quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O teu rosto será o último, de João Ricardo Pedro


O teu rosto será o último
João Ricardo Pedro
Leya, 2012
208 p.

Diz a orelha da edição portuguesa que, na primavera de 2009, em consequência do carácter caprichoso dos mercados, achou-se com mais tempo do que aquele de que necessitava para cumprir as obrigações do quotidiano. Num acesso de pragmatismo, começou a escrever. Bota pragmatismo nisso. Desempregado e sem nunca ter escrito nada, iniciou esse romance que levou o Prêmio Leya de 2011 e, de quebra, 100 mil euros.

Num grande romance de estreia, João Ricardo Pedro (1973) traça uma narrativa absolutamente não cronológica, de três gerações de uma mesma família, os Mendes, envolvida com a ditadura de Salazar e a guerra colonial. O ponto de partida é 1974, mas o romance não trata disso.

Augusto, Antonio e Duarte - os três Mendes. O amigo do velho doutor Augusto, Policarpo, que lhe escreveu cartas por toda a vida, era um viajante que caiu no mundo. Parou em Buenos Aires,

Sendo um amante da liberdade, não deixava de ser curioso que Policarpo tivesse acabado por se estabelecer num país sujeito a uma ditadura militar. Nessas cartas de Buenos Aires, cuja primeira datava de agosto de mil novecentos e sessenta e nove, Policarpo não fazia qualquer referência à situação política da Argentina, nem relatava coisas extraordinárias das quais tivesse sido o protagonista. Nem encontros com figuras de dimensão planetária. Eram pequenas histórias. A maior parte delas acerca de clientes do seu hotel: jogadores de futebol coxos, prostitutas sem clientes, toureiros maricas, músicos surdos, banqueiros falidos, pintores daltônicos ...

Augusto Duarte foi médico por quarenta anos e ofereceu seu olho de vidro a Celestino; Antonio foi às colônias; Duarte vive em Queluz. Duarte é o fio condutor da história e o seu protagonista. Pianista excepcional que abdica de seu talento, para tristeza de sua mãe e dos seus professores. Um mistério para todos - todos que nunca conheceram ou ouviram falar de Joseph Castorp.

Pode-se dizer que se trata de um romance em contos. Os capítulos assim se parecem, mas não se deve esquecer: estamos diante de uma narrativa única; é preciso avançar para descobrir a teia que se forma, a história dos Mendes. Tudo faz sentido, mas alguma coisa se perde pelo caminho - como, por exemplo, o motivo pelo qual Celestino perdeu o olho.

O capítulo mais comentado - e não estranhem se um dia ele aparecer numa antologia de prosa - é o "minha mãe e o fim da União Soviética" (p. 129). Frases muito curtas. Repetições. Para quem se acostumou a associar a prosa portuguesa à de Saramago, algo totalmente diferente:

Sentaram-se em frente da televisão. O filho a torcer pela Holanda. Ela a torcer pela União Soviética. O marido a torcer para que alguém se aleijasse, para que houvesse invasão de campo, para que viessem os tanques de Moscovo, para que fossem a penaltis e falhassem todos para sempre, o resto da eternidade e a marcarem penaltis e a falharem, ao fim de não sei quantas hora, as pessoas a abandonarem o Estádio Olímpico de Munique, as televisões  a interromperem as transmissões em direto, e os jogadores, abandonados no relvado, a falharem penaltis. (...) Setenta anos de socialismo científico, de ditadura do proletariado, de democracia avançada e nem a merda de um campeonato da Europa, admitiu ela. 

Sim, o fim da União Soviética é sacramentado pelo gol de Van Basten na final da Euro 1988. Estranho, aliás, como os brasileiros usam pouco o futebol na ficção. Um romance que passa pelo futebol, mas também por Bruegel, por Mozart, Beethoven e Bach. O ponto alto do livro, aliás, é quando surge o quadro de uma mulher de lenço azul na cabeça, que só tinha uma perna e caminhava com a ajuda de duas muletas. 

O livro está saindo no Brasil, pela Leya daqui, na coleção Novíssimos. Vale conferir. 




Nenhum comentário:

Postar um comentário