sábado, 8 de abril de 2017

O nó górdio de Frederico Lourenço

Neste artigo de José Pacheco Pereira, no Público, um elogio a Frederico Lourenço, tradutor da edição da Odisséia da Companhia das Letras/Penguin, e que acaba de receber o Prêmio Pessoa. E um lamento pela decadência da cultura clássica na Europa (ainda que Churchill já tivesse percebido isso há mais de cinquenta anos):

O prémio a Frederico Lourenço, no entanto, não nos deve iludir. O mundo sobre o qual ele estuda, escreve e traduz é cada vez menos presente no espaço público do saber, onde cada vez menos se sabe sobre o mundo clássico, e, embora nunca se soubesse muito comparado com os países da Reforma, também cada vez menos se sabe sobre a Bíblia. Não nos devemos iludir quanto ao valor que a escola, a universidade, a sociedade, a comunicação – já para não falar das chamadas “redes sociais” – e a política hoje dão às humanidades e aos estudos clássicos. Esse valor é quase nulo. Pelo contrário, é entendido como um conhecimento inútil, que justifica o corte de financiamentos, a colocação no último lugar da fila, quando não da extinção curricular, das disciplinas do Latim e do Grego, que conseguem ficar atrás da Filosofia. E não é só este cerco às humanidades clássicas — em bom rigor a todas as humanidades — é a sua desvalorização pública implícita em muito documento, declaração política, e em acto.O 

sábado, 1 de abril de 2017

Os livros de 2017

De acordo com esta matéria, estes serão os 431 livros lançados em 2017. Quais você está esperando?

Stork Mountain, de Miroslav Penkov

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Autor do excelente livro de contos East of the West, o búlgaro Miroslav Penkov (1982) lançou em 2016 o romance Stork Mountain, que consegui ler pelo Kindle. 

Um jovem búlgaro que emigrou com sua família para os EUA retorna ao seu país, para reencontrar seu estranho avô, na região de Strandja, na região do Mar Negro, próxima à fronteira com a Turquia. (Observação: o autor, nascido em 1982, foi para os EUA em 1991, dois anos após a queda do regime comunista no país).

O jovem, apesar de bastante popular na escola, se considera um estranho, um estudante fracassado e sem dinheiro na América. Decide então obter algum dinheiro vendendo sua parte das terras da família. O avô, no entanto, já vendeu tudo para um projeto de parque eólico - o que ameaça a existência das cegonhas (storks) do local - uma ave migratória. Associadas a bebês, essas cegonhas despejam mistérios e segredos. Como o avô acabou parando por ali? Os comunistas chegaram ao poder em 1944 e confiscaram propriedades; o avô era professor e acabou sendo não apenas perdeu tudo como foi mandado para esse "fim de mundo" - por sorte, escapou de ir a um campo de trabalho.

As montanhas Strandja também são altamente simbólicas: nelas estão presentes búlgaros, turcos e gregos; cristãos e muçulmanos, e suas histórias e lendas. Somos apresentados aos nestinari, dançarinos do fogo que, segundo a tradição, realizam rituais de purificação. Os otomanos dominaram essas terras por séculos e, hoje, os muçulmanos são sempre vistos com desconfiança. O narrador chega à região e, mesmo inicialmente resistindo à ideia, acaba se envolvendo com a complexa história da região e seus moradores - como Elif, a filha do iman local.

Momentos particular e pessoalmente interessantes são os que descrevem a vida dos turcos na Bulgária - as mudanças de nome impostas aos turcos, que foram obrigados a se eslavizar. Foram os "processos de renascimento", que buscavam a assimilação e que tiveram seu auge nos anos 80. Curiosamente, também no século passado, na República proclamada após o fim do Império Otomano, muitos tiveram que islamizar seus nomes. Penkov também traz breves passagens sobre antigos sultões que passaram pela região. 

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Como o próprio Penkov afirma nesta entrevista, a região de Strajda é, ela própria, um nestinari: por mais de mil anos, atravessa o fogo, é reduzida a cinzas e em seguida renasce.