quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A história do amor (2016), de Radu Mihaileanu




Não sei se já passou nos cinemas daqui, mas consegui assistir na TV a cabo a mais um trabalho do excelente Radu Mihaileanu (Trem da Vida, O Concerto, A fonte das mulheres). Este A história do amor é uma adaptação do romance da norte-americana Nicole Krauss e tem como protagonista Derek Jacobi, que interpreta Leo Gursky. 

Leo deixou sua pequena vila na Europa com a chegada dos nazistas. Alma Mereminski (Gemma Arterton), sua amada, já tinha feito as malas antes. Os dois fizeram juras de amor eterno e de troca de cartas mas, por alguma razão, as cartas de Leo nunca chegaram a Alma. Leo quer ser escritor, e avisa que irá escrever sobre aquilo que mais entende: Alma. Seria o romance A história do amor.

Décadas depois, Leo é um idoso que vive em Chinatown, num apartamento microscópico, com o amigo Bruno Leibovitch (Elliot Gould). Passa os dias sacaneando a atendente do café, uma jovem alemã, entornando café (Leo não gosta de alemães), ou posando nu numa escola de pintura - quer alguma atenção. 

Paralelamente a essa história, temos outra Alma (Sophie Nélisse), uma adolescente solitária que vive no Brooklyn, determinada a arrumar alguém para sua mãe, Charlotte (Torri Higginson), leitora fã do livro A história do amor, escrito por... Zvi Litvinoff (Claudiu Maier), a ponto de dar o nome da personagem principal à sua filha.

O irmão dessa jovem Alma, Bird (William Ainscough) é uma figura à parte: acredita ser um Lamed Vovnik, um dos homens justos que sustentam o mundo... 

Mas, voltemos a Zvi, improvável autor d'A história do amor.

Na juventude, Leo, Bruno e Zvi formavam um trio que disputava as atenções de Alma. O livro, na verdade, fora escrito por Leo, que o enviou a Alma Mereminsky. Como chegou a Zvi? O que aconteceu com o manuscrito?

Há quem tenha visto no filme uma bela história mas, parando para pensar, e evitando aqui qualquer coisa parecida com spoiler (obviamente para quem, como eu, não leu o romance), como uma pessoa pode ter sequestrado toda (toda mesmo) a vida de outro; uma apropriação por completo - carreira, fama, mulher (mesmo não tendo se casado com Alma). Como nos outros filmes de Radu Mihaileanu, a recomendação é sempre positiva: assista.


Cinco Esquinas, de Mario Vargas Llosa

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Em 1990, o candidato  Vargas Llosa é derrotado por Alberto Fujimori, que se torna, então, Presidente do Peru. Azar do Peru, uma vez que sabemos o que aconteceu a partir de então. E sorte de Vargas Llosa, que passa a se dedicar integralmente à literatura. Em 2010, recebe o Nobel. Em 2010, Fujimori já se encontrava condenado a uma infinidade de anos de prisão...

Mas os anos Fujimori tinham de, em algum momento, ser trabalhados por Vargas Llosa, que o fez agora, com Cinco Esquinas (editora Alfaguara, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, 213 páginas). Como dito pelo próprio autor, trata-se de um romance que aborda vários aspectos do regime que durou de 1990 a 2000, com seus toques de recolher, medo de atentados, mas também o uso, pelo governo, de jornais sensacionalistas para destruir reputações de opositores ou de qualquer um que não cedesse aos seus achaques (tema, aliás, já tratado em seu ensaio A civilização do espetáculo, que não li).

E aqui entram os dois casais da história, Marisa e Enrique (Quique) Cárdenas, engenheiro de sucesso, e Chabela e Luciano, grande advogado. O livro abre com uma noite em que as mulheres passam juntas (na conversa, perdeu-se a hora de ir embora e o toque de recolher as obrigou a compartilhar não apenas o mesmo apartamento como também a mesma cama). Os maridos não desconfiam de nada. As mulheres se dedicam a Miami e às compras; os maridos se dedicam a enriquecer. 

E eis que o engenheiro Enrique se vê chantageado por uma figura estranha, que comanda um jornal da imprensa marrom. Uma foto tirada do respeitável pai de família Cárdenas numa orgia... Por trás disso, há uma figura ainda mais sinistra, o Doutor (que não é ninguém menos que Vladimir Montesinos, chefe do Serviço de Inteligência Nacional do período Fujimori). 

Um bom livro, que li num feriado. O sonho do celta foi mais interessante. E, agora, preparo fôlego para Guerra do fim do mundo. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov

Há quem considere O mestre e Margarida, do ucraniano soviético Mikhail Bulgákov (  -  ) o melhor romance russo do século XX. Acabo de lê-lo, na edição de 2010 da Alfaguara, traduzida do russo por Zóia Prestes. Agora, terminada a leitura, descubro que a 34 vai lançar uma outra tradução, do Irineu Franco Perpétuo.

A história de Woland (o Diabo) e seu séquito, composto por um gato preto (Behemoth), um sujeito com pince-nez (Koroviev), um caolho (Azazello) e uma ruiva nua (Hella) que aparecem na Moscou stalinista de 1929 (o diabo nunca esteve tão à vontade como quando passou por lá) é objeto de culto em várias parte do mundo. A ponto de o apartamento do autor, onde se passa a história, ser objeto de peregrinação e culto até hoje. A história também acompanha o julgamento de Jesus por Pôncio Pilatos.

Moscou se torna uma cidade insegura com a chegada de Woland. O primeiro a sofrer é Berlioz, presidente de uma associação de escritores (uma associação do regime, diga-se), decapitado por um trem em circunstâncias no mínimo estranhas... Os escritores oficiais, diga-se, passam o tempo em picuinhas. O que menos fazem é... escrever...


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Elena Gracheva, Rússia, 2015

Uma forma interessante de ler o livro é aproveitar os diversos sites que se dedicam a identificar os locais por onde a história se desenvolve. 


Outro: uma coleção com 75 capas do romance, que podem ser vistas aqui.

O livro foi escrito na década de 1930, no auge do terror stalinista; teve seus originais queimados pelo próprio autor e só foi publicado muito após a sua morte, em 1966.

Um dos livros mais divertidos que já li e que influenciou escritores como Salman Rushdie (Versos Satânicos) e até mesmo músicos como Franz Ferdinand (seu Love and Destroy é baseado no vôo de Margarida). 






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sábado, 7 de outubro de 2017

Churchill, de Jonathan Teplitzky (2017)


Acabo de assistir ao filme de Teplitzky. É o primeiro dos dois filmes sobre Churchill que chegam ao Brasil. Este aqui é interpretado por Brian Cox. Na verdade, o mais esperado, e provavelmente melhor, é o interpretado pelo Gary Oldman, que só deve chegar por aqui pelo final de novembro.

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Este é um filme mais, digamos, psicológico: apresenta um Churchill temeroso com a Operação Overlord (Dia D), atormentado pela sua responsabilidade pelo desastre de Gallipoli (em 1915, quando 250 mil soldados ingleses e australianos foram dizimados num ataque frontal ao Império Otomano). Aparecem alguns personagens importantes, como Clementine, sua mulher, o Rei, Montgomery e Eisenhover, mas não desenvolve muito o ambiente histórico.

Sim, é um bom filme, mas se parece muito (e vários críticos apontaram para esse detalhe) com uma peça de teatro. E Churchill, apesar de tudo, aparece aqui muito mais como um sujeito já meio incapacitado para conduzir a guerra. 

Espero ainda mais ansioso pelo filme de Gary Oldman.

Kazuo Ishiguro

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E eis que, desta vez, a Academia escolheu um escritor de literatura para o Nobel. Kazuo Ishiguro, autor de Vestígios do dia (não li, mas vi o excelente filme de 1993 com Emma Thompson, Anthony Hopkins, Christopher Reeves e Hugh Grant).

Segundo Vargas LLosa, é um


"escritor magnífico, de clara raiz japonesa, ainda que perfeitamente integrado tanto na literatura inglesa como na sociedade britânica. Um exemplo perfeito dessa integração é Os Vestígios do Dia, romance no qual, com grande delicadeza, aborda os rituais da aristocracia britânica, vista com enorme sutileza e espírito crítico por um mordomo dotado de grande perspicácia. É uma delícia de novela, que introduz o leitor nesse mundo inglês com grande destreza narrativa" (trecho de seu artigo publicado no El País, e que pode ser lido, em português, aqui.