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Mostrando postagens com o rótulo Poesia

Daniel Hevier

TERRA DE GELO a ideia de que existe algures um país como a Islândia ajuda-me a sobreviver (Daniel Hevier) Do site Poesia Ilimitada. No próximo verão, lembre-se da Islândia

A mão

A MÃO Vinte e sete ossos, trinta e cinco músculos cerca de duas mil células nervosas em cada uma das pontas dos cinco dedos. É quanto basta  para escrever Mein Kampf ou A Casinha do Ursinho Puft. Wislawa Szymborska. A tradução é de Teresa Swiatkiewicz, para o excelente  Poesia & Lda.

Sevilha

Já nada resta do Arenal de que contou Lope de Vega. A Torre do Ouro é sem ouro senão na cúpula amarela. Já não mais as frotas das Índias, e esta hoje se diz América; nem a multidão de mercado que se armava chegando elas. Já Rinconte e Cortadilho dormem no cárcere dos clássicos e é ponte mesmo, de concreto, a antiga Ponte de Barcos. Urbanizaram num Passeo o formigueiro que antes era; só, do outro lado do rio, ainda Triana e suas janelas. (João Cabral de Mello Neto)

Conto da semana - jogando xadrez

Um conto do escritor argentino radicado na Espanha, Andrés Neuman, que pode ser lido aqui no original, diretamente do site da revista chilena   Ojoseco. A Partida trata de um encontro entre amigos - Riquelme e o narrador - que há muito não se viam. Os dois se encontram para uma partida de xadrez - presença garantida em contos e romances... Para ficar na literatura argentina, lá vai Borges: I Regem no seu recanto os jogadores As lentas peças. Esse tabuleiro Demora-os toda a noite no severo Âmbito em que se odeiam duas cores. Dentro irradiam mágicos rigores As formas; torre homérica, ligeiro Cavalo, sagaz dama, rei postreiro, Bispo oblíquo e peões agressores. E quando os jogadores tiverem ido, Depois do tempo os ter já consumido, Decerto não terá cessado o rito. No Oriente incendiou-se esta guerra Cujo anfiteatro é hoje toda a terra. Como o outro, este jogo é infinito. II Tênue rei, torto bispo, encarniçada Dama, torre direta e peão ladino Sobre ...

Outro dia de folia, de Eduardo Lacerda

No próximo dia 6 de dezembro Eduardo Lacerda lança o livro Outro dia de folia, pela Editora Patuá (da qual é co-editor).  A última ceia Há regras à mesa como em um brinquedo de quebra-cabeça. / E eu não entendo os dispostos à esquerda dos pais. Restos do pequeno que sentavam ao meio da mesa (como prato que se enche e procura lugar entre as pessoas)./ Já não me encaixo depois que aprendi a olhar de lado e sair por baixo

Mark Boog

Do  Poesia Ilimitada,  um poema do holandês Mark Boog (1970). A tradução é de Maria Leonor Raven-Gomes. TEMPO Não conseguimos enxergar onde estamos, mas sobre esse assunto lemos livros - helicópteros que não levantam voo. Podemos modificar o tempo: por palavras, em nada, no presente, nas nossas cabeças. Tempo, leitor, é teoria que nos suporta. Desapareceram palavras onde nós estávamos, brancas figuras humanas na fita preta da máquina de escrever. Marcados, continuamos. Rastejando pelos montes do tempo que nos impedem a vista, enferrujando nos sifões do tempo: sumiram-se palavras! A fita, a paisagem, a máquina: desfiguramo-las. Resta-nos o prazer da serrazina, o descanso do marcado a ferro e a monumental  fuga em metáforas, em lúcida incompreensão. 

Lançamento - Outro dia de folia, de Eduardo Lacerda

Da editora Patuá, parceira do blog. O editor e poeta Eduardo Lacerda lança seu livro de poesia, Outro dia de folia,  em dezembro. Mais informações,  aqui.

O Terrorista, de Wislawa Szymborska

Novamente, do  Poesia Ilimitada : O TERRORISTA… OLHA A bomba vai explodir no bar às treze e vinte. São neste momento treze e dezasseis. Alguns conseguem ainda entrar, alguns sair. O terrorista passou já para o outro lado da rua. A esta distância ficará livre de perigo e, quanto a vista, é como no cinema: Uma mulher de casaco amarelo... entra. Um homem de óculos escuros... sai. Rapazes de jeans... conversam. Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos. Aquele baixinho tem sorte e senta-se na vespa, mais um tipo alto que entra. Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos. Passa uma moça de fita verde nos cabelos. Só que o autocarro oculta-a. Treze e dezoito. A rapariga desapareceu. Se foi bastante estúpida para entrar ou não, isso se saberá pelas notícias. Treze e dezanove. Parece que ninguém entra. Há porém um careca gordo que sai. Mas olha, parece que procura algo nos bolsos, faltam treze segundos para as treze e vinte, e ele volta a e...

O Livro

No site do  Rascunho , um poema de Jorge Tufic (Sena Madureira, AC, 1930), que começa assim: 1 Não se mude o teu formato ó livro de quatro quinas pois é neste mundo exato que estão as coisas divinas

Vermeer, de Wislawa Szymborska

Do site do  Poesia Ilimitada , de Portugal, e traduzido por Ana Kalewska, Beata Cieszynska e Teresa Swiatkiewicz, um poema de Wislawa Szymborska (1923-2012), Nobel de Literatura de 1996. VERMEER Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum, em quietude pintada e concentração,  dia após dia, não verter o leite  do jarro para a vasilha, o Mundo não merece  o fim do mundo. 

27 de janeiro, de Adam Zagajewski

Nunca é demais elogiar o  Poesia Ilimitada . Aqui, um poema de Adam Zagajewski, com quatro dias de atraso... 27 de janeiro Dia gelado. Um sol de inverno. Branco vapor. Mas nesta sexta-feira não sabíamos o que celebrar, e o que chorar - o Dia Memorial do Holocausto ou o aniversário de Mozart. Nossa memória ficou perplexa. A imaginação perdeu o rumo. No parapeito da janela, uma vela chorou (fomos convidados a acender velas), mas a suave música do jovem Mozart chegou até nós pelos altifalantes, em estilo rococó, a época das asas de prata e não dos cabelos grisalhos que conhecíamos de Auschwitz, idade dos figurinos, e não da nudez, a imaginação cresceu, perdida em pensamentos.

Tomas Tranströmer em português

Do ótimo blog  Poesia Ilimitada , quatro poemas do Nobel 2011.

Um poema de Luiz Dias Bahia

CENTELHA Mormaço. Congonhas: os anjos da igreja suavam nas cinturas obesas. De pedra-sabão: minha sombra. Pelo passeio íngreme despencavam vogais do meu nome. Beco: janelas nuas, como vento entalhado. Mas era Chopin quem colhia mortes agudas no eco desses ou- vidos idos idos. Ia a rua estreita. Susto - esquina, sentada você corava uma simplicidade vermelha como as entranhas das pétalas pelo chão.  ( Segredos, Editora LGE, Brasília, 2011)

Sentimento do Fim do Mundo, de Willian Delarte

Editora: Patuá ISBN 978-85-64308-07-7 132 páginas 2011 Este post inaugura a primeira parceria da Biblioteca, com a Editora Patuá, de São Paulo. É uma oportunidade para conhecer a produção literária brasileira contemporânea. Willian Delarte inscreve seu nome, com seu Sentimento do Fim do Mundo, entre os autores brasileiros da novíssima geração. Dialoga com Carlos Drummond de Andrade, com quem chega a ter uma “conversa” logo no início. Se em Sentimento do Mundo (1940), Drummond cuida de um mundo prestes a entrar em guerra (os poemas foram escritos entre 1935 e 1940), o Fim do Mundo está igualmente sintonizado com o nosso tempo – e Delarte já o avisa: entramos todos no Mundo virtual que é global, que é individual, que é tudo o que pregam nossos profetas. Redes sociais de comunicação, da ciência do consumo eterno, do espírito diminuto globalizado, prossegue. Em Inicialização Operacional Homem Digital 1.0, vê um elemento – justo o único elemento humano -  que ...

Um poema de Willian Delarte

ÓBITO Decretou-se naquele dia o fim súbito da poesia O único poeta em cena jamais havia escrito, cantado, ouvido, lido, sequer um poema, e nada mudou... Na memória dos que um dia visitaram qualquer linha restou rastros de azia e a incerteza de um triste fonema que se perdia e nada dizia Enterrado vivo, um verso nunca lido dizia que o poema, enfermo de enfisema, ressuscitaria, mas na missa do sétimo dia um padre lingüista comungou num pobre latim a imprestabilidade da poesia; encomendou a Homero, Virgilio e Verlaine, o defunto indigente: “que tirasse da nossa mente todo ruído ou palavra indecente que tivesse mais de um sentido” Por isso, naquele dia o Homem forte se fazia: sem tal patologia, bebia a sorte da morte que não sentia. (Sentimento do Fim do Mundo, Editora Patuá, 2011)