segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Nobel 2017: apostas

Já virou tradição da Biblioteca trazer a lista com os favoritos ao Nobel de Literatura, de acordo com a casa de apostas Ladbrokes:

Vamos aos 10 primeiros:

1. Ngugi Wa Thiong'o, queniano.

2. Haruji Murakami (sempre, sempre ele)


3. Margaret Atwood - canadense. Nunca li, mas é muito bem conceituada pela crítica e pelo público. Manguel adora. Seu romance mais conhecido, O conto da aia, que está na minha fila de espera, virou série de sucesso na televisão. Momento político pode ajudar.

4. Amos Oz. Israelense que costuma irritar esquerda (à qual pertence) e direita.

5. Claudio Magris. Italiano, de Trieste (escreve em italiano e fala o dialeto local). Escreve ficção, mas li Danúbio, ensaio que por si só já o coloca como merecedor do Nobel.

6. Javier María, espanhol de quem nada li.

7. Adonis, poeta sírio. Muito bom, e pode ser ajudado pela geopolítica.

8. Don deLillo, americano. Nunca li nada dele.

9. Yan Lianke, chinês não muito querido pelo regime, o que o coloca, por definição, com chances (não faço a mais vaga ideia se merecido ou não).

10. Ko Un, sul-coreano que virou budista e defende a reunificação do país. Idem...

E mais: Jon Fosse (norueguês), António Lobo Antunes (o Fla - ou flu - do fla-flu com Saramago), Cesar Aira, Ismail Kadare (albanês que já devia ter recebido o prêmio), Laszlo Krasznahorkai (húngaro conceituadíssimo na Europa) e A.B. Yeoshua (israelense).

Philip Roth aparece mais abaixo mas, fazer o quê... um norte-americano não deve ganhar nos próximos dez anos...

Provavelmente o vencedor está mencionado neste post.

domingo, 3 de setembro de 2017

Uma sensação estranha, de Orhan Pamuk

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Uma sensação estranha
Orhan Pamuk
tradução (indireta) de Luciano Vieira Machado
Companhia das Letras, 2017, 590p.


Esta é a história da vida e dos sonhos de Mevlut Karatas, vendedor de boza e de iogurte. Nascido em 1957 na fronteira ocidental da Ásia, numa aldeia pobre que dava para um lago enevoado da Anatólia Central, aos doze anos foi para Istambul, a capital do mundo, onde passou o resto da vida. Quando tinha vinte e cinco anos, voltou para a província natal e de lá fugiu com uma jovem, num estranho episódio que determinou o curso de seus dias.  Voltou para Istambul, casou-se, teve duas filhas e pôs a trabalhar sem desconto - vendeu iogurte, sorvete e arroz como ambulante, e exerceu o ofício de garçom. Mas à noite nunca deixou de perambular pelas ruas de Istambul, vendendo boza e sonhando sonhos estranhos.

Assim começa mais um romance de Orhan Pamuk que acaba de chegar ao Brasil (quando, ao que parece, ele acaba de lançar outro, que deverá levar mais alguns anos para ser editado por aqui).

Uma estranha sensação é, mais uma vez (já virou um lugar-comum, diga-se), uma história cujo principal personagem é nada menos que a cidade de Istambul. Um livro que apresenta mapa genealógico, uma cronologia que alcança fatos históricos e os personagens da história e fotos e ilustrações do próprio autor.

Mevlut Karatas é um homem comum, um vendedor de boza, que chega à cidade em 1963, vindo do interior da Anatólia, parte asiática do país. Vender boza pelas ruas é algo hoje impensável; Mevlut faz parte de uma cidade que hoje já não mais existe. Começou a trabalhar antes de as grandes empresas distribuírem iogurte diretamente nas lojas, e antes de o álcool ser liberado (quem vai beber boza, até então uma das únicas formas de consumir álcool, quando agora pode se deleitar com o raki?). Casa-se com Rayiha, mas escrevia cartas para os olhos de Samiha, entregando-as a Suleyman... 

Uma jogada de Pamuk é alternar as vozes. Isso ele já fez, muito bem, em Meu nome é vermelho, para muitos, sua obra-prima. Mas também gostei muito de Museu da Inocência, que, acho, reconstitui a história da cidade com superioridade.

Pamuk escreve sobre a História de seu país e também sobre grandes temas (identidade nacional, amor, desenvolvimento urbano,  concentração de riqueza) a partir de pequenas histórias familiares (no caso, fica evidente o crescimento absurdo e desordenado da cidade ao longo das últimas décadas; o golpe militar de 1980, o 11 de Setembro, a ascensão de Erdogan, entre outros.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O cidadão ilustre, de Mariano Cohn e Gastón Duprat (2016)

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Da série "filmes que não vi no cinema", este argentino já está disponível no Now. 

Mais um excelente filme argentino e, ao menos no Brasil, uma raridade: sem Ricardo Darín. Oscar Martínez é Daniel Mantovani (a atuação lhe rendeu o prêmio de melhor ator em Veneza 2016), um escritor argentino, ganhador do Nobel.

A rigor, o excelente roteiro não dá trégua para ninguém: a cerimônia em Estocolmo, onde seu discurso de "agradecimento" é uma pérola de arrogância e falta de educação; o próprio circuito pós-Nobel (ele recusa a participação em uma infinidade de eventos em escala planetária) é o primeiro alvo. Mantovani é uma figura difícil. Por alguma razão, aceita voltar a Salas, sua cidade natal, de onde saiu na juventude e para onde jamais voltou. 

Salas é um universo à parte: ainda que próxima a Buenos Aires, a cidade de interior é profundamente provinciana e, por que não, cafona. Mantovani é recebido pelo prefeito, desfila em carro do Corpo de Bombeiros (já viu isso em algum lugar?) ao lado da rainha da beleza de Salas... Há ainda um vídeo produzido pela prefeitura que conta a história do filho mais ilustre da cidade, que é simplesmente ridículo.

Lá, as coisas não serão fáceis. Toda a obra de Mantovani se dedica a criticar a vida provinciana do interior. E cada morador se identifica, de alguma forma, com algum personagem ou alguma passagem de seus livros, em geral com um ressentimento profundo. Em quatro dias de sua visita, a situação chegará a níveis insuportáveis, a partir de sua participação num festival de pintura para artistas locais (quando entrará em choque com o presidente da associação dos artistas plásticos de Salas).

Mostrando uma Argentina bem diferente daquela sofisticada e cosmopolita de Buenos Aires. Critica o Nobel, a intelectualidade, o provincianismo, os "dirigentes culturais". Em outras palavras, dificilmente teríamos um filme desses por aqui.


sexta-feira, 14 de julho de 2017

O caso Mersault, de Kamel Daoud


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O caso Mersault
Kamel Daoud
Biblioteca Azul
Tradução de Bernardo Ajzemberg
168 p.


Hoje mamãe ainda está viva.

À primeira vista, tinha tudo para ser um desastre - uma "desconstrução literária", uma revanche contra a antiga metrópole ou outra linha panfletária semelhante - mas esse O caso Mersault, que deu ao autor, Kamel Daoud, o Goncourt de melhor romance de estreia, é realmente um grande livro. 

Harun, o narrador, conta sua história a um francês que tem, consigo, um volume d'O estrangeiro de Camus e está investigando o passado de Patrice Mersault, o apático narrador (um dos mais famosos personagens da literatura francesa do século passado) que é indiferente à própria mãe e matou um árabe na praia. Ele é condenado não por ter matado o árabe, mas por ter sido indiferente à mãe, inclusive no seu enterro. 

Pois Harun é, exatamente, o irmão do anônimo assassinado na praia, às duas horas da tarde de um dia de verão. Camus sempre trata o árabe como O Árabe, nunca pelo seu nome - que, agora descobrimos, ser Moussa. Harun tinha apenas sete anos e passa a viver com a mãe e o fantasma do irmão.

Logicamente, naquela mesma noite, mergulhei no maldito livro. Avançava na leitura vagarosamente, mas totalmente fascinado. Eu me sentia ao mesmo tempo insultado e sendo revelado para mim mesmo. Passei a noite inteira lendo, como se lesse o livro do próprio Deus, o coração pulsando forte, prestes a sufocar. Foi uma verdadeira comoção. Havia tudo ali, menos o essencial: o nome de Moussa! Em lugar nenhum. Contei e recontei: a palavra "árabe" aparecia vinte e cinco vezes, sem nenhum nome, de nenhum de nós. Nadinha, meu amigo.

Harun vinga a família e o irmão; em 1962, matou um francês. Mas não na guerra da independência - da qual não participou. Poderia ter matado, sem qualquer problema, na guerra. A questão não é o crime em si, mas o timing... - o árabe de Camus e o francês de Daoud não valem muita coisa. Harun sabe que não está preso por ter cometido um crime, mas por tê-lo praticado no momento errado.

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Ao ser publicado (com estrondoso sucesso) na França e após ter levado o Goncourt, Daoud chamou a atenção de Abdelfatah Hamadache, clérigo islâmico, que o acusou de apóstata e clamou por seu julgamento por blasfêmia. Daoud permanece vivendo em Oran, na Argélia, escrevendo em um jornal de língua francesa. Em certo sentido, permanece um estrangeiro em sua própria terra.


quinta-feira, 29 de junho de 2017

Ostend: Stefan Zweig, Joseph Roth, and the summer before the dark, de Volker Weidermann


Lançado em 2016 e acessível pelo Kindle, este pequeno livro (176 páginas) do alemão Volker Weidermann traz uma série de pequenas passagens da vida intelectual dos anos 30. 

Em 1936, às vésperas da catástrofe, a pequena cidade belga de Ostende atrai inúmeros escritores, artistas e intelectuais - muitos deles judeus - que, em sua maioria, logo seria tragada pela Segunda Guerra. Lá estavam Klaus Mann, que lançou seu romance Mephisto, Arthur Koestler, Ernst Toller, Irmgard Keun, entre outros.

Mas o foco do livro de Weidermann é a amizade entre Joseph Roth, de Brody, nos confins do finado império habsburgo, e imerso na cultura iídish e no álcool, e o austríaco Stefan Zweig, cosmopolita, assimilado e ocidental escritor, lido por milhões, aclamado por onde passava. Em 1936, no entanto, já não podia ser lido na Alemanha.

Zweig desaprovava a propensão à bebida de Roth, mas financiou, por muito tempo, o amigo, que vivia sem dinheiro e com fome. O sucesso de seus livros era todo direcionado ao álcool. Roth, por sua vez, desaprovava o fato de Zweig ter deixado sua primeira mulher, Friderika, pela sua secretária, Lotte. Mas o bem sucedido e mundialmente famoso Zweig jamais abriu mão dos conselhos literários (e críticas, muitas vezes ferozes) de Roth. 


O final todos sabemos: Roth fugiu da Alemanha em 1933, assim que Hitler assume o poder, e passa a viver na França. Morre em 1939, dominado pelo alcoolismo. Zweig, por seu lado, viaja para os EUA, Argentina e termina no Brasil, encantado com o que entendia ser o país do futuro. Três anos depois, angustiado com os rumos da guerra, isolado intelectualmente em Petrópolis, e impaciente (nas suas próprias palavras em sua carta de despedida), suicida-se, ao lado de Lotte.

Acabei associando este livro ao romance de Aron Appelfeld, Badenheim 1939, onde um grupo de judeus passa uma temporada no balneário austríaco, já agora anexado à Alemanha. Mas, no 1936 de Weidermann, não há lugar para um panglossiano Pappenheim, personagem de Appelfeld.

Alguma editora brasileira poderia se habilitar a publicá-lo por aqui.






terça-feira, 20 de junho de 2017

Diplomacia, de Volker Schlöndorff (2014)

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Baseado na peça de Cyril Gély. Mesclando algumas imagens da época, conta a história do encontro entre o general alemão Dietrich von Choltitz (interpretado por Niels Arestrup) e o cônsul sueco Raoul Nordling (André Dussolier). Os alemães, já em fuga, pretendem destruir Paris antes da chegada dos americanos que libertariam a cidade em poucos dias. Vemos a descrição do plano, que levaria a explosões e inundações, que resultariam na morte de mais de 2 milhões de habitantes.

O plano, de fato, existiu, bem como os personagens, cujo encontro, no entanto, é fictício. O cônsul sueco, de origem francesa, tenta convencer o general a desobedecer Hitler. O Führer desistiu de preservar a cidade após o bombardeio de Berlim. A trama se passa durante a manhã de 25 de agosto de 1944.

O general, no início, reitera sua lealdade - e menciona episódio envolvendo judeus. Mas acaba cedendo a Nordling (não dá para chamar isso de spoiler - sabemos que a cidade não foi destruída...). Humanismo ou algo parecido por parte de Choltitz? Para mim, uma prova de senso de realidade (já sabia que o Terceiro Reich se aproximava rapidamente do fim e já previa o que iria acontecer com os principais nomes do regime). 

O diretor (que levou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1980 com O tambor) confessa que vislumbrou esse espaço ficcional - não há registro do tal encontro - dentro de um episódio histórico. Schlöndorff e Gély se lançaram nesse espaço, abdicando de qualquer tentativa de descoberta de fatos novos ou uma verdadeira pesquisa de campo.

O filme (de menos de uma hora e meia) é uma peça de teatro - um quarto, dois personagens, diálogos tensos. Muita gente torceu o nariz para o resultado que, para mim, é amplamente positivo. 


sexta-feira, 16 de junho de 2017

Happy Bloomsday

Sétimo Bloomsday deste blog, sétima promessa de ler Ulysses. Portanto, já não tem lá muita credibilidade. 

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Mas agora, com o guia do Caetano Galindo, autor da última tradução brasileira do livro (nada mau para um país como o nosso se dar ao luxo de ter três versões do Ulysses), quem sabe a coisa vai... em homenagem ao 16/06, vou lá me arriscar, ao menos, nessa visita guiada. A leitura da Odisseia fazia, até certo ponto, parte do projeto...

Quanto ao Bloomsday, e esperando poder escrever bastante a respeito em 16/06/2018, veja a página do The James Joyce Centre.

sábado, 10 de junho de 2017

O que cantavam as sereias?

Dúvida cruel, que sempre me perseguiu. Pois descubro nesta entrevista com Francisco Luís Parreira não ser o único. Ele acaba de traduzir Gilgamesh e acaba falando do assunto - no caso, quando lhe perguntam sobre a tradução de Frederico Lourenço.

Aqui, um trecho:

Contrariando uma tendência de anos recentes, exemplificável com algumas traduções de Homero feitas por Frederico Lourenço, optou por uma tradução e por uma edição ostensivamente eruditas. Porquê?

Não creio que uma edição do Gilgameš pudesse caber nessa tendência. Seria quase afrontoso publicar o poema babilónico sem dar resposta às perplexidades ou apetências – pelo menos às mais previsíveis – que a sua leitura está destinada a suscitar, nomeadamente em vista do seu estado de conservação, dos aspectos interpretativos que são internos às possibilidades da leitura contemporânea, e da situação literária e produtiva de que emana, que não podia ser mais remota. Para a Odisseia, por exemplo, estas circunstâncias são de menor ou nula relevância; o protocolo de leitura está mais ou menos interiorizado e o escrutínio a que esse texto foi submetido isenta os seus tradutores de recapitulações exaustivas.

Mas permita-me que conteste a sua ideia de uma tendência recente, tal como a descreve. Estou inclinado a supor que essa tendência pertence mais ao foco mediático do que aos factos. Acabei de ler, por exemplo, uma edição recente, da Gulbenkian, dos Textos da Literatura Egípcia do Imperio Médio, da autoria de Telo Ferreira Canhão, e recordo como exemplo de como ler e editar um texto a edição dos professores Mário Jorge de Carvalho e Nuno Ferro do maravilhoso texto de Kierkegaard, Adquirir a sua Alma na Paciência, na Assírio & Alvim.

São traduções eruditas, no sentido que invoca, e relativamente recentes; apesar de extraordinárias, e de se aprender mais com elas do que com um trimestre inteiro de edição industrial, creio que nenhuma delas mereceu qualquer menção na crítica impressa. Espero entretanto que a tendência de que fala não resulte na depreciação do que é “erudito”. Embora não tenha um amor excessivo a essa palavra, assinalo que certos textos, para se revelarem, precisam de uma conversa prévia ou periférica e de alguém que se coloque em situação de iniciá-la. Eu, por exemplo, ainda hoje não sei que canção cantaram as sereias a Ulisses e bem gostaria que houvesse alguém a dizer-mo.

O túmulo de Lenin, de David Remnick


Na esteira do centenário da Revolução Russa, a Companhia das Letras lança o livro do jornalista americano David Remnick, hoje na New Yorker e testemunho dos últimos dias do império soviético como correspondente na Rússia do Washington Post.

O livro foi publicado nos EUA em 1993, ainda sem Putin no radar e com Yeltsin como presidente. Por outro lado, lê-lo alguns meses depois de ter me dedicado ao Fim do Homem Soviético, da Nobel Svetlana Aleksievitch não prejudica em nada, pelo contrário: permite uma visão bastante ampla. São visões complementares. Aleksievitch se dedica, principalmente, às pessoas comuns, escrevendo, ainda, na condição de uma cidadão soviética/bielorrussa,

Já Remnick, correspondente internacional, não apenas tinha acesso aos grandes nomes como um senso de urgência em conseguir entrevistas. No início do livro, por exemplo, conta das tentativas para entrevistar Lasar Kaganovich.

O mais interessante é o fato de o autor ter vivido a abertura do regime - os arquivos que eram abertos, as pessoas que começaram a contar suas histórias, as prisões e os gulags - se você já leu os contos de Kolimá, de Varlan Chálamov, vai certamente se interessar; a constatação de que Lênin só não foi pior que Stalin por ter morrido relativamente cedo; a libertação de Sakarov (alguém com menos de 45 anos ainda se lembra dele?); a volta de Soljenitzin (idem) etc.

Gorbachov, por outro lado, não é merecedor de admiração por parte do autor, que definitivamente não se contaminou com o clima que atingiu boa parte do ocidente na época - "Gorby" quase virou popstar. Remnick reconhece sua importância histórica e os primeiros anos do seu governo, mas apresenta-nos um sujeito dúbio, rancoroso, vaidoso e de uma autoconfiança que quase o derrubou. Nitidamente, Yeltsin sai bem melhor depois dessas mais de 700 páginas.

Seu papel no massacre na Lituânia em 1991 é exposto sem condescendência, assim como suas tentativas de compor ("controlar") a ala mais conservadora do PCUS - uma jogada fracassada, como ficaria claro em agosto de 1991.

E como Gorbachov conseguiu fazer o que fez? Na verdade, diz um dos personagens, todos, desde Kruschev e indo até Andropov, começavam com um discurso mais radical, que era devidamente domesticado pelo sistema nos anos subsequentes. O partido tolerava esse discurso, achava-o saudável e até mesmo necessário. Mas, a partir de 1985, a coisa realmente degringolou. O sistema econômico já estava completamente inviabilizado.

Com relação à tentativa de golpe de agosto de 1991, a narrativa é quase um "em tempo real" dos acontecimentos. Um parágrafo resume toda a história:

Os conspiradores haviam desencadeado o putsch para salvar o Império soviético e suas posições nele. Seu fracasso foi o golpe de misericórdão. Nenhum movimento de independência no Báltico, nenhum liberal russo, ninguém até então tinha feito tanto para levar a coisa toda a ruir. E agora Yazov, pelo menos, parecia saber disso. "Tudo está claro agora", disse ele ao ser colocando num camburão com barras na janela. "Sou um velho idiota mesmo. Fiz uma grande cagada".

Agora não havia mais volta. E o autor mostra como a transição foi abrupta: Moscou, agora, pouco mais de um anos depois do golpe, tinha se transformado numa fantasmagoria, um mundo pós-comunista pintado por Hieronymus Bosch. Os moscovitas mais jovens, em especial, pareciam determinados a mergulhar de cabeça num mundo vulgar, bizarro e aprazível de capitalismo primitivo. Numa virada típica da história russa, a nova economia tinha saltado de um estágio de desenvolvimento ao estágio seguinte, passando rapidamente da completa carência para a permissividade, nunca parando para resolver os problemas prosaicos de subsistência, estrutura e propriedade.

Talvez a melhor descrição da mudança vivida pelos russos nos anos 1990.

O livro rendeu a Remnick, com justiça, o Pulitzer de 1994. Imperdível.