domingo, 7 de agosto de 2011

Um poema de Willian Delarte

ÓBITO

Decretou-se naquele dia
o fim súbito da poesia

O único poeta em cena
jamais havia escrito,
cantado, ouvido, lido,
sequer um poema,

e nada mudou...

Na memória dos que um dia
visitaram qualquer linha
restou rastros de azia
e a incerteza de um triste fonema
que se perdia
e nada dizia

Enterrado vivo,
um verso nunca lido
dizia que o poema,
enfermo de enfisema,
ressuscitaria,

mas na missa do sétimo dia
um padre lingüista
comungou num pobre latim
a imprestabilidade da poesia;

encomendou a Homero,
Virgilio e Verlaine,
o defunto indigente:

“que tirasse da nossa mente
todo ruído
ou palavra indecente
que tivesse mais de um sentido”

Por isso, naquele dia
o Homem forte se fazia:

sem tal patologia,
bebia a sorte
da morte que não sentia.

(Sentimento do Fim do Mundo, Editora Patuá, 2011)

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