sexta-feira, 12 de maio de 2017

Odisseia

Quantas Odisséias contém a Odisséia? - pergunta Ítalo Calvino (Por que ler os clássicos, Companhia das Letras).

Acabo de ler a tradução de Frederico Lourenço da Odisséia (Companhia das Letras/Penguin). Minha versão da Ilíada é a de Odorico Mendes, o que praticamente faz com que tenha lido dois livros de dois autores diferentes. Lourenço estará em Paraty para a FLIP deste ano. 

Manguel fala que os ingleses têm a sorte de dispor de duas grandes versões: a de Alexander Pope e a de Robert Fagles, ainda que reconheça a existência de numerosos desastres. E, em se tratando de um texto (?) em grego antigo, mais do que nunca é possível dizer que não lemos Homero, mas traduções de Homero. Aliás, se você estiver disposto a uma leitura, digamos, bastante completa dos dois clássicos, o livro de Manguel, publicado no Brasil pela Zahar - Ilíada e Odisséia de Homero: uma biografia - é uma excelente introdução ao mundo homérico: dificilmente você irá encontrar livro em português tão completo e tão acessível.

Ler a Odisséia foi voltar a histórias que conhecemos desde sempre - os Cíclopes, as sereias, Circe e outros seres mitológicos que, muito antes de desgastados pelo cinema (tem de tudo; de grandes filmes a grandes besteiras), conhecia de adaptações infantis como as de Ruth Rocha.




Que a leitura me anime a, finalmente, tentar (nunca sequer tentei) a leitura do Ulisses, de James Joyce. Está chegando o Bloomsday (16 de junho), dia mundial de prometer (e não cumprir) ler a saga de Leopold Bloom. Afinal, lá em Dublin vive uma prima distante das sereias, uma garçonete que canta as virtudes da cerveja Guinness...

sábado, 8 de abril de 2017

O nó górdio de Frederico Lourenço

Neste artigo de José Pacheco Pereira, no Público, um elogio a Frederico Lourenço, tradutor da edição da Odisséia da Companhia das Letras/Penguin, e que acaba de receber o Prêmio Pessoa. E um lamento pela decadência da cultura clássica na Europa (ainda que Churchill já tivesse percebido isso há mais de cinquenta anos):

O prémio a Frederico Lourenço, no entanto, não nos deve iludir. O mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos presente no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico, e, embora nunca se soubesse muito comparado com os países da Reforma, também cada vez menos se sabe sobre a Bíblia. Não nos devemos iludir quanto ao valor que a escola, a universidade, a sociedade, a comunicação – já para não falar das chamadas “redes sociais” – e a política hoje dão às humanidades e aos estudos clássicos. Esse valor é quase nulo. Pelo contrário, é entendido como um conhecimento inútil, que justifica o corte de financiamentos, a colocação no último lugar da fila, quando não da extinção curricular, das disciplinas do Latim e do Grego, que conseguem ficar atrás da Filosofia. E não é só este cerco às humanidades clássicas — em bom rigor a todas as humanidades — é a sua desvalorização pública implícita em muito documento, declaração política, e em acto.O 

sábado, 1 de abril de 2017

Os livros de 2017

De acordo com esta matéria, estes serão os 431 livros lançados em 2017. Quais você está esperando?

Stork Mountain, de Miroslav Penkov

Resultado de imagem para miroslav penkov stork mountain

Autor do excelente livro de contos East of the West, o búlgaro Miroslav Penkov (1982) lançou em 2016 o romance Stork Mountain, que consegui ler pelo Kindle. 

Um jovem búlgaro que emigrou com sua família para os EUA retorna ao seu país, para reencontrar seu estranho avô, na região de Strandja, na região do Mar Negro, próxima à fronteira com a Turquia. (Observação: o autor, nascido em 1982, foi para os EUA em 1991, dois anos após a queda do regime comunista no país).

O jovem, apesar de bastante popular na escola, se considera um estranho, um estudante fracassado e sem dinheiro na América. Decide então obter algum dinheiro vendendo sua parte das terras da família. O avô, no entanto, já vendeu tudo para um projeto de parque eólico - o que ameaça a existência das cegonhas (storks) do local - uma ave migratória. Associadas a bebês, essas cegonhas despejam mistérios e segredos. Como o avô acabou parando por ali? Os comunistas chegaram ao poder em 1944 e confiscaram propriedades; o avô era professor e acabou sendo não apenas perdeu tudo como foi mandado para esse "fim de mundo" - por sorte, escapou de ir a um campo de trabalho.

As montanhas Strandja também são altamente simbólicas: nelas estão presentes búlgaros, turcos e gregos; cristãos e muçulmanos, e suas histórias e lendas. Somos apresentados aos nestinari, dançarinos do fogo que, segundo a tradição, realizam rituais de purificação. Os otomanos dominaram essas terras por séculos e, hoje, os muçulmanos são sempre vistos com desconfiança. O narrador chega à região e, mesmo inicialmente resistindo à ideia, acaba se envolvendo com a complexa história da região e seus moradores - como Elif, a filha do iman local.

Momentos particular e pessoalmente interessantes são os que descrevem a vida dos turcos na Bulgária - as mudanças de nome impostas aos turcos, que foram obrigados a se eslavizar. Foram os "processos de renascimento", que buscavam a assimilação e que tiveram seu auge nos anos 80. Curiosamente, também no século passado, na República proclamada após o fim do Império Otomano, muitos tiveram que islamizar seus nomes. Penkov também traz breves passagens sobre antigos sultões que passaram pela região. 

Resultado de imagem para miroslav penkov stork mountain

Como o próprio Penkov afirma nesta entrevista, a região de Strajda é, ela própria, um nestinari: por mais de mil anos, atravessa o fogo, é reduzida a cinzas e em seguida renasce.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Ilusões Perdidas, de Balzac

Balzac, Stendhal e Flaubert dominaram o romance francês no século XIX.

Se você nunca leu nada de Balzac, arrisque-se com Ilusões Perdidas, um livro gigantesco, se considerarmos que as quase 800 páginas (estou novamente na coleção organizada por Paulo Rónai, agora na tradução de Ernesto Pelanda e Mario Quintana) da história têm uma "segunda parte", as mais de 600 de Esplendores e misérias das cortesãs. Se você pensa em ser um escritor, ou já o é, além de uma aula de como construir tramas, como expor suas ideias e, principalmente, como criar personagens, irá se deparar com uma visão bastante cruel e precisa do meio literário e jornalístico:

A vida literária tem também seus bastidores. Os êxitos roubados ou merecidos, eis o que a plateia aplaude; os meios, sempre repugnantes, os comparsas degradantes, a claque e os encarregados da maquinaria, eis o que os cenários escondem. 

Não é difícil perceber que o jornalismo e os jornais não são levados em muito alta consideração por Balzac. Ele, por sua vez, escreveu este romance às voltas de dívidas (uma constante em sua vida, diga-se)

Balzac inicia o romance com a vida na pacata Angoulême. Lucien de Rubempré é um personagem como pouquíssimos: um alpinista social (abandona o Chardon paterno de um simples boticário para o aristocrático "de Rubempré") que tenta conquistar Paris; um sonhador que anseia pelo sucesso como poeta. David Séchard é seu grande amigo e toca a tipografia do velho pai, além de se casar com Eve, irmã de Lucien, talvez seja o maior personagem criado por Balzac. Um talento provinciano tragado pelas intrigas da capital. 

Lucien de Rubempré é talvez o personagem mais conhecido de Balzac, entre as centenas que ele criou e que aparecem em diversas obras da Comédia Humana. Somos apresentados a ele, um personagem leitor. Passa horas na biblioteca, lendo poesia e prosa - incluindo Walter Scott, então na moda. Quer compensar sua origem humilde. A senhora de Bargeton lhe abre as portas da aristocracia da província, e ele, por sua vez, apesar de rejeitado pelos demais, consegue engrenar uma relação com sua amante que o permite se mudar para Paris.

A segunda parte é a maior e mais importante: é aqui que se inicia a aproximação de Lucien com a senhora de Bargeton em Paris, mas ele acaba por ela rechaçado. Faltam-lhe refinamento e riqueza para ser aceito pela sociedade - e a senhora de Bargeton é constantemente alertada dessa questão pelos seus próprios amigos e admiradores; mas Lucien acredita em seu próprio talento. Coralie, uma atriz de 19 anos, é sua amante. 

Balzac merece ser lido pelos advogados. Aqui, como em Madame Bovary de Flaubert, surge um personagem fundamental para o desfecho da história: a nota promissória. Lucien consegue de David algumas, para se sustentar em Paris - chega, inclusive, a falsificar a assinatura do amigo e cunhado. 

É a ruína (de ambos).

A terceira parte mostra um arrasado Lucien de volta a Angoulême, ao mesmo tempo em que a tipografia de David, endividado até o pescoço, está arruinada. Apesar de ter desenvolvido um papel de melhor qualidade e mais barato, foi sabotado por seu empregado, Cérizet. No final, consegue um acordo, salva-se e vai viver, com Eva, no campo. Mas para Lucien, a situação é bastante complicada: decidido ao suicídio, acaba encontrando um obscuro padre espanhol.

O que acontece a partir daí? É hora de encarar as 600 páginas de Esplendores e misérias das cortesãs, volume 9 da coleção. A propósito, é o último editado pela Globo. Há anos esperamos os demais volumes (são 17 ao todo). O que terá acontecido com o projeto, em meio a todas as crises dos últimos tempos?

Balzac é uma forma de entender o século XIX: o espírito industrial, o crescente poder comercial da burguesia, a aristocracia ainda sonhando com a volta do Antigo Regime, os provincianos chegando a Paris com suas ilusões, as frustrações da vida, arte e literatura, jornalismo, advocacia... E Ilusões Perdidas um dos grandes romances da história.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O mapa da Ilíada

File:Homeric Greece-en.svg

O mapa aqui indica o local de origem dos personagens da Ilíada, por volta de 1.300 anos antes de Cristo. Uma boa companhia para a leitura. Minha edição é a tradução do Odorico Mendes, pela Ateliê. A Odisséia virá pela Companhia das letras/Penguim, e pretendo ler ainda este ano.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Doutor Fausto, de Thomas Mann

Resultado de imagem para thomas mann doutor fausto

É o primeiro posto deste blog sobre Thomas Mann. Dele já li Os Buddenbrook, As confissões do impostor Felix Krull, Morte em Veneza e José e seus Irmãos. Mann não é um escritor "fácil", e nesta visita ao mito do Fausto, o leitor encontrará longas discussões sobre arte, teologia, teoria musical, filosofia, entre outros aspectos. Mas isso não deve intimidá-lo; pelo contrário: à medida em que se avança, a narrativa vai se tornando mais dinâmica - como nos demais romances do autor. 

A ideia de Fausto já havia sido objeto do romance Mephisto, de Klaus Mann, seu irmão. Publicado em 1936, já sob o regime nazista e antes do início da Segunda Guerra, tinha como foco o ator de teatro Hendrik Höfgen, baseado em seu ex-genro Gustav Gründgens. O nazismo é parte integrante do enredo deste romance, do qual me lembro mais da adaptação ao cinema por István Szábo, com o grande Klaus Maria Brandauer no papel-título, do que do livro propriamente dito.

Thomas, na verdade, é um ex-nacionalista convertido (apoiou o kaiser na Primeira Guerra e brigou com Klaus, que se alinhou à França) e, anos depois do irmão, escreve sobre a vida de sua genial criação, o compositor Adrian Leverkhün, narrada pelo seu amigo Serenus Zeitblom. Zeitblom escreve já numa Alemanha destroçada e invadida por ingleses, americanos e soviéticos. A cada capítulo, o narrador amaldiçoa o destino escolhido pelos seus compatriotas, ao mesmo tempo em que se recorda da vida do amigo.

Há, como tão ao gosto de Thomas Mann, um "episódio italiano", justamente quando Ele se apresenta e firma o pacto com Adrian. O Diabo já conhece muito bem seu cliente, e não joga para perder. Pede-lhe a alma em troca de glória por vinte e quatro anos. A "conversa", narrada pelo próprio Adrian, é o ponto alto da história. O Diabo impõe-lhe uma condição - jamais poderá amar alguém - e de novo aquela história da relação entre o Artista e a Solidão aparece. Essa, digamos, cláusula, será devidamente exigida pelo Tinhoso, já no final da história, em outro grande momento do romance - Nepomuk recebe todo o amor e carinho de Adrian, no entanto...

A edição da Companhia das Letras tem a tradução de Herbert Caro, um dos grandes nomes da cultura européia que vieram ao Brasil entre os anos 30 e 40, juntamente com Paulo Rónai, Carpeaux, entre outros. Sim, o Brasil deu essa sorte. Minha próxima aventura será a tentativa de ler a sua versão de A Montanha Mágica, também pela Cia. das Letras (minha antiga edição portuguesa não me foi muito atrativa).

Carpeaux: no seu romance épico Doktor Faustus, a carreira artística do grande compositor Leverkuehn coincide com a história política da Alemanha durante os últimos decênios: os dois grandes temas, a política e a música, estão ligados através de uma nova técnica novelística na qual 'tudo alude a tudo': tudo é realidade e tudo é símbolo; um fato real de significação simbólica, a tentação da Alemanha e do artista pelo Demônio, dá à obra a dimensão metafísica e transcedental. O estilo é, outra vez, complexo à maneira do estilo da velhice de Goethe, mas iluminado por todas as luzes da ironia.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O fim do homem soviético, de Svetlana Aleksiévitch

Comecei a ler O fim do homem soviético, da jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch ganhadora do Nobel de Literatura de 2015, nos últimos dias de 2016, coincidentemente após ler uma reportagem sobre um reality da TV russa em que os participantes poderão ir às últimas consequências: estuprar, matar, ser devorados por lobos famintos - uma versão real de um filme de bastante sucesso nos últimos anos.

Formado por depoimentos e entrevistas, estamos diante de um imenso mosaico, tão diverso quanto o próprio país que busca retratar. Idosos, stalinistas, jovens executivos, ex-prisioneiros saudosos do Socialismo, jovens que se adaptaram aos novos tempos, jovens que se desgraçaram (ainda mais) com o capitalismo, russos, asiáticos, caucasianos...

Gorbachev é visto ou como um traidor ou como um fraco. Mesmo os que o apoiaram e realmente queriam se livrar dos comunistas votam pela última opção. Yeltsin não é visto com olhos mais simpáticos, até porque foi sob seu governo (ou desgoverno, dependendo da avaliação) que o dinheiro que comprava um carro dava para comprar um pãozinho. E Pútin é aquele que poderia trazer de volta um passado glorioso.

A primeira coisa a chamar a atenção: como lêem os russos - e como liam os soviéticos. O que, claro, não os tornou sábios ou mais eficientes ou felizes, mas não deixa de ser impressionante. O sujeito não tinha nada, morava mal, comia pouco, congelava no inverno - mas tinha uma prateleira com Tólstoi, Dostoievski e outros não suprimidos pelo regime (e, por vezes, um dos proscritos através de samizdat.

Os relatos e depoimentos das vidas e desgraças dos entrevistados não devem causar surpresa a ninguém que conheça um mínimo da história da antiga União Soviética e do stalinismo (Soljenitzine, Chálamov etc), mas é evidente em muitas vozes uma nostalgia - até na desgraça. O entrevistado nasceu soviético, acreditava no Comunismo, foi preso e deportado, odiava o Stalin, mas... não tem lugar no mundo que surgiu após 1991. Talvez um paralelo interessante seja comparar essa mudança com o fim da civilização dos Habsburgos ou dos otomanos, no final da Primeira Guerra, ou com o fim da vida judaica do leste europeu com o nazismo. Em um dos meus documentários favoritos - Adeus, Camaradas, de Nekrasov, o diretor tenta explicar à filha como eles conseguiam acreditar - sinceramente - no regime.

Mas talvez o mais impressionante sejam os relatos do período pós-1991: jovens suicidas, a guerra na Chechênia e no Cáucaso, com destaque à questão de Nagorno-Karabach, entre Armênia e Azerbaijão, pessoas das antigas repúblicas soviéticas que se viam, agora, estrangeiras e indesejáveis. E os detestáveis novos-ricos (novos-bilionários, melhor seria). 

Numa das entrevistas, a revelação da existência de agências de turismo com pacotes, digamos, exóticos: uma competição entre casais (ela de prostituta, ele de cafetão; quem conseguir mais dinheiro nas ruas vence o jogo), uma caça ao mendigo (que recebe uma grana considerável: se sobreviver, "é o destino, fica com o dinheiro", enquanto os participantes se esforçam para matá-lo e, assim, ganhar a competição).

Talvez por isso, como afirma a autora:

Há um novo apelo pela União Soviética. Pelo culto a Stálin. Metade dos jovens de dezenove a trinta anos considera Stálin 'um grande político'. Num país em que Stálin aniquilou mais pessoas do que Hitler, um novo culto a Stálin?! (...) Ideias antiquadas estão de volta: do Grande Império, da 'mão de ferro', do 'caminho peculiar da Rússia'... Restituíram o hino soviético, existe um Komsomol, só que ele se chama Náchi, existe um partido no poder, que copia o partido comunista. O presidente tem o mesmo poder que o secretário-geral. Absoluto. Em vez do marxismo-leninismo, a Igreja ortodoxa...

O tal reality da TV russa é tão novidade na vida dos russos de hoje como o culto a Stálin.