quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Conto da semana, de Quim Monzó

O último conto do ano é sobre a criação de um... conto. Quim Monzó (1952) é um dos principais escritores de Barcelona, e escreve em catalão.




Pode ser lido, em português, aqui.

O blog volta dia 4 de janeiro.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Andrés Neuman é o próprio Viajante do Tempo


O Viajante do Tempo
Andrés Neuman
Tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro
Alfaguara, 2011
454 p.



Provavelmente encerrei 2013 com um grande livro. Andrés Neuman (1977), argentino que vive em Granada, Espanha, imagina uma cidade, Wandernburgo, situada entre a Prússia e a Saxônia e cujas ruas se movem durante as noites. O livro que acabo de ler foi editado no Brasil em 2011 mas escrito entre 2003 e 2008, ou seja, quando seu autor tinha entre 26 e 31 anos, o que apenas demonstra o meu fracasso...




Numa gélida noite de inverno, Hans chega à cidade, em busca, apenas, de um quarto, para prosseguir sua viagem no dia seguinte. Acaba ficando. Não consegue deixá-la. Conhece o realejeiro e uma série de personagens da sociedade local - sua verdadeira razão acaba sendo Sophie Gottlieb, filha de um sólido comerciante da cidade. 

O romance se passa em meados do século XIX. Neuman consegue, sem forçar a barra ou cair em didatismos estéreis para um livro de ficção, passá-lo em revista: o mundo pós-Napoleão, as questões nacionais (nos salões, Hans discute sobre a proposta de união aduaneira que mais tarde dará origem ao estado alemão), democracia... Os personagens que frequentam esses salões, secundários, merecem atenção, até pelas discussões que travam.

Professor, respondeu Hans olhando para o espelho de esguelha, a Europa jamais poderá se organizar se não houver uma ordem justa em cada país. Que as constituições de nossos invasores sejam as que mais liberdades nos deram não mereceria ao menos uma reflexão?

Para destroçar a Europa, disse Hans pensativo, não precisamos de Napoleão, nos bastamos sozinhos. Estou vindo exatamente de Berlim, senhor, e lhe asseguro que não gosto nada do entusiasmo bélico dos jovens, quem dera nós tivéssemos mais política inglesa e menos polícia prussiana.

E muita - muita - literatura. Hans e Sophie têm juntos um projeto de traduções. O trabalho acaba deixando-os, digamos, extremamente excitados sexualmente. Há tara para tudo. Até para Bocage. Hans domina um monte de línguas.

Temos Quevedo, enumerou Hans, Lope de Vega, San Juan, Garcilaso... e Góngora?, disse Álvaro. Góngora melhor não, respondeu Hans, é intraduzível. Mas, disse Sophie, você não dizia que a poesia sempre pode ser traduzida? Sim, sim, toda, sorriu Hans, menos Góngora. E você pôde lê-lo em espanhol? estranhou Álvaro. Bom, disse Hans, mais ou menos, tenho alguns livros dele no baú. Mas quantos idiomas você sabe?, perguntou Álvaro. Alguns, disse Hans. E como você aprendeu?, perguntou Álvaro. Digamos que viajando, respondeu Hans.

Hans é um grande tradutor. É interessante - não há muitos personagens importantes que sejam tradutores. Ainda por cima um tradutor que se dá bem - vide Sophia. E os personagens têm nomes interessantes: o prefeito Ratztrinker, Gottlieb, o padre Pigherzog... e entre ratos e porcos, uma família Rumenigge.

Cada um dos quatro capítulos se passa em uma estação do ano, e Hans, que pensava em ficar na cidade por uma noite, acaba ficando por um ano. No quinto capítulo, as coisas engrossam para o lado dele. Um mistério é revelado - um misterioso personagem é desmascarado. Aqui dá para sentir outro aspecto do século XIX que irá se desenvolver no seguinte: o antissemitismo.

Um romance que levou cinco anos para ser construído, com erudição de sobra, sem ser afetado. Em alguns momentos, a vida em Wandernburgo e de Gottlieb me lembra um pouco o mundo dos Buddenbrook. Um romance completo, que consegue passar o século XIX em revista, numa narrativa decididamente do século XXI. 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Conto da semana, de José Luiz Passos

Nas manhãs de sábado, no final da minha infância, às vezes íamos visitar Laszlo no Poço da Panela, um dos velhos bairros à beira do Capiberibe. Passada uma parreira espalhada por cima da garagem, ele tinha montado uma oficina com torno de cano e tanque de oxidação. Quando a Alemanha arregimentou a Hungria, os soldados de Hitler devem ter percebido sua mão para as máquinas; mantiveram Laszlo junto aos blindados, preso, porém sempre a postos, e como mecânico de tanques durou até 1945 - para então tomar a famosa rota do Brasil.

O conto da semana - Os Outsiders - é do vencedor do Prêmio Portugal Telecom 2013 de melhor romance, e pode ser lido aqui, É o primeiro texto dele que leio.

Laszlo e suas três consoantes, numa terra cheia de tritongos. Além do universo do imigrante, a constatação de que as lembranças de uma criança de dez anos - ou de noventa, claro - podem não ser muito precisas.


Blue Jasmine (2013), de Woody Allen


Blue Jasmine (2013) Poster

Sim, a Biblioteca não perde um Woody Allen, mesmo quando ele não está atuando. Para muitos - não concordo - este é o melhor dos mundos: um filme de, e sem, Woody Allen.



Woody Allen interrompe seu tour europeu - Londres, Barcelona, Paris, Roma - continua devendo um pulo por estas bandas (eu pagaria para fazer uma ponta) e volta para os Estados Unidos, mas agora sem que NY seja sua estrela. Na verdade, a história se passa em San Francisco, com flashbacks novaiorquinos.

 

Novamente, um grande elenco. Cate Blanchett é Jasmine; Alec Baldwin faz o papel de Hal, um milionário picareta, que aplica um grande golpe (lembre-se de 2008). Mas o que incomodou Jasmine não foi isso, mas as puladas de cerca do marido. 

Nova pobre, com a prisão (e suicídio) do marido, Jasmine vai buscar abrigo no outro lado do país, na casa da irmã cafona e pobretona, Ginger (Sally Hawkins). Na única chance que teve de melhorar de vida (o ex-marido ganhou um prêmio) caiu na besteira de entregar o dinheiro a Hal, que o investiria. Perdeu tudo - inclusive o marido - no golpe e na posterior bancarrota.

Mas é evidente que Ginger continua se sentindo inferior. Jasmine, por outro lado, ainda não caiu na real. Anda na California como se ainda desfilasse por Manhattan. O namorado de Ginger lhe é repugnante, e este, por sua vez, não perde a chance de lhe dizer que ela era ou tonta ou cúmplice de Hal. Ela, por sua vez, tem que ralar: trabalha como assistente de um dentista que acaba a assediando; vai a uma festa e conhece um milionário que pretende ingressar na política (ela sabe que não pode abrir o jogo e dizer quem realmente é).

O filme é todo ele Cate Blanchett, que já é favoritíssima ao Oscar de 2014 pelo papel. Blue Jasmine foge das últimas obras de WA por não se tratar de uma comédia - a partir da metade do filme, é mesmo um grande drama.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Renoir (2012), de Gilles Bourdos


Renoir (2012) Poster

Inesperadamente, este filme ficou em cartaz por várias semanas, o que me permitiu assisti-lo. O filme se concentra na relação entre o velho Pierre-Auguste Renoir (Michel Bouquet), sua modelo Andrée Heuschling (Christa Theret) e o filho Jean - sim, o cineasta.



Em 1915, Jean volta para a casa do pai, em Cagnes, no sul da França. O pai já está bem debilitado. Jean está se recuperando de um ferimento (ele serve no front - afinal, estamos na Primeira Guerra) e está descobrindo esta nova arte que é o cinema. Andrée, com quem acaba se envolvendo, é grande entusiasta deste novo rumo - na verdade, eles vieram a se casar; ela foi estrela dos primeiros filmes do grande cineasta, sob o nome de Catherine Hessling, até se separar do diretor.

Na primeira cena, ela está chegando à casa do mestre. Tinha apenas 15 anos e disse ter sido indicada pela falecida sra. Renoir; o pintor já está com seus 74 e sofre de artrose. O monte de mulheres que trabalha para Auguste não vai muito com a cara dela - muito jovem, muito bonita e sem um "trabalho". Em pouco tempo chega Jean.

Pai e filho não são inimigos, mas também não são lá muito próximos. O pintor dedica todos os seus minutos à arte, nela vivendo como que em um mundo à parte (viver pintando em Provence... não dá para exigir nada diferente) - ele praticamente abandona o filho mais novo, que no início do filme mais parece um agregado de uma história do Machado de Assis. O relacionamento entre os três - não, o pintor não dá em cima de Dedée - é o grande tema do filme. 

É a passagem do bastão da arte de Auguste para Jean. É a continuidade dos Renoir como grande e indispensável referência nas artes visuais.

No final, é dito que ambos (Jean e Dedée) morreram em 1979 - ele, consagrado mundialmente; ela, esquecida...

domingo, 15 de dezembro de 2013

Conto da Semana, de Elvis Hadzic

O conto da semana vem da Best European Fiction (BEF 2014). Elvis Hadzic (1971) é o autor de O Curioso Caso de Benjamin Zec. Bósnio, vive hoje em Salt Lake City - curiosamente, num movimento similar a Hemon e Mehmedinovic.

Benjamin não gostava de ciências na escola. Disse ao professor que, na verdade, Newton não estava deitado embaixo da famosa árvore, mas em atividade mais, digamos, escatológica, e descobriu a verdadeira força da gravidade. Afinal, maçãs não ficam caindo das árvores por aí... Não gostava de ciências, mas adorava ler. A par disso, era um garoto normal. Queria ser um ator, queria ser um ator na Broadway.

Até decidir se tornar uma joaninha.

No momento em que capturou uma, e a colocou na palma de sua mão, algo violentamente acertou-lhe a nuca. E então Benjamin Zec nunca mais foi visto.

Por onde andava? Ninguém nunca soube; tornou-se uma lenda. Muitos diziam que estava nos Estados Unidos. Sim, ele estava lá, nos palcos da Broadway, aclamado pelas massas. Ele olhava as fotografias na parede do camarim. E aos poucos percebeu que não envelhecia. Como Dorian Gray. Decidiu ler a história de Wilde e, toda vez que o fazia, lia a primeira página, ficava inconsciente e... acordava novamente no palco. Voltava da peça, lia Dorian Gray, adormecia e... acordava no palco. Como um LP com defeito.

Até que um dia acorda não mais no palco, mas num campo aberto, sob o sol do verão. 

Bom, o desfecho do conto conduz rapidamente ao evento traumático para toda a Europa - Srebrenica. E aqui, a força da ficção: de uma forma lúdica, poética e sem citar o nome da cidade ou o evento uma única vez, Hadzic escreve em memória das mais de 8 mil vítimas do maior massacre europeu depois de 1945.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Ian Buruma e o Ano Zero


O que mais impressionava os visitantes alguns meses depois da guerra era o estranho silêncio.

Oficialmente, a Segunda Guerra acabou em maio de 1945. Mas para muitos, em muitos países, vencedores e vencidos, foi o começo de um novo inferno. Tropas russas massacraram alemães; em Berlim, estupraram as mulheres que viam pela frente; os judeus libertos eram extremamente indesejados e, muitas vezes, culpados pelas desgraças vividas e assassinados; acertos de contas entre ocupados e alemães, e uma infinidade de outros massacres. Como dizia o alto-falante em Berlim nesta época: "Soldado, você está na Alemanha. Vingue-se dos hitleristas!"

As mulheres, por sua vez,  saíam com os libertadores num, digamos, ritmo e intensidade que chocaram os demais conterrâneos. Os homens sentiam-se humilhados pelos soldados americanos e canadenses. Houve também fome - generalizada.

Milhões de alemães étnicos estavam espalhados pelo leste europeu há gerações, e agora viram-se obrigados a retornar ao seu destroçado país. Nem todos conseguiram - muitos foram massacrados nas primeiras horas do pós-guerra. Judeus que voltavam para suas cidades descobriam que suas residências estavam ocupadas por famílias que não estavam dispostas em abandonar as novas moradias. Mesmo na Holanda. Não podiam reclamar - deviam ser discretos e gratos.

Não que tais fatos sejam exatamente novidades. Tony Judt, por exemplo, em seu monumental Pós-Guerra, já tinha tratado destes acertos. Mas este 1945: Ano Zero é centrado neste pós-guerra imediato, e não se resume ao europeu - a Ásia, em torno do derrotado Japão, também tem destaque.


O livro ainda não foi publicado no Brasil. Foi lançado recentemente, e soube dele pelo Manhattan Connection de algumas semanas atrás. Facilidades do Kindle.  

Buruma nasceu bem depois do fim da guerra e viveu na Holanda e no Japão, onde estudou História, literatura chinesa e cinema japonês. Isso explica muito do livro, evidentemente. Seu pai voltou da Alemanha para casa, na Holanda, sem saber o que, quem e como encontraria sua vida passada, em Utrecht. Ele era estudante de direito em 1941, foi feito prisioneiro alemão e sobreviveu ao bombardeio de Berlim, aos confrontos rua-a-rua e conseguiu voltar para casa.

Um dos capítulos mais interessantes é o que trata da reeducação dos povos derrotados. A desnazificação na Alemanha - mas os professores eram todos crias do regime. Ainda havia uma sensação de que o regime fora positivo nos anos de paz. No Japão, tudo foi diferente; o japonês não viu nenhuma vantagem no militarismo recém-derrotado. Talvez por isso mesmo a influência cultura americana tenha sido tão intensa.

No final, o relato da construção da ideia europeia, desde as primeiras reuniões ainda em 1942, e também das Nações Unidas. Um relato, apesar de tudo, bem otimista: os grandes legados da reconstrução do mundo a partir de 1945 teriam sido os direitos humanos e a construção do Estado do bem-estar social. 

Mas, no fundo, parece que basta uma crise econômica mais grave para a ideia da União Europeia ser posta em xeque, os neonazistas ressurgirem em vários países (Hungria e Grécia em destaque óbvio), sem falar das guerras dos bálcãs. Parece, mesmo, que nunca se aprende nada... George Steiner diz que havia, em 1914, uma certa "nostalgia da catástrofe", já que havia se passado muitos anos desde a última grande conflagração continental - Napoleão. Talvez seja isso mesmo - de tempos em tempos, precisemos quebrar tudo.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Conto da semana, de Cíntia Moscovich


- Judia suja.

Eu, que nunca havia experimentado a sério ser quem era - porque uma menina de nove anos apenas tem nove anos -, passei, de uma hora a outra, a ser judia e a ser também suja - o ódio na boca de Paula fazia com que as duas palavras se equivalessem. Fiquei ali, parada, paradinha, olhando para a menina, que, subitamente, se tornara dona de uma voz tão impositiva que se assemelhava à verdade. Sem sabermos, ela ou eu, obedeciam-se as velhas tradições - era um conhecimento com que os ruins já nascem. O ódio cintilando a ponto de zunir no miolo dos olhos negros, Paula repetiu a ofensa, arrastando-a escandida:

- ju- di- a- su-ja.

Então em mim, pela primeira vez, se abriu uma violenta ferida de sangue, uma hemorragia de raiva e dor grande demais para o espírito de uma menina. E a criança que eu era arranjou ainda ânimo de fazer a pose da insolência, as duas mãos na cintura, e arranjou ainda instinto para retrucar:

- E você é uma bocó. E uma burra.

Pronto, eu, como ela, também obedecia a antigas tradições - pela minha lei de talião, ser bocó e ainda burra era pior do que ser suja.

A vencedora do Prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2013 na categoria Contos, Cíntia Moscovich, é a autora do conto da semana, O telhado e o violinista. Integra o livro O reino das cebolas, de 1996.

O conto se inicia com o embate da narradora com Paula. Ela e Paula. Em casa, descobre que sua família também tem uma relação semelhante; no caso, sua avó e os cossacos. A narradora, mais tarde, interrompe uma cerimônia do Yom Kippur para salvar uma galinha, que chocou um ovo.

A galinha é adotada e ganha um nome, Hortênsia. O pinto também vira gente - Fúlvio. E logo em seguida, um acontecimento a marcará (e a sua família) - novamente, envolvendo Paula.

Cintia Moscovich é uma das autoras a manter uma linha importante na literatura brasileira, que vai de Samuel Rawet a Moacyr Scliar, e que inclui Tatiana Levy Salem e Michel Laub, entre outros. Mas, para além dessa referência, há o tema da maldade infantil. Sim, as adoráveis crianças sabem ser crueis como poucos - como autores como Saki deixaram muito claro em seus contos.



sábado, 30 de novembro de 2013

Conto da semana, de Horacio Quiroga

O conto da semana - O travesseiro de penas - pode ser lido, em português, aqui.

Horacio Quiroga (1878-1937) é um dos grandes mestres do conto latino-americano. Neste, Alicia sofre com um casamento que não lhe é muito feliz, por mais que ela e Jordán se amem. Do contrário, poderia ter se salvado se, numa viagem no tempo, tivesse conhecido Thérèse Desqueyreux...

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O conto, de cerca de quatro páginas, integra várias antologias editadas por aqui. A vida de Quiroga foi, do início ao fim, uma desgraça. Seus textos nos levam imediatamente a Poe e a algumas histórias de Maupassant. Borges criticava-o bastante, mas Quiroga bem que daria um excelente personagem para o argentino.

O europeu, segundo Amós Oz

Amos Oz by Kubik.JPG

Hoje, todo mundo é europeu, e quem não é está fazendo fila para ser. Há 80 ou 90 anos, os únicos que eram autênticos europeus na Europa eram os judeus, como os meus pais. Todos o demais eram patriotas búlgaros, patriotas irlandeses, patriotas noruegueses... Os judeus eram europeus devotos. Era poliglotas, adoravam que houvesse histórias diferentes, e os legados literários, e os tesouros artísticos, e sobretudo amavam a música. E amavam as paisagens, os prados e as florestas, as torrentes e os bosques nevados, os estreitos becos das cidades antigas, as universidades e os cafés. Mas a Europa nunca lhes quis. Por serem genuínos europeus, foram tachados de "cosmopolitas", "parasitas", "intelectuais sem raízes".


Tão longo amor tão curta a vida, de Helder Macedo




Tão longo amor tão curta a vida. O título do mais recente romance do português Helder Macedo (1935) e lançado agora pela Rocco é também a última estrofe do soneto Sete anos de pastor Jacob servia, de Camões. Jacob, sabe-se, ficou com as duas irmãs, Raquel e Lea.

Victor Marques da Costa é um diplomata português que está em Londres para uma conferência sobre o Oriente Médio. Sobre uma Líbia sem Kadafi, sobre uma Síria com Bashar, sobre o Irã. Ele aparece, repentinamente, na casa de seu amigo, um conterrâneo, escritor (Macedo?). Aflito, dizendo-se vítima de um sequestro, começa a contar-lhe uma história, tão interessante quanto improvável. O diplomata admira o amigo escritor, que no entanto não tem tanta certeza assim deste apreço.

O escritor então começa a ouvir a história do atormentado amigo, que um dia conheceu uma certa Lenia Nachtigal, quando servia em Berlim Oriental em seus últimos dias. A história que conta é confusa - a jovem, filha de agentes da Stasi, é cantora lírica. Resolve atravessar o Muro e, ao que parece, nunca mais é vista. A partir daí, Victor Marques da Costa está à sua procura; a cada ópera que assiste pensa tê-la finalmente encontrado.

Mas Macedo começa a duvidar desta história. Num momento que lembra Machado de Assis (de quem é admirador confesso), desabafa: "convenhamos que até agora tenho sido um autor disciplinado e comedido, reduzindo ao mínimo minhas intervenções pessoais" - e completa: "Longe de mim ser um daqueles oportunistas pós-modernos que aproveitam os leitores estarem distraídos com a vida dos outros para se meterem logo à frente da narrativa".

O fato de o amigo diplomata estar com a camisa ensanguentada o leva a pensar se não seria ele o autor de algum crime. Um assassino, talvez. Desiste de escrever o romance ao qual vinha se dedicando. Lenia conhece uma outra Lenia, uma brasileira, filha de empresário, uma Lenia Bonamor - "É, no Brasil as vogais se abriram com o calor". Esta, por sua vez, quer encontrar o antigo amante da recém-conhecida.

Macedo então resolve contar a sua versão da história que acaba de ouvir. Torna-se tão personagem quanto o próprio Victor Marques da Costa. A trama vai se enrolando cada vez mais - e os limites entre a realidade e ficção perdem-se por completo.

Victor Marques da Costa busca incessantemente um autor - que finalmente encontra, como também encontram as duas Lenias e Otto, o funcionário da embaixada portuguesa na Alemanha Oriental. Como em Pirandello, quatro personagens em busca de um autor.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Hã? - Uma teoria

"Hã?" e as suas congêneres são tão excepcionais na sua uniformidade que os cientistas quiseram mostrar que são palavras "a sério" - e não apenas "ruídos" inatos, tais como os espirros ou o choro.

Uma Teoria Geral da Indagação. De acordo com a matéria, foi o que restou da época em que construíamos Babel...


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Conto da semana, de Rui Manuel Amaral

Considero uma humilhação pessoal descobrir um escritor português numa antologia americana. Foi o caso com Rui Manuel Amaral (1973), que é o representante de Portugal na Best European Fiction de 2014 - agora editada por John Banville, em substituição a Aleksandar Hemon. 


O autor português já lançou dois volumes, Caravana e Doutor Avalanche. Alguns deles me lembram os textos de Daniil Harms.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A Irmã de Freud, de Goce Smilevski, no Brasil

Finalmente, A irmã de Freud, de Goce Smilevski, que já apareceu no blog (aqui), chega pela Bertrand Brasil. 



O primeiro capítulo está disponível aqui.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Conto da semana, de David Albahari

Um conto muito curto e que lembra Borges, e que foi publicado originalmente na Revista Blesok.:

At night, as the shadows grow, so does the boy's fear, rising regardless of the voice coming from under the bed, repeating over and over: don't be afraid, little boy, you're not alone, you're not alone, not at all.

David Albahari (1948) é um dos maiores escritores sérvios da atualidade. De origem judaica, vive no Canadá.


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Escritores portugueses e o mercado no Brasil

Um interessante artigo sobre as expectativas e a realidade dos escritores e editores portugueses que vieram para o Brasil. Prestígio que os escritores portugueses suscitam no Brasil é superior à venda de seus livros.

Bárbara Bulhosa, portuguesa que, em 2012, fundou a editora Tinta da China Brasil, diz que a literatura nacional não merece tratamento de preferência: “Há interesse por bons escritores que escrevam em português, não necessariamente pela literatura portuguesa. Se a Dulce Maria Cardoso fosse angolana ou espanhola tinha recebido a mesma atenção quando esteve no Brasil”.
O livro O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, editado pela Tinta da China Brasil em 2012, foi elogiado pela crítica e a visita da autora, convidada para a Feira Literária Internacional de Paraty, mereceu destaque em vários jornais. “Em Portugal, O Retorno vendeu dezoito mil exemplares”, diz Bárbara, “no Brasil vendeu dois mil”. Se os números são excelentes para a realidade portuguesa, não estão nada mal para o Brasil, ainda mais se considerarmos que alguns autores brasileiros, mesmo conhecidos, não esgotam tiragens de três mil exemplares.
Você pode ler a íntegra da matéria aqui.
Portugal é um país pequeno e em grave crise. Nós somos imensos e, de acordo com o que se diz, estamos "bombando" por aí. E, no entanto, comemora-se (merecidamente, diga-se) a venda de dois mil exemplares como um grande feito...

sábado, 9 de novembro de 2013

Conto da semana, de Franz Kafka




Prova de que até meios insuficientes - infantis mesmo podem servir à salvação:


Para se defender das sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e se fez amarrar ao mastro. Naturalmente - e desde sempre - todos os viajantes poderiam ter feito coisa semelhante, exceto aqueles a quem as sereias já atraíam à distância; mas era sabido no mundo inteiro que isso não podia ajudar em nada. O canto das sereias penetrava tudo e a paixão dos seduzidos teria rebentado mais que cadeias e mastro. Ulisses, porém, não pensou nisso, embora talvez tivesse ouvido coisas a esse respeito. Confiou plenamente no punhado de cera e no molho de correntes e, com alegria inocente, foi ao encontro das sereias levando seus pequenos recursos.

As sereias entretanto têm uma arma ainda mais terrível que o canto: o seu silêncio. Apesar de não ter acontecido isso, é imaginável que alguém tenha escapado ao seu canto; mas do seu silêncio certamente não. Contra o sentimento de ter vencido com as próprias forças e contra a altivez daí resultante - que tudo arrasta consigo - não há na terra o que resista.

E, de fato, quando Ulisses chegou, as poderosas cantoras não cantaram, seja porque julgavam que só o silêncio poderia conseguir alguma coisa desse adversário, seja porque o ar de felicidade no rosto de Ulisses - que não pensava em outra coisa a não ser em cera e correntes - as fez esquecer de todo e qualquer canto.

Ulisses, no entanto - se é que se pode exprimir assim - não ouviu o seu silêncio, acreditou que elas cantavam e que só ele estava protegido contra o perigo de escutá-las. Por um instante, viu os movimentos dos pescoços, a respiração funda, os olhos cheios de lágrimas, as bocas semi-abertas, mas achou que tudo isso estava relacionado com as árias que soavam inaudíveis em torno dele. Logo, porém, tudo deslizou do seu olhar dirigido para a distância, as sereias literalmente desapareceram diante da sua determinação, e quando ele estava no ponto mais próximo delas, já não as levava em conta.

Mas elas - mais belas do que nunca - esticaram o corpo e se contorceram, deixando o cabelo horripilante voar livre no vento e distenderam as garras sobre os rochedos. Já não queriam seduzir, desejavam apenas capturar, o mais longamente possível, o brilho do grande par de olhos de Ulisses.

Se as sereias tivessem consciência, teriam sido então aniquiladas. Mas permaneceram assim e só Ulisses escapou delas.

De resto, chegou até nós mais um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astucioso, u ma raposa tão ladina, que mesmo a deusa do destino não conseguia devassar seu íntimo.  Talvez ele tivesse realmente percebido - embora isso não possa ser captado pela razão humana - que as sereias haviam silenciado e se opôs a elas e aos deuses usando como escudo o jogo de aparências acima descrito.

O Silêncio das sereias. A tradução é de Modesto Carone.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Asco, de Horacio Castellanos Moya

Asco
Horácio Castellanos Moya
Tradução: Antônio Xerxenesky
Editora Rocco

Talvez a maioria não tenha percebido, mas Moya já havia sido publicado por aqui. É ele o autor do conto Sozinhos no universo inteiro, na Antologia Pan-Americana. Asco - ou melhor: Asco: Thomas Bernhard em San Salvador - é uma novela de leitura rápida. Na verdade, um exercício literário: o próprio autor estava escrevendo à moda de Bernhard (se é que isso é possível). 

Publicado em 1997, é uma prova de que, ao contrário do que se costuma apregoar, os latino-americanos não têm um humor dos melhores. Não por parte de Horacio Castellanos Moya (1957), claro, mas da sociedade. Após a publicação da novela, o autor passou a sofrer ameaças de morte. Um exercício, uma brincadeira, que foi levada demasiadamente à sério pelos seus compatriotas. Uma pena. Mas talvez - e apenas talvez - isso signifique que o autor tenha sido lido pelos seus compatriotas, o que surpreenderia Vega...

Edgardo Vega, o Bernhard salvadorenho, está de volta ao país. Veio do Canadá, onde vive, para o funeral da mãe, e se encontra com Moya. O texto é um imenso parágrafo de noventa e tantas páginas, um monólogo do qual ninguém escapa: dos irmãos maristas (Vega estudou no colégio por onze anos) à culinária. Afinal, ser salvadorenho, afirma, é um azar inescapável, e a solução foi ir para o Canadá. Sobra também para a cerveja, o irmão (e a cunhada e os sobrinhos que não desgrudam da televisão), dos militares, da universidade...

Esta é uma cultura ágrafa, Moya, uma cultura que rejeita a palavra escrita, uma cultura sem nenhuma vocação para o registro e a memória histórica, sem nenhuma percepção do passado, uma 'cultura de mosca', seu único horizonte é o presente, o imediato, uma cultura com a memória de uma mosca que colide a cada dois segundos contra o mesmo vidro porque dois segundos depois já se esqueceu da existência do vidro, uma cultura miserável.

Muitas das críticas - demolidoras - poderiam ser feitas a outros países, inclusive este aqui... Não é à toa que, em meio às ameaças que recebeu, Moya foi convidado a adaptar a novela a diversos outros países. 



Meu nome é Thomas Bernhard, me disse Vega, um nome que peguei emprestado de um escritor austríaco que admiro e que, com certeza, nem você nem os outros imitadores dessa infame província conhecem.

Só duas pessoas escapam da fúria bernhardista: Moya e Tchaikovsky - Vega adora seu Concerto em Si Bemol menor para piano e orquestra.