sexta-feira, 30 de março de 2018

O livro negro, de Orhan Pamuk

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O livro negro
Ohran Pamuk
Companhia das Letras
Trad. Sergio Flaksman
2008, 515 p.


Não sei se meus leitores perceberam que as águas do Bósforo estão secando. Acho que não. Enquanto nos entretemos todos com a matança desenfreada que vem tomando conta das nossas ruas, febris e entusiasmados como crianças que assistem a uma queima de fogos, quem teria tempo para ler ou descobrir o que acontece pelo mundo? Já é difícil acompanhar nossos cronistas - lemos  seus textos enquanto nos acotovelamos em nossas estações das barcas, enquanto nos aglomeramos nos pontos de ônibus repletos, enquanto bocejamos sentados nos bancos dos táxis coletivos com as letras trêmulas diante dos nossos olhos. Encontrei a notícia de que lhes falo numa revista francesa de geologia.

Lançado em 1990 e publicado no Brasil em 2008, só agora cheguei a esse O livro negro, do Pamuk. 

O que aconteceu com Rüya (Sonho), esposa de Galip? O jovem advogado volta para casa em Istanbul e não encontra a mulher. Está convencido de que está escondida com o famoso colunista Celal Salik, que publica, há anos, seus textos no jornal Milliyet. É primo do advogado e meio-irmão de Rüya. Galip tem certeza de que os dois estão juntos, em algum lugar de Istanbul.

Mas não se trata de uma trama policial. Como diz o próprio Galip, a melhor história policial é aquela em que nem mesmo o seu autor sabe quem é o assassino". Ele examina as crônicas de Celal, em busca de pistas sobre seu paradeiro. Essas colunas cuidam do passado otomano; de seitas místicas; da hipótese de, um dia, o Bósforo simplesmente secar, extasiado pela poluição; das inúmeras civilizações que já passaram pela cidade. A narrativa alterna essas crônicas com a investigação de Galip. 

Galip acaba se passando primo, o que lhe traz grandes problemas. Começa a escrever para o jornal. Os leitores fazem perguntas - e a mais importante: 

- O senhor tem alguma dificuldade para ser quem é?

E, como se isso fosse pouco, completa:

- Existe algum modo de um homem ser apenas quem é?

Essa questão da identidade é cara a Pamuk em toda a sua obra. No final, uma conversa entre Galip/Celal e um “leitor fiel”, um certo Mehmet... a história que Galip escuta é quase que inteiramente a sua própria história. Seria essa voz a do próprio Celal? As partes marcam um encontro. Dirigindo-se para lá, percebe que as ruas estão interditadas, uma mancha branca que jazia na calçada, a dois passos da vitrine da loja de máquinas de costura Singer. Um só corpo...

Pamuk monta um grande e imenso labirinto, tão tortuoso como as ruas de Istanbul, a rigor o seu único personagem.