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Mostrando postagens com o rótulo Literatura: Irlanda

O Mar, de John Banville

Eles partiram, os deuses, no dia da maré estranha. A manhã inteira sob um céu leitoso as águas da baía tinham subido mais e mais, atingindo alturas inauditas, pequenas ondas rastejando sobre a areia crestada que havia anos só era umedecida pela chuva e chegando a lamber as bases das dunas. O casco enferrujado do cargueiro encalhado na entrada da baía em algum momento fora do acance da memória de qualquer um de nós deve ter achado que lhe concediam a oportunidade de um relançamento. Eu nunca mais tornaria a nadar, depois desse dia. As aves marinhas vagiam e mergulhavam, em nada afetadas, ao que parece, pelo espetáculo daquela vasta bacia de água que inchava como uma bolha, de um azul de chumbo e com um fulgor maléfico. Pareciam anormalmente brancas, naquele dia, essas aves. As ondas depositavam na areia uma franja de espuma impura e amarela. Vela alguma desfigurava o horizonte alto. Não voltei a nadar, não, nunca mais. Com considerável atraso, li na última semana O Mar,  na edição d...

Happy Bloomsday

Sétimo Bloomsday deste blog, sétima promessa de ler Ulysses. Portanto, já não tem lá muita credibilidade.  Mas agora, com o guia do Caetano Galindo, autor da última tradução brasileira do livro (nada mau para um país como o nosso se dar ao luxo de ter três versões do Ulysses ), quem sabe a coisa vai... em homenagem ao 16/06, vou lá me arriscar, ao menos, nessa visita guiada. A leitura da Odisseia fazia, até certo ponto, parte do projeto... Quanto ao Bloomsday, e esperando poder escrever bastante a respeito em 16/06/2018, veja a  página do The James Joyce Centre.

As causas da guerra, por Lemuel Gulliver

Perguntou-me ele quais eram as Causas ou Motivos usuais que levavam um País a ir à Guerra contra outro. Respondi que eram inumeráveis, porém mencionaria apenas umas poucas entre as mais importantes. (...) As diferenças de Opiniões têm custado muitos milhões de Vidas: por exemplo, se a Carne é Pão, ou o Pão é Carne; se o Suco de uma certa Fruta é Sangue ou Vinho ; se Assobiar é um Vício ou uma Virtude; se é melhor beijar uma Táboa ou jogá-la no Fogo; qual a melhor Cor para uma Túnica, Preto, Branco ou Vermelho ou Cinza ; se ela devia ser longa ou curta, estreita ou larga, suja ou limpa, e muitas outras coisas. E não há Guerras tão furiosas e sangrentas, nem tão duradouras, quanto as que são ocasionadas por Diferenças de Opinião, especialmente quando se trata de coisas sem importância.

Jonathan Swift

Jonathan Swift - clérigo humanista, fiel-infiel à Igreja da qual era sacerdote - é um dos maiores satíricos da literatura universal, talvez o maior de todos. Gulliver's Travels é o livro mais cruel que existe. As atividades febris e inúteis dos anões de Lilliput ridicularizam a vida parlamentar na Inglaterra do século XVIII e em todos os países e épocas de política constitucional e profissional (...)  Tampouco são melhores os intelectuais que, no país de Laputa, vegetam como imbecis completos. Na última parte, o elogio dos Houyhnhms , isto é, dos cavalos, mais nobres e mais inteligentes que os homens, é a condenação absoluta do gênero humano in totum. Enfim, o episódio dos Struldbrugs, que devem ao progresso científico a imortalidade da vida, não escapando, porém, às doenças, fraquezas e senilidade da extrema velhice, e que não conseguem morrer, já condena a própria vida. Carpeaux, História da Literatura Ocidental, v. II, p. 1063

Conto da semana, de Tomás Mac Siómóin

O conto da semana é do escritor irlandês Tomás Mac Siómóin (1938), Music in the Bone (Música nos ossos), que está na edição BEF 2013. Um dos momentos mais bem humorados na antologia. O narrador é um psiquiatra que, um belo dia, recebe a visita do casal X, o que irá transformar a sua vida para sempre. Ela pede ajuda para o marido, que está tornando a vida cada vez mais insuportável. O sr. X tem uma paixão pela música que ultrapassa todos os limites. Na verdade, ele "ouve a música do próprio corpo". Ele está permanentemente regendo um concerto imaginário, pois está sempre ouvindo algo. Parte do problema está no fato de que mais ninguém ouve isso. A sra. X está desesperada - Quando estes "concertos" começam a interferir nos... bem, nos aspectos mais íntimos de nossa vida a dois... Espero que o senhor não espere que eu forneça os detalhes! Mas, como um homem casado, o senhor saberá exatamente o que estou dizendo, ela diz, olhando para minha aliança de sosla...

Luz Antiga, de John Banville

Luz Antiga John Banville Tradução: Sergio Flaksman Biblioteca Azul, 2013 336 p O que me lembro dela, aqui nesses dias pálidos e suaves de passagem do ano? Imagens do passado distante se aglomeram na minha cabeça, e quase nunca sei dizer se são memórias ou invenções. Não que existia muita diferença entre as duas, se é que existe qualquer diferença. Há quem diga que, sem percebermos, vamos inventando tudo à medida que avançamos, com bordados e enfeites, e me inclino a concordar, pois a Senhora Memória é muito dissimulada e sutil. página 12.  Lançado na FLIP, o novo romance de John Banville (1945), figurinha fácil nas listas anuais de candidatos ao Nobel, trata da memória. Alexander Cleave é um velho ator que narra a sua história - dividida entre um caso com a mãe de seu melhor amigo, há mais de 50 anos, quando era um garoto de 15, e o suicídio de Cass, sua filha. No momento, é convidado para fazer um filme, representando o famoso crítico Axel Vander. O roteiro é de ...

Os Infinitos, de John Banville

Os Infinitos John Banville Tradução de Maria Helena Rouanet Nova Fronteira, 2011 276 p. De todas as coisas que criamos para reconfortá-los, a aurora é uma das que deram mais certo. Quando a escuridão se dissipa no ar como poeira fina e a luz vai se espalhando lentamente a partir do Leste, todos os humanos, a não ser os mais infelizes, se reanimam. Essa ínfima ressurreição diária é um espetáculo que nós, imortais, adoramos. Muitas vezes nos reunimos na borda das nuvens e ficamos olhando para eles, para os nossos pequeninos, vendo-os despertar para saudar o novo dia. John Banville estará na FLIP; dividirá mesa com Lydia Davis. Ainda não li seu romance mais conhecido, O Mar, que lhe rendeu o Booker Prize; este Os Infinitos é minha primeira incursão banvilliana. Adam (Adão?) Godley (God?), famoso matemático, está moribundo em sua cama, depois de ter sofrido um derrame. Á sua volta, o filho (também Adam) com sua mulher, Helen; a filha mais nova Petra e seu namora...

Conto da semana, de Mike McCormack

Mike McCormack (1965) é o autor do conto da semana, To One Mind, da Best European Fiction  2013.  John leva o filho, Jamie, para um evento escolar, mas chega quinze minutos depois do ônibus partir. Desolados, ambos estão em silêncio no carro, voltando para casa. Como bem sabe o narrador - e qualquer pessoa na mesma situação -, um acontecimento desta natureza para um menino de oito anos adquire proporções catastróficas.  Mas Jamie vai além; ele começa a falar que, no dia em que o pai estiver sentado nas galerias da corte, aguardando a sentença do júri, ele se perguntará o que deu errado. Sem entender nada, o pai acaba aos poucos descobrindo que Jamie já está se vendo como um assassino em potencial. Afinal, segundo ele, são vários os indicativos: ele é filho de pais separados (quando ele tinha apenas três anos de idade). Vem de um lar partido e até agora, aos oito, ainda acorda com a cama molhada... Além da separação dos pais e do fato de ainda fazer xixi na cama...