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Mostrando postagens com o rótulo Literatura: Rússia

Parque cultural, de Serguei Dovlátov

Parque cultural Serguei Dovlatov Tradução de Yulia Mikaelyan Kalinka, 166 p. Os últimos anos foram extraordinariamente bons para a literatura russa no Brasil, não só pelas novas traduções, diretas, dos clássicos que líamos a partir de versões francesas ou inglesas, como de autores do século XX que ignorávamos por completo. A Kalinka, por exemplo, vem lançando a obra de Serguei Dovlatov (1941-1990), de quem li este  Parque Cultural , na tradução de Yulia Mikaelyan, que ainda apresenta textos introdutórios da vida e da obra do autor. O narrador em crise encontra trabalho num estranho parque temático, uma Disney para o grande fundador da literatura russa Puchkin. As Colinas de Puchkin. O parque de fato existe. Acho que só os russos levam seus escritores tão a sério.  Na novela, os turistas procuram cada detalhe de sua vida - alguns estrangeiros, claro, mas muitos soviéticos. Ávidos por informações que provavelmente já terão esquecido no dia seguinte; da orige...

Noites brancas, de Dostoievski

Mais novo, sempre lia algum autor russo nos escaldantes meses de verão do Rio. Todos podiam estar se dissolvendo à minha volta, mas havia um certo consolo em ler alguma história passada numa São Petersburgo ou numa Moscou - para não falar de algum ponto esquecido na Sibéria - congelada pelo tal General Inverno.  No final de semana anterior ao Natal, finalmente leio Noites brancas, um daqueles livros que conhecemos antes mesmo de termos lido. Entre duas excelentes opções disponíveis para o leitor brasileiro, fiquei com a edição da Companhia Penguin, com a tradução de Rubens Figueiredo (um luxo, aliás, termos agora que escolher qual das boas edições da 34 ou da Companhia das Letras). O problema de traduzir do russo não foi exclusivo do Brasil. Carpeaux já reclamava: Dostoievski apareceu aos europeus ao lado de Turgeniev e Tolstoi; e nada mais natural do que a confusão entre eles: as traduções medíocres e pouco exatas não permitiram descobrir a imensa diferença dos es...

O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov

Há quem considere O mestre e Margarida, do ucraniano soviético Mikhail Bulgákov (  -  ) o melhor romance russo do século XX. Acabo de lê-lo, na edição de 2010 da Alfaguara, traduzida do russo por Zóia Prestes. Agora, terminada a leitura, descubro que a 34 vai lançar uma outra tradução, do Irineu Franco Perpétuo. A história de Woland (o Diabo) e seu séquito, composto por um gato preto (Behemoth), um sujeito com pince-nez (Koroviev), um caolho (Azazello) e uma ruiva nua (Hella) que aparecem na Moscou stalinista de 1929 (o diabo nunca esteve tão à vontade como quando passou por lá) é objeto de culto em várias parte do mundo. A ponto de o apartamento do autor, onde se passa a história, ser objeto de peregrinação e culto até hoje. A história também acompanha o julgamento de Jesus por Pôncio Pilatos. Moscou se torna uma cidade insegura com a chegada de Woland. O primeiro a sofrer é Berlioz, presidente de uma associação de escritores (uma associação do regime, diga-se), ...

Fala, Memória, de Vladimir Nabokov

Fala, Memória Vladimir Nabokov Objetiva/Alfaguara tradução de José Rubens Siqueira Uma grande autobiografia essa de Nabokov, que vai de sua infância na Rússia até a chegada aos Estados Unidos, em 1940. Desde o prefácio, quando mostra que pretendia dar um título diferente à obra (no caso, Fala, Mnemosine, mas seu sábio editor o advertiu para evitar títulos impronunciáveis por velhinhas), até o inédito apêndice. Uma infância cosmopolita em São Petersburgo, em uma família que falava tranquilamente quatro idiomas, passava os invernos na Rússia e em Biarritz. Tutores, jardineiros - uma multidão de funcionários gravitava em torno da estrela Nabokov. Até que, um belo dia, esse idílio é varrido do mapa, em 1917. Há uma descrição cuidadosa (melhor: orgulhosa) de sua árvore genealógica; ficamos sabendo do papel desempenhado por seu pai como um importante político social-democrata que acabou (como quase todos) tragado pelos comunistas... o relacionamento com os tutores e demai...

Dostoievski na BBC

Há tempos a Biblioteca não fala dos "filmes sobre livros". A produção de 2002 da BBC traz a história do atormentado Raskolnikov, filmada na própria São Petersburgo. Uma adaptação bem aos moldes da BBC: produção impecável, fidelidade à obra, bons atores. São 2 DVDs, com 3 horas de duração.  A edição da 34 traz a (única?) tradução direta do russo para o português, pelas mãos de Paulo Bezerra. Foi essa edição que li e que me fez perceber a diferença das antigas edições brasileiras, quase sempre feitas a partir de versões francesas. É quase outro livro... e muito melhor.

Conto da semana, de Aleksandr Púchkin

Da sensacional Nova Antologia do Conto Russo, organizada por Bruno Barretto Gomide e editada pela 34, o conto Viagem a Arzrum , de Aleksandr Púchkin (1799-1837), vem a calhar nesta semana de abertura dos jogos olímpicos de inverno em Sochi.  Parei em uma estalagem e no dia seguinte me dirigi aos célebres banhos de Tiflis. A cidade me pareceu populosa. As construções asiáticas e o bazar me fizeram lembrar de Kichiniov. Pelas ruas estreitas e tortuosas corriam burros carregados de cestas; carroças atreladas a bois obstruíam o caminho. Armênios, georgianos, circassianos e persas se aglomeravam na praça assimétrica; entre eles, jovens funcionários russos passavam em cavalos em Karabakh. Uma descrição das pessoas e da paisagem da região que era então submetida ao império russo - sim, os problemas no Cáucaso não são recentes, remontando pelo menos à guerra contra os turcos de 1828-1829. O autor, que não foi incorporado ao exército, resolveu assim mesmo conhecer a região, e o...

Conto da semana, de Varlam Chalámov

Por pouco a semana não acaba sem seu conto... Varlam Chalámov (1907-1982) passou 22 anos em um gulag. Desta experiência pavorosa surgiram os Contos de Kolimá , publicados inicialmente como samizdat  na Europa ocidental. Morreu cego e surdo, num hospital psiquiátrico, onde foi internado contra a sua vontade. O conto da semana - Xerez - integra a Nova Antologia do Conto Russo, da editora 34. Foi traduzido diretamente do russo por Nivaldo dos Santos. Mas se, como era evidente, não lhe caberia ser eterno numa imagem humana, como unidade física, ao menos ele mereceria a eternidade artística. Chamaram-no de primeiro poeta russo do século XX, e ele sempre achou que realmente o era. Acreditava na eternidade de seus versos. Não teve seguidores, mas acaso os poetas os suportam?  Sim, o conto é uma homenagem ao poeta Ossip Mandelstam (1891-1938), preso na década de 30 nos expurgos stalinistas, morto em um gulag e reabilitado em 1956. No conto, os últimos instantes do po...

Daniil Harms no Brasil

A Editora Kalinka publica pela primeira vez no Brasil um volume dedicado a Daniil Harms (1905-1942). A tradução é direta do russo.   Aqui, uma entrevista com a editora e uma das tradutoras Daniela Mountian,

Conto da semana, de Isaac Babel

Fui apresentado aos contos de Babel (1894-1940) por uma edição brasileira de 1989 d' A Cavalaria Vermelha, numa tradução a partir da edição soviética em espanhol, por Roniwalter Jatobá. Babel serviu no Exército Vermelho - foi comissário político no 1º Exército de Cavalaria - a Cavalaria Vermelha - durante a guerra de 1918-1922. Estava empolgado com a Revolução, que imaginava fosse enterrar os pogroms do regime czarista e seu antissemitismo. Como se sabe, errou feio. Os contos dessa coletânea já haviam desagradado o regime stalinista (seus personagens admiravam Trotsky, e as narrativas, plenas de ironia e violência). Foi executado pelo regime e dele só se voltou a ouvir falar nos anos 1950. Seu destino, confirmado apenas após 1989. Quando os arquivos da KGB foram abertos, resgatou-se o seguinte trecho do interrogatório de Babel. Kafka não teria escrito melhor: - Você foi preso por atividades anti-soviéticas traiçoeiras. Você reconhece sua culpa? - Não. - Então...