quinta-feira, 13 de junho de 2013

Os Infinitos, de John Banville

Os Infinitos
John Banville
Tradução de Maria Helena Rouanet
Nova Fronteira, 2011
276 p.


De todas as coisas que criamos para reconfortá-los, a aurora é uma das que deram mais certo. Quando a escuridão se dissipa no ar como poeira fina e a luz vai se espalhando lentamente a partir do Leste, todos os humanos, a não ser os mais infelizes, se reanimam. Essa ínfima ressurreição diária é um espetáculo que nós, imortais, adoramos. Muitas vezes nos reunimos na borda das nuvens e ficamos olhando para eles, para os nossos pequeninos, vendo-os despertar para saudar o novo dia.

John Banville estará na FLIP; dividirá mesa com Lydia Davis. Ainda não li seu romance mais conhecido, O Mar, que lhe rendeu o Booker Prize; este Os Infinitos é minha primeira incursão banvilliana.

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Adam (Adão?) Godley (God?), famoso matemático, está moribundo em sua cama, depois de ter sofrido um derrame. Á sua volta, o filho (também Adam) com sua mulher, Helen; a filha mais nova Petra e seu namorado, Roddy Wagstaff; a esposa Ursula. Petra idolatra o pai; Roddy está com Petra porque, no fundo, quer escrever a biografia do grande matemático.

Pois sou Hermes, filho do velho Zeus e de Maia, a ninfa das cavernas.

Não diga!, dizem vocês.

Compreendo o seu ceticismo. Por que, em tempos como os de hoje, os deuses voltariam a circular entre os homens? Acontece que nunca nos afastamos - vocês simplesmente deixaram de nos parecer divertidos.

Quem nos conta a história é  o deus mensageiro. É ele quem nos conta os detalhes das vidas dos humanos, enquanto seu pai - Zeus, ora - visita Helen no corpo de Adam filho. Hermes deve ter tido um trabalho daqueles, pois teve que atrasar a aurora em uma hora. Aparece também um sujeito com pés de bode. É Pan, que salvo engano meu, é filho de Hermes (mas que não o trata como filho, em momento algum, aqui no romance).

Por que os deuses estão tão interessados neste Adão? Não fica muito claro. Talvez pelo fato de ele ter provado a existência de múltiplos universos, em constante colisão; uma série infinita de mundos.

O mais interessante, aqui, não é propriamente o enredo. A grande sacada está nos narradores - Hermes e Adam pai. Banville mostra ser um grande prosador, e são diversos os grandes momentos de seu texto. Adam, mesmo em coma, está bem informado a respeito do que o cerca e o que o espera. 

A partir do último terço do romance, alguma coisa se perde e a leitura fica um pouco cansativa - mas o leitor é recompensado com o interessante desfecho.

Banville, que é sempre lembrado para o Nobel, disse em entrevista ao jornal O Globo do dia 11 deste mês: os gregos antigos eram gênios extraordinários, que inventaram um sistema que colocava na conta dos deuses tudo o que acontecia com a gente. Tudo mesmo, qualquer fenômeno, era influência dos deuses. Não importa se era racional, mas era uma visão poética da realidade. Hoje, nós vivemos num mundo que separa completamente o paraíso do inferno. É um desastre.

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