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Mostrando postagens com o rótulo Literatura: Portugal

A ilustre casa de Ramires à venda

A ilustre casa de Ramires está à venda - sério.  Aqui. Uma pechinca: 990 mil euros. A família proprietária (há mais de quatro séculos) reconhece o potencial turístico, mas admite não ter condições de explorar a Casa da Torre da Lagariça. De acordo com a reportagem: "Apesar de no livro  A Ilustre Casa de Ramires  não existirem referências directas à Casa da Torre da Lagariça, investigadores e historiadores não têm dúvidas em apontar as coincidências geográficas e toponímicas da obra e dos lugares em Resende. O padre Joaquim Correia Duarte, membro da Academia de História, nas suas várias monografias sobre a história do concelho, defende mesmo que “Resende acaba por ser cenário principal ou secundário de quatro das obras mais importantes” do escritor". Meu projeto de criar uma rede de hotéis literários poderia decolar...

Lobo Antunes na Pléiade

"Sonhei com este prémio desde os 13 ou 14 anos, desde a adolescência até agora. É o maior reconhecimento que se pode ter enquanto escritor, muito maior do que o Nobel". Foi o que afirmou António Lobo Antunes pouco depois de ser informado de que a Biblioteca La Pléiade quer publicar a sua obra. Visivelmente emocionado com a sua entrada nesta prestigiada colecção francesa, o escritor acrescentou: "Estar no meio desta gente sábia dá-me muito prazer e muita alegria." A matéria pode ser lida  aqui.

António Lobo Antunes ataca mais uma vez

Obrigado por receber-nos em sua casa aqui em Lisboa, a cidade de Pessoa. Não sou admirador de Pessoa. Como assim!?!? O Livro do Desassossego...! O livro do não se o quê que me aborrece de morte. A poesia do heterônimo Álvaro de Campos é uma cópia de Walt Witman; a de Ricardo Reis, de Virgílio. Questiono-m se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor. Se você chegou até aqui e quiser ler a entrevista completa publicada na semana passada no El País, clique  aqui. Obs.: agradecendo a dica do leitor José Alexandre Ramos, segue o link para a entrevista em português,    aqui.

Ž, conto de Alexandra Lucas Coelho

Ð ligou para Lisboa, no seu português fluente, pedindo-me que reconstituísse a história de Ž. Eu encontrara Ž duas vezes e estava interessada no assunto, como Ð sabia através de um amigo comum. De resto, Ð e eu não nos conhecíamos, mas ele saltou, alegre, por cima disso: — Quando podes vir a Belgrado? Foi assim que na noite de 2014 para 2015 me achei na colina do Kalemegdan, a fortaleza da capital sérvia que já foi celta, romana, bizantina, otomana. O cigarro de Ð apontou a confluência do Sava com o Danúbio, em breve o frio daria para andar sobre as águas. Quem nos ofereceu um gole de rakija   disse que estavam doze negativos, mas já bebera meia garrafa. Acho que deviam estar pelo menos vinte negativos quando Ð e eu caímos na neve, ele de costas, eu de bruços. Um   snipper   não faria melhor, ao primeiro beijo. Um conto da escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho, publicado no ótimo caderno Ípsilon, do jornal  Público.  Você pode ler  aqui...

Eça de Queiroz no cinema

Semana de adaptações - e para justificar o mote do blog. Além de Roth, Eça de Queiroz tem uma adaptação de seu Os Maias. Dirigido por João Botelho, a produção portuguesa estreia, aquém-mar, dia 11 de setembro.

Conto da semana, de Gonçalo Tavares

Já não eram necessários verbos, tudo estava claro entre os dois. O senhor Cortázar entregou o casaco que o fiscal de novo guardou na sua mala. O mesmo se passou com as calças, a camisa, a carteira; enfim, tudo. Gonçalo Tavares virou um dos autores mais presentes por aqui.  A Última Fiscalização  aparece no site da Revista Pessoa. Aqui, um encontro entre o senhor Cortázar e o fiscal - o inspetor fiscal lá em Portugal. E, de fato, há de se reconhecer que fiscais e advogados não são as categorias mais queridas dos escritores.

Ninguém escreve como eu

António Lobo Antunes, na edição brasileira do El País: P: Em Portugal é muito conhecido também por suas crônicas em revistas e jornais... R: Isso só faço porque pagam bem. As pessoas gostam porque são como piscinas para crianças. É impossível afogar-se. Os livros, por sua vez, são feitos para que se afoguem. Comecei a fazer essas crônicas com meu amigo José Cardoso Pires, de quem sinto muita saudade. A entrevista, que pode ser lida  aqui , não ajuda a melhorar sua imagem diante dos saramaguistas mais fanáticos que sempre o odiaram. Mas, justiça seja feita, ele não dá a mínima para essa questão.

Tão longo amor tão curta a vida, de Helder Macedo

No site da Revista Samizdat, meu texto sobre o recém lançado romance de Helder Macedo. Tão longo amor tão curta a vida. O título do mais recente romance do português Helder Macedo (1935) e lançado agora pela Rocco é também a última estrofe do soneto Sete anos de pastor Jacob servia , de Camões. Jacob, sabe-se, ficou com as duas irmãs, Raquel e Lea. Victor Marques da Costa é um diplomata português que está em Londres para uma conferência sobre o Oriente Médio. Sobre uma Líbia sem Kadafi, sobre uma Síria com Bashar, sobre o Irã. Ele aparece, repentinamente, na casa de seu amigo, um conterrâneo, escritor (Macedo?). Aflito, dizendo-se vítima de um sequestro, começa a contar-lhe uma história, tão interessante quanto improvável. O diplomata admira o amigo escritor, que no entanto não tem tanta certeza assim deste apreço. O escritor então começa a ouvir a história do atormentado amigo, que um dia conheceu uma certa Lenia Nachtigal, quando servia em Berlim Oriental em seus últ...

Conto da semana, de Rui Manuel Amaral

Considero uma humilhação pessoal descobrir um escritor português numa antologia americana. Foi o caso com Rui Manuel Amaral (1973), que é o representante de Portugal na Best European Fiction de 2014 - agora editada por John Banville, em substituição a Aleksandar Hemon.  O autor português já lançou dois volumes, Caravana e Doutor Avalanche. Alguns deles me lembram os textos de Daniil Harms. Aqui, portanto, três contos de Rui Manuel Amaral, obviamente em português.

Conto da semana, de Mário de Carvalho

O português Mário de Carvalho (1944)  é bem conhecido pelo leitor brasileiro. Li seu romance Um Deus passeando pela brisa da tarde, passado numa cidade romana na Lusitânia no século II d. C. Lúcio Valerius Quíncius é um magistrado romano às voltas com a rebelião promovida pela Congregação do Peixe. É Roma em seus últimos momentos pagãos. E, na minha opinião, um romance muito bom. Mas o autor também escreve contos; da série publicada pelo Diário de Notícias, vem este A Porrada, que pode ser lido  aqui (mediante cadastro, gratuito). Nesta brevíssima narrativa, aborda o tema da violência. Não aquela oriunda da pobreza ou dos imprevistos do dia; não aquela com alguma justificativa nobre ou não. Uma família bem estruturada em Portugal, mas com uma peculiaridade: Gonçalo frequenta um fight club - sua mulher, Mafalda, já está farta de vê-lo arrebentado todas as noites. Por outro lado, ele é violento também em casa - como quando insiste que ela o trate por tu, e não voc...

Conto da semana, de Gonçalo Tavares

O homem mal-educado O mal-educado não tirava o chapéu em nenhuma situação. Nem às senhoras quando passavam, nem em reuniões importantes, nem quando entrava na igreja. Aos poucos a população começou a ganhar repulsa pela indelicadeza desse homem, e com os anos esta agressividade cresceu até chegar ao extremo: o homem foi condenado à guilhotina. No dia em questão colocou a cabeça no cepo, sempre, e orgulhosamente, com o chapéu. Todos aguardavam. A lâmina da guilhotina caiu e a cabeça rolou. O chapéu, mesmo assim, permaneceu na cabeça. Aproximaram-se, então, para finalmente arrancarem o chapéu àquele mal-educado. Mas não conseguiram. Não era um chapéu, era a própria cabeça que tinha um formato estranho.

O Estudante de Coimbra, de Guilherme Centazzi

O Estudante de Coimbra  Guilherme Centazzi Editorial Planeta 318 p. Nasci no Algarve, donde se vê que devo ser grulha, e falador: isto ponho eu já aqui para que os leitores saibam com quem se metem, e depois se não queixem das digressões e moralidades a que sou sujeito, e de que por mais que faça nunca posso mondar de todo o que escrevo: sou pois algarvio, isto é, filho lá das terras que estão mais ao sul de Portugal, formando certa província com a alcunha de reino, que pela natureza do seu clima poderia produzir muitos gêneros de ambas as Índias, se bem governados tivéssemos tido a ventura de ver prosperar a nossa indústria, e se do ouro do Brasil nos não tivesse metido nos ossos a mania de ser ricos sem trabalhar, assemelhando-nos aos campos sem cultura aonde só medram plantas estéreis. (p. 27) Um prazer para poucos. É (deve ser) descobrir uma obra há muito esquecida. Foi o que Pedro Almeida Vieira fez com este romance de 1840, de Guilherme Centazzi (1808-1875). ...

Conto da semana, de Nuno Costa Santos

João tinha tudo a crédito: a relação com os bancos, os amigos, a vida amorosa, a rela­ção com Deus (se existir), com o Diabo (existe, com certeza), consigo próprio (dúvidas). A mulher aborrecia-o, declamando que era isso que o subjugava à obrigação de apenas sobreviver. Habitavam um 1º esquerdo, acima d’As Suas Possibilidades, o café de um prédio apodrecido, e todos os dias passavam ao lado de Uma Grande Carreira, nome da agência de empregos do bairro, motivo pelo qual haviam sido estrelas de uma reporta­gem satírica, emitida no final do noticiário das oito. Homem escuro como uma moeda gasta e suspenso como a situação económica de um certo lado do planeta, começou a cansar-se de ser escravo de prestações, humores bancários, cobranças pessoais, ressentimentos com juros. No café onde se cumpria um certo país desconfiado de si, comentou consigo durante uns minutos que era altura de organizar a papelada das decisões para por enfim oferecer à vida um sentido que nunca teve . Assim ...

Conto da semana, de Afonso Cruz

As grades parecem seguras, pintadas de azul, que vai bem com o céu. Mas tenho de reclamar. Onde é que está o meu marido? À minha frente surge um anjo, todo vestido de branco. Quase que ergo a mão para lhe tocar a face, tão jovem, tão bonita, tão cheia de luz. Em vez disso, sai-me uma pergunta seca: onde é que está o meu marido? O anjo fica sem saber o que dizer. Digo-lhe que não me interessa que possam ter achado que o meu marido não era uma boa pessoa, que ele não era pessoa de vir para o Céu. A verdade é que se eu vou para o Paraíso, se o mereço, tenho de ter o meu marido comigo. Que raio de coisa é esta em que passamos a eternidade separados das pessoas que amamos? O anjo diz para me acalmar, mas eu não posso aceitar uma coisa destas. Têm muita luz, mas esquecem-se de quem amamos! O meu marido podia ser mau, mas se amamos pessoas assim o que é que devemos fazer? Viver eternamente sem elas? Que porcaria de paraíso é este? O anjo encolhe os ombros. Nunca pensei que os anjos os en...

Conto da Semana, de João Tordo

Pensei, enquanto via as imagens a preto e branco saturadas que apareciam no pequeno ecrã de uma televisão antiga, que a memória sofre distorções incompreensíveis mesmo para aqueles que se consideram sãos (como eu me julgava então) e que essas distorções reforçam apenas o sentimento de que a vida é uma ficção escrita diariamente na qual tudo se torce e retorce de acordo com a vontade de alguém. O conto da semana é do português João Tordo (1975) - Cidade Líquida. Integra uma série de 31 contos, disponibilizada pelo Diário de Notícias  e que pode ser baixada gratuitamente, mediante prévio cadastro.  Se há autores, como o próprio Tordo, que são bem conhecidos por aqui, há outros que podem chegar pela primeira vez ao leitor brasileiro, como Eduardo Madeira.  João Tordo nos apresenta ao narrador, professor de filosofia - prestes a matar Espinoza e a amaldiçoar Kant - e Roque dos Santos, diretor de cinema que se parece com George Harrison, embora o músico tivesse uma bo...

O teu rosto será o último, de João Ricardo Pedro

O teu rosto será o último João Ricardo Pedro Leya, 2012 208 p. Diz a orelha da edição portuguesa que, na primavera de 2009, em consequência do carácter caprichoso dos mercados, achou-se com mais tempo do que aquele de que necessitava para cumprir as obrigações do quotidiano. Num acesso de pragmatismo, começou a escrever. Bota pragmatismo nisso. Desempregado e sem nunca ter escrito nada, iniciou esse romance que levou o Prêmio Leya de 2011 e, de quebra, 100 mil euros. Num grande romance de estreia, João Ricardo Pedro (1973) traça uma narrativa absolutamente não cronológica, de três gerações de uma mesma família, os Mendes, envolvida com a ditadura de Salazar e a guerra colonial. O ponto de partida é 1974, mas o romance não trata disso. Augusto, Antonio e Duarte - os três Mendes. O amigo do velho doutor Augusto, Policarpo, que lhe escreveu cartas por toda a vida, era um viajante que caiu no mundo. Parou em Buenos Aires, Sendo um amante da liberdade, não deixava...

Série O Bairro, de Gonçalo Tavares

A série O Bairro já vem sendo publicada no Brasil, se não me engano, pela Casa da Palavra. Mas na feira do livro em Lisboa não resisti à caixa com cinco volumes da Editorial Caminho - e no retorno, me dediquei aos senhores Calvino, Brecht, Eliot, Swendenborg e Walser. A edição é ilustrada por Rachel Caiano. O bairro criado por Gonçalo Tavares está em constante expansão; parece viver um boom imobiliário, tal a profusão de novos apartamentos e moradores que para lá se mudaram ou marcaram a mudança...  Interessante que o mapa do bairro mostra uma casa isolada de tudo e de todos, justamente a do senhor Walser que, coitado, tinha grandes expectativas em sua nova morada, longe da aglomeração. Robert Walser procurou ocultar-se por toda a vida numa floresta - passou quase que seus últimos trinta anos num manicômio. Mas o senhor Walser não terá muito sucesso, já que a cada momento entra em sua casa, tão esmeradamente planejada, alguém para consertar algo. Quando fechav...

Conto da semana, de Gonçalo Tavares

Na feira do livro na estação do metrô do Oriente, uma caixa com livros da série O Bairro, de Gonçalo Tavares. Um preço inacreditável.  Eis uma história que é contada pelo senhor Brecht, sobre O desempregado com filhos: Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão. Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou. Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego. Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão que te resta. Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou. Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego. Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a cabeça. Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.

Conto da Semana,de Gonçalo Tavares

Gonçalo Tavares é, sem dúvida, o mais prolífico dos grandes novos autores portugueses. Descobri esse pequeno conto - O País Ingênuo - na antologia BEF 2011. Como é muito esquisito - além de ridículo - ler autor português traduzido em inglês, procurei pela versão original. Achei-a no site da antiga e, infelizmente finada, Revista Entrelivros. A tristeza era tanta que os sorrisos passaram a ser pagos. Alguns funcionários do Estado, disfarçados, diluídos na multidão das cidades, observavam os poucos cidadãos sorridentes que passavam, e, discretamente, mandavam-nos parar. Apresentavam-se: Funcionários do Estado!, diziam, e pediam depois a identificação do sorridente. Registavam nome e morada. Ao fim do mês, os referidos cidadãos recebiam o cheque. Durante o mês de fevereiro foi visto três vezes a sorrir na rua – estava escrito – com data e hora - no pequeno documento que acompanhava o dinheiro. A quantia dada por cada sorriso não era uma fortuna, mas digamos que ser ...