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Mostrando postagens com o rótulo Milan Kundera

O romance e a paternidade, segundo Kundera

Foi relendo Cem anos de solidão que me veio uma ideia estranha: os protagonistas dos grandes romances não têm filhos. Apenas 1% da população não tem filhos, mas pelo menos 50% dos grandes personagens romanescos deixam o romance sem procriar. Nem Pantagruel, nem Panurge, nem Dom Quixote têm descendência. Nem Valmont, nem a marquesa de Merteuil, nem a virtuosa presidente das Ligações perigosas. Nem Tom Jones, o mais célebre herói de Fielding. Nem Werther. Nenhum dos protagonistas de Stendhal tem filhos; o mesmo ocorre com os de Balzac; e de Dostoievski; e no século recentemente terminado, Marcel, o narrador de Em busca do tempo perdido, e, claro, todos os grandes personagens de Musil, Ulrich, sua irmã Ágata, Walter, sua mulher Clarisse e Diotime; e Chveik; e os protagonistas de Kafka, com exceção do jovem Karl Rossmann, que engravidou uma empregada, mas é precisamente por isso, para apagar a criança de sua vida, que ele foge para a América e que o romance pode nascer. Essa infertilidade...

Uma conexão barroca

Falávamos então do espantoso parentesco entre a sua América Latina e a minha pequena Europa Central, as duas partes do mundo igualmente marcadas pela memória histórica do barroco que torna um escritor hipersensível à sedução da imaginação fantástica, feérica, onírica, E o outro ponto comum: nossas duas partes do mundo desempenharam um papel decisivo na evolução do romance do século XX, do romance moderno, digamos, pós-proustiano: de início, durante os anos 1910, 1920, 1930, graças à plêiade de grandes romancistas da minha parte da Europa: Kafka, Musil, Broch, Gombrowicz (...) depois, durante os anos 1950, 1960, 1970, graças a uma outra grande plêiade que, em sua parte do mundo, continuava a transformar a estética do romance: Juan Rulfo, Carpentier, Sabato, depois você e seus amigos... Milan Kundera - O Arquirromance, carta aberta pelo aniversário de Carlos Fuentes. In: Um Encontro: ensaios, traduzido por Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Companhia das Letras, 2013