sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Timoféiev, de Leonid Dobytchin


O Conto da Semana é do russo Leonid Dobytchin (1894-1936) e integra o volume Encontros com Lis e outras histórias, da parceira do blog, Editora Kalinka. Autor das primeiras décadas da finada União Soviética, é equiparado a Babel e Kharms. 

Reprovado no exame, Timoféiev nem foi almoçar. Dirigiu-se direto para casa, tirou a jaqueta e deitou-se para dormir. Atarracado, com o rosto cinzento e a barbicha amarela desgrenhada, ele deitou-se de costas e começou a roncar. Sobre sua testa, curvando-se como varas de pescar, pendiam algumas mechas inconsistentes, às quais aderiam os cabelos ralos. A camisa azul de cetim desbotada escapou do cinto, e, entre ela e a calça, apareceu a camisa de baixo, manchada por um percevejo esmagado. Moscas assentavam no seu rosto - ele gemia e as afugentava com a mão, mas não acordava. Só foi acordar de noite, após o pôr-do-sol, com a luz ardendo numa lâmpada, largada num canto qualquer depois de uma noite longa de estudos, e a torneira aberta. Ele saltou da cama e, pondo os pés no chão, começou a esfregar os olhos com o punho da manga esquerda segurando-o com a mão direita. - Preciso pedir um samovar - disse a si mesmo e foi atrás da senhoria. Ela não estava em casa, e ele foi procurá-la no quintal.

Uma lua vermelha, pesada e opaca, como uma meia-lua de marmelada, espiava nos quintais. No poente vermelho, faixas cor de poeira se apagavam, como pó varrido e largado no canto da soleira. Tudo estava em silêncio, e a senhora, sentada num degrau da entrada, envolta num lenço grande, não se mexia, sequer piscava, deleitando-se com a tranquilidade e a quietude. Timoféiev, calado, sentou-se no degrau de cima. Eles ficaram assim, mudos e imóveis, com os olhos fixos no céu. O apito de uma locomotiva soou longe. A senhoria deu um suspiro baixo e sussurrou: - É a finlandesa. - Que finlandesa? - perguntou Timoféiev, susssurrando. - A estrada de ferro finlandesa. Eles se calaram outra vez e ficaram sentados ainda por muito tempo, quietos e retraídos, até ouvirem uma janela abrir e alguém gritar de lá: - Dária Ivánova, onde você está?  Não seria possível um samovar? - Para mim também, por favor - disse Timoféiev, então se levantou e foi para o quarto.

Pensativo, ele engolia o chá e mastigava o pão de farinha fina: algo muito importante, assim lhe parecia, aconteceu naquele instante, enquanto ele estava sentado na escada e olhava o céu toldado, que prometia chuva para amanhã.

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