sábado, 7 de outubro de 2017

Churchill, de Jonathan Teplitzky (2017)


Acabo de assistir ao filme de Teplitzky. É o primeiro dos dois filmes sobre Churchill que chegam ao Brasil. Este aqui é interpretado por Brian Cox. Na verdade, o mais esperado, e provavelmente melhor, é o interpretado pelo Gary Oldman, que só deve chegar por aqui pelo final de novembro.

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Este é um filme mais, digamos, psicológico: apresenta um Churchill temeroso com a Operação Overlord (Dia D), atormentado pela sua responsabilidade pelo desastre de Gallipoli (em 1915, quando 250 mil soldados ingleses e australianos foram dizimados num ataque frontal ao Império Otomano). Aparecem alguns personagens importantes, como Clementine, sua mulher, o Rei, Montgomery e Eisenhover, mas não desenvolve muito o ambiente histórico.

Sim, é um bom filme, mas se parece muito (e vários críticos apontaram para esse detalhe) com uma peça de teatro. E Churchill, apesar de tudo, aparece aqui muito mais como um sujeito já meio incapacitado para conduzir a guerra. 

Espero ainda mais ansioso pelo filme de Gary Oldman.

Kazuo Ishiguro

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E eis que, desta vez, a Academia escolheu um escritor de literatura para o Nobel. Kazuo Ishiguro, autor de Vestígios do dia (não li, mas vi o excelente filme de 1993 com Emma Thompson, Anthony Hopkins, Christopher Reeves e Hugh Grant).

Segundo Vargas LLosa, é um


"escritor magnífico, de clara raiz japonesa, ainda que perfeitamente integrado tanto na literatura inglesa como na sociedade britânica. Um exemplo perfeito dessa integração é Os Vestígios do Dia, romance no qual, com grande delicadeza, aborda os rituais da aristocracia britânica, vista com enorme sutileza e espírito crítico por um mordomo dotado de grande perspicácia. É uma delícia de novela, que introduz o leitor nesse mundo inglês com grande destreza narrativa" (trecho de seu artigo publicado no El País, e que pode ser lido, em português, aqui.


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Cervantes 470 anos

Miguel de Cervantes nasceu  em Alcalá de Henares, em 29 de setembro de 1547.

"Y así, del poco dormir y del mucho leer, se le secó el cerebro, de manera que vino a perder el juicio."
--Don Quixote de la Mancha (1605–1615)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Nobel 2017: apostas

Já virou tradição da Biblioteca trazer a lista com os favoritos ao Nobel de Literatura, de acordo com a casa de apostas Ladbrokes:

Vamos aos 10 primeiros:

1. Ngugi Wa Thiong'o, queniano.

2. Haruji Murakami (sempre, sempre ele)


3. Margaret Atwood - canadense. Nunca li, mas é muito bem conceituada pela crítica e pelo público. Manguel adora. Seu romance mais conhecido, O conto da aia, que está na minha fila de espera, virou série de sucesso na televisão. Momento político pode ajudar.

4. Amos Oz. Israelense que costuma irritar esquerda (à qual pertence) e direita.

5. Claudio Magris. Italiano, de Trieste (escreve em italiano e fala o dialeto local). Escreve ficção, mas li Danúbio, ensaio que por si só já o coloca como merecedor do Nobel.

6. Javier María, espanhol de quem nada li.

7. Adonis, poeta sírio. Muito bom, e pode ser ajudado pela geopolítica.

8. Don deLillo, americano. Nunca li nada dele.

9. Yan Lianke, chinês não muito querido pelo regime, o que o coloca, por definição, com chances (não faço a mais vaga ideia se merecido ou não).

10. Ko Un, sul-coreano que virou budista e defende a reunificação do país. Idem...

E mais: Jon Fosse (norueguês), António Lobo Antunes (o Fla - ou flu - do fla-flu com Saramago), Cesar Aira, Ismail Kadare (albanês que já devia ter recebido o prêmio), Laszlo Krasznahorkai (húngaro conceituadíssimo na Europa) e A.B. Yeoshua (israelense).

Philip Roth aparece mais abaixo mas, fazer o quê... um norte-americano não deve ganhar nos próximos dez anos...

Provavelmente o vencedor está mencionado neste post.

domingo, 3 de setembro de 2017

Uma sensação estranha, de Orhan Pamuk

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Uma sensação estranha
Orhan Pamuk
tradução (indireta) de Luciano Vieira Machado
Companhia das Letras, 2017, 590p.


Esta é a história da vida e dos sonhos de Mevlut Karatas, vendedor de boza e de iogurte. Nascido em 1957 na fronteira ocidental da Ásia, numa aldeia pobre que dava para um lago enevoado da Anatólia Central, aos doze anos foi para Istambul, a capital do mundo, onde passou o resto da vida. Quando tinha vinte e cinco anos, voltou para a província natal e de lá fugiu com uma jovem, num estranho episódio que determinou o curso de seus dias.  Voltou para Istambul, casou-se, teve duas filhas e pôs a trabalhar sem desconto - vendeu iogurte, sorvete e arroz como ambulante, e exerceu o ofício de garçom. Mas à noite nunca deixou de perambular pelas ruas de Istambul, vendendo boza e sonhando sonhos estranhos.

Assim começa mais um romance de Orhan Pamuk que acaba de chegar ao Brasil (quando, ao que parece, ele acaba de lançar outro, que deverá levar mais alguns anos para ser editado por aqui).

Uma estranha sensação é, mais uma vez (já virou um lugar-comum, diga-se), uma história cujo principal personagem é nada menos que a cidade de Istambul. Um livro que apresenta mapa genealógico, uma cronologia que alcança fatos históricos e os personagens da história e fotos e ilustrações do próprio autor.

Mevlut Karatas é um homem comum, um vendedor de boza, que chega à cidade em 1963, vindo do interior da Anatólia, parte asiática do país. Vender boza pelas ruas é algo hoje impensável; Mevlut faz parte de uma cidade que hoje já não mais existe. Começou a trabalhar antes de as grandes empresas distribuírem iogurte diretamente nas lojas, e antes de o álcool ser liberado (quem vai beber boza, até então uma das únicas formas de consumir álcool, quando agora pode se deleitar com o raki?). Casa-se com Rayiha, mas escrevia cartas para os olhos de Samiha, entregando-as a Suleyman... 

Uma jogada de Pamuk é alternar as vozes. Isso ele já fez, muito bem, em Meu nome é vermelho, para muitos, sua obra-prima. Mas também gostei muito de Museu da Inocência, que, acho, reconstitui a história da cidade com superioridade.

Pamuk escreve sobre a História de seu país e também sobre grandes temas (identidade nacional, amor, desenvolvimento urbano,  concentração de riqueza) a partir de pequenas histórias familiares (no caso, fica evidente o crescimento absurdo e desordenado da cidade ao longo das últimas décadas; o golpe militar de 1980, o 11 de Setembro, a ascensão de Erdogan, entre outros.


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O cidadão ilustre, de Mariano Cohn e Gastón Duprat (2016)

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Da série "filmes que não vi no cinema", este argentino já está disponível no Now. 

Mais um excelente filme argentino e, ao menos no Brasil, uma raridade: sem Ricardo Darín. Oscar Martínez é Daniel Mantovani (a atuação lhe rendeu o prêmio de melhor ator em Veneza 2016), um escritor argentino, ganhador do Nobel.

A rigor, o excelente roteiro não dá trégua para ninguém: a cerimônia em Estocolmo, onde seu discurso de "agradecimento" é uma pérola de arrogância e falta de educação; o próprio circuito pós-Nobel (ele recusa a participação em uma infinidade de eventos em escala planetária) é o primeiro alvo. Mantovani é uma figura difícil. Por alguma razão, aceita voltar a Salas, sua cidade natal, de onde saiu na juventude e para onde jamais voltou. 

Salas é um universo à parte: ainda que próxima a Buenos Aires, a cidade de interior é profundamente provinciana e, por que não, cafona. Mantovani é recebido pelo prefeito, desfila em carro do Corpo de Bombeiros (já viu isso em algum lugar?) ao lado da rainha da beleza de Salas... Há ainda um vídeo produzido pela prefeitura que conta a história do filho mais ilustre da cidade, que é simplesmente ridículo.

Lá, as coisas não serão fáceis. Toda a obra de Mantovani se dedica a criticar a vida provinciana do interior. E cada morador se identifica, de alguma forma, com algum personagem ou alguma passagem de seus livros, em geral com um ressentimento profundo. Em quatro dias de sua visita, a situação chegará a níveis insuportáveis, a partir de sua participação num festival de pintura para artistas locais (quando entrará em choque com o presidente da associação dos artistas plásticos de Salas).

Mostrando uma Argentina bem diferente daquela sofisticada e cosmopolita de Buenos Aires. Critica o Nobel, a intelectualidade, o provincianismo, os "dirigentes culturais". Em outras palavras, dificilmente teríamos um filme desses por aqui.


sexta-feira, 14 de julho de 2017

O caso Mersault, de Kamel Daoud


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O caso Mersault
Kamel Daoud
Biblioteca Azul
Tradução de Bernardo Ajzemberg
168 p.


Hoje mamãe ainda está viva.

À primeira vista, tinha tudo para ser um desastre - uma "desconstrução literária", uma revanche contra a antiga metrópole ou outra linha panfletária semelhante - mas esse O caso Mersault, que deu ao autor, Kamel Daoud, o Goncourt de melhor romance de estreia, é realmente um grande livro. 

Harun, o narrador, conta sua história a um francês que tem, consigo, um volume d'O estrangeiro de Camus e está investigando o passado de Patrice Mersault, o apático narrador (um dos mais famosos personagens da literatura francesa do século passado) que é indiferente à própria mãe e matou um árabe na praia. Ele é condenado não por ter matado o árabe, mas por ter sido indiferente à mãe, inclusive no seu enterro. 

Pois Harun é, exatamente, o irmão do anônimo assassinado na praia, às duas horas da tarde de um dia de verão. Camus sempre trata o árabe como O Árabe, nunca pelo seu nome - que, agora descobrimos, ser Moussa. Harun tinha apenas sete anos e passa a viver com a mãe e o fantasma do irmão.

Logicamente, naquela mesma noite, mergulhei no maldito livro. Avançava na leitura vagarosamente, mas totalmente fascinado. Eu me sentia ao mesmo tempo insultado e sendo revelado para mim mesmo. Passei a noite inteira lendo, como se lesse o livro do próprio Deus, o coração pulsando forte, prestes a sufocar. Foi uma verdadeira comoção. Havia tudo ali, menos o essencial: o nome de Moussa! Em lugar nenhum. Contei e recontei: a palavra "árabe" aparecia vinte e cinco vezes, sem nenhum nome, de nenhum de nós. Nadinha, meu amigo.

Harun vinga a família e o irmão; em 1962, matou um francês. Mas não na guerra da independência - da qual não participou. Poderia ter matado, sem qualquer problema, na guerra. A questão não é o crime em si, mas o timing... - o árabe de Camus e o francês de Daoud não valem muita coisa. Harun sabe que não está preso por ter cometido um crime, mas por tê-lo praticado no momento errado.

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Ao ser publicado (com estrondoso sucesso) na França e após ter levado o Goncourt, Daoud chamou a atenção de Abdelfatah Hamadache, clérigo islâmico, que o acusou de apóstata e clamou por seu julgamento por blasfêmia. Daoud permanece vivendo em Oran, na Argélia, escrevendo em um jornal de língua francesa. Em certo sentido, permanece um estrangeiro em sua própria terra.


quinta-feira, 29 de junho de 2017

Ostend: Stefan Zweig, Joseph Roth, and the summer before the dark, de Volker Weidermann


Lançado em 2016 e acessível pelo Kindle, este pequeno livro (176 páginas) do alemão Volker Weidermann traz uma série de pequenas passagens da vida intelectual dos anos 30. 

Em 1936, às vésperas da catástrofe, a pequena cidade belga de Ostende atrai inúmeros escritores, artistas e intelectuais - muitos deles judeus - que, em sua maioria, logo seria tragada pela Segunda Guerra. Lá estavam Klaus Mann, que lançou seu romance Mephisto, Arthur Koestler, Ernst Toller, Irmgard Keun, entre outros.

Mas o foco do livro de Weidermann é a amizade entre Joseph Roth, de Brody, nos confins do finado império habsburgo, e imerso na cultura iídish e no álcool, e o austríaco Stefan Zweig, cosmopolita, assimilado e ocidental escritor, lido por milhões, aclamado por onde passava. Em 1936, no entanto, já não podia ser lido na Alemanha.

Zweig desaprovava a propensão à bebida de Roth, mas financiou, por muito tempo, o amigo, que vivia sem dinheiro e com fome. O sucesso de seus livros era todo direcionado ao álcool. Roth, por sua vez, desaprovava o fato de Zweig ter deixado sua primeira mulher, Friderika, pela sua secretária, Lotte. Mas o bem sucedido e mundialmente famoso Zweig jamais abriu mão dos conselhos literários (e críticas, muitas vezes ferozes) de Roth. 


O final todos sabemos: Roth fugiu da Alemanha em 1933, assim que Hitler assume o poder, e passa a viver na França. Morre em 1939, dominado pelo alcoolismo. Zweig, por seu lado, viaja para os EUA, Argentina e termina no Brasil, encantado com o que entendia ser o país do futuro. Três anos depois, angustiado com os rumos da guerra, isolado intelectualmente em Petrópolis, e impaciente (nas suas próprias palavras em sua carta de despedida), suicida-se, ao lado de Lotte.

Acabei associando este livro ao romance de Aron Appelfeld, Badenheim 1939, onde um grupo de judeus passa uma temporada no balneário austríaco, já agora anexado à Alemanha. Mas, no 1936 de Weidermann, não há lugar para um panglossiano Pappenheim, personagem de Appelfeld.

Alguma editora brasileira poderia se habilitar a publicá-lo por aqui.






terça-feira, 20 de junho de 2017

Diplomacia, de Volker Schlöndorff (2014)

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Baseado na peça de Cyril Gély. Mesclando algumas imagens da época, conta a história do encontro entre o general alemão Dietrich von Choltitz (interpretado por Niels Arestrup) e o cônsul sueco Raoul Nordling (André Dussolier). Os alemães, já em fuga, pretendem destruir Paris antes da chegada dos americanos que libertariam a cidade em poucos dias. Vemos a descrição do plano, que levaria a explosões e inundações, que resultariam na morte de mais de 2 milhões de habitantes.

O plano, de fato, existiu, bem como os personagens, cujo encontro, no entanto, é fictício. O cônsul sueco, de origem francesa, tenta convencer o general a desobedecer Hitler. O Führer desistiu de preservar a cidade após o bombardeio de Berlim. A trama se passa durante a manhã de 25 de agosto de 1944.

O general, no início, reitera sua lealdade - e menciona episódio envolvendo judeus. Mas acaba cedendo a Nordling (não dá para chamar isso de spoiler - sabemos que a cidade não foi destruída...). Humanismo ou algo parecido por parte de Choltitz? Para mim, uma prova de senso de realidade (já sabia que o Terceiro Reich se aproximava rapidamente do fim e já previa o que iria acontecer com os principais nomes do regime). 

O diretor (que levou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1980 com O tambor) confessa que vislumbrou esse espaço ficcional - não há registro do tal encontro - dentro de um episódio histórico. Schlöndorff e Gély se lançaram nesse espaço, abdicando de qualquer tentativa de descoberta de fatos novos ou uma verdadeira pesquisa de campo.

O filme (de menos de uma hora e meia) é uma peça de teatro - um quarto, dois personagens, diálogos tensos. Muita gente torceu o nariz para o resultado que, para mim, é amplamente positivo.