Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Gonçalo Tavares

Conto da semana, de Gonçalo Tavares

Já não eram necessários verbos, tudo estava claro entre os dois. O senhor Cortázar entregou o casaco que o fiscal de novo guardou na sua mala. O mesmo se passou com as calças, a camisa, a carteira; enfim, tudo. Gonçalo Tavares virou um dos autores mais presentes por aqui.  A Última Fiscalização  aparece no site da Revista Pessoa. Aqui, um encontro entre o senhor Cortázar e o fiscal - o inspetor fiscal lá em Portugal. E, de fato, há de se reconhecer que fiscais e advogados não são as categorias mais queridas dos escritores.

Conto da semana, de Gonçalo Tavares

O homem mal-educado O mal-educado não tirava o chapéu em nenhuma situação. Nem às senhoras quando passavam, nem em reuniões importantes, nem quando entrava na igreja. Aos poucos a população começou a ganhar repulsa pela indelicadeza desse homem, e com os anos esta agressividade cresceu até chegar ao extremo: o homem foi condenado à guilhotina. No dia em questão colocou a cabeça no cepo, sempre, e orgulhosamente, com o chapéu. Todos aguardavam. A lâmina da guilhotina caiu e a cabeça rolou. O chapéu, mesmo assim, permaneceu na cabeça. Aproximaram-se, então, para finalmente arrancarem o chapéu àquele mal-educado. Mas não conseguiram. Não era um chapéu, era a própria cabeça que tinha um formato estranho.

Série O Bairro, de Gonçalo Tavares

A série O Bairro já vem sendo publicada no Brasil, se não me engano, pela Casa da Palavra. Mas na feira do livro em Lisboa não resisti à caixa com cinco volumes da Editorial Caminho - e no retorno, me dediquei aos senhores Calvino, Brecht, Eliot, Swendenborg e Walser. A edição é ilustrada por Rachel Caiano. O bairro criado por Gonçalo Tavares está em constante expansão; parece viver um boom imobiliário, tal a profusão de novos apartamentos e moradores que para lá se mudaram ou marcaram a mudança...  Interessante que o mapa do bairro mostra uma casa isolada de tudo e de todos, justamente a do senhor Walser que, coitado, tinha grandes expectativas em sua nova morada, longe da aglomeração. Robert Walser procurou ocultar-se por toda a vida numa floresta - passou quase que seus últimos trinta anos num manicômio. Mas o senhor Walser não terá muito sucesso, já que a cada momento entra em sua casa, tão esmeradamente planejada, alguém para consertar algo. Quando fechav...

Conto da semana, de Gonçalo Tavares

Na feira do livro na estação do metrô do Oriente, uma caixa com livros da série O Bairro, de Gonçalo Tavares. Um preço inacreditável.  Eis uma história que é contada pelo senhor Brecht, sobre O desempregado com filhos: Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão. Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou. Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego. Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão que te resta. Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou. Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego. Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a cabeça. Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.

Conto da Semana,de Gonçalo Tavares

Gonçalo Tavares é, sem dúvida, o mais prolífico dos grandes novos autores portugueses. Descobri esse pequeno conto - O País Ingênuo - na antologia BEF 2011. Como é muito esquisito - além de ridículo - ler autor português traduzido em inglês, procurei pela versão original. Achei-a no site da antiga e, infelizmente finada, Revista Entrelivros. A tristeza era tanta que os sorrisos passaram a ser pagos. Alguns funcionários do Estado, disfarçados, diluídos na multidão das cidades, observavam os poucos cidadãos sorridentes que passavam, e, discretamente, mandavam-nos parar. Apresentavam-se: Funcionários do Estado!, diziam, e pediam depois a identificação do sorridente. Registavam nome e morada. Ao fim do mês, os referidos cidadãos recebiam o cheque. Durante o mês de fevereiro foi visto três vezes a sorrir na rua – estava escrito – com data e hora - no pequeno documento que acompanhava o dinheiro. A quantia dada por cada sorriso não era uma fortuna, mas digamos que ser ...

Conto da semana, de Gonçalo Tavares

Gonçalo Tavares (1970) é um dos grandes nomes da literatura portuguesa contemporânea. Li e recomendo Um Homem: Klaus Klump e A Máquina de Joseph Walser. ambos publicados pela Companhia das Letras. Saramago dizia que não se podia permitir que alguém escrevesse tão bem com (então) 35 anos. Nestes dois romances, há algo que lembra a escrita de Kafka. O conto da semana, no entanto, integra O Senhor Calvino , publicado pela Casa da Palavra, 2007. E este Senhor Calvino "devorava" as palavras; de tanto comê-las, acabou com uma "irrupção alfabética". O Senhor Calvino, com um guardanapo, limpava, cuidadoso, os restos de letras que ainda permaneciam à volta da sua boca, mas por vezes uma ou outra escapava. Depois daquele almoço, por exemplo, um A ali ficara, teimoso, no lado direito do queixo. Calvino, olhando-se agora ao espelho, não pôde deixar de admirar a capacidade de resistência daquela letra aos anteriores enérgicos movimentos do seu guardanapo, e observav...