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Mostrando postagens com o rótulo Literatura: Argentina

Fractura, de Andrés Neuman

Un terremoto fractura el presente, quiebra la perspectiva, remueve las placas de la memoria. Andrés Neuman (1977), argentino que vive na Espanha, já esteve aqui com O viajante do século. Agora, volta ao longo romance com Fractura .  O senhor Watanabe é, digamos, uma vítima da História: criança, estava com seu pai em Hiroshima quando caiu a primeira bomba atômica. Seu pai morreu na hora; ele sobreviveu. Tenta voltar para casa mas perde o ônibus. Sorte sua - não está em Nagasaki quando caiu a segunda bomba atômica, que pulverizou sua família. Agora, 66 anos depois, o velho Watanabe, depois de ter conhecido o mundo, está de volta ao Japão quando, numa espécie de hat trick macabro, acontece o acidente de Fukushima (depois de um terremoto e um tsunami). A vida de Yoshie Watanabe é contada por quatro mulheres a um jornalista, Jorge Pinedo. Da primeira, que o conheceu na Paris dos anos 60 até a última, vemos uma história de uma pessoa comum - se é que um sobrevivente nuclear pode ser cons...

Com Borges, de Alberto Manguel

Com Borges Alberto Manguel Traduzido por Priscila Catão Editora Âyiné, 2018 Abro caminho com os ombros no meio da multidão na Calle Florida, entro na recém-construída Galeria del Este, saio pelo outro lado e atravesso a Calle Maipú e, encostando-me na fachada de mármore vermelho do número 994, pressiono o botão do 6B. Entro no hall frio do prédio e subo os seis andares de escada. Toco a campainha e a empregada abre a porta, mas, antes que ela me deixe entrar, Borges sai de trás de uma cortina, com a postura bastante ereta, terno cinza abotoado, camisa branca e gravata amarela listrada levemente torta, arrastando-se um pouco ao se aproximar. Cego desde quando havia quase sessenta anos, ele se move hesitante mesmo num espaço que conhece tão bem quanto o seu. Estende a mão direita e me dá as boas-vindas com um aperto distraído e fraco. Não há mais formalidades. Ele se vira e me guia até a sala de estar, sentando-se ereto no sofá virado para a entrada. Eu me acomodo na poltro...

Borges, anarquista conservador

É como o próprio Borges se definiu, numa curiosa entrevista a um garoto que precisava fazer um trabalho escolar. A entrevista saiu na edição brasileira do El País. Um trecho: Como o senhor imagina o futuro da Argentina? Quero pensar que já terei morrido, mas acredito que vamos ladeira abaixo. Eu já não tenho esperança. Vocês são jovens, talvez tenham esperanças. Eu já não tenho nenhuma. Muitas declarações suas geram polêmica, e há quem acredite que o senhor procura justamente esse efeito... Claro que não! Quem pensa isso não me conhece em nada. Para terminar, o senhor gostaria de nos deixar algum conselho ou mensagem? Eu não soube administrar minha vida, então não posso dirigir a vida dos outros. Minha vida foi uma série de equívocos. Não posso dar conselhos. Ando um pouco à deriva. Quando penso no meu passado, sinto vergonha. Eu não transmito mensagens, os políticos transmitem mensagens.

A invenção de Morel por US$ 40 mil

Na matéria publicada pelo  Clarín , de Buenos Aires, a arrematação do original, datilografado e com correções à mão pelo autor, de A invenção de Morel.  O livro de Bioy Casares, diz o texto, teve um percurso curioso: o escritor americano Donald Yates, tradutor do primeiro livro de contos de Borges para o inglês, por volta de 1962, conta que Bioy o deu de presente a Borges que, por sua vez, deu-o ao tradutor. Anos depois, em uma visita a Buenos Aires, Yates pediu ao próprio Bio que autografasse e lhe dedicasse o exemplar. Segundo Daniel Martino, a inspiração de Bio Casares não foi A ilha do Dr. Moreau , mas sim, Julio Verne - no original, Morel se chama Guerin, e Faustine, Honorine, "como a esposa de Julio Verne".

Pequeno Larousse Ilustrado

Tantas cosas ya se han ido al cielo del olvido, pero tú sigues siempre a mi lado, Pequeño Larousse Ilustrado. Cuántas veces me abriste la puerta pra ir jugar en voz baja a una isla desierta por un mar dibujado en el mar. Todavía eres el embeleco de una infancia que tiene tu edad y palabras, en vez de muñecos, asesina su curiosidad. Universo de la miniatura y aljibe total donde sigo pescando figuras, y no temo llegar ao final. Tú me ayudas con buenos consejos a hacer versos por casualidad y me asombras igual que el espejo con la fábula de la verdad. María Elena Walsh (1930-2011), Vals del diccionario (Valsa do dicionário)

Alguns barbarismos

Do livro Barbarismos, de Andrés Neuman. Algumas são ótimas: Bandeira: farrapo de baixo custo e alto preço. Santo: indivíduo tocado por um dom divino de eleger seus biógrafos. Urna: 1.   recipiente que contém os restos de um indivíduo. 2. nas eleições, idem. Xenófobo: indivíduo que despreza seus próprios antepassados.

Os Lemmings e outros, de Fabián Casas

Desde que comecei a publicar, as pessoas me perguntam: "Isto é autobiográfico, não é?" Ou: "O personagem é você, não é?" De modo que vou começar dizendo que tudo o que se vai narrar aqui é absolutamente verídico. Aconteceu realmente como vou contar.  (conto: Casa com dez pinheiros) Dizer que Buenos Aires é uma cidade literária é de um irritante lugar-comum. Mas o que dizer de um bairro? Sim, porque, no final das contas, na maioria das vezes os escritores se dedicam a um ou outro bairro. Borges dedica-se a Palermo Viejo, onde viveu quando criança  - e que está presente em  A fundação mítica de Buenos Aires  e em  Evaristo Carriego  (o primeiro texto,  Palermo de Buenos Aires ). Borges fez parte do chamado Grupo de Florida, que nos anos 20 e 30 do século passado se reunia em torno do Café Tortoni e da Revista Martín Fierro. Estavam antenados nas vanguardas europeias e foram associados às classes mais altas da sociedade argentina. Hoje qual...

Conto da semana, de Florencia Abbate

Sem querer polemizar... os argentinos estão com uma safra incrível em literatura e cinema. O conto da semana vai novamente para o sul, e encontra Florencia Abbate (1976). Seu Uma pequena luz  integra a antologia Os outros - narrativa argentina contemporânea , organizada por Luis Gusmán e editada pela Iluminuras. Hoje acordei tão cansada que não consegui me levantar da cama. Para tentar esquecer o pesadelo, me agarrei à leitura do livro que havia deixado no criado-mudo. Fiquei pior, Novalis... Não entendo os poetas que falam da doença como se ela fosse fascinante. estar doente é algo vulgar e bastante repulsivo. O que mais me horroriza é que a vida se torne tão minimalista, que vá se reduzindo a minúcias como não esquecer de tomar os remédios na hora certa, ou estar contente só por ter conseguido caminhar da minha casa até o hospital sem sentir dor ou fadiga. A narradora descobriu estar com leucemia. Agora está em casa. Horacio não pode visitá-la - a região em que mora es...

Juan Gelman (1930-2014) - o askenazi que escrevia poemas em ladino

Juan Gelman faleceu dia 14 na Cidade do México. Um dos grandes nomes da poesia argentina, foi militante comunista e mais tarde montonero - o que lhe rendeu pendenga judicial no início da redemocratização em 1983 e um exílio no México. Escritores de diferentes matizes ideológicos como Gabriel Garcia Márquez e Vargas Llosa se manifestaram a seu favor. Seu filho foi assassinado pela ditadura; seu neto somente foi identificado muitos anos depois. Gelman escreveu também em ladino (!) O poema abaixo faz parte do volume bilíngue Dibaxu , publicado em 1994 na Argentina e em 2010 no Brasil. Foi retirado do site  www.juangelman.net . X. não tens porta/ chave/ não tens fechadura/ voas de dia/ voas de noite/ o amado cria o que se amará/ como tu/ chave/ tremendo na porta do tempo/  - no tenis puarta/ yave/ no tenis sirradura/ volas di nochi/ volas didia/ lu amadu cría lu qui si amará/ como vos/ yave/ timblandu nila puarta dil tiempu ...

Andrés Neuman é o próprio Viajante do Tempo

O Viajante do Tempo Andrés Neuman Tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro Alfaguara, 2011 454 p. Provavelmente encerrei 2013 com um grande livro. Andrés Neuman (1977), argentino que vive em Granada, Espanha, imagina uma cidade, Wandernburgo, situada entre a Prússia e a Saxônia e cujas ruas se movem durante as noites. O livro que acabo de ler foi editado no Brasil em 2011 mas escrito entre 2003 e 2008, ou seja, quando seu autor tinha entre 26 e 31 anos, o que apenas demonstra o meu fracasso... Numa gélida noite de inverno, Hans chega à cidade, em busca, apenas, de um quarto, para prosseguir sua viagem no dia seguinte. Acaba ficando. Não consegue deixá-la. Conhece o realejeiro e uma série de personagens da sociedade local - sua verdadeira razão acaba sendo Sophie Gottlieb, filha de um sólido comerciante da cidade.  O romance se passa em meados do século XIX. Neuman consegue, sem forçar a barra ou cair em didatismos estéreis para um livro de ficção, pas...