segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Dante por Ian Thomson



Artigo, em inglês, publicado no site da Spectator, sobre o livro de Ian Thomson sobre a Divina Comédia. Dante, segundo ele, é o patrono dos perseguidos: Oscar Wilde tinha um exemplar do livro à mão, Primo Levi procurava se lembrar de seus versos enquanto lutava pela sobrevivência em Auschwitz, Osip Mandelstam só saía de casa com um exemplar no bolso.

A autora do artigo, Frances Wilson, destaca a existência de cerca de 50 traduções desse monumento para o inglês. Mas, afinal, o que atrai um leitor do século XXI à leitura da Comédia? Simples:

The reason Dante still matters, Thomson argues, is not because readers today ‘fear damnation or are moved by the beauty of the Christian revelation, but because he wrote the story of an ordinary man — an Everyman — who sets out hopefully in this life in search of renewal’.


A Promessa, de Friedrich Dürrenmatt

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Pouquíssimo conhecido no Brasil, como a literatura suíça em geral, Friedrich Dürrenmatt (1921-1990) escreveu peças e romances policiais. Salvo engano, foi publicado por aqui lá pelos anos 90.

A Promessa (1958) é quase uma tese sobre o romance policial. Um ex-comandante da polícia encontra o autor após uma conferência literária sobre o gênero. Começa a criticar ambos: o romance policial é uma farsa, os escritores nos enganam, dando um crédito indevido à lógica... e começa a contar um episódio.

Assim, em poucas páginas, o narrador deixa de ser o autor e passa a ser o próprio ex-comandante, que conta uma história ocorrida há muitos anos. Matthäi, grande comissário de polícia, prestes a deixar a Suíça para assumir um posto na Jordânia, resolve postergar sua nova missão para investigar o assassinato de Gritli Moser, uma menina de Magendorf. Matthäi promete aos seus pais desolados encontrar o assassino. É a promessa.

O corpo foi encontrado na floresta pelo caixeiro viajante (ainda existem caixeiros viajantes?) von Gunten. Todos os indícios levam à sua culpa. Matthäi discorda, mas a população exige um culpado. Coincidências de local, horário, bem como o fato de o suspeito vender, entre outras coisas, uma faca, criam em todos a convicção de que o crime está solucionado.

Cético, Matthäi se envolve definitivamente no caso com o suicídio de Von Guten. Está convencido de que um trágico erro fora cometido. E, dessa forma, não cumpriu a promessa feita aos pais da vítima. 

A forma como Matthäi se vincula à promessa feita pode ser considerada por muitos, cinicamente, irreal, mas é o grande motor desse romance de cerca de 150 páginas. Sua vida é completamente alterada, ele desiste da Jordânia, acaba se isolando em um posto de gasolina, perde boa parte de sua reputação... busca uma racionalidade perfeita, explica-a ao narrador da história. Numa história policial clássica, o desfecho seria, certamente, outro, com toda essa dedicação culminando em uma recompensa ao dedicado comissário. Mas não é exatamente isso o que acontece.

O subtítulo - "um réquiem para o romance policial" - acaba sendo injusto: trata-se de um réquiem para a própria razão.