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Mostrando postagens com o rótulo Literatura: Romênia

O negociante de inícios de romance, de Matéi Visniec

  ' Hoje, a mãe morreu'. Você acha mesmo que uma asserção assim tão simples pode sair da mente de um escritor? Asseguro-lhe que não. Escritor é, por regra, pessoa complicada, dilacerada intimamente, contorcida, cheia de contradições, consumida por ambições, muito pouco generosa, se bem que se inflame com a ideia de humanidade. Não, lhe asseguro que Albert Camus nunca teria começado o romance O Estrangeiro com essa frase se não a tivéssemos fornecido nós. Aliás, nem sequer teria escrito esse romance num estilo tão simples, tão linear, tão confessional, visando a maior credibilidade, se não lhe tivéssemos oferecido, nós, o ponto de partida, se não tivéssemos aberto, nós, esta miraculosa portinhola. 'Hoje, a mãe morreu'. Vários foram os clientes dessa organização: Thomas Mann, Kafka, H.G. Wells, Melville... O misterioso negociante, Guy Courtois, membro de uma organização de mais de trezentos anos, está estudando um jovem aspirante a escritor romeno. P...

Shakespeare

SHAKESPEARE Shakespeare criou o mundo em sete dias. No primeiro dia fez o céu, as montanhas e os abismos da alma. No segundo dia fez os rios, os mares, os oceanos e os outros sentimentos - e deu-os a Hamlet, a Júlio César, a Antônio, a Cleópatra e a  Ofélia, a Otelo e outros, para os dominarem, eles e os seus descendentes, até o fim dos tempos. No terceiro dia reuniu todos os homens e ensinou-lhes o gosto: o gosto da felicidade, do amor, da desesperança, o gosto do ciúme, da glória e assim por diante, até se terem acabado todos os gostos. Chegaram então alguns indivíduos que tinham se atrasado. O criador afagou-lhes a cabeça compadecido e disse-lhes que não lhes restava senão tornarem-se  críticos literários e contestaram-lhe a obra. O quarto e o quinto dia reservou-os para o riso. Soltou os palhaços para darem cambalhotas, e deixou os reis, os imperadores e outros infelizes divertirem-se. No sexto dia resolveu alguns problemas administrativos: ...

Conto da semana, de Dan Lungu

Dan Lungu (1969) nasceu na Romênia e é o autor do conto A esposa das 7 horas, publicado este ano na série Best European Fiction. É muito conhecido na Europa, e sua obra vem sendo traduzida para diversos idiomas.  Aqui, um sujeito sai exausto do trabalho, em mais uma sexta-feira; as vendas andam boas,  tudo vai bem. Mas ele não quer ir a lugar algum. Sai do carro e olha para as montanhas. Está ansioso para as 19 horas. Já sente dor de cabeça pelo fim de semana que se avizinha. E, para combatê-la, recorre a Carolina, sua "mulher das 19 horas", um horário sempre reservado para ele. Ele é um bom cliente, afinal, e ninguém poderia lhe tirar esse horário. Ela, inclusive, sempre espera por ele. Mas não hoje. Recorre à Renata - ah, você é o cliente das 19, não? Parte, então, para o encontro, digamos, alternativo, que é o que lhe resta. O sujeito depende de Carolina que, descobre, está para largar esta vida. Em tempos de 50 tons, uma narrativa seca, em que o perso...

Conto da semana, de Cosmin Manolache

O conto da semana é do romeno Cosmin Manolache (1973) e consta da BEF2010. Three Hundred Cups - 300 razões bastante humanas para se brindar. O narrador passeia por Bucareste - a Catedral do Patriarca e as relíquias de São Demétrio o Novo. E divaga sobre os grandes herois nacionais: para ele, é somente através dos livros escolares que eles escapam da vida após a morte. E chega ao Museu Militar, infestado de estátuas desses personagens históricos. Ele é bastante cético em relação à sua condição social e as reações que ela provocaria diante desses romenos ilustres: O que diria o Rei Burebista da Dácia quando o visse? De onde esse vira-lata veio? Fora daqui! Você é indigno da grande história que eu fundei! Manolache é irônico diante desse panteão: certamente ele não gostaria de ver que, por um bom tempo, estive de pé na mesma fila de Santo Estevão o Grande, Radu o Belo, São Constantino Brancoveanu e os Irmãos Cantemir, todos eles, durante suas vidas, jamais perderam uma ...

Conto da semana - Lucian Dan Teodorovici

O romeno Lucian Dan Teodorovici nos brinda com o conto da semana - Caça aos Gansos, em português. Foi o conto selecionado por Hemon para a edição de 2011 de sua antologia BEF . O narrador é uma criança que vive no interior da Romênia, onde romenos e ciganos vivem fisicamente próximos mas com temores mútuos. Um dos orgulhos do menino é o fato de o seu avô ser o único do vilarejo a não temer os ciganos - afinal, ele é o condutor de trem, próximo de sua aposentadoria, é verdade, mas a posição lhe confere um tremendo status diante de ambas as comunidades. Na história, sete gansos da família do garoto desaparecem, e há suspeitas de que o furto foi praticado pelos ciganos. O corajoso avô, então, vai até o acampamento - o menino, claro, vai junto, ainda que contra a vontade do avô. Lá, descobre que o avô tem vários amigos. Ele os deixava viajar de trem sem bilhete, por exemplo. Mas, apesar de tudo, fica evidente a tensão entre os dois grupos. O filho do "velho cigan...