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O Colecionador, de Massimo Bontempelli

O conto da semana é do italiano Massimo Bontempelli (1879-1960) e está no volume 9 do Mar de Histórias (Aurélio e Rónai).  Temos a história do barão Raimundo della Valle, que sempre organizou grandes coleções ao longo de sua vida. Mas não se trata apenas de um impulso colecionador patológico; o conto mostra o destaque que os livros tinham na vida do barão – a coleção começou e acabou em razão de algumas leituras.


Pode ser que ao Barão tenha feito falta o zelo do barbeiro e do cura de eliminar da biblioteca de Dom Quixote uma infinidade de livros, tentando evitar aquilo que parecia ter-lhe causado a loucura.

Certo dia lhe ocorreu abrir um volume da coleção de encadernações, a fim de examinar o estado da costura interna. Até então nunca lhe ocorrera abrir esse livro. Era uma edição do século XVI, de Comino, com encadernação autêncita de Viviano di Varese, em couro preto, com gravações a fogo; continha a vida de um capitão do século antecedente.

Os olhos de Raimundo caíram, no princípio de uma página, sobre esse período: “... tíssimo; de fato, ele teve quatro filhos, um natural e três legítimos, posto que se dissesse que um dos três era adulterino, nascido de uma criada (...)

Foi assim que surgiu a ideia de uma coleção de filhos. E o projeto se inicia com o filho natural (com a jardineira), o legítimo, o adulterino (que, presumivelmente, não poderia faltar), o incestuoso (com a cunhada, Irmã de sua esposa), o putativo (isso mesmo). E a coleção parecia completa...

Mas tudo mudou quando, lendo o canto VI da Eneida, deparou-se com os seguintes versos:

Não vês ali aquele audaz mancebo
que naquela hasta pura o braço apoia?
A luz há de ser dado antes de todos:
O primeiro dos filhos que, no Lácio,
Terá de ti Lavínia

Ele providenciará, então, o filho derradeiro...

Raimundo beijou a esposa na testa e foi fechar-se no quarto vizinho. Atraves da parede chegavam-lhe aos ouvidos todos os pequenos rumores: os passos das mulheres que aprestavam as coisas necessárias. Ele também apronta o que era preciso. Estava sentado a uma mesinho, com catálogo secreto aberto diante dos olhos, na sexta folha, em branco. Aguardava o instante, para ficar certo de que o nascimento ia ocorrer de modo normal. E por isso cuidara de não fazer barulho, para não se arriscar a perturbá-lo.

Pronto: é agora; um instante depois seria tarde demais. Ouviu dali o começo de um grito mais forte, o grito que antecede a libertação. Escreveu rapidamente na folha – número 6: póstumo –e vibrou uma punhalada no coração.

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