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Mostrando postagens de 2020

O Mar, de John Banville

Eles partiram, os deuses, no dia da maré estranha. A manhã inteira sob um céu leitoso as águas da baía tinham subido mais e mais, atingindo alturas inauditas, pequenas ondas rastejando sobre a areia crestada que havia anos só era umedecida pela chuva e chegando a lamber as bases das dunas. O casco enferrujado do cargueiro encalhado na entrada da baía em algum momento fora do acance da memória de qualquer um de nós deve ter achado que lhe concediam a oportunidade de um relançamento. Eu nunca mais tornaria a nadar, depois desse dia. As aves marinhas vagiam e mergulhavam, em nada afetadas, ao que parece, pelo espetáculo daquela vasta bacia de água que inchava como uma bolha, de um azul de chumbo e com um fulgor maléfico. Pareciam anormalmente brancas, naquele dia, essas aves. As ondas depositavam na areia uma franja de espuma impura e amarela. Vela alguma desfigurava o horizonte alto. Não voltei a nadar, não, nunca mais. Com considerável atraso, li na última semana O Mar,  na edição da Bi

A Montanha Mágica, de Thomas Mann

  Meu primeiro Thomas Mann foi Os Buddenbrooks , ainda durante a faculdade. Alguns anos depois, a trilogia José e seus Irmãos, As confissões do Impostor Felix Krull, A Morte em Veneza e, recentemente, Doutor Fausto. Mas faltava o que para muitos é o seu melhor trabalho.  A descoberta do Raio X, em 1895, permitiu o diagnóstico precoce da tuberculose, ainda que, em 1907, a única forma de tratá-la era a internação em sanatórios.  Thomas Mann acabara de publicar  A Morte em Veneza  quando, acompanhado de sua esposa, esteve em Davos. Lá surge a ideia para  A Montanha Mágica. O Sanatório Berghof hospeda uma amostra d a sociedade europeia do início do século XX. Lá está Joachim Ziemssen. E é para lá que o engenheiro Hans Castorp, exausto com seus estudos e prestes a iniciar sua vida profissional, se dirige. Saudável – ao menos é o que pensa - sua ideia é visitar o primo e passar cerca de três semanas. Ao longo das mais de 820 páginas da minha edição da Companhia das Letras, com a tradução de

Istanbul por Thomas Madden

Istanbul: City of Majesty at the Crossroads of the World não foi publicado no Brasil. Talvez a única referência que os brasileiros tenham do livro do medievalista e renascentista Thomas Madden seja sua aparição na estante do Guga Chacra nas transmissões em tempos de Covid. Mas temos a versão Kindle. Nestes dias em que a milenar Hagia Sofia volta a ser uma mesquita (o foi por quatro séculos até 1934), a cidade voltou, ainda que por apenas uma semana, ao noticiário no Brasil. Uma boa oportunidade para conhecer um pouco da história de uma cidade que foi capital de diversos impérios e encantou Napoleão. Thomas Madden, professor na Universidade de Saint Louis, começa sua história por volta do ano 667 a.C, quando, segundo a lenda, colonos megaros, liderados pelo rei Byzas, encontraram um grande estuário natural, que passaram a chamar de Corno de Ouro (Golden Horn). Uma península entre a Europa e a Ásia, cujas colinas eram uma defesa natural e permitiram o controle do Bósforo - e a passagem p

Soldados de Salamina, de Javier Cercas

Publicado em 2001, Soldados de Salamina é, para muitos, o melhor livro de Javier Cercas (1962), e um dos melhores romances deste século. Do autor, já li  A Velocidade da Luz . Na lista, o ensaio Anatomia de um Instante , sobre o golpe de 1981 que acabou consolidando a democracia espanhola e elevando para a História a figura de Adolfo Suárez. Este Soldados não é exatamente um romance. Muito bem escrito e com um ritmo jornalístico - além da clara abertura para a ficção - conta a história do fundador da Falange Espanhola, Rafael Sanchez Mazas, que durante a Guerra Civil é capturado pelos republicanos. Poeta e futuro ministro de Franco, escapa milgarosamente de um fuzilamento coletivo e se esconde na fronteira entre a Catalunha e a França. Procura resistir até a chegada das forças franquistas, que estão a alguns dias da vitória definitiva (?).  Javier Cercas é personagem do livro, um escritor ainda em afirmação e cheio de dúvidas que investiga este acontecimento. Descobre que Sánchez Mazas