sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Anita Konkka e O Palhaço

Meu pai mentia todos os dias e foi muito bem sucedido. Tornou-se um membro do Partido e um alto funcionário do Ministério da Cultura. Mas minha avó, que considerava a mentira um pecado, passou um tempo num campo de concentração de Stalin.

São as memórias de Albertina Vinniyeva, personagem do conto da semana, The Clown (O Palhaço) da finlandesa Anita Konkka (da antologia Best European Fiction 2011, organizada por Aleksandar Hemon). Sua profissão: palhaça. Mais precisamente, a famosa palhaça Milopa.

Achava-se uma espécie de Picasso desta arte. Mas ninguém sabia que eu era uma mulher. As pessoas achavam que eu era um homem fazendo o papel de uma mulher. Talvez por isso eu fosse um palhaço tão bom. (...) Eu era a famosa Milopa e porque o jornal disse que eu era um bom comediante. As pessoas não acreditam em seus olhos e ouvidos, mas sim nos jornais, essa é a razão de ser tão fácil enganá-las.

Um dia, antes de uma apresentação, ficou paralisada e sem voz; movia apenas os olhos. Ficou em estado catatônico por um mês. Nunca mais voltou ao palco.

E então decide escrever suas memórias, atendendo ao pedido da Gallimard.  Desde os quinze anos queria ser palhaça de circo, algo que não agradava muito sua mãe, preocupada com as dificuldades de uma vida itinerante. Já o seu irmão, que queria ser motorista, acabou advogado... Quanto a Albertina, ao terminar a escola, foi admitida na escola do Circo de Moscou - seu pai era o diretor e providenciou tudo...

A única pessoa que sentia atração por ela era o domador de leões, que era tão bêbado que qualquer uma lhe pareceria bela. Em algumas manhãs meu rosto era terrível, como se estivesse com uma tremenda dor de dente, e a sombra do meu nariz é maior que o normal. Mas o que uma pessoa pode fazer com seu nariz quando seu avô se chama Israel e seu pai Isac?  Ela era, além de muito feia, a única mulher no curso de palhaço e talvez a pior aluna da história da escola, mas pela posição do meu pai, não fui expulsa. Apresentou uma tese sobre os elementos marxistas na arte de palhaço.

Começou a carreira como palhaço de terceira classe, em Murmansk. Mas não atuava como queria – ela tinha que ser um palhaço gordo, estúpido e de nariz vermelho, o que não fazia o meu estilo, já que eu era mais o tipo do pequeno Pierrot. O diretor do circo dizia que o povo não entendia o estilo elitista francês de comédia. A arte do palhaço é proletária, dizia.

Depois de um ano, o diretor do circo disse que ela não tinha o menor talento. Trabalhou então como auxiliar em um hospício, guarda de pinturas do Museu Puschkin, assistente da Biblioteca Lenin etc. Com a ajuda do pai, virou tratadora de coelhos do Grande Circo de Moscou e depois como assistente nos números de palhaços. E, com a última grande colaboração paterna (o pai doente queria que ela desertasse), iniciou um tour internacional. Em Milão, finalmente, consegue escapar:

Pela primeira vez em minha vida, pude respirar com liberdade e ser eu mesma. Os italianos gostaram do meu humor e me receberam bem; puderam ver minhas melhores performances (...) Na Alemanha eu percebi que as pessoas também mentem no ocidente. Fiquei muito surpresa, por que razão elas tinham que mentir? Elas não têm problemas em dizer a verdade como no meu país. 

Por fim, ela avisa que precisa de vinho para realmente começar a escrever suas memórias.

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