terça-feira, 15 de outubro de 2019

Nobel 2018 e 2019

A Academia Sueca anunciou na semana passada o Nobel de Literatura de 2018 e de 2019. A polonesa Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke foram os indicados.

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Os dois autores são bem conhecidos do público europeu. Olga Tokarczuk (1962) já recebeu o Man Booker Prize recentemente pelo romance fragmentado Flights, que comecei a ler justamente no dia em que o Nobel foi anunciado. Prometo escrever sobre ele. Mas o leitor brasileiro terá a oportunidade de lê-la. A editora Todavia publica em novembro o romance Sobre os ossos dos mortos

A polêmica do ano foi a indicação de Handke, já publicado por aqui. Confesso que só o conhecia de roteiros - ele escreveu alguns para Wim Wenders, como Asas do Desejo. Mas seu nome despertou a ira de boa parte da Europa: ele apoiou os sérvios e Slobodan Milosevic, e relativizou o massacre de Srebrenica, quando milhares de muçulmanos bósnios foram exterminados por forças sérvias, durante a Guerra da Bósnia nos anos 90.

A Academia tem uma certa predileção pela polêmica.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A Biblioteca à Noite em Copacabana


Imperdível. No SESC Copacabana, a exposição que já correu alguns países e já passou por São Paulo. Quem leu A biblioteca à noite vai reencontrar algumas das bibliotecas comentadas pelo autor - inclusive a dele. 

História da grandeza e decadência de Cesar Birotteau, de Balzac

Balzac é um dos autores mais estudados pelo chamado Direito e Literatura. É quase um curso de direito privado. Quem, no Brasil, viu uma letra de câmbio (não estou falando do pessoal do direito) fora de uma das histórias da Comédia Humana? Se, por exemplo, em Coronel Chabert temos um pequeno tratado sobre o direito das sucessões francês do início do século XIX, em César Birotteau temos uma visão bastante realista do que foi (e, em certa medida, ainda é) a falência para um comerciante honesto (Balzac dedica outro texto ao comerciante picareta, mas fica para a próxima leitura).

Aqui temos quase tudo: um comerciante dedicado ao trabalho duro e metódico, que iniciou sua vida como aprendiz de um perfumista. Desenvolveu uma fórmula para a pele, acumulou uma pequena fortuna. Até que resolve investir na especulação imobiliária que se seguiu à queda de Napoleão e ao retorno do rei. Não percebeu que se tratava de um golpe de um antigo assistente - du Tillet, agora frequentador dos altos círculos comerciais e financeiros de Paris. A história, aliás, começa com César conversando com a esposa, que percebe a arapuca em que o marido está se enfiando. 

Uma festa caríssima será seu baile da Ilha Fiscal (o que Balzac não teria escrito se conhecesse o fim da nossa monarquia?). 

A descrição de Balzac do processo de falência é precisa. E, também, datada. Na Restauração, os comerciantes eram os principais fornecedores de crédito - ainda não eram os bancos. Du Tillet e o notário Roguin conseguem abalar definitivamente o crédito de Birotteau na praça. O perfumista procura o barão de Nucingen por empréstimos quando já está com a corda no pescoço. A vergonha que sente pela sua situação - ele mesmo era implacável com seus colegas caídos - e o processo de reabilitação, lá pelo final das trezentas e tantas páginas, já com a saúde arruinada. 

Como escreveu Carpeaux:

Balzac sabia tudo: das duquesas e dos negócios. Mas assim como só sonhava de duquesas, assim ficaram-lhe fechados os escritórios dos grandes industriais. As suas próprias empresas fantásticas acabaram todas em falências. O seu destino comercial tem algo da ascensão rápida e queda profunda do seu César Birotteau; e este é um fabricante de perfumes, quer dizer representante de uma indústria antiga, de luxo, profissão de pequeno burguês francês a serviço de gente do “ancien régime”. O próprio Balzac era burguês; mas pertencia à burguesia antiga, pré-capitalista; enquanto era romântico, revela-se antes como pré-romântico, descobrindo novos ambientes e reagindo com o pessimismo de um realista por desilusão.

Balzac não está muito na moda, hoje. Uma pena. Se é verdade que muito do que escreveu possa ser acusado de "datado", há obras como Ilusões Perdidas que merecem ser lidas por qualquer leitor digno do nome. A própria editora Globo parece também indecisa. Talvez por causa da crise, a reedição da versão organizada por Paulo Rónai foi interrompida no nono volume. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

The red-haired woman, de Orhan Pamuk

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Os livros de Pamuk costumam ser longos, coisa de mais de 500 ou 600 páginas. Este, cuja edição em inglês saiu em 2017, minutos e inédito no Brasil (li no Kindle), é bem mais curto, com 250 páginas, mas os principais temas do escritor estão presentes: o conflito entre tradição e modernidade, Ocidente e Oriente. Há também um tom de fábula, bem característico da prosa pamukiana. 

O personagem principal - e narrador das duas primeiras partes - é Cem. A ausência de seu pai, militante comunista nos anos 80 na Turquia (em outras palavras, vivia preso ou fugindo do cárcere) o levou a uma quase obsessão com a história grega do Rei Édipo - e do épico persa Shahnameh de Ferdowsi. Duas visões (Ocidente e Oriente) para a mesma tragédia? Um filho que nunca conheceu seu pai o encontra já adulto; nenhum reconhece o outro; ambos lutam e um deles morre - Sófocles mata o pai, já na história de Ferdowsi,  Rostan acaba assassinando o filho Sohrab. Pamuk já havia recorrido a essas duas narrativas em Meu Nome é Vermelho - seu melhor romance.

A primeira parte é centrada na vida do mestre Mahmut, o escavador que ainda se utiliza das técnicas tradicionais otomanas para localizar água no subsolo de Istanbul. Mahmut é o pai islâmico. O jovem Cem, à procura da figura paterna, e também de dinheiro para pagar seus estudos, se oferece para trabalhar nessas escavações, para desgosto de sua mãe que, no entanto, resignadamente aceita a iniciativa do filho. Atuando na região de Öngören, o mestre conta diversas histórias do Corão. 

É nessa parte que surge a misteriosa ruiva, membro de um grupo de esquerda, viajando com sua trupe de teatro e bastante, digamos, liberal, com o dobro da idade do adolescente Cem. É o objeto do desejo de Cem, que passa a andar pelas ruas à sua procura. Claro que irá encontrá-la. Adivinha o que irá acontecer entre os dois... 

Na segunda parte, a história se concentra no adulto Cem, o filho ocidentalizado e secularizado. Cem enriquece, casa-se e, com a esposa, viaja pelo mundo. Como o casal não tem filhos, dedica-se ao trabalho, à empresa, às viagens. Está constantemente no Irã e se surpreende com a cultura persa - e a forma como ela mantém viva a tradição, ao contrário da perdida e ocidentalizada Turquia.

A figura do mestre Mahmut ainda assombra Cem - que o abandonou num acidente exatamente naquele período em que trabalharam juntos, exatamente naquele momento em que só queria saber da ruiva. Estaria vivo? Se morto, teria morrido por sua culpa? Em determinado momento, recebe uma mensagem que irá mudar tudo. Sim, o mestre sobreviveu ao acidente, mas já morreu há alguns anos. Mas o episódio voltará a assombrá-lo.

E eis que a terceira parte é narrada pela... ruiva, Gülcihan. Não mais uma atriz fogosa de trinta e poucos anos, mas já uma senhora, mãe. Bom, cabe a ela nos contar o restante dessa história. 

Que venha logo para o Brasil. 


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Machines like me, de Ian McEwan

Ian McEwan
Machines Like Me
Jonathan Cape
320 p.


Orwell escreveu em 1984 o que se convencionou chamar de futuro distópico. O cinema, nos últimos anos, vem abusando, com mais ou menos qualidade, desse, digamos, gênero. Mas apesar de McEwan falar de inteligência artificial e robôs antropomórficos, este Máquinas como eu (li a edição inglesa no Kindle antes da chegada da edição brasileira e atrasei o post) trata, na verdade, de um "passado distópico". Em certa medida, estaria mais para um Complô contra a América, quando Roth imagina o que poderia ter acontecido num eventual governo americano fascista nos anos 30/40.

Estamos em 1982 numa Londres diferente: os argentinos efetivamente deram uma surra humilhante ao tomarem as Malvinas, levando à queda de Thatcher. Alan Turing não morreu (bom, na verdade, nem John Lennon...), e por aí vai. Nesse estranho mundo, uma geração de robôs chega ao mercado - Adão, na versão masculina, e Eva. O narrador, Charlie Friend, que aos 32 anos vive na internet, acaba adquirindo um. Mas, ao invés de comprar uma Eva, leva o Adão. Surge um curioso triângulo entre os três... 

Miranda esconde um segredo e, curiosamente, Adam adverte seu proprietário de que há algo de errado com ela. As máquinas são contaminadas pelo sistema moral dos seus criadores mas, ao contrário do mundo de Isaac Asimov e suas três leis fundamentais da robótica, Adam acabará colocando em risco a vida dos dois humanos da relação. 

Como em outros livros de McEwan, há um ponto de inflexão na história, e contá-lo é algo que, evidentemente, não faz sentido. No final, a confirmação de que um ano de lançamento de Ian McEwan é sempre um grande ano para o leitor.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Parque cultural, de Serguei Dovlátov

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Parque cultural
Serguei Dovlatov
Tradução de Yulia Mikaelyan
Kalinka, 166 p.

Os últimos anos foram extraordinariamente bons para a literatura russa no Brasil, não só pelas novas traduções, diretas, dos clássicos que líamos a partir de versões francesas ou inglesas, como de autores do século XX que ignorávamos por completo. A Kalinka, por exemplo, vem lançando a obra de Serguei Dovlatov (1941-1990), de quem li este Parque Cultural, na tradução de Yulia Mikaelyan, que ainda apresenta textos introdutórios da vida e da obra do autor.

O narrador em crise encontra trabalho num estranho parque temático, uma Disney para o grande fundador da literatura russa Puchkin. As Colinas de Puchkin. O parque de fato existe. Acho que só os russos levam seus escritores tão a sério. 

Na novela, os turistas procuram cada detalhe de sua vida - alguns estrangeiros, claro, mas muitos soviéticos. Ávidos por informações que provavelmente já terão esquecido no dia seguinte; da origem africana que é convenientemente trabalhada até a arma usada no duelo fatal - o turista faz questão de saber se era, de fato, a arma.

Censurado, publicado clandestinamente e somente levado a sério após a morte, Dovlatov impõe ao seu alter-ego o mesmo destino, por meio de ironias a respeito da escrita e da censura. Estamos nos anos cinzentos anos 70 da estagnação sob o governo Brejnev: antissemitismo, emigração... Boris Alikhanov, discutindo a possibilidade de sair da URSS com sua esposa e sua filha, pergunta:

- Mas meus leitores estão aqui. E lá... Quem vai querer ler meus contos em Chicago?

- E quem os quer aqui? A garçonete do Lukomorie, que nem o cardápio lê?

- Todos. É que ainda não se deram conta disso.

Um livro curto, baseado em diálogos - como Dovlatov se sai bem com eles! - e divertidíssimo.  

sexta-feira, 17 de maio de 2019

The Architect's Apprentice, de Elif Şafak

The Architect's Apprentice by Elif Shafak
The Architect's Apprentice
Elif  Şafak 

Elif Şafak é uma conhecida escritora turca - na verdade, nascida em Strasburgo, em 1971 - eclipsada, ao menos aqui no Brasil, pelo seu conterrâneo mais famoso, Pamuk. Não sei de nenhuma edição brasileira de seus livros, dentre os quais se inclui este The Architect's Apprentice que, evidentemente, consegui ler no Kindle.

O arquiteto, no caso, é o grande Sinan, que no século XVI rivalizava - ainda que não largamente conhecido no Ocidente - com Michelangelo: mais de noventa mesquitas, dezenas de escolas, pelo menos seis aquedutos e dez pontes, diversos mausoléus, mais de trinta palácios e quase cinquenta hamans (os famosos banhos turcos).

Sinan viveu até os 99; o romance se espalha entre 1546 e 1632. Mimar (arquiteto) Sinan é um personagem real, e Şafak lhe cria um aprendiz, um indiano Jahal, que chega à corte otomana para cuidar de Shota, o elefante do Sultão, no Palácio Topkapi. A partir desses três personagens (Shota lembra o elefante Salomão, aquele de Saramago em A Viagem do ElefanteŞafak recria o império otomano em seu esplendor,  político e cultural. 

Falei de Michelangelo. Os otomanos conheciam os planos para a Basílica de São Pedro; no romance, Jahan acaba visitando o mestre italiano em nome de Sinan. A correspondência entre os dois é fato. Michelangelo e Da Vinci foram a Constantinopla a convite do Sultão para projetar uma ponte que atravessaria todo o Chifre de Ouro - que divide os lados europeu e asiático da cidade. 

Jahan adapta-se bem à vida da corte. Mas sofre com as investidas do capitão Gareth, que o assombra com a tarefa de furtar objetos do Sultão. Por outro lado, quer se envolver com a filha de Suleiman, Mihrimah - o que, obviamente, não acontece - seria um excesso ficcional imperdoável. A vida na corte não era fácil - na ficção e na História: normalmente com a morte do Sultão, o filho indicado se encarregava de se livrar dos irmãos e suas mães, em geral sobrando para figuras proeminentes do antigo regime. A rede de intrigas acaba envolvendo os personagens, reais ou não, do livro.

Duas obras ganham destaque ao longo da narrativa de mais de 400 páginas: a Mesquita de Selim - Selimiye Camii - em Edirne (Adrianopole) e a Mesquita Süleymaniye, em Istanbul. Esta foi devidamente encomendada pelo Sultão para superar a antiga catedral bizantina de Santa Sofia, convertida em mesquita quando Mehmet II conquistou a cidade em 1453 (hoje é um museu, providência adotada pela república laica a partir dos anos 1920).

Estive em Edirne em 2018, a caminho de Kirklareli. A mesquita de Sinan continua lá, dominando a cidade, e as fotos não estão à altura do arquiteto:



A cidade foi a capital do império de 1361 até 1453, com a conquista de Constantinopla. A mesquita de Selymie foi construída na antiga capital porque, segundo a autora, "por nunca ter liderado o exército no campo de batalha, não gozava (o Sultão Selim) do prestígio necessário para mandar construir um monumento tão grandioso na sede do trono".

"Curiosamente, a mesquita erguida em sua honra ganhava altura na medida em que o Sultão decaía. O homem e o edifício estavam unidos de um modo profundo mas inverso, como a noite e o dia. Para que um existisse o outro deveria perecer. Com cada prego que se martelava e cada pedra que se colocava no edifício, algo lhe era arrebatado: a saúde, a felicidadade, o poder e, por último, o kismet (destino)".


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Şafak é uma das mais populares escritoras turcas da atualidade, e tem se destacado como  ativista dos direitos humanos, liberdade de expressão e opositora ao presidente Erdoğan.



sexta-feira, 15 de março de 2019

Um bárbaro no jardim, de Zbigniew Herbert

Eu voltei de Lascaux pelo mesmo caminho que havia chegado. Apesar de ter encarado, como se diz, o abismo da história, não tinha a sensação de voltar do outro mundo. Nunca antes tive uma convicção tão forte e reconfortante de que sou cidadão da Terra, herdeiro não só dos gregos e dos romanos, mas quase do infinito.

Esse é de fato o orgulho da condição humana e o desafio lançado à imensidão do céu, do espaço e do tempo.

O poeta e ensaísta polonês Zbigniew Herbert (1924-1998) chega ao Brasil pela editora Ayiné, na tradução de Henryk Siewierski. Nesse Um bárbaro no jardim, a diferença entre o viajante e o turista fica mais evidente. Como lembrou Paulo Nogueira no Estadão (aqui), não dá para não associar este livro ao Danúbio de Cláudio Magris, que nos apresenta a Mitteleuropa em um livro de difícil categorização: ensaio? Livro de história? Viagens? Memória?

Na verdade, é a soma de tudo isso.

Basicamente transitando entre França e Itália, Herbert é erudito sem ser pedante; detalhista sem se perder em tecnicismos que nos afastam de vários textos que buscam esgotar monumentos artísticos. Pelo contrário: seu texto é de leitura agradável. 

Na bela Orvieto, Herbert explica:

As cidades italianas se diferenciam pela cor. Assis é rocha, se é que essa palavra banal combina com uma tonalidade levemente avermelhada do arenito; Roma se grava na memória como a terracota no fundo verde. Orvieto é marrom dourado. É o que se pode perceber diante do Palazzo del Popolo românico-gótico - um enorme cubo com uma larga varanda suportada por arcos, um telhado plano, eiçado de agulhões e belas janelas com colunas e voluta. O palácio tem a cor de cobre, mas sem brilho, o fogo está no interior: a memória da lava.

Em alguns momentos, me lembrei do Civilização, de Kenneth Clarke, como no ensaio sobre Lascaux, ou quando, a respeito de Chartres, explica que lá selou seu "destino de apreciador do gótico".

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Floresta escura, de Nicole Krauss

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Floresta escura
Nicole Krauss
Tradução de Sara Grünhagen
Companhia das Letras, 2018
304 páginas

Nesse ínterim, o caso por fim seria decidido pelo Supremo Tribunal, e se Eva Hoffe perdesse, o que era quase certo, os arquivos ocultos de Kafka seriam entregues ao Estado de Israel, e sua falsa morte e a viagem secreta para a Palestina, reveladas ao mundo. Será que Friedman queria se adiantar à história para controlar como ela seria escrita? Moldar, pela ficção, a morte de Kafka em Israel, como Brod tinha moldado a história canônica de sua vida e morte na Europa?

Há alguns anos, atraído pelo fato de o filme ser dirigido por Radu Mihaileanu (O Concerto, Trem da Vida e A Fonte das Mulheres), assisti a A História do Amor. Só ao final me dei conta de que se tratava da adaptação do romance homônimo da escritora americana Nicole Krauss. 

Acabo de ler ao último romance da autora, Floresta Escura. Dois personagens principais - Jules Epstein, um velho e rico advogado (narrativa em terceira pessoa) e uma escritora de sucesso, também chamada Nicole (em primeira); ambos em algum momento decidem partir para Tel Aviv, mais especificamente para o Hilton da cidade. Ambos estão à espera de algo que lhes alivie e transforme. Algo que dê às suas vidas algum sentido.

Lembre-se que é "no meio do caminho" que Dante se encontrava em uma floresta escura... até ser convidado por Virgílio a uma jornada pelos infernos...

A narrativa de Epstein tem muito de Roth - a decadência física, a idade. No início do livro, ele está se desfazendo de todos os seus bens, e decide criar um memorial em homenagem aos seus pais, já falecidos. Acaba se encontrando com Rabi Klausner, que tenta convencer Epstein de que o advogado é descendente do Rei Davi.

Já Nicole (ambas; autora e personagem) é apaixonada por Kafka e se vê envolvida na discussão (real) a respeito do destino a ser dado ao seu espólio. Aparece em seu caminho um certo Friedman, um professor, ligado ao Mossad, e que sabe que Kafka, na verdade, não morreu aos quarenta e poucos anos, mas sobreviveu à doença e se mudou para a Palestina.

Pode-se ler o romance de Krauss como mais um exemplo de autoficção, termo bastante desgastado nos últimos anos. No entanto, para mim, o que me veio à cabeça foi outro livro, já tratado aqui: O messias de Estocolmo, da também americana Cynthia Ozick, que fala do hipotético livro de Bruno Schulz,que estaria escondido nos arquivos da KGB em Moscou.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Imobiliária da Biblioteca: o apartamento de Philip Roth à venda

Pela bagatela de 3,2 milhões de dólares, você pode comprar o apartamento de Philip Roth no Upper West Side (West79th Street).


Philip Roth’s home had a stand-up desk that he used in later years. The Pulitzer Prize-winner died in 2018 at the age of 85.


É próximo ao Museu de História Natural. Inicialmente, foi usado como studio - Roth vivia a poucos quarteirões de distância, quando ainda casado com Claire Bloom. Depois da separação, Roth passou para sua fazenda em Connecticut, indo ao apartamento em suas raras visitas a Nova York.

Você pode ler mais sobre o apartamento nesta matéria publicada no Wall Street Journal.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Bruno Ganz (1941-2019)

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Morreu o ator suíço de filmes marcantes como A Queda! (onde fez Hitler nos últimos dias, numa interpretação magnífica, banalizada pela quantidade avassaladora de memes na selva das redes sociais), Asas do Desejo e O Leitor. Fez também Dust of Time, do grego Theo Angelopoulos, que conta ainda com a Irène Jacobs e o Willem Dafoe, mas não consegui assistir ainda - tipo de filme que, se você não assistiu no cinema ou na era das locadoras, esqueça...

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

A biblioteca elementar, de Alberto Mussa

Literatura brasileira
Alberto Mussa
A biblioteca elementar
Editora Record. 2018
192 páginas


Este livro encerra o ciclo (Mussa não gosta do termo "série", que de fato não se encaixa ao caso) Compêndio Mítico do Rio de Janeiro, e do qual havia lido apenas A primeira história do mundo.

A cidade agora cresceu. Estamos por volta de 1733, e a história se passa nas imediações do que hoje conhecemos por Convento de Santo Antônio e Largo da Carioca, entre a Rua do Egito (hoje, Rua da Carioca) e a Rua dos Três Cegos (Gonçalves Dias).

Àquela época, numa área erma, situada do lado de fora dos muros da cidade (sim, o Rio já foi uma cidade murada, bem de acordo com quem precisava se manter em meio a florestas, índios e franceses - que invadiram a cidade alguns anos antes da história), uma mulher, vestindo o hábito franciscano, tenta entrar em casa sem despertar a atenção, e acaba presenciando um assassinato - dois conhecidos discutem, se atracam, e um acaba disparando contra o outro.

Temos uma única testemunha que, por outro lado, tem algo a esconder da Inquisição.. Ciganos, índios, rituais de magia, vários elementos que incomodavam bastante a administração local; pecados (ou melhor, "O" pecado...).

Trata-se, claro, de ficção, mas às vezes nos esquecemos disso e começamos a ler como um texto de não-ficção. Numa noite, uma mulher, vestindo o hábito franciscano, tenta entrar em casa sem despertar a atenção, e acaba presenciando um assassinato - dois conhecidos discutem, se atracam, e um acaba disparando contra o outro. Temos uma única testemunha que, por outro lado, tem algo a esconder da Inquisição.

Mussa é uma referência quando se busca a história do Rio na ficção, sempre mesclando o romance histórico com o policial.