sexta-feira, 14 de julho de 2017

O caso Mersault, de Kamel Daoud


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O caso Mersault
Kamel Daoud
Biblioteca Azul
Tradução de Bernardo Ajzemberg
168 p.


Hoje mamãe ainda está viva.

À primeira vista, tinha tudo para ser um desastre - uma "desconstrução literária", uma revanche contra a antiga metrópole ou outra linha panfletária semelhante - mas esse O caso Mersault, que deu ao autor, Kamel Daoud, o Goncourt de melhor romance de estreia, é realmente um grande livro. 

Harun, o narrador, conta sua história a um francês que tem, consigo, um volume d'O estrangeiro de Camus e está investigando o passado de Patrice Mersault, o apático narrador (um dos mais famosos personagens da literatura francesa do século passado) que é indiferente à própria mãe e matou um árabe na praia. Ele é condenado não por ter matado o árabe, mas por ter sido indiferente à mãe, inclusive no seu enterro. 

Pois Harun é, exatamente, o irmão do anônimo assassinado na praia, às duas horas da tarde de um dia de verão. Camus sempre trata o árabe como O Árabe, nunca pelo seu nome - que, agora descobrimos, ser Moussa. Harun tinha apenas sete anos e passa a viver com a mãe e o fantasma do irmão.

Logicamente, naquela mesma noite, mergulhei no maldito livro. Avançava na leitura vagarosamente, mas totalmente fascinado. Eu me sentia ao mesmo tempo insultado e sendo revelado para mim mesmo. Passei a noite inteira lendo, como se lesse o livro do próprio Deus, o coração pulsando forte, prestes a sufocar. Foi uma verdadeira comoção. Havia tudo ali, menos o essencial: o nome de Moussa! Em lugar nenhum. Contei e recontei: a palavra "árabe" aparecia vinte e cinco vezes, sem nenhum nome, de nenhum de nós. Nadinha, meu amigo.

Harun vinga a família e o irmão; em 1962, matou um francês. Mas não na guerra da independência - da qual não participou. Poderia ter matado, sem qualquer problema, na guerra. A questão não é o crime em si, mas o timing... - o árabe de Camus e o francês de Daoud não valem muita coisa. Harun sabe que não está preso por ter cometido um crime, mas por tê-lo praticado no momento errado.

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Ao ser publicado (com estrondoso sucesso) na França e após ter levado o Goncourt, Daoud chamou a atenção de Abdelfatah Hamadache, clérigo islâmico, que o acusou de apóstata e clamou por seu julgamento por blasfêmia. Daoud permanece vivendo em Oran, na Argélia, escrevendo em um jornal de língua francesa. Em certo sentido, permanece um estrangeiro em sua própria terra.


quinta-feira, 29 de junho de 2017

Ostend: Stefan Zweig, Joseph Roth, and the summer before the dark, de Volker Weidermann


Lançado em 2016 e acessível pelo Kindle, este pequeno livro (176 páginas) do alemão Volker Weidermann traz uma série de pequenas passagens da vida intelectual dos anos 30. 

Em 1936, às vésperas da catástrofe, a pequena cidade belga de Ostende atrai inúmeros escritores, artistas e intelectuais - muitos deles judeus - que, em sua maioria, logo seria tragada pela Segunda Guerra. Lá estavam Klaus Mann, que lançou seu romance Mephisto, Arthur Koestler, Ernst Toller, Irmgard Keun, entre outros.

Mas o foco do livro de Weidermann é a amizade entre Joseph Roth, de Brody, nos confins do finado império habsburgo, e imerso na cultura iídish e no álcool, e o austríaco Stefan Zweig, cosmopolita, assimilado e ocidental escritor, lido por milhões, aclamado por onde passava. Em 1936, no entanto, já não podia ser lido na Alemanha.

Zweig desaprovava a propensão à bebida de Roth, mas financiou, por muito tempo, o amigo, que vivia sem dinheiro e com fome. O sucesso de seus livros era todo direcionado ao álcool. Roth, por sua vez, desaprovava o fato de Zweig ter deixado sua primeira mulher, Friderika, pela sua secretária, Lotte. Mas o bem sucedido e mundialmente famoso Zweig jamais abriu mão dos conselhos literários (e críticas, muitas vezes ferozes) de Roth. 


O final todos sabemos: Roth fugiu da Alemanha em 1933, assim que Hitler assume o poder, e passa a viver na França. Morre em 1939, dominado pelo alcoolismo. Zweig, por seu lado, viaja para os EUA, Argentina e termina no Brasil, encantado com o que entendia ser o país do futuro. Três anos depois, angustiado com os rumos da guerra, isolado intelectualmente em Petrópolis, e impaciente (nas suas próprias palavras em sua carta de despedida), suicida-se, ao lado de Lotte.

Acabei associando este livro ao romance de Aron Appelfeld, Badenheim 1939, onde um grupo de judeus passa uma temporada no balneário austríaco, já agora anexado à Alemanha. Mas, no 1936 de Weidermann, não há lugar para um panglossiano Pappenheim, personagem de Appelfeld.

Alguma editora brasileira poderia se habilitar a publicá-lo por aqui.






terça-feira, 20 de junho de 2017

Diplomacia, de Volker Schlöndorff (2014)

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Baseado na peça de Cyril Gély. Mesclando algumas imagens da época, conta a história do encontro entre o general alemão Dietrich von Choltitz (interpretado por Niels Arestrup) e o cônsul sueco Raoul Nordling (André Dussolier). Os alemães, já em fuga, pretendem destruir Paris antes da chegada dos americanos que libertariam a cidade em poucos dias. Vemos a descrição do plano, que levaria a explosões e inundações, que resultariam na morte de mais de 2 milhões de habitantes.

O plano, de fato, existiu, bem como os personagens, cujo encontro, no entanto, é fictício. O cônsul sueco, de origem francesa, tenta convencer o general a desobedecer Hitler. O Führer desistiu de preservar a cidade após o bombardeio de Berlim. A trama se passa durante a manhã de 25 de agosto de 1944.

O general, no início, reitera sua lealdade - e menciona episódio envolvendo judeus. Mas acaba cedendo a Nordling (não dá para chamar isso de spoiler - sabemos que a cidade não foi destruída...). Humanismo ou algo parecido por parte de Choltitz? Para mim, uma prova de senso de realidade (já sabia que o Terceiro Reich se aproximava rapidamente do fim e já previa o que iria acontecer com os principais nomes do regime). 

O diretor (que levou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1980 com O tambor) confessa que vislumbrou esse espaço ficcional - não há registro do tal encontro - dentro de um episódio histórico. Schlöndorff e Gély se lançaram nesse espaço, abdicando de qualquer tentativa de descoberta de fatos novos ou uma verdadeira pesquisa de campo.

O filme (de menos de uma hora e meia) é uma peça de teatro - um quarto, dois personagens, diálogos tensos. Muita gente torceu o nariz para o resultado que, para mim, é amplamente positivo. 


sexta-feira, 16 de junho de 2017

Happy Bloomsday

Sétimo Bloomsday deste blog, sétima promessa de ler Ulysses. Portanto, já não tem lá muita credibilidade. 

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Mas agora, com o guia do Caetano Galindo, autor da última tradução brasileira do livro (nada mau para um país como o nosso se dar ao luxo de ter três versões do Ulysses), quem sabe a coisa vai... em homenagem ao 16/06, vou lá me arriscar, ao menos, nessa visita guiada. A leitura da Odisseia fazia, até certo ponto, parte do projeto...

Quanto ao Bloomsday, e esperando poder escrever bastante a respeito em 16/06/2018, veja a página do The James Joyce Centre.

sábado, 10 de junho de 2017

O que cantavam as sereias?

Dúvida cruel, que sempre me perseguiu. Pois descubro nesta entrevista com Francisco Luís Parreira não ser o único. Ele acaba de traduzir Gilgamesh e acaba falando do assunto - no caso, quando lhe perguntam sobre a tradução de Frederico Lourenço.

Aqui, um trecho:

Contrariando uma tendência de anos recentes, exemplificável com algumas traduções de Homero feitas por Frederico Lourenço, optou por uma tradução e por uma edição ostensivamente eruditas. Porquê?

Não creio que uma edição do Gilgameš pudesse caber nessa tendência. Seria quase afrontoso publicar o poema babilónico sem dar resposta às perplexidades ou apetências – pelo menos às mais previsíveis – que a sua leitura está destinada a suscitar, nomeadamente em vista do seu estado de conservação, dos aspectos interpretativos que são internos às possibilidades da leitura contemporânea, e da situação literária e produtiva de que emana, que não podia ser mais remota. Para a Odisseia, por exemplo, estas circunstâncias são de menor ou nula relevância; o protocolo de leitura está mais ou menos interiorizado e o escrutínio a que esse texto foi submetido isenta os seus tradutores de recapitulações exaustivas.

Mas permita-me que conteste a sua ideia de uma tendência recente, tal como a descreve. Estou inclinado a supor que essa tendência pertence mais ao foco mediático do que aos factos. Acabei de ler, por exemplo, uma edição recente, da Gulbenkian, dos Textos da Literatura Egípcia do Imperio Médio, da autoria de Telo Ferreira Canhão, e recordo como exemplo de como ler e editar um texto a edição dos professores Mário Jorge de Carvalho e Nuno Ferro do maravilhoso texto de Kierkegaard, Adquirir a sua Alma na Paciência, na Assírio & Alvim.

São traduções eruditas, no sentido que invoca, e relativamente recentes; apesar de extraordinárias, e de se aprender mais com elas do que com um trimestre inteiro de edição industrial, creio que nenhuma delas mereceu qualquer menção na crítica impressa. Espero entretanto que a tendência de que fala não resulte na depreciação do que é “erudito”. Embora não tenha um amor excessivo a essa palavra, assinalo que certos textos, para se revelarem, precisam de uma conversa prévia ou periférica e de alguém que se coloque em situação de iniciá-la. Eu, por exemplo, ainda hoje não sei que canção cantaram as sereias a Ulisses e bem gostaria que houvesse alguém a dizer-mo.

O túmulo de Lenin, de David Remnick


Na esteira do centenário da Revolução Russa, a Companhia das Letras lança o livro do jornalista americano David Remnick, hoje na New Yorker e testemunho dos últimos dias do império soviético como correspondente na Rússia do Washington Post.

O livro foi publicado nos EUA em 1993, ainda sem Putin no radar e com Yeltsin como presidente. Por outro lado, lê-lo alguns meses depois de ter me dedicado ao Fim do Homem Soviético, da Nobel Svetlana Aleksievitch não prejudica em nada, pelo contrário: permite uma visão bastante ampla. São visões complementares. Aleksievitch se dedica, principalmente, às pessoas comuns, escrevendo, ainda, na condição de uma cidadão soviética/bielorrussa,

Já Remnick, correspondente internacional, não apenas tinha acesso aos grandes nomes como um senso de urgência em conseguir entrevistas. No início do livro, por exemplo, conta das tentativas para entrevistar Lasar Kaganovich.

O mais interessante é o fato de o autor ter vivido a abertura do regime - os arquivos que eram abertos, as pessoas que começaram a contar suas histórias, as prisões e os gulags - se você já leu os contos de Kolimá, de Varlan Chálamov, vai certamente se interessar; a constatação de que Lênin só não foi pior que Stalin por ter morrido relativamente cedo; a libertação de Sakarov (alguém com menos de 45 anos ainda se lembra dele?); a volta de Soljenitzin (idem) etc.

Gorbachov, por outro lado, não é merecedor de admiração por parte do autor, que definitivamente não se contaminou com o clima que atingiu boa parte do ocidente na época - "Gorby" quase virou popstar. Remnick reconhece sua importância histórica e os primeiros anos do seu governo, mas apresenta-nos um sujeito dúbio, rancoroso, vaidoso e de uma autoconfiança que quase o derrubou. Nitidamente, Yeltsin sai bem melhor depois dessas mais de 700 páginas.

Seu papel no massacre na Lituânia em 1991 é exposto sem condescendência, assim como suas tentativas de compor ("controlar") a ala mais conservadora do PCUS - uma jogada fracassada, como ficaria claro em agosto de 1991.

E como Gorbachov conseguiu fazer o que fez? Na verdade, diz um dos personagens, todos, desde Kruschev e indo até Andropov, começavam com um discurso mais radical, que era devidamente domesticado pelo sistema nos anos subsequentes. O partido tolerava esse discurso, achava-o saudável e até mesmo necessário. Mas, a partir de 1985, a coisa realmente degringolou. O sistema econômico já estava completamente inviabilizado.

Com relação à tentativa de golpe de agosto de 1991, a narrativa é quase um "em tempo real" dos acontecimentos. Um parágrafo resume toda a história:

Os conspiradores haviam desencadeado o putsch para salvar o Império soviético e suas posições nele. Seu fracasso foi o golpe de misericórdão. Nenhum movimento de independência no Báltico, nenhum liberal russo, ninguém até então tinha feito tanto para levar a coisa toda a ruir. E agora Yazov, pelo menos, parecia saber disso. "Tudo está claro agora", disse ele ao ser colocando num camburão com barras na janela. "Sou um velho idiota mesmo. Fiz uma grande cagada".

Agora não havia mais volta. E o autor mostra como a transição foi abrupta: Moscou, agora, pouco mais de um anos depois do golpe, tinha se transformado numa fantasmagoria, um mundo pós-comunista pintado por Hieronymus Bosch. Os moscovitas mais jovens, em especial, pareciam determinados a mergulhar de cabeça num mundo vulgar, bizarro e aprazível de capitalismo primitivo. Numa virada típica da história russa, a nova economia tinha saltado de um estágio de desenvolvimento ao estágio seguinte, passando rapidamente da completa carência para a permissividade, nunca parando para resolver os problemas prosaicos de subsistência, estrutura e propriedade.

Talvez a melhor descrição da mudança vivida pelos russos nos anos 1990.

O livro rendeu a Remnick, com justiça, o Pulitzer de 1994. Imperdível.




sexta-feira, 12 de maio de 2017

Odisseia

Quantas Odisséias contém a Odisséia? - pergunta Ítalo Calvino (Por que ler os clássicos, Companhia das Letras).

Acabo de ler a tradução de Frederico Lourenço da Odisséia (Companhia das Letras/Penguin). Minha versão da Ilíada é a de Odorico Mendes, o que praticamente faz com que tenha lido dois livros de dois autores diferentes. Lourenço estará em Paraty para a FLIP deste ano. 

Manguel fala que os ingleses têm a sorte de dispor de duas grandes versões: a de Alexander Pope e a de Robert Fagles, ainda que reconheça a existência de numerosos desastres. E, em se tratando de um texto (?) em grego antigo, mais do que nunca é possível dizer que não lemos Homero, mas traduções de Homero. Aliás, se você estiver disposto a uma leitura, digamos, bastante completa dos dois clássicos, o livro de Manguel, publicado no Brasil pela Zahar - Ilíada e Odisséia de Homero: uma biografia - é uma excelente introdução ao mundo homérico: dificilmente você irá encontrar livro em português tão completo e tão acessível.

Ler a Odisséia foi voltar a histórias que conhecemos desde sempre - os Cíclopes, as sereias, Circe e outros seres mitológicos que, muito antes de desgastados pelo cinema (tem de tudo; de grandes filmes a grandes besteiras), conhecia de adaptações infantis como as de Ruth Rocha.




Que a leitura me anime a, finalmente, tentar (nunca sequer tentei) a leitura do Ulisses, de James Joyce. Está chegando o Bloomsday (16 de junho), dia mundial de prometer (e não cumprir) ler a saga de Leopold Bloom. Afinal, lá em Dublin vive uma prima distante das sereias, uma garçonete que canta as virtudes da cerveja Guinness...

sábado, 8 de abril de 2017

O nó górdio de Frederico Lourenço

Neste artigo de José Pacheco Pereira, no Público, um elogio a Frederico Lourenço, tradutor da edição da Odisséia da Companhia das Letras/Penguin, e que acaba de receber o Prêmio Pessoa. E um lamento pela decadência da cultura clássica na Europa (ainda que Churchill já tivesse percebido isso há mais de cinquenta anos):

O prémio a Frederico Lourenço, no entanto, não nos deve iludir. O mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos presente no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico, e, embora nunca se soubesse muito comparado com os países da Reforma, também cada vez menos se sabe sobre a Bíblia. Não nos devemos iludir quanto ao valor que a escola, a universidade, a sociedade, a comunicação – já para não falar das chamadas “redes sociais” – e a política hoje dão às humanidades e aos estudos clássicos. Esse valor é quase nulo. Pelo contrário, é entendido como um conhecimento inútil, que justifica o corte de financiamentos, a colocação no último lugar da fila, quando não da extinção curricular, das disciplinas do Latim e do Grego, que conseguem ficar atrás da Filosofia. E não é só este cerco às humanidades clássicas — em bom rigor a todas as humanidades — é a sua desvalorização pública implícita em muito documento, declaração política, e em acto.O 

sábado, 1 de abril de 2017

Os livros de 2017

De acordo com esta matéria, estes serão os 431 livros lançados em 2017. Quais você está esperando?

Stork Mountain, de Miroslav Penkov

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Autor do excelente livro de contos East of the West, o búlgaro Miroslav Penkov (1982) lançou em 2016 o romance Stork Mountain, que consegui ler pelo Kindle. 

Um jovem búlgaro que emigrou com sua família para os EUA retorna ao seu país, para reencontrar seu estranho avô, na região de Strandja, na região do Mar Negro, próxima à fronteira com a Turquia. (Observação: o autor, nascido em 1982, foi para os EUA em 1991, dois anos após a queda do regime comunista no país).

O jovem, apesar de bastante popular na escola, se considera um estranho, um estudante fracassado e sem dinheiro na América. Decide então obter algum dinheiro vendendo sua parte das terras da família. O avô, no entanto, já vendeu tudo para um projeto de parque eólico - o que ameaça a existência das cegonhas (storks) do local - uma ave migratória. Associadas a bebês, essas cegonhas despejam mistérios e segredos. Como o avô acabou parando por ali? Os comunistas chegaram ao poder em 1944 e confiscaram propriedades; o avô era professor e acabou sendo não apenas perdeu tudo como foi mandado para esse "fim de mundo" - por sorte, escapou de ir a um campo de trabalho.

As montanhas Strandja também são altamente simbólicas: nelas estão presentes búlgaros, turcos e gregos; cristãos e muçulmanos, e suas histórias e lendas. Somos apresentados aos nestinari, dançarinos do fogo que, segundo a tradição, realizam rituais de purificação. Os otomanos dominaram essas terras por séculos e, hoje, os muçulmanos são sempre vistos com desconfiança. O narrador chega à região e, mesmo inicialmente resistindo à ideia, acaba se envolvendo com a complexa história da região e seus moradores - como Elif, a filha do iman local.

Momentos particular e pessoalmente interessantes são os que descrevem a vida dos turcos na Bulgária - as mudanças de nome impostas aos turcos, que foram obrigados a se eslavizar. Foram os "processos de renascimento", que buscavam a assimilação e que tiveram seu auge nos anos 80. Curiosamente, também no século passado, na República proclamada após o fim do Império Otomano, muitos tiveram que islamizar seus nomes. Penkov também traz breves passagens sobre antigos sultões que passaram pela região. 

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Como o próprio Penkov afirma nesta entrevista, a região de Strajda é, ela própria, um nestinari: por mais de mil anos, atravessa o fogo, é reduzida a cinzas e em seguida renasce.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Ilusões Perdidas, de Balzac

Balzac, Stendhal e Flaubert dominaram o romance francês no século XIX.

Se você nunca leu nada de Balzac, arrisque-se com Ilusões Perdidas, um livro gigantesco, se considerarmos que as quase 800 páginas (estou novamente na coleção organizada por Paulo Rónai, agora na tradução de Ernesto Pelanda e Mario Quintana) da história têm uma "segunda parte", as mais de 600 de Esplendores e misérias das cortesãs. Se você pensa em ser um escritor, ou já o é, além de uma aula de como construir tramas, como expor suas ideias e, principalmente, como criar personagens, irá se deparar com uma visão bastante cruel e precisa do meio literário e jornalístico:

A vida literária tem também seus bastidores. Os êxitos roubados ou merecidos, eis o que a plateia aplaude; os meios, sempre repugnantes, os comparsas degradantes, a claque e os encarregados da maquinaria, eis o que os cenários escondem. 

Não é difícil perceber que o jornalismo e os jornais não são levados em muito alta consideração por Balzac. Ele, por sua vez, escreveu este romance às voltas de dívidas (uma constante em sua vida, diga-se)

Balzac inicia o romance com a vida na pacata Angoulême. Lucien de Rubempré é um personagem como pouquíssimos: um alpinista social (abandona o Chardon paterno de um simples boticário para o aristocrático "de Rubempré") que tenta conquistar Paris; um sonhador que anseia pelo sucesso como poeta. David Séchard é seu grande amigo e toca a tipografia do velho pai, além de se casar com Eve, irmã de Lucien, talvez seja o maior personagem criado por Balzac. Um talento provinciano tragado pelas intrigas da capital. 

Lucien de Rubempré é talvez o personagem mais conhecido de Balzac, entre as centenas que ele criou e que aparecem em diversas obras da Comédia Humana. Somos apresentados a ele, um personagem leitor. Passa horas na biblioteca, lendo poesia e prosa - incluindo Walter Scott, então na moda. Quer compensar sua origem humilde. A senhora de Bargeton lhe abre as portas da aristocracia da província, e ele, por sua vez, apesar de rejeitado pelos demais, consegue engrenar uma relação com sua amante que o permite se mudar para Paris.

A segunda parte é a maior e mais importante: é aqui que se inicia a aproximação de Lucien com a senhora de Bargeton em Paris, mas ele acaba por ela rechaçado. Faltam-lhe refinamento e riqueza para ser aceito pela sociedade - e a senhora de Bargeton é constantemente alertada dessa questão pelos seus próprios amigos e admiradores; mas Lucien acredita em seu próprio talento. Coralie, uma atriz de 19 anos, é sua amante. 

Balzac merece ser lido pelos advogados. Aqui, como em Madame Bovary de Flaubert, surge um personagem fundamental para o desfecho da história: a nota promissória. Lucien consegue de David algumas, para se sustentar em Paris - chega, inclusive, a falsificar a assinatura do amigo e cunhado. 

É a ruína (de ambos).

A terceira parte mostra um arrasado Lucien de volta a Angoulême, ao mesmo tempo em que a tipografia de David, endividado até o pescoço, está arruinada. Apesar de ter desenvolvido um papel de melhor qualidade e mais barato, foi sabotado por seu empregado, Cérizet. No final, consegue um acordo, salva-se e vai viver, com Eva, no campo. Mas para Lucien, a situação é bastante complicada: decidido ao suicídio, acaba encontrando um obscuro padre espanhol.

O que acontece a partir daí? É hora de encarar as 600 páginas de Esplendores e misérias das cortesãs, volume 9 da coleção. A propósito, é o último editado pela Globo. Há anos esperamos os demais volumes (são 17 ao todo). O que terá acontecido com o projeto, em meio a todas as crises dos últimos tempos?

Balzac é uma forma de entender o século XIX: o espírito industrial, o crescente poder comercial da burguesia, a aristocracia ainda sonhando com a volta do Antigo Regime, os provincianos chegando a Paris com suas ilusões, as frustrações da vida, arte e literatura, jornalismo, advocacia... E Ilusões Perdidas um dos grandes romances da história.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O mapa da Ilíada

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O mapa aqui indica o local de origem dos personagens da Ilíada, por volta de 1.300 anos antes de Cristo. Uma boa companhia para a leitura. Minha edição é a tradução do Odorico Mendes, pela Ateliê. A Odisséia virá pela Companhia das letras/Penguim, e pretendo ler ainda este ano.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Doutor Fausto, de Thomas Mann

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É o primeiro posto deste blog sobre Thomas Mann. Dele já li Os Buddenbrook, As confissões do impostor Felix Krull, Morte em Veneza e José e seus Irmãos. Mann não é um escritor "fácil", e nesta visita ao mito do Fausto, o leitor encontrará longas discussões sobre arte, teologia, teoria musical, filosofia, entre outros aspectos. Mas isso não deve intimidá-lo; pelo contrário: à medida em que se avança, a narrativa vai se tornando mais dinâmica - como nos demais romances do autor. 

A ideia de Fausto já havia sido objeto do romance Mephisto, de Klaus Mann, seu irmão. Publicado em 1936, já sob o regime nazista e antes do início da Segunda Guerra, tinha como foco o ator de teatro Hendrik Höfgen, baseado em seu ex-genro Gustav Gründgens. O nazismo é parte integrante do enredo deste romance, do qual me lembro mais da adaptação ao cinema por István Szábo, com o grande Klaus Maria Brandauer no papel-título, do que do livro propriamente dito.

Thomas, na verdade, é um ex-nacionalista convertido (apoiou o kaiser na Primeira Guerra e brigou com Klaus, que se alinhou à França) e, anos depois do irmão, escreve sobre a vida de sua genial criação, o compositor Adrian Leverkhün, narrada pelo seu amigo Serenus Zeitblom. Zeitblom escreve já numa Alemanha destroçada e invadida por ingleses, americanos e soviéticos. A cada capítulo, o narrador amaldiçoa o destino escolhido pelos seus compatriotas, ao mesmo tempo em que se recorda da vida do amigo.

Há, como tão ao gosto de Thomas Mann, um "episódio italiano", justamente quando Ele se apresenta e firma o pacto com Adrian. O Diabo já conhece muito bem seu cliente, e não joga para perder. Pede-lhe a alma em troca de glória por vinte e quatro anos. A "conversa", narrada pelo próprio Adrian, é o ponto alto da história. O Diabo impõe-lhe uma condição - jamais poderá amar alguém - e de novo aquela história da relação entre o Artista e a Solidão aparece. Essa, digamos, cláusula, será devidamente exigida pelo Tinhoso, já no final da história, em outro grande momento do romance - Nepomuk recebe todo o amor e carinho de Adrian, no entanto...

A edição da Companhia das Letras tem a tradução de Herbert Caro, um dos grandes nomes da cultura européia que vieram ao Brasil entre os anos 30 e 40, juntamente com Paulo Rónai, Carpeaux, entre outros. Sim, o Brasil deu essa sorte. Minha próxima aventura será a tentativa de ler a sua versão de A Montanha Mágica, também pela Cia. das Letras (minha antiga edição portuguesa não me foi muito atrativa).

Carpeaux: no seu romance épico Doktor Faustus, a carreira artística do grande compositor Leverkuehn coincide com a história política da Alemanha durante os últimos decênios: os dois grandes temas, a política e a música, estão ligados através de uma nova técnica novelística na qual 'tudo alude a tudo': tudo é realidade e tudo é símbolo; um fato real de significação simbólica, a tentação da Alemanha e do artista pelo Demônio, dá à obra a dimensão metafísica e transcedental. O estilo é, outra vez, complexo à maneira do estilo da velhice de Goethe, mas iluminado por todas as luzes da ironia.