quarta-feira, 27 de junho de 2018

Voragem, de Junichiro Tanizaki

Vim hoje à sua casa com a intenção de lhe contar todo o incidente, sensei, mas... noto que interrompi seu trabalho. Tem certeza de que não se importa? Narrada em detalhes, a história é longa e tomará um bocado de tempo... Eu podia até registrar os acontecimentos no papel em forma de romance e submetê-lo em seguida à sua apreciação, soubesse eu ao menos redigir melhor. Falando a verdade, eu me pus realmente a escrever há alguns dias num repente, mas o fato é que as ocorrências se embaralhavam em minha cabeça e, despreparada como sou, não consegui nem sequer descobrir por onde ou de que jeito começar. Logo vi que só me restava realmente esta alternativa: pedir-lhe a atenção. E aqui estou, embora aflita por perturbar suas preciosas horas de trabalho. Tem certeza de que não se incomoda? Sempre me tratou com tanto carinho, sensei, que acabo abusando da sua generosidade. Aliás, nunca serei capaz de agradecer devidamente tanta bondade, por mais que me esforce.


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É o primeiro parágrafo de Voragem, romance do japonês Junichiro Tanizaki (1886-1965). Dele já foram publicados várias obras por aqui, e me lembro de ter lido, em 2010, A vida secreta do senhor de Musashi, novela cuja história se passa no século XVI, e que remete ao lendário samurai. Nesse livro, Tanizaki aborda uma certa perversão sexual do samurai. 

Posso estar me esquecendo de alguém, mas tirando alguns contos de Akutagawa, aqui se encerra minha experiência com a literatura japonesa. Não li, ainda, nenhum livro de Murakami.

Em Voragem, ambientado na Osaka dos anos 20, Sonoko Kakiuchi, jovem esposa do advogado Eijiro, conhece Mitsuko Tokumitsu, filha de prósperos comerciantes, na escola de artes em que ambas estudam. Surge um relacionamento que choca a comunidade e gera "boatos maldosos", evidentemente verídicos. 

Mas o que chama a atenção neste romance é a forma como Tanizaki trabalha a questão da manipulação  - tão ardiloso quanto Mitsuko, surge Watanuki. Lá pelo final, surge um "contrato" que deveria ser estudado com mais cuidado... 

Sonoko é facilmente corrompida e transformada em joguete nas mãos de ambos e, como não poderia deixar de ser, acaba envolvendo seu infeliz marido, aparentemente um sujeito fraco e medíocre mas que, no final, acaba adquirindo uma estatura própria. 


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