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Mostrando postagens com o rótulo John Banville

O Mar, de John Banville

Eles partiram, os deuses, no dia da maré estranha. A manhã inteira sob um céu leitoso as águas da baía tinham subido mais e mais, atingindo alturas inauditas, pequenas ondas rastejando sobre a areia crestada que havia anos só era umedecida pela chuva e chegando a lamber as bases das dunas. O casco enferrujado do cargueiro encalhado na entrada da baía em algum momento fora do acance da memória de qualquer um de nós deve ter achado que lhe concediam a oportunidade de um relançamento. Eu nunca mais tornaria a nadar, depois desse dia. As aves marinhas vagiam e mergulhavam, em nada afetadas, ao que parece, pelo espetáculo daquela vasta bacia de água que inchava como uma bolha, de um azul de chumbo e com um fulgor maléfico. Pareciam anormalmente brancas, naquele dia, essas aves. As ondas depositavam na areia uma franja de espuma impura e amarela. Vela alguma desfigurava o horizonte alto. Não voltei a nadar, não, nunca mais. Com considerável atraso, li na última semana O Mar,  na edição d...

John Banville recebe o Asturias

O escritor irlandês John Banville recebeu o 34º Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras 2014. Superou nomes como Ian McEwan e Murakami. A prosa de John Banville abre-se em deslumbrantes espaços líricos através de referências culturais onde os mitos clássicos são revitalizados e a beleza anda junto com a ironia. Ao mesmo tempo, mostra uma análise intensa de complexos seres humanos que nos prendem em sua descida à escuridão da vilania ou em sua fraternidade existencial. Cada criação sua atrai e deleita pela maestria no desenvolvimento da trama e no domínio dos registros e matizes expressivos, e por sua reflexão sobre os segredos do coração humano. Curiosamente, com a abdicação de Juan Carlos, sobe ao trono o atual Príncipe, Felipe VI. E quem entregará, então, o prêmio? Em princípio, sua filha, Leonor, de oito anos...

Luz Antiga, de John Banville

Luz Antiga John Banville Tradução: Sergio Flaksman Biblioteca Azul, 2013 336 p O que me lembro dela, aqui nesses dias pálidos e suaves de passagem do ano? Imagens do passado distante se aglomeram na minha cabeça, e quase nunca sei dizer se são memórias ou invenções. Não que existia muita diferença entre as duas, se é que existe qualquer diferença. Há quem diga que, sem percebermos, vamos inventando tudo à medida que avançamos, com bordados e enfeites, e me inclino a concordar, pois a Senhora Memória é muito dissimulada e sutil. página 12.  Lançado na FLIP, o novo romance de John Banville (1945), figurinha fácil nas listas anuais de candidatos ao Nobel, trata da memória. Alexander Cleave é um velho ator que narra a sua história - dividida entre um caso com a mãe de seu melhor amigo, há mais de 50 anos, quando era um garoto de 15, e o suicídio de Cass, sua filha. No momento, é convidado para fazer um filme, representando o famoso crítico Axel Vander. O roteiro é de ...

Os Infinitos, de John Banville

Os Infinitos John Banville Tradução de Maria Helena Rouanet Nova Fronteira, 2011 276 p. De todas as coisas que criamos para reconfortá-los, a aurora é uma das que deram mais certo. Quando a escuridão se dissipa no ar como poeira fina e a luz vai se espalhando lentamente a partir do Leste, todos os humanos, a não ser os mais infelizes, se reanimam. Essa ínfima ressurreição diária é um espetáculo que nós, imortais, adoramos. Muitas vezes nos reunimos na borda das nuvens e ficamos olhando para eles, para os nossos pequeninos, vendo-os despertar para saudar o novo dia. John Banville estará na FLIP; dividirá mesa com Lydia Davis. Ainda não li seu romance mais conhecido, O Mar, que lhe rendeu o Booker Prize; este Os Infinitos é minha primeira incursão banvilliana. Adam (Adão?) Godley (God?), famoso matemático, está moribundo em sua cama, depois de ter sofrido um derrame. Á sua volta, o filho (também Adam) com sua mulher, Helen; a filha mais nova Petra e seu namora...