sexta-feira, 15 de junho de 2018

La disparition de Josef Mengele, de Olivier Guez

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Em 1949, Mengele chega a Buenos Aires. Perón está atento à chegada de hordas de fugitivos nazistas. Espera por uma guerra entre Estados Unidos e União Soviética e imagina que a Argentina pode se dar bem num cenário pós-apocalíptico. A caçada aos nazistas ainda não havia começado. 

Esse trabalho de Olivier Guez (Strasbourg, 1974) recebeu o Prêmio Renaudot de melhor romance de 2017 - por seu "romance-verdade". Mas esse La disparition de Josef Mengele não é exatamente um romance. É realmente um grande trabalho de pesquisa e de reconstituição da vida do monstro alemão de 1949 a 1979, quando morre em circunstâncias estranhas em Bertioga. Guez nos mostra os contatos que mantiveram um dos homens mais procurados do mundo a salvo da Justiça - ele jamais respondeu pelos seus crimes. 

De fato, Guez é um conhecido jornalista, que se destacou, na França, por L'impossible retour, une histoire des juifs en Allemagne depuis 1945. 

Somente a partir de 1960, com a captura de Eichmann (que, na Argentina, esnobou Mengele) pelo Mossad, o mundo começa a procurar, efetivamente, por Mengele. Na Argentina, mais problemas, já que Perón foi derrubado em 1955. Mengele, inicialmente, foge para o Paraguai de Stroessner, também muito interessado em abrigar criminosos de guerra nazistas. Segundo Guez, o país é um "dispositivo ocidental para barrar as guerrilhas marxistas comandadas por Moscou e Havana na América do Sul".

Mas a situação já não é a mesma de 1949. Simon Wiesenthal publica um livro em 1967 - Os assassinos estão entre nós. Há um capítulo especialmente dedicado a Mengele, "o homem que colecionava olhos azuis". E afirma que o monstro está no paraguai, na rota Assunção-São Paulo.

É hora de fugir novamente. Desta vez, para o Brasil.

Nos anos 70, Franz Stangl, o ex-comandante de Treblinka e Sobibor é preso em sua casa por agentes brasileiros e despachado para a Alemanha Ocidental. O círculo está se fechando. Ao mesmo tempo, Mengele está doente e isolado. Seu filho, Rolf, vive na Alemanha e abomina o passado de seu pai, com quem nunca conviveu. Sente uma vergonha infinita. No momento mais próximo a um romance, Guez mostra o encontro entre ambos, no Brasil, e a incômoda pergunta que Rolf faz ao pai: você fez tudo aquilo mesmo? Ele sabe a resposta. O pai não titubeia: piedade não é algo válido porque os judeus não pertencem ao gênero humano. Os dois jantam em silêncio. No dia seguinte, Rolf parte para a Europa. Nunca mais se falarão.

Il meurt, simplesment. Alors, mû par une force obscure, il entre seul dans l'eau turquoise, tête basse, et se laisse flotter, ne sent plus son corps endolori ni ses organes viciés, porté par le courant qui le draine vers le large et les grands fonds, quand brusquement sa nuque maigre se raidit, ses mâchoirtes se serrent, ses membres et sa vie se figent. 

As últimas páginas recontam a exumação de seus restos, em 1985 (foi enterrado em Embu como Wolfgang Gerhard. Nenhuma referência nominal aos brasileiros envolvidos na investigação. Salvo engano, Romeu Tuma passou a ser conhecido nacionalmente ao atuar, como delegado de polícia, no caso. Somente em 1992, o exame de DNA encerrou, definitivamente, a questão.

No final, seus ossos foram doados para estudos em faculdade de medicina.

Absurdo, em minha modesta opinião. Por mim, jogava num alto-forno de alguma siderúrgica.

O livro de Guez vale a pena como uma pesquisa muito bem feita e um texto muito ágil e interessante, mas não o classificaria como um romance.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

A Master Storyteller from 19th Century Brazil

É o que diz este artigo do New York Times,celebrando o lançamento, em inglês, de um The Collected Stories of Machado de Assis. 

São 930 páginas, que trazem 76 contos, traduzidos por Margaret Jull Costa e Robin Patterson. O artigo, assinado por Parul Sehgal, afirma que os contos não estão à altura dos romances, mas are a spectacular place to start.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Philip Roth (1933-2018)

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Meses depois de Aharon Appelfeld, a quem entrevistou, morreu no último dia 22 o maior de todos, Philip Roth. 

Ironicamente, não haverá Nobel de Literatura este ano. A Academia, que tanto esnobou o autor de Pastoral Americana, Operação Shylock e Complexo de Portnoy, está envolvida em escândalos sexuais. Outra ironia: muitos detratores de Roth se incomodavam com seus textos e o chamavam de misógino, machista, sexista... enfim, uma besteira que diz muito mais a respeito da Academia do que de Roth. 

Como escrevi quando comentei a biografia de Roth (Roth Libertado, de Claudia Pierpoint Roth), "Claire Bloom, por exemplo, ao se separar do escritor, lançou um livro de memórias que definitivamente consolidou uma percepção não muito favorável da pessoa de Roth no grande público. Pode explicar, por exemplo, a recusa da Academia em conceder-lhe o Nobel. Em tempos politicamente corretos, não parece muito provável a premiação de um americano acusado de misoginia... e no entanto, é difícil encontrar outro nome que tenha escrito na quantidade, regularidade e qualidade de Roth".

Para além dos seus romances, que merecem ser lidos e relidos, Roth foi, ainda, um grande divulgador da melhor literatura do leste europeu do século passado - e isso ainda durante os regimes comunistas: Ivan Klíma, Kundera, entre outros (sobre esse aspecto, vale a pena ler Entre nós: um escritor e seus colegas falam de trabalho, publicado em 2008 pela Companhia das Letras e que traz entrevistas que fez com Isaac B. Singer, Appelfeld, Primo Levi, além dos dois autores tchecos já mencionados, entre outros).

Neste momento em que todos falam de seu Roth favorito, tenho dificuldade de cravar um único trabalho. Por muito tempo, foi Operação Shylock e talvez ainda seja. Mas colocaria também Pastoral Americana, Complexo de Portnoy e A Marca Humana. Da última fase, Humilhado.



terça-feira, 1 de maio de 2018

Farewell, de Ayse Kulin

Farewell
Ayse Kulin
Dalkey Archive Press
400 p.


Nem só de Pamuk vive a literatura turca, ainda que, à disposição do leitor brasileiro não sejam muitas as opções (méritos, nesse ponto, para a Sá Editora). Mas a Dalkey Archive Press, uma editora independente americana, a mesma que edita a série Best European Fiction, que tantos contos rendeu a este blog, lançou esse Farewell - Veda, no original - da turca Ayse Kulin (1941-). 

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Uma família otomana influente, numa mansão imponente, se vê no caos em que se tornou Istanbul após a derrota de 1918. E, obviamente, irá descobrir que, com o final do sultanato e do império, está numa situação inimaginavelmente precária - o Sultão está sendo humilhado e o país, ocupado. As mudanças culturais e políticas são abruptas e ameaçadoras. 

Kulin recupera um personagem real, Ahmet Resat Pasa (1849-1927), que foi o último  ministro da fazenda otomano e que seguiu para o exílio com o próprio Sultão (segundo a wikipedia, ela é bisneta de um ministro da fazenda otomano)A partir dele, e com personagens fictícios, Kulin reconta a situação trágica de um império de mais de 400 anos definitivamente posto de joelhos por ingleses e franceses após o desastre de 1914-1918 e em processo de retalhamento; uma parte considerável do território "turco" - incluindo cidades importantes como Izmir - ocupado por tropas gregas e armênias; uma cidade ocupada pelos aliados; o Sultão que finalmente percebe que terá que carregar o fardo de ser o último de uma linhagem que remonta séculos. Por outro lado, o movimento nacionalista, baseado na nova capital Ancara, e comandado por Mustafa Kemal, tentará evitar um desfecho impensável: o de que os turcos ficarão sem um estado nacional.

As 400 páginas contêm uma mistura de novelão e romance histórico, tratando dos últimos anos do Império Otomano, assunto que, nos últimos anos, tem se tornado uma ideia fixa deste blog. A causa é justa, e a razão para isso, espero, será apresentada em breve. 

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Navi in bottiglia, de Gabriele Romagnoli


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Navi in bottiglia
Gabriele Romagnoli


Esse livro reúne 101 pequenos contos (em geral, uma página cada - trinta linhas) de Gabriele Romagnoli (Bologna, 1960), em geral situações aparentemente comuns mas que são levadas a um final abrupto e mesmo estranho. O primeiro livro italiano que leio no original (daí para Dante vai demorar um pouco...). 
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Alguns contos são realmente muito interessantes: Pepe, stazione dopo stazione, em que o personagem, passageiro em um trem, vai se desfazendo em cada estação, até se tornar uma ideia (esqueça a besteira que ouviu de um político brasileiro na última semana); Il sogno del mare de Ian, onde somos apresentados a um sonho recorrente; ou  Stupro e vendetta.

Um dos melhores é Occhi di Paola (Olhos de Paola), que numa tradução apressada, por alguém que ainda está nos níveis intermediários da língua, seria mais ou menos assim:

Não consegue dormir. Algo o atormenta. Mas não consegue entender o quê. O fato é que há duas horas se revira na cama, ele que, como diz Paola, dorme quando quer. Olha para ela, dormindo de lado. Dos cabelos escuros, agora tingidos, emerge na penumbra emerge o perfil da bochecha, ainda cheia e macia. Seus grandes olhos estão escondidos sob as pálpebras, mas Duccio os imagina, azuis, levemente acinzentados pelos anos. E então compreende. É por causa daquela tarde. Exatamente há vinte anos. A tarde em que traiu Paola. Com a mulher de um amigo querido, ainda por cima. Depois voltou para casa, tomou uma ducha, comeu com ela, brincou e assistiram televisão. Quando foram para a cama, dormiu rapidamente. Então é assim que são as coisas, pensou, ao acordar: nenhum remorso, nada muda. Pode-se trair sem riscos, -. Pode-se conviver tranquilamente com seus próprios pecados.

Nunca mais fez isso novamente. Havia mesmo esquecido do que aconteceu. Agora se lembra. Olha Paola e gostaria de gritar. Ela desperta, o vê sentado na cama "O que aconteceu com você, por que está acordado?", pergunta. "Tive um pesadelo", responde. "Sonhei que te traía com Franca, a mulher de Giorgio". Ela vira para o seu lado. Acaricia sua mão. "Obrigado por chamar isso de pesadelo", diz. Ele sorri e se deita novamente. Ela continua a acariciar a mão e, de repente, ele adormece. Apagam-se os lampiões da praça. Agora o quarto está escuro. Na escuridão, os olhos de Paola estão abertos. Um pouco menos azuis, um pouco mais cinza.

Uma centena de narrativas curtas e estranhas, que bem que poderiam ser traduzidas e publicadas por aqui. Navi in bottiglia, aliás, se tornou uma coluna que o autor publicou por alguns anos no jornal La Repubblica, de Roma.

sexta-feira, 30 de março de 2018

O livro negro, de Orhan Pamuk

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O livro negro
Ohran Pamuk
Companhia das Letras
Trad. Sergio Flaksman
2008, 515 p.


Não sei se meus leitores perceberam que as águas do Bósforo estão secando. Acho que não. Enquanto nos entretemos todos com a matança desenfreada que vem tomando conta das nossas ruas, febris e entusiasmados como crianças que assistem a uma queima de fogos, quem teria tempo para ler ou descobrir o que acontece pelo mundo? Já é difícil acompanhar nossos cronistas - lemos  seus textos enquanto nos acotovelamos em nossas estações das barcas, enquanto nos aglomeramos nos pontos de ônibus repletos, enquanto bocejamos sentados nos bancos dos táxis coletivos com as letras trêmulas diante dos nossos olhos. Encontrei a notícia de que lhes falo numa revista francesa de geologia.

Lançado em 1990 e publicado no Brasil em 2008, só agora cheguei a esse O livro negro, do Pamuk. 

O que aconteceu com Rüya (Sonho), esposa de Galip? O jovem advogado volta para casa em Istanbul e não encontra a mulher. Está convencido de que está escondida com o famoso colunista Celal Salik, que publica, há anos, seus textos no jornal Milliyet. É primo do advogado e meio-irmão de Rüya. Galip tem certeza de que os dois estão juntos, em algum lugar de Istanbul.

Mas não se trata de uma trama policial. Como diz o próprio Galip, a melhor história policial é aquela em que nem mesmo o seu autor sabe quem é o assassino". Ele examina as crônicas de Celal, em busca de pistas sobre seu paradeiro. Essas colunas cuidam do passado otomano; de seitas místicas; da hipótese de, um dia, o Bósforo simplesmente secar, extasiado pela poluição; das inúmeras civilizações que já passaram pela cidade. A narrativa alterna essas crônicas com a investigação de Galip. 

Galip acaba se passando primo, o que lhe traz grandes problemas. Começa a escrever para o jornal. Os leitores fazem perguntas - e a mais importante: 

- O senhor tem alguma dificuldade para ser quem é?

E, como se isso fosse pouco, completa:

- Existe algum modo de um homem ser apenas quem é?

Essa questão da identidade é cara a Pamuk em toda a sua obra. No final, uma conversa entre Galip/Celal e um “leitor fiel”, um certo Mehmet... a história que Galip escuta é quase que inteiramente a sua própria história. Seria essa voz a do próprio Celal? As partes marcam um encontro. Dirigindo-se para lá, percebe que as ruas estão interditadas, uma mancha branca que jazia na calçada, a dois passos da vitrine da loja de máquinas de costura Singer. Um só corpo...

Pamuk monta um grande e imenso labirinto, tão tortuoso como as ruas de Istanbul, a rigor o seu único personagem.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A castle in Romagna, de Igor Stiks

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Li um conto de Igor Stiks (Sarajevo, 1977) na antologia Best European Fiction 2010, da Dalkey Archive Press, editada pelo Aleksandar Hemon. No conto No mercado de Sarajevo, a história de pessoas, em meio à guerra de 1995, vendendo suas bibliotecas pessoais a preço de banana no mercado da cidade - o que aconteceu com aquele seu livro tão especial? 


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Um belo conto, que me levou a este A castle in Romagna, achado em inglês na Amazon(Kindle).

Duas narrativas são apresentadas. Em 1995, um turista bósnio, em companhia de mais duas mulheres, visita o Castello Mardi, em Rimini. Está interessado na história de Enzo Strecci, "um gigante da literatura renascentista", que lá passou seus últimos momentos esperando por sua morte. 

Os três estão entrando nas ruínas. Lá, um frei, especialista na história do Castello e de Strecci, identifica o idioma e, fascinado por encontrar um bósnio, procura detê-lo. Suas companheiras acabam por entrar nas ruínas, e o frei, após identificar-se como alguém da Bósnia, acaba conseguindo a atenção do turista. Está, a todo custo, querendo contar uma história. Ou melhor, duas.

Ao falar do que se passou em 1535 naquele mesmo castelo, o frei, na verdade, está contando uma outra história - a sua, passada na Iugoslávia de 1948, quando Tito se distanciava de Stalin (o que, evidentemente, gerou mais expurgos e execuções). Não são idênticas, claro, e não,  o frei não tem nenhum parentesco com os personagens renascentistas. No entanto, as conexões entre as narrativas são evidentes. 

Fica claro que, nos primeiros momentos, o turista quer se desvencilhar desta figura estranha e reencontrar suas amigas, mas logo percebe que, sim, deve ouvir o frei. A história de Strecci não é exatamente original e em poucas páginas já é possível adivinhar o que irá lhe acontecer. Mas é interessante observar o que acontece em seu julgamento, e a atitude de seus amigos em salvar o Mestre Mardi.

O trabalho de edição e seleção de Hemon continua a render boas descobertas, e o robô do Jeff Bezos ajuda a concretizá-las.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Complô contra a América na TV

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Philip Roth já havia falado numa entrevista ao NYT. Agora, David Simon confirmou que está produzindo uma mini-série em seis episódios a partir do romance Complô contra a América

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