quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Fala, Memória, de Vladimir Nabokov

Fala, Memória
Vladimir Nabokov
Objetiva/Alfaguara
tradução de José Rubens Siqueira

Uma grande autobiografia essa de Nabokov, que vai de sua infância na Rússia até a chegada aos Estados Unidos, em 1940. Desde o prefácio, quando mostra que pretendia dar um título diferente à obra (no caso, Fala, Mnemosine, mas seu sábio editor o advertiu para evitar títulos impronunciáveis por velhinhas), até o inédito apêndice.

Uma infância cosmopolita em São Petersburgo, em uma família que falava tranquilamente quatro idiomas, passava os invernos na Rússia e em Biarritz. Tutores, jardineiros - uma multidão de funcionários gravitava em torno da estrela Nabokov. Até que, um belo dia, esse idílio é varrido do mapa, em 1917.

Há uma descrição cuidadosa (melhor: orgulhosa) de sua árvore genealógica; ficamos sabendo do papel desempenhado por seu pai como um importante político social-democrata que acabou (como quase todos) tragado pelos comunistas... o relacionamento com os tutores e demais empregados.

E, de forma especial, seu relacionamento (já adulto) com os russos expatriados que vagavam pela Europa. Tem-se a impressão de que estamos falando de verdadeiros zumbis, vivendo num mundo que não lhes pertencia. Sua observação sobre a forma como os europeus os encaravam é muito interessante:

Em algum lugar no fundo de suas glândulas, as autoridades secretavam a noção de que por pior que fosse um estado - digamos, a Rússia soviética - qualquer fugitivo dela era intrinsecamente desprezível, uma vez que ele existia fora de uma administração nacional; e portanto era visto com a absurda reprovação com que certos grupos religiosos veem uma criança nascida fora do casamento

Nabokov não faz o gênero do expatriado revoltado com a pobreza. Numa das melhores passagens do livro:

A seguinte passagem não é para o leitor comum, mas para o idiota particular que, por ter perdido uma fortuna em algum crash, acha que me entende.

Minha velha (desde 1917) briga com a ditadura soviética não tem qualquer relação com questões de propriedade. É total o meu desprezo pelo emigrado que "odeia os vermelhos" porque eles "roubaram" seu dinheiro e sua terra. A nostalgia que venho alimentado todos esses anos é uma sensação hipertrofiada de infância perdida, não de tristeza por dinheiro perdido.

E finalmente: reservo a mim mesmo o direito de sentir saudade de um nicho ecológico:

...Sob o céu
de minha América suspirar
por uma localidade na Rússia

O leitor comum pode agora retomar.

Por mais que saibamos de seu interesse no xadrez e nas borboletas, os trechos - longos - dedicados aos assuntos interessam, apenas, aos que, como ele, compartilham essas paixões. É, para mim, o único senão ao livro, mas que em nada prejudica a constatação de que poucos escritores conseguem uma prosa tão elegante quanto Nabokov (o que se vê de forma mais evidente quando se dedica a falar do pai - sem qualquer pieguismo, mas com indisfarçada fascinação.

Vladimir Nabokov (à esq.) aos sete anos de idade, ao lado do pai






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