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Mostrando postagens com o rótulo Literatura: Itália

Boccaccio em 2020

A ideia era retomar o blog em outro formato e com outros objetivos, a partir de eventos que, neste momento, em meio à crise mundial do Coronavírus, foram postergados, sem previsão de data. Vamos, então, para um modelo 2.0, esperando que, no futuro próximo, o projeto consiga seguir adiante. No dia 17 de março iniciei meu isolamento, na indecente esperança de conseguir colocar a leitura em dia. Idealizei, num primeiro momento, ler uma giornata por dia do Decameron . Mas, ao contrário dos dez jovens que passaram dez dias nos arredores de Florença, num palácio vazio, arrumado e com uma boa adega contando histórias uns para os outros durante a Peste Negra, acabei tragado pelo home office , descobrindo o quanto custa manter um apartamento minimamente habitável. Mas se não deu para traçar o livro em dez dias, deu para fazê-lo em pouco mais de quinze. Meu primeiro contato com Boccaccio foi aos quinze anos, através da antologia Mar de Histórias , organizada pelo Paulo Rónai...

27 de janeiro - um recado de Primo Levi

Em 27 de janeiro de 1945, o campo de Auschwitz era libertado pelos soviéticos. É isto um homem? (Primo Levi) Vocês que vivem seguros em suas cálidas casas, vocês que, voltando à noite, encontram comida quente e rostos amigos,                         pensem bem se isto é um homem                                         que trabalha no meio do barro,                        que não conhece paz,                         que luta por um pedaço de pão,                        que morre por um sim ou por um não.                        P ensem bem se isto é uma mulher,  ...

Dante por Ian Thomson

Artigo, em inglês, publicado no site da  Spectator , sobre o livro de Ian Thomson sobre a Divina Comédia . Dante, segundo ele, é o patrono dos perseguidos: Oscar Wilde tinha um exemplar do livro à mão, Primo Levi procurava se lembrar de seus versos enquanto lutava pela sobrevivência em Auschwitz, Osip Mandelstam só saía de casa com um exemplar no bolso. A autora do artigo, Frances Wilson, destaca a existência de cerca de 50 traduções desse monumento para o inglês. Mas, afinal, o que atrai um leitor do século XXI à leitura da Comédia ? Simples: The reason Dante still matters, Thomson argues, is not because readers today ‘fear damnation or are moved by the beauty of the Christian revelation, but because he wrote the story of an ordinary man — an Everyman — who sets out hopefully in this life in search of renewal’.

Navi in bottiglia, de Gabriele Romagnoli

Navi in bottiglia Gabriele Romagnoli Esse livro reúne 101 pequenos contos (em geral, uma página cada - trinta linhas) de Gabriele Romagnoli (Bologna, 1960), em geral situações aparentemente comuns mas que são levadas a um final abrupto e mesmo estranho. O primeiro livro italiano que leio no original (daí para Dante vai demorar um pouco...).  Alguns contos são realmente muito interessantes: Pepe, stazione dopo stazione , em que o personagem, passageiro em um trem, vai se desfazendo em cada estação, até se tornar uma ideia (esqueça a besteira que ouviu de um político brasileiro na última semana); Il sogno del mare de Ian , onde somos apresentados a um sonho recorrente; ou   Stupro e vendetta. Um dos melhores é Occhi di Paola (Olhos de Paola), que numa tradução apressada, por alguém que ainda está nos níveis intermediários da língua, seria mais ou menos assim: Não consegue dormir. Algo o atormenta. Mas não consegue entender o quê. O fato é que há du...

Umberto Eco (1932-2016)

O nome da rosa deu-lhe reconhecimento internacional. O filme, de 1986, foi dirigido por Jean-Jacques Annaud, e estrelado por Sean Connery. Dele estou lendo, muito ao poucos, História das terras e lugares lendários. Aqui, a espetacular biblioteca do autor:

Canto II - Paraíso

Leituras e releituras da Comédia de Dante. O início do Canto II, do Paraíso - aquele que quase ninguém lê pois, como já dizia Carpeaux, os leitores modernos só conhecem o Inferno... Aqui, Dante avisa aos desp re parad os que não o acompanhem . Na tradução de Ítalo Eugenio Mauro (Editora 34): Ó vós que em peque nina barca estais, e o lenho meu canta e vai, ans iados de podê-lo escutar, acompanh ais,  voltai aos vossos portos costumados, não vos meteis no mar em que, presumo, pe rdendo -me estar íeis extraviados. Ninguém singrou esta água q ue eu assumo; conduz-me Apolo e Minerva me inspira, e nove musas indicam -me o rum o .        No original, cl aro:   O voi che siete in piccioletta barca, desiderosi d'ascoltar, seguiti dietro al mio legno che cantando varca,   tornate a riveder li vostri liti: non vi mettete in pelago, ché forse, perdendo me, rimarreste smarriti.   L'acqua ch'io prendo già mai ...

Primo Levi

Matéria publicada na  Folha  sobre Primo Levi, o grande escritor o Holocausto. A Biblioteca Nacional promoverá, nos dias 27 a 29 de janeiro, evento para celebrar a obra do italiano - no 71º aniversário da libertação de Auschwitz. É isto um homem? foi recusado por diversas editoras - que afirmavam que o tema não despertaria o menor interesse no público.  O artigo também trata do mistério envolvendo sua morte, aparentemente suicídio. Há quem defenda a ideia de acidente. O fato é que ele foi encontrado morto após cair do terceiro andar do edifício em Turim onde viveu a maior parte da vida. Eternas discussões sobre seu estado de saúde, sua eventual depressão - que era anterior à guerra - e seus projetos para o futuro. Mas o que não se pode negar é a importância de sua obra. Ninguém chegou perto de Levi na tradução em palavras da experiência dos campos, em livros profundamente autobiográficos. Ao lado da obra-prima É isto um homem? , A Trégua também é de leitura...

Inédito de Antonio Tabucchi

Conto inacabado e inédito de Antonio Tabucchi, publicado no caderno Ipsilon, do jornal  Público, de Lisboa. E finalmente Setembro chegou. Naquela época as aulas acabavam em Julho, o tórrido mês de Agosto era para a  villegiatura , o Algarve não existia, quer dizer, existia geograficamente, mas ninguém lá ia, e aliás quem é que podia lá ir?, para lá chegar tinha de se passar o Tejo com o carro no barco, depois percorrer o Alentejo até encontrar uns caminhos perdidos que atravessavam a serra de Monchique, e então é que se chegava às praias do Algarve, lindas, onde não havia nada nem ninguém, uma ou outra aldeia de pescadores, umas cabanas de folhagem, desgarradas naqueles areais, os camponeses vendiam melões, figos e melancias, havia uns  hippies  vindos de Inglaterra, uns rapagões feios que dormiam em tendas e que giravam para fugir à Guarda Nacional Republicana, procuravam o paradise now e achavam que o tinham encontrado ali, por entre aquelas dunas agrestes...

Uma mensagem de Primo Levi neste 27 de janeiro

Há 70 anos o campo de Auschwitz era libertado pelos soviéticos. É isto um homem? (Primo Levi) Vocês que vivem seguros em suas cálidas casas, vocês que, voltando à noite, encontram comida quente e rostos amigos,                         pensem bem se isto é um homem                                         que trabalha no meio do barro,                        que não conhece paz,                         que luta por um pedaço de pão,                        que morre por um sim ou por um não.                        P ensem bem se isto é uma mulher,  ...

O leitor não conhece o Paraíso

O julgamento unânime dos leitores de todos os séculos concorda em um ponto: que a parte mais "interessante", mais humana, do Cosmo dantesco, é o "Inferno"; e nesta afirmação se esconde um dos julgamentos mais graves que já se pronunciaram contra a humanidade (...) A grande maioria dos leitores da Divina Comédia só conhece o "Inferno"; vence as dificuldades das alusões políticas e históricas, que tornam indispensável o comentário, para compreender os grandes episódios que criaram a glória do poema através dos séculos. Uma compreensão tão fragmentária do "Inferno" não sente escrúpulos, fragmentando o poema inteiro: o "Inferno", sim, seria um reflexo satírico - sátira trágica - do mundo real e por isso acessível à nossa sensibilidade: o "Purgatório" seria, apenas, repetição mais fraca do "Inferno", e o "Paraíso", enfim, uma abstração, teologia escolástica em versos; para a grande maioria dos leitores o "...

Um fato expressivo

Os românticos julgavam a poesia baseando-se no conceito que tinham de poesia realista, a única que consideravam digna de se chamar poesia. Mas não é assim. A poesia não é um fato conteudístico. É um fato expressivo. Os conteúdos em si jamais são belos ou feios. Tornam-se esteticamente válidos só quando são bem expressos. E Dante é um grande mestre da expressão, por isso é um grande poeta. Não há conteúdo para o qual ele não saiba encontrar uma imagem adequada, que o exprima à perfeição. Carmelo Distante, no prefácio da Divina Comédia da editora 34, tradução de Italo Eugenio Mauro.

Antonio Tabucchi (1943-2012)

Morreu Antonio Tabucchi (1943-2012), em Lisboa. Um dos maiores estudiosos da literatura portuguesa, vivia em Lisboa, e um dos favoritos da Biblioteca. Meu primeiro contato com Fernando Pessoa foi através de seu livro Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa (Rocco, 1996). Talvez o seu romance mais conhecido seja Afirma Pereira (Rocco, 1995), que deu origem ao filme de Roberto Faenza com uma das últimas participações de Marcelo Mastroianni. O filme conta ainda com Daniel Auteuil (Dr. Cardoso) e Joaquim de Almeida. Uma nota de Tabucchi ao romance, explicando seu "encontro" com o Dr. Pereira. Um encontro a la Pirandello : O doutor Pereira visitou-me pela primeira vez numa noite de setembro de 1992. naquela época, ele ainda não se chamava Pereira, ainda não tinha traços definidos, era algo vago, fugidio e incerto, mas já tinha vontade de ser protagonista de um livro. Era somente um personagem à procura de um autor. Não sei por que escolheu logo a mim para ser ...

Conto da semana, de Giulio Mozzi

Novamente a imperdível antologia Best European Fiction, edição de 2010: Carlo não sabe como ler , de Giulio Mozzi. O conto não chega a ter um enredo; é mais um de ensaio sobre a leitura, a memória e a imaginação. Interessante para quem acabou de ler o ensaio de Orhan Pamuk e está no meio do romance por excelência – Guerra e Paz. Em determinado momento, Carlo fala da (sua) leitura como um sonho. Quando se fala dele, fala-se daquilo que se sonhou realmente ou se acaba por acrescentar novos elementos, como se no momento em que falássemos estivéssemos acrescentando novos ingredientes àquilo que temos em mente? Quando se encontrou com um dos seus escritores favoritos, Carlo conta-lhe de sua predileção por uma determinada passagem – que o autor não se lembra e ainda diz que, se de fato escreveu aquilo, não tinha importância. Em um conto que comentamos aqui, o tradutor “melhora” os livros originais sobre os quais trabalha, com imenso sucesso. Aqui, o leitor “cria” para s...

O Colecionador, de Massimo Bontempelli

O conto da semana é do italiano Massimo Bontempelli (1879-1960) e está no volume 9 do Mar de Histórias (Aurélio e Rónai).  Temos a história do barão Raimundo della Valle, que sempre organizou grandes coleções ao longo de sua vida. Mas não se trata apenas de um impulso colecionador patológico; o conto mostra o destaque que os livros tinham na vida do barão – a coleção começou e acabou em razão de algumas leituras. Pode ser que ao Barão tenha feito falta o zelo do barbeiro e do cura de eliminar da biblioteca de Dom Quixote uma infinidade de livros, tentando evitar aquilo que parecia ter-lhe causado a loucura. Certo dia lhe ocorreu abrir um volume da coleção de encadernações, a fim de examinar o estado da costura interna. Até então nunca lhe ocorrera abrir esse livro. Era uma edição do século XVI, de Comino, com encadernação autêncita de Viviano di Varese, em couro preto, com gravações a fogo; continha a vida de um capitão do século antecedente. Os olhos de Raimundo caíra...