segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A Biblioteca à Noite em Copacabana


Imperdível. No SESC Copacabana, a exposição que já correu alguns países e já passou por São Paulo. Quem leu A biblioteca à noite vai reencontrar algumas das bibliotecas comentadas pelo autor - inclusive a dele. 

História da grandeza e decadência de Cesar Birotteau, de Balzac

Balzac é um dos autores mais estudados pelo chamado Direito e Literatura. É quase um curso de direito privado. Quem, no Brasil, viu uma letra de câmbio (não estou falando do pessoal do direito) fora de uma das histórias da Comédia Humana? Se, por exemplo, em Coronel Chabert temos um pequeno tratado sobre o direito das sucessões francês do início do século XIX, em César Birotteau temos uma visão bastante realista do que foi (e, em certa medida, ainda é) a falência para um comerciante honesto (Balzac dedica outro texto ao comerciante picareta, mas fica para a próxima leitura).

Aqui temos quase tudo: um comerciante dedicado ao trabalho duro e metódico, que iniciou sua vida como aprendiz de um perfumista. Desenvolveu uma fórmula para a pele, acumulou uma pequena fortuna. Até que resolve investir na especulação imobiliária que se seguiu à queda de Napoleão e ao retorno do rei. Não percebeu que se tratava de um golpe de um antigo assistente - du Tillet, agora frequentador dos altos círculos comerciais e financeiros de Paris. A história, aliás, começa com César conversando com a esposa, que percebe a arapuca em que o marido está se enfiando. 

Uma festa caríssima será seu baile da Ilha Fiscal (o que Balzac não teria escrito se conhecesse o fim da nossa monarquia?). 

A descrição de Balzac do processo de falência é precisa. E, também, datada. Na Restauração, os comerciantes eram os principais fornecedores de crédito - ainda não eram os bancos. Du Tillet e o notário Roguin conseguem abalar definitivamente o crédito de Birotteau na praça. O perfumista procura o barão de Nucingen por empréstimos quando já está com a corda no pescoço. A vergonha que sente pela sua situação - ele mesmo era implacável com seus colegas caídos - e o processo de reabilitação, lá pelo final das trezentas e tantas páginas, já com a saúde arruinada. 

Como escreveu Carpeaux:

Balzac sabia tudo: das duquesas e dos negócios. Mas assim como só sonhava de duquesas, assim ficaram-lhe fechados os escritórios dos grandes industriais. As suas próprias empresas fantásticas acabaram todas em falências. O seu destino comercial tem algo da ascensão rápida e queda profunda do seu César Birotteau; e este é um fabricante de perfumes, quer dizer representante de uma indústria antiga, de luxo, profissão de pequeno burguês francês a serviço de gente do “ancien régime”. O próprio Balzac era burguês; mas pertencia à burguesia antiga, pré-capitalista; enquanto era romântico, revela-se antes como pré-romântico, descobrindo novos ambientes e reagindo com o pessimismo de um realista por desilusão.

Balzac não está muito na moda, hoje. Uma pena. Se é verdade que muito do que escreveu possa ser acusado de "datado", há obras como Ilusões Perdidas que merecem ser lidas por qualquer leitor digno do nome. A própria editora Globo parece também indecisa. Talvez por causa da crise, a reedição da versão organizada por Paulo Rónai foi interrompida no nono volume. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

The red-haired woman, de Orhan Pamuk

Resultado de imagem para pamuk red haired woman review

Os livros de Pamuk costumam ser longos, coisa de mais de 500 ou 600 páginas. Este, cuja edição em inglês saiu em 2017, minutos e inédito no Brasil (li no Kindle), é bem mais curto, com 250 páginas, mas os principais temas do escritor estão presentes: o conflito entre tradição e modernidade, Ocidente e Oriente. Há também um tom de fábula, bem característico da prosa pamukiana. 

O personagem principal - e narrador das duas primeiras partes - é Cem. A ausência de seu pai, militante comunista nos anos 80 na Turquia (em outras palavras, vivia preso ou fugindo do cárcere) o levou a uma quase obsessão com a história grega do Rei Édipo - e do épico persa Shahnameh de Ferdowsi. Duas visões (Ocidente e Oriente) para a mesma tragédia? Um filho que nunca conheceu seu pai o encontra já adulto; nenhum reconhece o outro; ambos lutam e um deles morre - Sófocles mata o pai, já na história de Ferdowsi,  Rostan acaba assassinando o filho Sohrab. Pamuk já havia recorrido a essas duas narrativas em Meu Nome é Vermelho - seu melhor romance.

A primeira parte é centrada na vida do mestre Mahmut, o escavador que ainda se utiliza das técnicas tradicionais otomanas para localizar água no subsolo de Istanbul. Mahmut é o pai islâmico. O jovem Cem, à procura da figura paterna, e também de dinheiro para pagar seus estudos, se oferece para trabalhar nessas escavações, para desgosto de sua mãe que, no entanto, resignadamente aceita a iniciativa do filho. Atuando na região de Öngören, o mestre conta diversas histórias do Corão. 

É nessa parte que surge a misteriosa ruiva, membro de um grupo de esquerda, viajando com sua trupe de teatro e bastante, digamos, liberal, com o dobro da idade do adolescente Cem. É o objeto do desejo de Cem, que passa a andar pelas ruas à sua procura. Claro que irá encontrá-la. Adivinha o que irá acontecer entre os dois... 

Na segunda parte, a história se concentra no adulto Cem, o filho ocidentalizado e secularizado. Cem enriquece, casa-se e, com a esposa, viaja pelo mundo. Como o casal não tem filhos, dedica-se ao trabalho, à empresa, às viagens. Está constantemente no Irã e se surpreende com a cultura persa - e a forma como ela mantém viva a tradição, ao contrário da perdida e ocidentalizada Turquia.

A figura do mestre Mahmut ainda assombra Cem - que o abandonou num acidente exatamente naquele período em que trabalharam juntos, exatamente naquele momento em que só queria saber da ruiva. Estaria vivo? Se morto, teria morrido por sua culpa? Em determinado momento, recebe uma mensagem que irá mudar tudo. Sim, o mestre sobreviveu ao acidente, mas já morreu há alguns anos. Mas o episódio voltará a assombrá-lo.

E eis que a terceira parte é narrada pela... ruiva, Gülcihan. Não mais uma atriz fogosa de trinta e poucos anos, mas já uma senhora, mãe. Bom, cabe a ela nos contar o restante dessa história. 

Que venha logo para o Brasil.