quarta-feira, 27 de junho de 2018

Com Borges, de Alberto Manguel

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Com Borges
Alberto Manguel
Traduzido por Priscila Catão
Editora Âyiné, 2018


Abro caminho com os ombros no meio da multidão na Calle Florida, entro na recém-construída Galeria del Este, saio pelo outro lado e atravesso a Calle Maipú e, encostando-me na fachada de mármore vermelho do número 994, pressiono o botão do 6B. Entro no hall frio do prédio e subo os seis andares de escada. Toco a campainha e a empregada abre a porta, mas, antes que ela me deixe entrar, Borges sai de trás de uma cortina, com a postura bastante ereta, terno cinza abotoado, camisa branca e gravata amarela listrada levemente torta, arrastando-se um pouco ao se aproximar. Cego desde quando havia quase sessenta anos, ele se move hesitante mesmo num espaço que conhece tão bem quanto o seu. Estende a mão direita e me dá as boas-vindas com um aperto distraído e fraco. Não há mais formalidades. Ele se vira e me guia até a sala de estar, sentando-se ereto no sofá virado para a entrada. Eu me acomodo na poltrona à sua direita e ele pergunta (mas as suas perguntas são quase sempre retóricas):'Bem, que tal lermos Kipling esta noite.

Finalmente é publicado no Brasil - pela inacreditável editora Âyiné - o relato em que Alberto Manguel  (1948) conta de sua experiência de ter frequentado, entre 1964 e 1968, a residência de Jorge Luís Borges. Já cego, o escritor, que frequentava a livraria Pygmalion, onde Manguel trabalhava, precisava de alguém que lesse em voz alta para ele. No Brasil, há alguns anos, disse já ter contado 40 mil vezes como conheceu Borges.

A cegueira, seus hábitos de leitura ("Nunca se sentia obrigado a ler um livro até a última página", algumas curiosidades ("deu aulas sobre Finnegans Wake sem nunca ter terminado o livro de Joyce), a amizade com Bioy Casares e Silvia Ocampo, a nunca desperdiçada oportunidade de falar mal de Vargas Llosa (Manguel e Borges nunca simpatizaram com o Nobel peruano), os relatos dos sonhos e a descrição das poucas prateleiras do apartamento de Borges - tudo aparece nessas 68 páginas lidas de uma tacada só.

Manguel, que até recentemente viveu na França, retornou a Buenos Aires. Hoje, dirige a Biblioteca Nacional, como seu mestre. 

Voragem, de Junichiro Tanizaki

Vim hoje à sua casa com a intenção de lhe contar todo o incidente, sensei, mas... noto que interrompi seu trabalho. Tem certeza de que não se importa? Narrada em detalhes, a história é longa e tomará um bocado de tempo... Eu podia até registrar os acontecimentos no papel em forma de romance e submetê-lo em seguida à sua apreciação, soubesse eu ao menos redigir melhor. Falando a verdade, eu me pus realmente a escrever há alguns dias num repente, mas o fato é que as ocorrências se embaralhavam em minha cabeça e, despreparada como sou, não consegui nem sequer descobrir por onde ou de que jeito começar. Logo vi que só me restava realmente esta alternativa: pedir-lhe a atenção. E aqui estou, embora aflita por perturbar suas preciosas horas de trabalho. Tem certeza de que não se incomoda? Sempre me tratou com tanto carinho, sensei, que acabo abusando da sua generosidade. Aliás, nunca serei capaz de agradecer devidamente tanta bondade, por mais que me esforce.


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É o primeiro parágrafo de Voragem, romance do japonês Junichiro Tanizaki (1886-1965). Dele já foram publicados várias obras por aqui, e me lembro de ter lido, em 2010, A vida secreta do senhor de Musashi, novela cuja história se passa no século XVI, e que remete ao lendário samurai. Nesse livro, Tanizaki aborda uma certa perversão sexual do samurai. 

Posso estar me esquecendo de alguém, mas tirando alguns contos de Akutagawa, aqui se encerra minha experiência com a literatura japonesa. Não li, ainda, nenhum livro de Murakami.

Em Voragem, ambientado na Osaka dos anos 20, Sonoko Kakiuchi, jovem esposa do advogado Eijiro, conhece Mitsuko Tokumitsu, filha de prósperos comerciantes, na escola de artes em que ambas estudam. Surge um relacionamento que choca a comunidade e gera "boatos maldosos", evidentemente verídicos. 

Mas o que chama a atenção neste romance é a forma como Tanizaki trabalha a questão da manipulação  - tão ardiloso quanto Mitsuko, surge Watanuki. Lá pelo final, surge um "contrato" que deveria ser estudado com mais cuidado... 

Sonoko é facilmente corrompida e transformada em joguete nas mãos de ambos e, como não poderia deixar de ser, acaba envolvendo seu infeliz marido, aparentemente um sujeito fraco e medíocre mas que, no final, acaba adquirindo uma estatura própria. 


sexta-feira, 15 de junho de 2018

La disparition de Josef Mengele, de Olivier Guez

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Em 1949, Mengele chega a Buenos Aires. Perón está atento à chegada de hordas de fugitivos nazistas. Espera por uma guerra entre Estados Unidos e União Soviética e imagina que a Argentina pode se dar bem num cenário pós-apocalíptico. A caçada aos nazistas ainda não havia começado. 

Esse trabalho de Olivier Guez (Strasbourg, 1974) recebeu o Prêmio Renaudot de melhor romance de 2017 - por seu "romance-verdade". Mas esse La disparition de Josef Mengele não é exatamente um romance. É realmente um grande trabalho de pesquisa e de reconstituição da vida do monstro alemão de 1949 a 1979, quando morre em circunstâncias estranhas em Bertioga. Guez nos mostra os contatos que mantiveram um dos homens mais procurados do mundo a salvo da Justiça - ele jamais respondeu pelos seus crimes. 

De fato, Guez é um conhecido jornalista, que se destacou, na França, por L'impossible retour, une histoire des juifs en Allemagne depuis 1945. 

Somente a partir de 1960, com a captura de Eichmann (que, na Argentina, esnobou Mengele) pelo Mossad, o mundo começa a procurar, efetivamente, por Mengele. Na Argentina, mais problemas, já que Perón foi derrubado em 1955. Mengele, inicialmente, foge para o Paraguai de Stroessner, também muito interessado em abrigar criminosos de guerra nazistas. Segundo Guez, o país é um "dispositivo ocidental para barrar as guerrilhas marxistas comandadas por Moscou e Havana na América do Sul".

Mas a situação já não é a mesma de 1949. Simon Wiesenthal publica um livro em 1967 - Os assassinos estão entre nós. Há um capítulo especialmente dedicado a Mengele, "o homem que colecionava olhos azuis". E afirma que o monstro está no paraguai, na rota Assunção-São Paulo.

É hora de fugir novamente. Desta vez, para o Brasil.

Nos anos 70, Franz Stangl, o ex-comandante de Treblinka e Sobibor é preso em sua casa por agentes brasileiros e despachado para a Alemanha Ocidental. O círculo está se fechando. Ao mesmo tempo, Mengele está doente e isolado. Seu filho, Rolf, vive na Alemanha e abomina o passado de seu pai, com quem nunca conviveu. Sente uma vergonha infinita. No momento mais próximo a um romance, Guez mostra o encontro entre ambos, no Brasil, e a incômoda pergunta que Rolf faz ao pai: você fez tudo aquilo mesmo? Ele sabe a resposta. O pai não titubeia: piedade não é algo válido porque os judeus não pertencem ao gênero humano. Os dois jantam em silêncio. No dia seguinte, Rolf parte para a Europa. Nunca mais se falarão.

Il meurt, simplesment. Alors, mû par une force obscure, il entre seul dans l'eau turquoise, tête basse, et se laisse flotter, ne sent plus son corps endolori ni ses organes viciés, porté par le courant qui le draine vers le large et les grands fonds, quand brusquement sa nuque maigre se raidit, ses mâchoirtes se serrent, ses membres et sa vie se figent. 

As últimas páginas recontam a exumação de seus restos, em 1985 (foi enterrado em Embu como Wolfgang Gerhard. Nenhuma referência nominal aos brasileiros envolvidos na investigação. Salvo engano, Romeu Tuma passou a ser conhecido nacionalmente ao atuar, como delegado de polícia, no caso. Somente em 1992, o exame de DNA encerrou, definitivamente, a questão.

No final, seus ossos foram doados para estudos em faculdade de medicina.

Absurdo, em minha modesta opinião. Por mim, jogava num alto-forno de alguma siderúrgica.

O livro de Guez vale a pena como uma pesquisa muito bem feita e um texto muito ágil e interessante, mas não o classificaria como um romance.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

A Master Storyteller from 19th Century Brazil

É o que diz este artigo do New York Times,celebrando o lançamento, em inglês, de um The Collected Stories of Machado de Assis. 

São 930 páginas, que trazem 76 contos, traduzidos por Margaret Jull Costa e Robin Patterson. O artigo, assinado por Parul Sehgal, afirma que os contos não estão à altura dos romances, mas are a spectacular place to start.