviam consignado Havel e outros a anos de reclusão agora o elegia presidente da República Socialista da Tchecoslováquia. No primeiro dia de 1990, o novo presidente anistiou 16 mil prisioneiros políticos; no dia seguinte, a própria polícia política foi extinta.

A saída extraordinariamente rápida e pacífica da Tchecoslováquia do comunismo – a chamada “revolução de veludo” – tornou-se possível devido a uma conjunção de circunstâncias. Assim como na Polônia, a oposição intelectual uniu-se, acima de tudo, em decorrência da memória de derrotas passadas e de uma determinação de evitar o confronto direto – não era à toa que a principal organização cívica da Eslováquia se autodenominava Povo contra a Violência. Tanto quanto na RDA, o total fracasso do partido governista logo ficou tão evidente que a alternativa de organizar uma ação na retaguarda foi desde o início descartada.

Mas o desempenho de Havel foi crucial – nenhum outro indivíduo com status político comparável surgiu nos demais países comunistas, e embora a maioria das idéias práticas e até as táticas políticas do Forum Cívico talvez existissem igualmente na ausência dele, foi Havel quem captou e canalizou o estado de espírito da população, incentivando os companheiros e, ao mesmo tempo, controlando as expectativas da multidão.

Tony Judt. Pós Guerra: uma história da Europa desde 1945. Objetiva, 2008, p. 617. Tradução de José Roberto O’Shea.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Khadji-Múrat, de Liev Tolstoi




Khadji-Múrat
Editora Cosac Naify
2009
224 páginas
Tradução de Boris Schnaiderman


Vorontzov recebeu Khadji-Múrat, parado na extremidade da mesa. O velho rosto alvo do comandante em chefe não estava sorridente como na véspera, parecia antes severo e solene.

Entrando na grande sala, com a mesa enorme e as janelas amplas, de rótulas verdes, Khadji-Múrat enconstou as mãos pequenas e queimadas de sol àquela parte do peito em que se cruzava a tcherkeska branca e disse clara e respeitosamente, em dialeto kumiko, que ele conhecia bem, sem se apressar e de olhos baixos:

-  Entrego-me à alta proteção do grande czar e à vossa. Prometo servir ao czar branco fielmente, até a última gota de sangue, e espero ser útil na guerra contra Chamil, inimigo meu e vosso (p. 95).

Tolstoi escreveu grandes romances grandes, como Anna Karenina e Guerra e Paz, além de novelas – algo entre um romance breve e um conto longo. Meu favorito é A Morte de Ivan Ilych. Todo estudante de direito deveria ler O Processo de Kafka no primeiro ano, para aprender como funciona o sistema (o sistema brasileiro, sim), e A Morte... no quinto, para ser alertado do que irá lhe acontecer se se devotar ao carreirismo – na pior acepção do termo.

Khadji-Múrat é tido como o último grande trabalho de ficção de Tolstoi. Remete-nos ao Cáucaso – à Chechênia, em particular. KM lutou contra os russos sob a liderança de Chamil, muçulmano líder das tribos do norte. 


Uma complexa questão familiar – Chamil seqüestra sua família – o leva a desertar e passar ao lado do inimigo.

Há muito da experiência do autor, que serviu na região durante a guerra de 1851/1852. Apesar de suas breves 200 páginas, Tolstoi apresenta os múltiplos pontos de vista, desde os camponeses ao czar – Nicolau I, que não é retratado com nenhuma simpatia ou condescendência.

No prefácio, Schnaiderman: Tolstoi escreve em carta ao irmão Sierguéi que Khadji-Murat rendeu-se há dias ao governo russo. Na ocasião, ele condenou o ato, considerando que ‘o primeiro valentão (djiguit) e homem decidido em toda a Chechênia cometeu uma baixeza'.

E depois, já em 1896: “Lembrou-me Khadji-Murat. Quero escrever. Defende a vida até o fim; sozinha no meio do vasto campo, assim mesmo a defender de algum modo”. Para Tolstoi, há um paralelo entre dois pólos de absolutismo, um asiático – Chamil – e outro europeu, Nicolau I. Múrat está longe de ser um simples traidor.


Na carta que Vorontzov escreve ao Ministro da Guerra, Tchernichov, ele deixa claro que não sabe o que fazer com KM, o prisioneiro. Nicolau, por outro lado, é um sujeito apaixonado por si próprio, e muito preocupado com mulheres. Mas Chamil sabe que o prejuízo com a deserção de KM será imenso, e mesmo Murat tem dúvidas se vale a pena realmente auxiliar os russos na dominação da região (mas não confia, absolutamente, em Chamil).

Uma guerra que, tal como a atual, era vista como uma guerra sem fim

sábado, 17 de dezembro de 2011

Conto da semana, de Duncan Bush


Novamente do Best European Fiction 2012, o conto da semana é do escritor Duncan Bush, Bigamia.

Três amigos lêem o jornal pela manhã – o recém-suicidado News of the World. Tony Pye se impressiona com a notícia de um caminhoneiro que tinha duas esposas, duas casas e dois lotes de filhos – quatro com uma, dois com a outra. Por 14 anos, foi pai e marido de duas famílias sem que uma soubesse da existência da outra. Como ele conseguia?

Fácil: era caminhoneiro – ao sair de uma casa poderia falar que estava indo para qualquer lugar: Espanha, Portugal etc.

E se ele se esquecesse e trocasse os nomes das mulheres e dos filhos? E se trocasse as atividades das crianças? Como organizar as contas de cada lar?

A mulher de Tony sabia mais do estado das suas roupas do que ele próprio. Ela certamente perceberia tudo. Portanto, surge a dúvida: ou o sujeito era muito inteligente, como achava Tony, ou as duas mulheres absolutamente estúpidas, na opinião de Mike Buller.

O terceiro amigo, o narrador observa a discussão e fica realmente impressionado.  Ele é noivo de Andrea, mas encontrou alguém num café, e por lá ficou com essa mulher por cerca de uma hora. Ninguém soube desse encontro. Mas Andrea percebeu isso. Ele nem casado é, mas sua noiva consegue perceber exatamente o que se passa com ele...

She was still watching me. I could see the flecks of her eyes. Then her pupils wobbled, and I knew it was fear. And that's when I knew she knew. That second when she wished she hadn't asked, when she got scared that I was going to tell her.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

É exatamente isso que me preocupa

- Não se preocupe. Tudo acabará bem - disse o carrasco.
- É exatamente isso que me preocupa - respondeu o condenado à morte.

Orlando Van Bredan. Do blog Nosotros somos quien somos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Um conselho de Richard de Bury



O conhecimento das leis positivas, dada a dificuldade de sua compreensão, pode conduzir a um resultado contrário àquele que perseguiu e, amiúde, pode suceder que em vez de solucionar os pleitos, os prolonga indefinidamente, o que acaba acarretando uma ansiedade desenfreada nos homens. No entanto, reconhecemos que estas leis foram estabelecidas por príncipes e jurisconsultos piedosos. Mas como a ciência dos adversários é a mesma, como o poder de argumentação tem em ambas as partes o mesmo valor e o espírito humano se inclina para o mal, aqueles que exercem essa profissão acabam por se inclinar a enredar os pleitos em vez de liquidá-los, e para isso fazem interpretações distorcidas dos textos legais durante os julgamentos, lançando mão de detestáveis artifícios absolutamente discordantes do pensamento do legislador.

Por isso, e apesar do amor que professamos aos livros desde nossa infância – amor este que nos prendeu com tal paixão que todo nosso afã sempre se encaminhou para a aquisição de livros -, a posse de livros de direito jamais nos comoveu e não gastamos um tostão em sua compra pois, como disse Aristóteles, verdadeira luz da doutrina, quando nos fala da lógica em seu opúsculo De pomo et de morte, as leis são tão úteis como o escorpião e a lacraia.

Richard de Bury (1287-1345), Bispo de Durham e Chanceler do Rei Eduardo III. Philobiblon. Ateliê Editorial. Traduzido por Marcello Rollemberg, 2004

sábado, 10 de dezembro de 2011

Conto da semana, de Armin Kõomägi

O conto da semana vem da Estonia, e está no Best European Fiction 2012, recém-lançado no Kindle e novamente organizado por Aleksandar Hemon.


Lógicos Anônimos – ou Racionais Anônimos – conta a história de um sujeito absolutamente lógico, eliminando toda e qualquer ineficiência de seus atos e seu comportamento. Um modelo para nossa economia:

I’ll never forget the lecturer in basic logistics. The way he took the shortest route from the door to his desk; the very rational movements with which he organized his class materials on its left-hand corner, whence it would later be convenient to lift them up to the lectern.

Seu modelo era o avô, que o iniciou no mundo dos lucros e das perdas. No final de sua vida, quando foi atropelado por um carro e quebrou as duas pernas, havia desistido de viver. Para aquele Natal, disse, não esperava nenhum presente... No derradeiro dia, todos vieram se despedir em seu leito, cada um dizendo alguma coisa tocante... o narrador, porém, perguntou-lhe, na frente de todos, se ele ficaria bem em um caixão cerca de 20 cm menor – já que as pernas tinham sido amputadas. Evidentemente, todos ficaram muito chocados – mas o avô compreendeu e sentiu orgulho da obra que fizera no neto. E morreu...

O narrador se considera portador de um dom. Sua esposa, por outro lado, o considera louco. Até para urinar no intervalo dos programas de televisão ele havia bolado um método eficiente; a quantidade de pasta de dente que usava pela manhã, tudo cuidadosamente calculado, evitando todo e qualquer desperdício. Como era de se esperar, um belo dia arruma suas malas e vai embora.

E aí surge o L.A (lógicos anônimos). Conhece Martin, que descobriu que 80% dos movimentos de sua família ocorriam em 20% da área da casa – e resolveu construir uma outra, bem menor, com o máximo de aproveitamento de espaço, sem desperdícios. Era um gênio, um motivo de orgulho para o grupo. Arved media, todas as manhãs, há mais de 18 anos, as alturas e pesos de sua esposa e filhos, e calculava com exatidão a quantidade de alimentos necessária, projetava os tamanhos das roupas que seriam necessárias, bolando um incrível modelo matemático para o orçamento familiar – sabia, por exemplo, o quanto de alimentos e de roupa gastaria em 2014. Ott, taxista, retirou de seu carro dois dos quatro cilindros, já que descobriu que andava a 27 km/h na cidade, reduzindo seu consumo de combustível.

Como diz o narrador: quatro grandes homens que não se conformam com o diagnóstico de que são doentes:

We recycle life – we who are each the result of a single, efficient pregnancy. Though, if you start to think about it, even that’s a bit of a waste. Wait a minute. How many spermatozoa are there in a single ejaculation? I’ll do a study of that at home. I’m sure that it’s possible to economize on that and solve our country’s overpopulation problem at the same time. You see – we’re full of good ideas! So it can’t be an illness.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Thérèse Desqueyroux, de François Mauriac



Ler Mauriac (1880-1975) em francês foi um desafio – mais complexo que Maupassant, Camus e o livro de Laurent Binet. Abri mão, portanto, da edição da Cosac Naify, traduzida por Carlos Drummond de Andrade. Mas valeu à pena. Inspirado no caso Blanche Canaby, de 1906, T.D. conta a história de uma mulher que se casa por conveniência com Bernard e vai viver em Argelouse.


Mas o romance começa com a saída de Thérèse do tribunal – ela acaba de ser absolvida da acusação de tentativa de homicídio de Bernard, por envenenamento. O marido, no entanto, depõe a seu favor. Tudo para manter a ideia de uma família tradicional e unida, no interior da França.



Ela encontra seu pai, o político Larroque, que também tinha a preocupação de encerrar esse caso... Seu casamento, aliás, foi desde o início uma fuga – ela não tem afeto sequer pela filha, e a cada dia odeia mais o marido. Na verdade, era muito amiga de Ana de la Trave, meia-irmã de Bernard. Ana tem uma relação com Azévédo que, para horror da família francesa, é judeu.

Vivem em Saint-Clair, na propriedade de Bernard. Mas esse mundo rural a consome; acha-o insuportável. Seu estado de insatisfação é permanente. Ocorre um incêndio na propriedade e, na confusão, o marido toma duas doses de seu remédio – contendo arsênico – e passa mal. Surge a ideia de envenená-lo.

Evidentemente, isso não fica barato – Thérèse, com o caso encerrado, volta à cidade, imaginando o que lhe aguarda. E Bernard não poderia ser mais claro:

Il importe, pour la famille, que le monde nous croire unis et qu’à ses yeux je n’aie pas l’air de mettre em doute votre innocence. D’autre part, je veux me garder le mieux possible...

Thérèse torna-se prisioneira na propriedade do marido. A Argelouse... jusqu’à la mort... Ficará isolada de todo tipo de contato social – mas não será a “louca” da família, pois essa pecha pode atrapalhar a filha que, afinal, terá de se casar. Será talvez neurastênica...


O romance mostra então esse casal “harmônico”. Thérèse passa o tempo em absoluto isolamento, recebendo comida no quarto e nada mais lhe restando além de passar os dias fumando. Ao final, muito magra, deprimida, nem mesmo Bernard resiste: acaba por libertá-la, soltando-a nas ruas de Paris...

As imagens são do filme de Georges Franju, com Emmanuele Riva e Philippe Noiret, de 1962. Há uma outra versão, com Audrey Tautou - Thérèse D., de Claude Miller, que deve sair ainda este ano...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Era Pushkin


Eschbach, presidente do Tribunal do Comércio de Estrasburgo, contou para a minha amiga Madeleine C. que, na sua juventude, visitou um velho senhor em Sulz que habitava o castelo local. Este já estava um pouco perturbado e disse, certa vez: Dans ma jeneusse quand j’étais em Russie, j’ai tué quelqu’un en duel. Mais je ne sais plus qui c’était [Na minha juventude, quando estava na Rússia, matei alguém num duelo. Mas não sei mais quem era]

Era Pushkin.

Elias Canetti. Sobre os escritores. José Olympio. Apresentação de Ivo Barroso. Tradução de Kristina Michahelles.

Funes, o Memorioso, de Jorge Luis Borges



Há uns dois dias, saiu uma reportagem sobre pessoas com uma memória infalível. São os chamados “Googles humanos”, que possuem uma síndrome raríssima, chamada Memória Autobiográfica Altamente Superior (HSAM), e não se esquecem de quase nada do que lhes aconteceu na vida.

Lembrei-me de um dos meus contos favoritos de Borges – Funes, o Memorioso – que integra Ficções (1944). No conto da semana, uma memória prodigiosa: Irineu Funes simplesmente se lembrava de tudo:

Ouvi de repente a alta e zombeteira voz de Irineu. Essa voz falava em latim; essa voz (que vinha da treva) articulava com moroso deleite um discurso ou prece ou encantação.

(...)

Irineu começou por enumerar, em latim e espanhol, os casos de memória prodigiosa registrados pela Naturalis Historia: Ciro, rei dos persas, que sabia chamar pelo nome todos os soldados de seus exércitos; Mitridates Eupator, que administrava a justiça nos 22 idiomas de seu império; Simônides, inventor da mnemotécnica; Metrodoro, que professava a arte de repetir com fidelidade o escutado uma única vez.

Nem tudo era simples para ele: era-lhe muito difícil dormir. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas no catre, na sombra, imaginava cada fenda e cada moldura das casas certas que o rodeavam.

Não era um gênio, mas uma excentricidade: sua memória não significava inteligência, e conseguia decorar sem necessariamente entender. Era uma enciclopédia, lembrava-se de uma infinidade de estágios, mas não conseguia raciocinar.

A receosa claridade da madrugada entrou pelo pátio de terra.

Então vi o rosto que toda a noite falara. Irineu tinha dezenove anos, nascera em 1868, pareceu-me monumental como o bronze mais antigo que o Egito, anterior às profecias e pirâmides. Pensei que cada uma de minhas palavras (que cada um de meus gestos) perduraria em sua implacável memória; entorpeceu-me o temor de multiplicar gestos inúteis. 

Irineu Funes morreu em 1889, deu uma congestão pulmonar.


sábado, 26 de novembro de 2011

Willis Carrier, Heroi da Biblioteca




Willis Carrier nasceu em 26 de novembro de 1876. Tornou a vida nos trópicos mais suportável. É considerado o pai do aparelho de ar condicionado moderno (1906). Cada cidade brasileira devia dar a ele uma estátua e, pelo menos, o nome de uma avenida...

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Conto da Semana, de Bertolt Brecht

Medida contra a violência, de Bertolt Brecht. Integra O Melhor do Conto Alemão no Século 20, organizado por Rolf Renner e Marcelo Backes (o tradutor). L&PM.


Certo dia o senhor Keuner, o Pensante, se pronunciava contra a violência num auditório; de repente, percebeu que as pessoas se distanciavam dele e, por fim, se afastavam. Olhou em torno e viu parada atrás de si... a violência.

- O que tu disseste? – perguntou-lhe a violência.

- Eu me pronunciava a favor da violência – respondeu o senhor Keuner.

Quando o senhor Keuner foi embora, seus alunos lhe perguntaram por que dobrara a espinha. O senhor Keuner respondeu:

- Eu não tenho espinha dorsal para vê-la destroçada. Justamente alguém como eu precisa viver mais tempo do que a violência.

E o senhor K contou a seguinte história:

À casa do senhor Egge, aquele que aprendeu a dizer não, chegou certo dia no tempo da ilegalidade, um agente exibindo um certificado expedido em nome daqueles que dominavam a cidade e dizendo que lhe pertencia toda a casa em que pusesse os pés; da mesma forma, pertencia-lhe toda a comida que ele pedisse; da mesma forma, deveria servi-lo todo homem que ele visse.

O agente sentou-se numa cadeira, pediu comida, lavou-se, deitou-se e perguntou, com o rosto virado para a parede, antes de adormecer:

- Tu vais me servir?

O senhor Egge cobriu-o com uma coberta, espantou as moscas em volta dele, vigiou seu sono e, assim como nesse dia, obedeceu ao longo de sete anos. Mas, se fazia tudo pelo agente, uma coisa guardou-se de fazer: dizer uma palavra que fosse. Quando se passaram os sete anos e o agente já engordara de tanto comer, dormir e mandar, o agente acabou morrendo. O senhor Egge enrolou-o em sua coberta deteriorada, arrastou-o para fora da casa, lavou a sala, caiou as paredes, suspirou e enfim respondeu:

- Não.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Joaquin Rodrigo e o Concierto de Aranjuez


 Faria 110 anos hoje, dia 22 de novembro. Cego de nascença, sua obra mais famosa é o Concierto de Aranjuez. Aqui, Paco de Lucia toca o segundo movimento, o Adagio.

domingo, 20 de novembro de 2011

O Ponto de Aldo Manuzio



No princípio do século V, são Jerônimo, tradutor da Bíblia, desenvolveu um sistema conhecido, conhecido como per cola et commata, no qual cada unidade de sentido era marcada com uma letra que sobressaía da margem, como se iniciasse um novo parágrafo. Três séculos mais tarde já se utilizava o punctus tanto para indicar uma pausa dentro da oração quanto para assinalar sua conclusão. Seguindo essas convenções confusas, os autores dificilmente podiam esperar que seu público lesse um texto com o sentido que eles tinham pretendido conferir-lhe.

Até que, em 1566, Aldo Manuzio, o Jovem, neto do grande impressor veneziano a quem devemos a invenção do livro de bolso, defini o ponto em seu manual de pontuação, o Interpungendi ratio. Ali, com seu claro e inequívoco latim, Manuzio descreve pela primeira vez seu papel e seu aspecto definitivos. Ele pensou que estava preparando um manual para tipógrafos; não podia saber que oferecia a nós, futuros leitores, os dons do sentido e da música para toda a literatura posterior: Hemingway e seus staccatos, Beckett e seus recitativos, Proust e seu longo sustenido.

Alberto Manguel, À Mesa com o Chapeleiro Maluco. Traduzido por Josely Vianna Baptista.

sábado, 19 de novembro de 2011

A História Trágica do Doutor Fausto, de Marlowe



FAUSTO

Ouve-mos ler então: “Nos termos seguintes: primeiro, que Fausto haja de ser um espírito em forma e substância; segundo, que Mefistófeles o sirva e esteja às suas ordens; terceiro, que faça e lhe traga tudo quanto deseje; quarto, que se conserve em seus aposentos ou em sua casa, mas invisível; último, que apareça ao dito João Fausto todas as vezes e sob todas as formas e aspectos que este deseje. Eu, João Fausto, de Wertenberg, doutor, dou pelo presente, tanto o corpo como a alma a Lucifer, príncipe do Oriente, e a seu ministro Mefistófeles; e mais lhe concedo, expirado o prazo de 24 anos, e mantidos os artigos acima indicados sem violação, plenos poderes para virem buscar e levar o dito João Fausto, corpo e alma, carne, sangue e bens, para a sua habitação, onde quer que ela seja. Eu, João Fausto (p. 60-61).

Consta que a primeira obra literária a respeito surgiu em meados do século XVI, na Alemanha – Historia von D. Johann Fausten – e que o personagem teria sido um médico em Wittenberg, famosa cidade universitária onde Lutero ensinou.

Em geral, temos mais referências do Fausto de Goethe, mas é de Christopher Marlowe, The Tragical History of Life and Death of Doctor Faust, publicado em 1604. A Editora Hedra, parceira da Biblioteca, publicou este ano a versão traduzida por A. de Oliveira Cabral. Até onde eu sei, o único filme feito a partir de Marlowe é de 1967, dirigido por Richard Burton (e que não vi).



O Fausto de Marlowe, contemporâneo de Shakespeare, assina o pacto com seu sangue, depois de apresentar algumas dúvidas. Passará os próximos 24 anos visitando o Papa, a corte lhe observar/ Na festa de São Pedro tomar parte. Fausto se diverte pregando peças. Visita o Imperador do Sacro Império Romano, a quem apresenta ninguém menos que Alexandre Magno. Outro momento interessante é o da apresentação dos Sete Pecados Mortais.

Mas á medida que o tempo se esvai, volta a se angustiar com o pacto. Pede possuir Helena de Troia – Foi este o rosto que lançou no mar mil barcos. E, quando o Diabo vem cobrar o que lhe é devido (Estás condenado, Fausto. Desespera e morre!/ O Inferno reclama os seus direitos) e pede clemência:

Ah! Fausto,
De vida, uma só hora agora tens,
E então estarás perdido eternamente!
Parai, esferas do Céu sempre moventes,
Cesse o tempo e não chegue a meia-noite

E, à meia-noite:

Soou! Soou! Corpor, desfaz-te em ar,
Ou Lucifer te arrasta para o Inferno...

(Trovões e relâmpagos)

Oh, alma, torna-te em gotinhas de água,
E cai no mar, pra não ser’s mais achada”

(Entram diabos)

Meu Deus! Meu Deus! Não me olheis tão ferozes!...
Cobras, serpentes: que eu respire um pouco!;;;
Fecha-te, Inferno! Lúcifer, não venhas!...
Eu queimo os livros...ah...ah!...Mefistófeles!...

(Saem os diabos com FAUSTO).

O Fausto de Marlowe não tem a sorte do Fausto de Goethe, que acaba tendo sua alma salva.

Um Fausto sem Sorte


De Orlando van Bredan (Argentina, 1952) e traduzido por mim mesmo...

Fausto Salinas, como o Fausto eterno, decidiu pactuar com o diabo.

- Entrego-te minha alma – propôs – em troca de que todas as mulheres queiram me ter em seus braços.

- Isso é tudo? – perguntou Lúcifer.

- Isso é tudo – confirmou Fausto Salinas, antes, pouco antes do Rei das Trevas o transformar em um bebê, um belíssimo bebê de sorriso irresistível.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Pequena Fábula, de Kafka



Pequena Fábula, de um dos heróis da Biblioteca, na tradução de Modesto Carone. O desenho acima é do americano Peter Kuper, em Desista!, HQ baseada na obra de Kafka e publicada pela Editora Conrad:

- Ah - disse o rato - o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.

- Você só precisa mudar de direção - disse o gato -e devorou-o.

Cinco filmes sobre a Primeira Guerra


Em 11 de novembro de 1918, terminou a Primeira Guerra.

Aqui meus cinco filmes favoritos sobre o evento (em ordem cronológica):

Nada de Novo no Front – 1930. EUA. Dirigido por Lewis Milestone. Baseado na obra de Remarque e considerado por muitos o maior filme antiguerra de todos os tempos.

A Grande Ilusão – 1937. França, de Jean Renoir. Com Jean Gabin (tenente Maréchal), Pierre Fresnai (oficial Boeldieu) e Erich Von Stroheim (no papel de Von Rauffenstein). Soldados franceses capturados são tratados com dignidade pelo exército alemão. Os oficiais Boeldieu e Rauffenstein, apesar de inimigos, lamentam a perda de um certo código, de valores aristocráticos, pertencentes a uma civilização que sabem que está prestes a desaparecer (o alemão diz: independente do resultado desta guerra, é o nosso fim...).

Glória Feita de Sangue – 1957. EUA, dirigido por Stanley Kubrick e com Kirk Douglas como o coronel Dax, que irá interceder por seus soldados submetidos à corte marcial por não terem obedecido às ordens para um ataque suicida dada pelo medíocre general Mireau (George Meeker), na fase da “guerra das trincheiras” no front francês. Na última cena, os franceses põem uma alemã capturada para cantar – eles começam zombando da moça, mas aos poucos vão ficando emocionados e introspectivos, à medida em que ela canta. Kubrick casou-se com a atriz.

Lawrence da Arábia – 1962. Inglaterra, dirigido por David Lean, com Peter O’Toole (este é o seu filme...), Omar Sharif, Alec Guinness, Anthony Quinn; trilha sonora de Maurice Jarre (inesquecível, como aliás o filme). Tive o prazer de vê-lo no cinema, em 1992, numa sessão em Copacabana comemorando o 30º aniversário da produção. Talvez por isso, dos cinco, o meu favorito.

Gallipoli – 1981. Australia, dirigido por Peter Weir e com Mel Gibson, talvez em seu melhor filme. Na trilha sonora, o filho de Maurice, Jean-Michel Jarre (Oxygène) e Albioni e seu famoso Adagio.

Qual a sua opinião? Algum outro favorito?

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Dr. Livingstone, I presume


10 de novembro de 1871:




We push on rapidly. We halt a little brook, then ascend the long slope of a naked ridge, the very last of the mytiads we have crossed. We arrive at the summit, travel across, and arrive at its western rim, and Ujiji is bellow us, embowered in the palms, only five hundred yards from us! At this grand moment we do not think of the hundreds of miles we had marched, of the hundreds of hills that we have ascended and descended, of the many forests we have traversed, of the jungles and thickets that annoyed us, of the fervid salt plains that blistered our feet, of the hot suns that scorched us, nor the dangers and difficulties now happily summoned. Our hearts and our feelings are with our eyes, as we peer into the palms and try to make out in which hut or house lives the white man with the gray beard we heard about on the Malagarazi.

white man with the gray beard é Livingstone; o autor do texto, Henry Stanley.



domingo, 6 de novembro de 2011

A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar



Difícil de tentar resumir o enredo sem estragar o filme. 

Antonio Banderas interpreta, pela primeira vez em muitos anos, um personagem que não o próprio Antonio Banderas, o brilhante médico Ledgard. 

Há uma mulher misteriosa (Elena Anaya), que vive encarcerada em sua residência e laboratório, vigiada pela governanta (Marisa Paredes). Como ela parou lá; o que ele faz – tudo começa a ser explicado a partir da metade do filme.

Surpreendente... há ainda a mulher de Ledgard, que morre vítima de queimaduras; a filha Sofia, que conhece Vicente num casamento. Algo de Frankenstein com um plano de vingança levado às últimas conseqüências, nos mínimos detalhes, que acaba sendo descoberto  no final... Almodóvar, polêmico como sempre, num filme que me parece muito diferente de seus anteriores - ao menos dos últimos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Conto da semana - O Sanatório de Bruno Schulz



Klepsydra. O sanatório situa-se no fundo do vale, do outro lado de uma passarela com corrimão instável feito de galhos de bétula. Trata-se de uma grande edificação em forma de ferradura, dirigida pelo dr. Gotard, descobridor da reversão do tempo. Graças a essa singular descoberta, tudo na clínica está levemente atrasado e, em consequência, pacientes que acreditamos terem morrido em outro lugar ainda estão vivos quando chegam. No entanto não se podem erradicar totalmente suas mortes, que deixam certos traços em suas existência (...) Tudo o que se pode dizer com certeza é que o passado foi reativado e que há, portanto, uma possibilidade de recuperação.

Essa descrição do Sanatório está no incrível Dicionário de Lugares Imaginários, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi.

Achei essa edição (Editora Imago, 1994, tradução de Henryk Siewerski), que acreditava esgotada, na Livraria da Travessa no Rio, há menos de um mês. Creio que posso dizer que, agora, tenho suas obras completas - já tinha, da mesma editora, Lojas de Canela

O dr. Gotard tenta explicar a José, o narrador, como as coisas funcionam:

- Todo o nosso truque – acrescentou, disposto a demonstrar seu mecanismo nos dedos já devidamente preparados – é atrasar o relógio. Aqui estamos sempre atrasados no tempo um certo intervalo, cuja amplitude é impossível definir. A questão se reduz a um simples relativismo. Aqui a morte do seu pai, a mesma que já ocorreu na sua pátria, ainda não o alcançou (p. 161).

As pessoas lá passam a maior parte dormindo; lá não funciona a linha do tempo, totalmente fragmentada. Um lugar imune ao tempo. Ao final, um exército estrangeiro invade a cidade. José deixa o Sanatório, aliviado – é sorte que no fundo meu pai já não esteja mais vivo, que, na verdade, isto já não o atinja – penso aliviado, e vejo na minha frente uma fila de vagões prontos para partir (p. 183).

Bruno Schulz, o autor do conto da semana, nasceu em Drohobycz, atualmente na Polônia mas, à época (1892), um pedaço do Império Austro-Húngaro. Seus contos são, como ele próprio admitia, um “romance autobiográfico”. Seu pai, Jacob, era comerciante e possuía uma loja de tecidos, e é evidente a sua presença nos contos que chegaram até nós.

Sempre comparado a Kafka, traduziu seu O Processo para o polonês em 1936. No livro Entre Nós (Companhia das Letras, 2008, tradução de Paulo Henriques Britto), Philip Roth entrevista Isaac Bashevis Singer, que afirma:

Saí da Polônia em 1935. Na época, Schulz não era bem conhecido – e se era conhecido, eu não sabia nada sobre ele. Nunca tinha ouvido falar nele. A minha primeira impressão foi: este homem escreve parecido com Kafka. Há dois escritores que, segundo se diz, escrevem como Kafka. Um deles era Agnon (...) Mas quanto mais eu lia Schulz – talvez eu não devesse dizer isto – eu dizia: ele é melhor do que Kafka. Alguns de seus contos têm mais força. Além disso, ele é muito forte no absurdo, mas não de maneira ingênua, e sim inteligente. Eu diria que entre Schulz e Kafka existe uma coisa que Goethe chama de Wahlverwandtschaft, uma afinidade de almas que a própria pessoa escolhe. Pode ter sido isso que ocorreu com Schulz (...). 

No último conto da edição – A Última Fuga do meu Pai – o (único) personagem de todos os textos de Schulz transforma-se num caranguejo – ou um grande escorpião, considera o narrador – e é imediata a lembrança d’A Metamorfose...

Além de escritor, era desenhista - a edição que tenho traz dois desenhos, inclusive um autorretrato.


No inverno de 1942, foi morto com um tiro na cabeça, no meio da rua, por um oficial alemão. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A Página Assombrada por Fantasmas, de Antônio Xerxenesky


Editora: Rocco
Ano: 2011
128 páginas


Em geral coloco o livro que estou lendo nos cantos do blog, mas li essa coletânea de nove contos em algumas horas; sequer deu tempo... 

São contos – como o do último post, o conto da semana passada – curtos, sempre jogando com a própria literatura. No conto escolhido para o título, a presença de Borges assombra uma Buenos Aires que parece pairar sobre uma outra, moderna e infestada de turistas. Ou o detetive especializado em localizar escritores reclusos e que, numa viagem a São Petersburgo (onde mais?) descobre um complô envolvendo Thomas Pynchon e... Ana Kournikova!

São contos em certo sentido bastante pessoais; o autor consegue com indiscutível sucesso colocar seus autores e livros favoritos como os principais personagens. Pode-se torcer para que ocorra a Xerxenesky aquilo que ele mesmo descreve de seu personagem:

Charles Mankuviac. Brasileiro, apesar do nome. Um escritor contemporâneo de grande repercussão mundial, apesar de brasileiro.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Sequestrando Cervantes, de Antônio Xerxenesky



Em A Página Assombrada por Fantasmas (Editora Rocco, 2011), Antônio Xerxenesky (n. 1984) apresenta nove contos, quase todos passados no futuro. Neles, o autor se vale das leituras que fez – Vila-Matas, Pynchon, Cervantes - para criar situações na fronteira entre ficção e realidade. Na verdade, essas leituras são os principais personagens de seus contos. Neste sentido, é impossível não lembrar imediatamente de Enrique Vila-Matas...

Em Sequestrando Cervantes, o conto da semana, Xerxenesky mostra um mundo em 2085, no Reino Unido, sob domínio de um “partido ceticista”. Um mundo em que é raro encontrar folhas de papel, os livros “analógicos” ou mesmo especialistas em literatura.

O novo regime se propõe a alterar os livros – no caso, Dom Quixote; os livros de cavalaria de sua biblioteca seriam substituídos por tratados científicos. Também as coisas seriam invertidas, e Sancho veria os gigantes, sendo repreendido por Quixote (aliás, Alonso Quijano). Um complô contra os livros, liderados pelo governo, que o narrador parece descobrir ao abrir uma pasta esquecida num café.

Na pasta, papeis – coisa rara. O governo continuava usando este suporte porque papel se tornou muito mais seguro do que texto digitalizado. E descobre, ao ler o calhamaço de 500 páginas, o plano da alteração literária progressiva: reescrevendo o romance, ao longo do tempo, ninguém notaria e a memória coletiva se esqueceria dos detalhes. Logo Quixote não seria mais louco, mas míope; velho demais para a época, havia desgastado sua visão com o excesso de leituras.

Algo tem que ser feito, mas o quê? O narrador reconhece que nada lhe resta a não ser contar essa história – a história do fim.