quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Floresta escura, de Nicole Krauss

Resultado de imagem para nicole krauss floresta escura
Floresta escura
Nicole Krauss
Tradução de Sara Grünhagen
Companhia das Letras, 2018
304 páginas

Nesse ínterim, o caso por fim seria decidido pelo Supremo Tribunal, e se Eva Hoffe perdesse, o que era quase certo, os arquivos ocultos de Kafka seriam entregues ao Estado de Israel, e sua falsa morte e a viagem secreta para a Palestina, reveladas ao mundo. Será que Friedman queria se adiantar à história para controlar como ela seria escrita? Moldar, pela ficção, a morte de Kafka em Israel, como Brod tinha moldado a história canônica de sua vida e morte na Europa?

Há alguns anos, atraído pelo fato de o filme ser dirigido por Radu Mihaileanu (O Concerto, Trem da Vida e A Fonte das Mulheres), assisti a A História do Amor. Só ao final me dei conta de que se tratava da adaptação do romance homônimo da escritora americana Nicole Krauss. 

Acabo de ler ao último romance da autora, Floresta Escura. Dois personagens principais - Jules Epstein, um velho e rico advogado (narrativa em terceira pessoa) e uma escritora de sucesso, também chamada Nicole (em primeira); ambos em algum momento decidem partir para Tel Aviv, mais especificamente para o Hilton da cidade. Ambos estão à espera de algo que lhes alivie e transforme. Algo que dê às suas vidas algum sentido.

Lembre-se que é "no meio do caminho" que Dante se encontrava em uma floresta escura... até ser convidado por Virgílio a uma jornada pelos infernos...

A narrativa de Epstein tem muito de Roth - a decadência física, a idade. No início do livro, ele está se desfazendo de todos os seus bens, e decide criar um memorial em homenagem aos seus pais, já falecidos. Acaba se encontrando com Rabi Klausner, que tenta convencer Epstein de que o advogado é descendente do Rei Davi.

Já Nicole (ambas; autora e personagem) é apaixonada por Kafka e se vê envolvida na discussão (real) a respeito do destino a ser dado ao seu espólio. Aparece em seu caminho um certo Friedman, um professor, ligado ao Mossad, e que sabe que Kafka, na verdade, não morreu aos quarenta e poucos anos, mas sobreviveu à doença e se mudou para a Palestina.

Pode-se ler o romance de Krauss como mais um exemplo de autoficção, termo bastante desgastado nos últimos anos. No entanto, para mim, o que me veio à cabeça foi outro livro, já tratado aqui: O messias de Estocolmo, da também americana Cynthia Ozick, que fala do hipotético livro de Bruno Schulz,que estaria escondido nos arquivos da KGB em Moscou.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Imobiliária da Biblioteca: o apartamento de Philip Roth à venda

Pela bagatela de 3,2 milhões de dólares, você pode comprar o apartamento de Philip Roth no Upper West Side (West79th Street).


Philip Roth’s home had a stand-up desk that he used in later years. The Pulitzer Prize-winner died in 2018 at the age of 85.


É próximo ao Museu de História Natural. Inicialmente, foi usado como studio - Roth vivia a poucos quarteirões de distância, quando ainda casado com Claire Bloom. Depois da separação, Roth passou para sua fazenda em Connecticut, indo ao apartamento em suas raras visitas a Nova York.

Você pode ler mais sobre o apartamento nesta matéria publicada no Wall Street Journal.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Bruno Ganz (1941-2019)

Resultado de imagem para bruno ganz

Morreu o ator suíço de filmes marcantes como A Queda! (onde fez Hitler nos últimos dias, numa interpretação magnífica, banalizada pela quantidade avassaladora de memes na selva das redes sociais), Asas do Desejo e O Leitor. Fez também Dust of Time, do grego Theo Angelopoulos, que conta ainda com a Irène Jacobs e o Willem Dafoe, mas não consegui assistir ainda - tipo de filme que, se você não assistiu no cinema ou na era das locadoras, esqueça...

Resultado de imagem para bruno ganz

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

A biblioteca elementar, de Alberto Mussa

Literatura brasileira
Alberto Mussa
A biblioteca elementar
Editora Record. 2018
192 páginas


Este livro encerra o ciclo (Mussa não gosta do termo "série", que de fato não se encaixa ao caso) Compêndio Mítico do Rio de Janeiro, e do qual havia lido apenas A primeira história do mundo.

A cidade agora cresceu. Estamos por volta de 1733, e a história se passa nas imediações do que hoje conhecemos por Convento de Santo Antônio e Largo da Carioca, entre a Rua do Egito (hoje, Rua da Carioca) e a Rua dos Três Cegos (Gonçalves Dias).

Àquela época, numa área erma, situada do lado de fora dos muros da cidade (sim, o Rio já foi uma cidade murada, bem de acordo com quem precisava se manter em meio a florestas, índios e franceses - que invadiram a cidade alguns anos antes da história), uma mulher, vestindo o hábito franciscano, tenta entrar em casa sem despertar a atenção, e acaba presenciando um assassinato - dois conhecidos discutem, se atracam, e um acaba disparando contra o outro.

Temos uma única testemunha que, por outro lado, tem algo a esconder da Inquisição.. Ciganos, índios, rituais de magia, vários elementos que incomodavam bastante a administração local; pecados (ou melhor, "O" pecado...).

Trata-se, claro, de ficção, mas às vezes nos esquecemos disso e começamos a ler como um texto de não-ficção. Numa noite, uma mulher, vestindo o hábito franciscano, tenta entrar em casa sem despertar a atenção, e acaba presenciando um assassinato - dois conhecidos discutem, se atracam, e um acaba disparando contra o outro. Temos uma única testemunha que, por outro lado, tem algo a esconder da Inquisição.

Mussa é uma referência quando se busca a história do Rio na ficção, sempre mesclando o romance histórico com o policial.  

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

A velocidade da luz, de Javier Cercas


Imagem relacionada

Minha primeira incursão na obra do espanhol Javier Cercas é justamente no romance A velocidade da luz. Um autor que merece toda a atenção - de quem pretendo em breve ler o que muitos consideram sua obra-prima, Os soldados de Salamina (sobre um episódio da Guerra Civil espanhola), além de Anatomia de um instante (sobre a redemocratização e a tentativa de golpe de 1981).

Neste A velocidade da luz Cercas cuida de outro momento histórico, um tanto alheio à experiência espanhola, a Guerra do Vietnã. Mas ela é apenas um pretexto para uma ideia bastante arriscada (mas que funciona muito bem): a história de um escritor e da construção de um personagem, Rodney Falk, um veterano de guerra com quem o narrador travou contato num período de estudos numa universidade americana, em Urbana, Illinois. Falk nos é apresentado, mais pelo seu pai e sua esposa do que pelo próprio.  

O romance, na verdade, não trata do Vietnã, ou mesmo de Falk. Está centrado na história do anônimo narrador em busca de um livro que lhe permita escapar de uma praga bastante comum (não só) no meio literário: o sucesso do primeiro livro. Cercas não é o personagem, mas já afirmou em entrevistas ter passado pelo mesmo processo, após Os soldados de Salamina - bloqueio criativo, sentimento de culpa etc.

A fórmula do personagem escritor em crise não é exatamente original. Ainda assim, vale a pena a leitura. Os atos de Falk no Vietnã,  são apresentados de forma bastante impactante, e o comportamento do narrador com sua família, com uma crueza não menos impressionante.