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A alfândega austríaca, de Jaroslav Hasek

Minha tradução de um conto de Jaroslav Hasek, a partir de The Bachura Scandal and other stories and sketches, na tradução para o inglês de Alan Menhennet.

 

   Estava em Dresden e, um dia, perambulando pelos arredores da cidade, fui atropelado por um trem expresso. Fiquei tão retalhado que foi necessário um ano e meio para me juntarem novamente. Eu planejava retornar a Praga em quatro dias, mas fiquei em Dresden por mais de dezoito meses.

    Estamos todos nas mãos de Deus, é claro, mas eu também estive nas mãos dos médicos.

    Eu era uma figura medonha. Até hoje, não sei o quanto de mim é realmente meu. Tudo o que sei é que eu fui artificialmente reconstruído por dezoito médicos e cinquenta e dois assistentes. E que eles fizeram um excelente trabalho. Recebi um atestado detalhando minhas partes reconstituídas, de modo que eu me qualificaria para apoio como inválido, e esse atestado tinha quatorze páginas. 

    Os únicos pedaços que permaneceram comigo foram uma parte do cérebro, uma do estômago, aproximadamente quinze quilos de minha própria carne e meio litro do meu sangue. Todo o resto era estrangeiro, exceto uma parte do coração costurada com o de um boi. Eu sou um triunfo da ciência médica.

     Externamente, sou totalmente artificial, como o atestado deixa claro. Sou um exemplo sublime do poder miraculoso da medicina de construir um novo homem a partir de uma variedade de pedaços, como uma criança construindo um castelo com bloquinhos.

    Quando sai do hospital, fui até o Cemitério Central para visitar o local de descanso eterno dos meus restos na seção para onde eles mandam as partes humanas do hospital para serem enterradas, e fiz então meu trajeto para a estação de trem para sair de Praga, sabendo que eu tenha tido mais de minha visita a Dresden do que qualquer outro turista que tenha visitado essa bela cidade.

      Em  Decin, tive de passar pela fiscalização pela alfândega austríaca. Depois que eles arrastaram e vasculhado minha mala, um dos oficiais da alfândega pousou os olhos sobre mim. A visão de um homem artificialmente montado passou ao oficial a impressão de que alguém estava tentando passar com sacarina pela alfândega. Eu realmente parecia um contrabandista casca grossa.

     - Vamos por sua bagagem aqui - disse o homem - venha comigo para o escritório. Lá eles abriram minha mala, e procuraram mas não acharam nada suspeito, até perceberem entre meus papeis o atestado feito pelo hospital em Dresden assinado por dezoito médicos e cinquenta e dois assistentes.

     - Céus! - disseram depois de lerem o atestado. - O senhor terá de ir ao chefe. O senhor não pode entrar na Áustria nesse estado.

     O chefe da alfândega é um modelo de retidão, um homem ciente de suas responsabilidades. Depois de examinar o atestado, disse: - Antes de tudo, de acordo com o atestado, o senhor tem um prato de prata no lugar da sua nuca. Essa prata não é registrada, o que significa que o senhor deve pagar uma multa de doze coroas. Há, ainda, cento e vinte gramas de prata e, de acordo com as seções VI e VIII (b) do parágrafo 946 do Regulamento Aduaneiro (sabidamente tentando contrabandear prata não registrada) a multa é o triplo. Três vezes doze, dá trinta e seis coroas.

      - Depois, a obrigação sobre cento e vinte gramas de prata (seções (f)/(g) da Tabela da Convenção Internacional de 1902) é de dez centavos por grama, logo cento e vinte gramas equivalem a doze coroas. E então o senhor tem um osso de cavalo no lugar do seu fêmur esquerdo. Nós temos que classificar como uma importação de um osso não declarado. E isso, meu amigo, é uma faca nas costas da indústria de ossos de animais da Áustria;

Por qual razão o senhor está andando com um osso de cavalo estrangeiro. Para que o senhor possa andar? Certo, vamos considerar como emprego de osso de cavalo com objetivo de comércio. Vamos descobrir a verdade, meu caro amigo!

Desenvolvimento do comércio, tudo bem, mas não vai levar a lugar algum porque nós temos uma tarifa pesada por não declaração de ossos de animais importados da Áustria. Isso irá lhe custar vinte coroas.

E há uma nota dizendo que você tem três costelas  substituídas por arames de platina. Cruz-credo, homem! O senhor está transportando platina da Áustria? O senhor sabe o que isso significa? Trezentas vezes uma multa comum. Vejamos, agora: se esses três pedaços de arame pesassem vinte gramas, isso dá 1.605 coroas. 

Mas o que é isso que vejo?

Aqui diz que uma parte do seu rim, o esquerdo para ser exato, foi substituída por um rim de porco.

Meu caro! A importação de porcos para a Áustria está proibida. E isso se aplica às partes do porco, também. Logo, se você quiser entrar na Boêmia, seu rim tem de permanecer na Alemanha.

     E, como não poderia concordar, estou aqui, esperado pelo Partido Agrário (sou um eleitor Agrário) para permitir a importação de porcos pela Áustria. E então eu retornarei para minha terra natal.

Tradução a partir da versão em inglês

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