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Mostrando postagens com o rótulo Contos

O pecado do padre Ondrej, de Jaroslav Hasek

Tradução a partir da versão inglesa: Padre Ondrej estava agora em seu décimo oitavo ano no Purgatório e ainda não entendia o porquê. Seu caso ainda não havia alcançado a sentença final, embora a pressão das almas chegando ao Purgatório tenha aliviado nos últimos dois anos. A maioria das almas hoje em dia faz apenas uma rápida parada por lá e é então conduzida, rangendo os dentes, para o Inferno. De vez em quando, ele criava coragem para perguntar a um dos Anjos da Guarda: “Por que os senhores continuam me prendendo aqui? ” Eles encolhiam suas asas e diziam: “Seu caso ainda não foi decidido, Senhor Reverendo.” Essas palavras o deixavam desconfortável, como apenas uma alma no Purgatório poderia sentir, pois não lhe constava ter cometido qualquer pecado. Ele era um exemplo de manual de um padre venerável. Durante sua estadia na Terra, encaixou-se na descrição em cada particular: os longos cabelos brancos, a voz trêmula de um ancião, a pureza moral, Primeira Classe. ...

A alfândega austríaca, de Jaroslav Hasek

Minha tradução de um conto de Jaroslav Hasek, a partir de The Bachura Scandal and other stories and sketches, na tradução para o inglês de Alan Menhennet.      Estava em Dresden e, um dia, perambulando pelos arredores da cidade, fui atropelado por um trem expresso. Fiquei tão retalhado que foi necessário um ano e meio para me juntarem novamente. Eu planejava retornar a Praga em quatro dias, mas fiquei em Dresden por mais de dezoito meses.     Estamos todos nas mãos de Deus, é claro, mas eu também estive nas mãos dos médicos.     Eu era uma figura medonha. Até hoje, não sei o quanto de mim é realmente meu. Tudo o que sei é que eu fui artificialmente reconstruído por dezoito médicos e cinquenta e dois assistentes. E que eles fizeram um excelente trabalho. Recebi um atestado detalhando minhas partes reconstituídas, de modo que eu me qualificaria para apoio como inválido, e esse atestado tinha quatorze páginas.   ...

Ž, conto de Alexandra Lucas Coelho

Ð ligou para Lisboa, no seu português fluente, pedindo-me que reconstituísse a história de Ž. Eu encontrara Ž duas vezes e estava interessada no assunto, como Ð sabia através de um amigo comum. De resto, Ð e eu não nos conhecíamos, mas ele saltou, alegre, por cima disso: — Quando podes vir a Belgrado? Foi assim que na noite de 2014 para 2015 me achei na colina do Kalemegdan, a fortaleza da capital sérvia que já foi celta, romana, bizantina, otomana. O cigarro de Ð apontou a confluência do Sava com o Danúbio, em breve o frio daria para andar sobre as águas. Quem nos ofereceu um gole de rakija   disse que estavam doze negativos, mas já bebera meia garrafa. Acho que deviam estar pelo menos vinte negativos quando Ð e eu caímos na neve, ele de costas, eu de bruços. Um   snipper   não faria melhor, ao primeiro beijo. Um conto da escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho, publicado no ótimo caderno Ípsilon, do jornal  Público.  Você pode ler  aqui...

Conto da semana, de Eric Chevillard

O conto da semana vem da Best European Fiction 2014  (a mais fraca até agora, o que prova a importância do antologista: o grande romancista Banville não se mostrou um antologista à altura da sua própria ficção).  O francês Eric Chevillard (1964), com Hippopotamus, traz um narrador em dúvida sobre ir ou não ao Mali, na África. Todos os clichês da chamada literatura de viagens estão aí...  Um francês comum - " Seu nome poderia ser Jules ou Alphonse. Seu nome poderia ser Georges-Henri ". Convidado para ser um escritor-residente no Mali, no fim do mundo, a respeito do qual ele jamais ouvira falar. Está em dúvida - aceita ou não? O que ele pensa é o que todo francês - melhor, todo cidadão de países ocidentais ricos - pensa sobre países pobres: um monte de ideias pré-concebidas, um certo deslumbramento e uma sensação de que, afinal, ele tem muito a oferecer ao Mali.  Muito mais que um conto sobre a África, Chevillard escreveu um conto ironizando os escritore...

Conto da semana, de Heinrich von Kleist

O conto da semana é de Heinrich von Kleist (1777-1811), autor romântico alemão. Está no volume 2 do Mar de Histórias e, de acordo com os antologistas, interessa-nos não só pelo espetáculo das forças desencadeadas da fatalidade e dos desvios da alma coletiva em estado patológico, mas também pelo ambiente sul-americano em que o escritor alemão os faz funcionar. Sim, já que se tornou o assunto da semana - não só pela intensidade  8,2 graus na escala Richter, como pelo número reduzido de vítimas fatais, demonstrando a seriedade com que lida com a realidade - o conto tinha de ser  O Terremoto do Chile.  Kleist conta a história de Jeronimo Rugera e Dona Josefa, filha de D. Henrique. É lógico que os dois tem um caso proibido - ou não estaríamos diante de um texto e autor tipicamente românticos. O mancebo engravida a mulher que estava num convento e é condenado à morte. No dia, porém, a terra se abre e a cidade é devastada pelo terremoto. A descrição de Kleist so...