terça-feira, 29 de maio de 2018

Philip Roth (1933-2018)

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Meses depois de Aharon Appelfeld, a quem entrevistou, morreu no último dia 22 o maior de todos, Philip Roth. 

Ironicamente, não haverá Nobel de Literatura este ano. A Academia, que tanto esnobou o autor de Pastoral Americana, Operação Shylock e Complexo de Portnoy, está envolvida em escândalos sexuais. Outra ironia: muitos detratores de Roth se incomodavam com seus textos e o chamavam de misógino, machista, sexista... enfim, uma besteira que diz muito mais a respeito da Academia do que de Roth. 

Como escrevi quando comentei a biografia de Roth (Roth Libertado, de Claudia Pierpoint Roth), "Claire Bloom, por exemplo, ao se separar do escritor, lançou um livro de memórias que definitivamente consolidou uma percepção não muito favorável da pessoa de Roth no grande público. Pode explicar, por exemplo, a recusa da Academia em conceder-lhe o Nobel. Em tempos politicamente corretos, não parece muito provável a premiação de um americano acusado de misoginia... e no entanto, é difícil encontrar outro nome que tenha escrito na quantidade, regularidade e qualidade de Roth".

Para além dos seus romances, que merecem ser lidos e relidos, Roth foi, ainda, um grande divulgador da melhor literatura do leste europeu do século passado - e isso ainda durante os regimes comunistas: Ivan Klíma, Kundera, entre outros (sobre esse aspecto, vale a pena ler Entre nós: um escritor e seus colegas falam de trabalho, publicado em 2008 pela Companhia das Letras e que traz entrevistas que fez com Isaac B. Singer, Appelfeld, Primo Levi, além dos dois autores tchecos já mencionados, entre outros).

Neste momento em que todos falam de seu Roth favorito, tenho dificuldade de cravar um único trabalho. Por muito tempo, foi Operação Shylock e talvez ainda seja. Mas colocaria também Pastoral Americana, Complexo de Portnoy e A Marca Humana. Da última fase, Humilhado.



terça-feira, 1 de maio de 2018

Farewell, de Ayse Kulin

Farewell
Ayse Kulin
Dalkey Archive Press
400 p.


Nem só de Pamuk vive a literatura turca, ainda que, à disposição do leitor brasileiro não sejam muitas as opções (méritos, nesse ponto, para a Sá Editora). Mas a Dalkey Archive Press, uma editora independente americana, a mesma que edita a série Best European Fiction, que tantos contos rendeu a este blog, lançou esse Farewell - Veda, no original - da turca Ayse Kulin (1941-). 

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Uma família otomana influente, numa mansão imponente, se vê no caos em que se tornou Istanbul após a derrota de 1918. E, obviamente, irá descobrir que, com o final do sultanato e do império, está numa situação inimaginavelmente precária - o Sultão está sendo humilhado e o país, ocupado. As mudanças culturais e políticas são abruptas e ameaçadoras. 

Kulin recupera um personagem real, Ahmet Resat Pasa (1849-1927), que foi o último  ministro da fazenda otomano e que seguiu para o exílio com o próprio Sultão (segundo a wikipedia, ela é bisneta de um ministro da fazenda otomano)A partir dele, e com personagens fictícios, Kulin reconta a situação trágica de um império de mais de 400 anos definitivamente posto de joelhos por ingleses e franceses após o desastre de 1914-1918 e em processo de retalhamento; uma parte considerável do território "turco" - incluindo cidades importantes como Izmir - ocupado por tropas gregas e armênias; uma cidade ocupada pelos aliados; o Sultão que finalmente percebe que terá que carregar o fardo de ser o último de uma linhagem que remonta séculos. Por outro lado, o movimento nacionalista, baseado na nova capital Ancara, e comandado por Mustafa Kemal, tentará evitar um desfecho impensável: o de que os turcos ficarão sem um estado nacional.

As 400 páginas contêm uma mistura de novelão e romance histórico, tratando dos últimos anos do Império Otomano, assunto que, nos últimos anos, tem se tornado uma ideia fixa deste blog. A causa é justa, e a razão para isso, espero, será apresentada em breve.