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Mostrando postagens com o rótulo Literatura: Estados Unidos

Complô contra a América

A minissérie em seis episódios dirigida por David Simon e que passou em abril na HBO é simplesmente a melhor adaptação de um livro de Philip Roth. Sua obra, de fato, não vinha sendo muito bem tratada pelo cinema. A adaptação de um de seus melhores livros,  A marca humana (The Human Stain)  foi decepcionante (Anthony Hopkins não convence como Coleman Silk).  A série faz algumas alterações em relação ao livro. A única que, para mim, não se justifica, é a substituição da família Roth pelos Levins... afinal, o Philip é um Philip Roth... Outras, no entanto, conseguem soluções até melhores: Roth imaginou que, após o desaparecimento de Lindbergh, os americanos votariam convictamente nos democratas. Mas no último episódio há, digamos, uma necessidade de se garantir essa vitória... Como no livro, temos personagens deslumbrados com um falso acesso ao poder, outros com medo de uma repetição, na América, do que acontecia na Europa, fora aqueles crentes em tudo o preside...

Floresta escura, de Nicole Krauss

Floresta escura Nicole Krauss Tradução de Sara Grünhagen Companhia das Letras, 2018 304 páginas Nesse ínterim, o caso por fim seria decidido pelo Supremo Tribunal, e se Eva Hoffe perdesse, o que era quase certo, os arquivos ocultos de Kafka seriam entregues ao Estado de Israel, e sua falsa morte e a viagem secreta para a Palestina, reveladas ao mundo. Será que Friedman queria se adiantar à história para controlar como ela seria escrita? Moldar, pela ficção, a morte de Kafka em Israel, como Brod tinha moldado a história canônica de sua vida e morte na Europa? Há alguns anos, atraído pelo fato de o filme ser dirigido por Radu Mihaileanu ( O Concerto, Trem da Vida e A Fonte das Mulheres ), assisti a A História do Amor. Só ao final me dei conta de que se tratava da adaptação do romance homônimo da escritora americana Nicole Krauss.  Acabo de ler ao último romance da autora, Floresta Escura. Dois personagens principais - Jules Epstein, um velho e rico advogado (n...

Philip Roth (1933-2018)

Meses depois de  Aharon Appelfeld , a quem entrevistou, morreu no último dia 22 o maior de todos, Philip Roth.  Ironicamente, não haverá Nobel de Literatura este ano. A Academia, que tanto esnobou o autor de Pastoral Americana, Operação Shylock e Complexo de Portnoy , está envolvida em escândalos sexuais. Outra ironia: muitos detratores de Roth se incomodavam com seus textos e o chamavam de misógino, machista, sexista... enfim, uma besteira que diz muito mais a respeito da Academia do que de Roth.  Como escrevi quando comentei a biografia de Roth ( Roth Libertado , de Claudia Pierpoint Roth), "Claire Bloom, por exemplo, ao se separar do escritor, lançou um livro de memórias que definitivamente consolidou uma percepção não muito favorável da pessoa de Roth no grande público.  Pode explicar, por exemplo, a recusa da Academia em conceder-lhe o Nobel. Em tempos politicamente corretos, não parece muito provável a premiação de um americano acusado de misogin...

Lincoln in the Bardo, de George Saunders

O último livro que li em 2017 foi o vencedor do Man Booker Prize do ano. Lincoln in the Bardo , de George Saunders, será lançado no início de 2018 pela Companhia das Letras, e recebeu críticas entusiasmadas na imprensa americana. Talvez por ter lido no Kindle, demorei algumas páginas para entrar no espírito da obra, estranhando um pouco a formatação. Mas valeu a pena. Uma obra estranha, sem dúvida, de um experimentalismo pouco usual. Em determinados momentos, uma colagem (que faz sentido) com notas de diários, livros e periódicos do período; em outros, monólogos e diálogos entre fantasmas. Logo na abertura, um monólogo de um certo Hans Vollman, que conta que tinha 46 anos no dia de seu casamento com uma jovem de 18 e que, ciente de todas as circunstâncias, não forçou sua noiva a nada, apenas propondo-lhe sua amizade. Com o passar do tempo, essa amizade se tornou em verdadeiro amor e, quando Hans e a esposa finalmente iriam "expandir as fronteiras de sua feli...

O complexo de Portnoy, de Philip Roth

Este blog nasceu em 2011, quando Philip Roth já havia pendurado a caneta. De minha parte, comecei a ler sua obra a partir de 2000, com Operação Shylock (1993). Este ano, numa homenagem privada, depois do papelão sueco, resolvi ler aquele que, para muitos, é o seu melhor livro: O complexo de Portnoy, de 1969. Escrito no auge da revolução sexual, é para mim um dos livros mais divertidos e engraçados que conheço. Há, sim, algo de Woody Allen na história de Alexander Portnoy, que narra sua vida, suas neuroses e suas frustrações ao psicanalista (que nada fala), o dr. Spielvogel. A mãe judia, o pai que trabalhava numa corretora de seguros (como, aliás, o pai de PR), a irmã obesa. A namorada culta não é boa de cama; a namorada liberada é simplesmente "inapresentável" intelectualmente - o que me lembra uma versão muito mais divertida de Cabeças Trocadas e Thomas Mann. E seu ataque frustrado a uma jovem do exército israelense... aliás, Roth é criticado com frequência pelas ...

Bellow e Roth

Às vésperas do anúncio do Nobel de Literatura de 2016, um excelente texto de Isabel Lucas, no caderno Ipsilon, que pode ser lido aqui. Um trecho:   Philip Roth e Saul Bellow conheceram-se em Chicago em 1956. Roth era estudante na Universidade de Chicago, e Bellow "um dos seus entusiasmos literários", como o definiu em  Os Factos. Foi em Chicago que leu  Augie March  e viu um exemplo do génio de Bellow, para ele “o grande libertador do tradicional confinamento da literatura judaica”, lê-se em Roth Unbound . Entre outras coisas, foi também evidente que “a experiência judaica podia ser parte da literatura americana”. Zachary Leader, autor da biografia  The Life of Saul Bellow , cuja primeira parte foi publicada em 2015 (sem tradução em Portugal), referiu agora ao PÚBLICO que para Bellow era claro que como escritor “estava em melhor posição enquanto judeu na América do que um judeu na Europa”. Porquê esta afirmação? “Apesar dos alertas e das ...

O Messias de Estocolmo, de Cynthia Ozick

Se você é leitor de Schulz - e lê em inglês, francês ou italiano - não perca a oportunidade. E torça para que o livro seja publicado no Brasil - com sorte, Ozick, que está sempre nas listas para o Nobel, aparece por aqui. Curiosamente, em 1987, um certo Alex Schulz se declarou primo de Bruno, e disse a Jerzy Ficowski (biógrafo do escritor) que um homem de Lwów, provavelmente um diplomata ou um agente da KGB, lhe teria oferecido um pacote de cerca de dois quilos, contendo manuscritos e desenhos do autor. Ficowski concordou em verificar a autenticidade do material; meses depois, Alex morreu e Fixowski perdeu a oportunidade de travar qualquer contato com o misterioso homem de Lwow. Anos depois, encontrou o embaixador sueco em Varsóvia, que disse um pacote contendo o romance  O messias  estaria escondido nos arquivos da KGB; o embaixador teria sabido disso por meio de um russo e pediu a Ficowski que o acompanhasse na Ucrânia para procurar pelo pacote, mas recebeu duas negativ...

Stoner, de John Williams

                                         Resgatado do ostracismo de mais de 50 anos por uma turma da pesada (Julian Barnes e Philip Roth, entre outros), John Williams (1922-1994) e seu Stoner chegaram ao Brasil no ano passado. Publicado em 1965, conta a vida de um professor de literatura da Universidade do Missouri na primeira metade do século XX. Uma vida sem glamour, sem fama ou reconhecimento - como a do próprio autor, diga-se. William (Bill) Stoner é quase insuportavelmente triste - oriundo de uma família pobre de agricultores, ingressa na Universidade, onde acaba se dedicando à Literatura (para desgosto dos pais, que queriam vê-lo estudando algo ligado à terra), torna-se professor. Foge da convocação para a Primeira Guerra, seu casamento com Edith é um fracasso desastroso. A filha do casal é criada quase que exclusivamente por Bill.  Tem apenas dois amigos...