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Mostrando postagens com o rótulo Marco Lucchesi

Shakespeare

SHAKESPEARE Shakespeare criou o mundo em sete dias. No primeiro dia fez o céu, as montanhas e os abismos da alma. No segundo dia fez os rios, os mares, os oceanos e os outros sentimentos - e deu-os a Hamlet, a Júlio César, a Antônio, a Cleópatra e a  Ofélia, a Otelo e outros, para os dominarem, eles e os seus descendentes, até o fim dos tempos. No terceiro dia reuniu todos os homens e ensinou-lhes o gosto: o gosto da felicidade, do amor, da desesperança, o gosto do ciúme, da glória e assim por diante, até se terem acabado todos os gostos. Chegaram então alguns indivíduos que tinham se atrasado. O criador afagou-lhes a cabeça compadecido e disse-lhes que não lhes restava senão tornarem-se  críticos literários e contestaram-lhe a obra. O quarto e o quinto dia reservou-os para o riso. Soltou os palhaços para darem cambalhotas, e deixou os reis, os imperadores e outros infelizes divertirem-se. No sexto dia resolveu alguns problemas administrativos: ...

O bibliotecário do imperador, de Marco Lucchesi

O bibliotecário do imperador Marco Lucchesi Biblioteca Azul, 2013 112p. Haverá terapia que atenda às necessidades primárias dos colecionadores de livros, dos que se enamoram do objeto, das partes acessórias e acidentais? O bibliófilo clássico, na estrita acepção da palavra, não passa de um magnífico idiota. As qualidades intelectuais o denunciam e não sei o que mais admirar, se a falsa erudição a que faz jus, se o oportunismo vigilante, que o denuncia, ou se as unhas ousadas e compridas. O bibliófilo é um lascivo por definição. Poderia presidir a melhor biblioteca da Corte ou o mais lúrido bordel, como o da rua Senhor dos Passos, lançando mão da mesma atitude, entre rameiras e leitores: a língua ferina e o caráter simulado. Os bordéis e as livrarias perdem com tal figura, a quem importa menos o volume que o conjunto, menos a verdade que a aparência. Marco Lucchesi, tradutor, poeta, ensaísta e romancista - e poliglota (16 línguas!) recupera a história de Inácio ...

Marco Lucchesi

Minha avó me falava, por exemplo, de Orlando e de seu cavalo Brigliadoro, de Angélica, de Medoro e de Agramante. E, depois, eu os reencontrei, a todos, transformados, no Quixote. Mas a explosão, o terremoto, veio aos meus 12 anos, com Dostoiévski Com Humilhados e ofendidos. No calor do Rio de Janeiro. O Rio pegava fogo e eu ouvia aqueles samovares chilreando em pleno verão. Eu lia em casa, deitado na cama. Sou um homem que está sempre deitado na cama, um homem que já nasceu preguiçoso. Sou muito preguiçoso de postura, talvez dê para se perceber. E eu lia sempre na cama, com muitas lágrimas nos olhos. Chorava, chorava. Lembro de todas as personagens — ou de quase todas. A minha é uma história comum, como muitas outras. No Paiol Literário, promovido pelo jornal literário Rascunho, da Gazeta do Povo, de Curitiba, uma conversa com o acadêmico Marco Lucchesi, que pode ser lida  aqui.

O Dom do Crime (2)

Um texto anônimo é retirado das arcas do IHGB em 2010, com uma tese interessante que afirma que Machado de Assis se inspirou em um rumoroso caso judicial do Rio, em 1866, para a criação de seu Dom Casmurro. Trata-se do assassinato de Helena Augusta pelo seu marido, o Dr. José Mariano. Como nos livros de Machado, temos ainda uma agregada (Leonor), um vizinho (Raimundo Martiniano) e uma escrava, que irá confirmar os encontros entre Helena (por sinal, o título de outro romance, publicado em 1876) e Raimundo. E, como em Dom Casmurro , uma traição nunca efetivamente demonstrada. O solitário narrador, que vive com uma gata e sua biblioteca, faz inúmeros paralelos entre o crime e o romance, observando que diversos autores procuram suas fontes na realidade – como quando informa que Joaquim Manuel de Macedo já reclamava que muitas novelas partiam de casos criminais. “ Obras anfíbias, portanto, entre a ficção e a realidade, boa parte das quais redigida a partir de processos clamorosos, ...

O Dom do Crime

  O Dom do Crime. Marco Lucchesi. Editora Record, 2010. É sobre isso que pretendo escrever, caro doutor Schmidt: as memórias dos outros. Prometo frear o tom, mais comedido, talvez mais frio, como querem os positivistas. Um livro sem opiniões. Beirando o cinismo. Ou quase. Machado e meus contemporâneos não terão acesso a estas páginas. Vou depositá-las na arca do sigilo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e manifesto claramente o desejo de que esse rabiscos só poderão ser abertos depois do dia 6 de novembro de 2010, quando serei um espectro, assim como as personagens deste libelo. Se houver descendentes, não meus, que respondam. Os que vagamos nestas folhas estaremos desaparecidos. Apenas a memória dos nomes. Quem há de se ofender com minhas palavras, quem há de me convocar para um duelo, depois de sopesar uma verdade sobre a qual cabem muitas dúvidas? Aos fatos, senhores. Aos fatos. (p. 20)

Subindo Babel

A Torre de Babel. Pieter Brueghel, o Velho, c. 1563 - Museu Kunsthistorisches, Viena Para mim, o maior prazer em aprender um idioma é poder descobrir novos autores e lê-los no original. Também ganhar mais acesso às televisões estrangeiras é um grande barato. E, claro, viajar. Por isso, confesso uma certa inveja de pessoas e personagens poliglotas. Marco Lucchesi, o mais novo membro da ABL, pode se dar ao luxo de ler não só em línguas "conhecidas" como francês, italiano e inglês, como também em servo-croata, persa, romeno, russo e mais uma dezena. Em A Língua Absolvida (Companhia das Letras, 1996), Elias Canetti fala de seu avô, Elias Abraham Canetti, comerciante que se gabava de dominar 17 idiomas. Impossível disfarçar a inveja...