sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A história dos judeus, de Simon Schama


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Passei a acompanhar Simon Schama assistindo aos seus documentários sobre arte, que começaram a ser transmitidos no incrível canal da TV a cabo Arte1. E, conhecendo o autor, fui direto ao primeiro volume da sua História dos Judeus, que saiu por aqui pela Companhia das Letras.

O título original é Story, e não History of the Jews. A ideia é mesmo a de um contador de histórias, muito mais que o trabalho de um historiador. 

Assim, o livro começa com uma carta escrita por um pai aflito ao seu filho, um mercenário por volta de 475 a.C. – você está sendo pago? Está comendo direito? – que integrava a tropa judaica, nas ilhas Elefantinas, último posto da civilização à beira do deserto da Núbia. Schama mostra que era possível ser judeu e egípcio. Como, depois, por séculos, seria perfeitamente natural ser judeu e árabe. Até que Maomé aparece e mais uma religião monoteísta aparece.

Das ilhas Elefantinas até a expulsão dos judeus da Espanha dos Reis Católicos, Schama mostra a vida cotidiana dos judeus, e apresenta sua ideia de que sempre foram abertos à miscigenação e ao contato com outros povos. E identifica no arcebispo de Antioquia, São João Crisóstomo, no século IV, um grande responsável pela ideia – até então inexistente – de que judeus e cristãos não poderiam compartilhar, jamais, o mesmo espaço – casas, ruas; as mulheres cristãs poderiam ser seduzidas pelos assassinos de Deus. Logo os judeus seriam equiparados a vampiros. Não era mais possível ser judeu e bizantino. E a Idade Média ainda não havia começado... 

Um capítulo mais sombrio é o da Mulher Asquenaze, onde Schama relata os assassinatos e massacres da época das Cruzadas. Matar os judeus se torna “necessário” para liberar Jerusalém. Afinal, eles não sequestram meninos cristãos na Páscoa? A história de Hugo de Lincoln, menino de 9 anos, aparece no The Prioress’s Tale, de Chaucer (Canterbury Tales).

O inglês, que há anos mora em Nova York (“o melhor lugar do mundo para ser judeu”) e dá aulas na Universidade de Columbia, resolveu dar continuidade ao projeto de Cecil Roth, interrompido nos anos 70 com a sua morte. O projeto deu origem a dois livros (o segundo volume acaba de ser lançado nos EUA e não deve demorar a chegar aqui) e uma série de televisão em cinco episódios (será que conseguiremos assistir daqui?).

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Aharon Appelfeld (1932-2018)

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Ontem, dia 4, morreu o escritor israelense Aharon Appelfeld, aos 85 anos. Dele, li Badenheim 1939, um dos melhores livros sobre o Holocausto.   

Appelfeld nasceu em Czernowitz, então parte da Romênia e hoje território ucraniano. Sobreviveu ao Holocausto escondendo-se nas florestas da Romênia, trabalhou por alguns meses para o Exército Vermelho, que deixou em 1945 e, no ano seguinte, aos 14 anos, emigrou para a Palestina - segundo ele, não havia lugar para órfãos na Europa. Recusava a classificação de "escritor do Holocausto", por entender que não se pode ser um "escritor da morte". Foi professor de letras na Universidade Ben Gurion. 

Era grande amigo de Philip Roth (há uma conversa entre ambos no livro Entre nós, do escritor americano), que nele se inspirou para escrever seu melhor romance, Operação Shylock.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Lincoln in the Bardo, de George Saunders




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O último livro que li em 2017 foi o vencedor do Man Booker Prize do ano. Lincoln in the Bardo, de George Saunders, será lançado no início de 2018 pela Companhia das Letras, e recebeu críticas entusiasmadas na imprensa americana.

Talvez por ter lido no Kindle, demorei algumas páginas para entrar no espírito da obra, estranhando um pouco a formatação. Mas valeu a pena.

Uma obra estranha, sem dúvida, de um experimentalismo pouco usual. Em determinados momentos, uma colagem (que faz sentido) com notas de diários, livros e periódicos do período; em outros, monólogos e diálogos entre fantasmas.

Logo na abertura, um monólogo de um certo Hans Vollman, que conta que tinha 46 anos no dia de seu casamento com uma jovem de 18 e que, ciente de todas as circunstâncias, não forçou sua noiva a nada, apenas propondo-lhe sua amizade. Com o passar do tempo, essa amizade se tornou em verdadeiro amor e, quando Hans e a esposa finalmente iriam "expandir as fronteiras de sua felicidade", uma viga cai sobre sua cabeça. É o que conta ao amigo Roger Bevins III.

Somos apresentados a uma série de fantasmas. Bardo é um termo tibetano que significa um estado "intermediário", em que as almas vagam pelo cemitério, contando suas histórias, até aceitarem sua partida para o inferno ou o paraíso. Uma espécie de limbo.

O espírito do pequeno Willie, no entanto, não quer sair. Está à espera da visita do pai. Willie Lincoln era o filho mais novo do presidente Abraham Lincoln e morreu de tifo. O menino ardia de febre enquanto o pai participava de um jantar de Estado e a Guerra Civil despedaçava o país. Descobrimos que o presidente era considerado um pai leniente demais, que seus filhos podiam fazer tudo. A culpa irá perseguir o pai, que permitiu que o filho passeasse montado no pônei que acabara de ganhar de presente. Chovia muito no dia e o menino adoeceu - para nunca mais se recuperar.

Saunders ficou impressionado ao descobrir que o pai foi à cripta para estar com Willie diversas vezes, a ponto de se inspirar nessa história para escrever o livro.

A imprensa foi bastante cruel com Abraham Lincoln, chamando-o de insensível, de ignorar a doença de Willie, de preferir os comensais ao leito do filho. Os fantasmas, contudo, percebem que pai e filho são pessoas especiais. Precisam ajudar o espírito de Willie a deixar o Bardo. O que fazem para isso é o ponto alto da narrativa. A descrição de Lincoln diante da morte do filho é forte, emocionante e bem escrita como poucas (pouquíssimas). 

Da minha lista de 2017, certamente o melhor romance do ano.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A sombra da rota da seda, de Colin Thubron

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A sombra da rota da seda
Colin Thubron
Tradução de Otávio Albuquerque
L&PM
408 páginas


Centenas de motivos incitam sua partida. Entrar em contato com novas identidades humanas, preencher um mapa em branco. A noção de que este é o coração do mundo. A busca pelas formas multifacetadas da fé. Você viaja porque ainda é jovem e quer viver aventuras e ouvir o som das suas botas pisando na terra. você viaja porque é velho e precisa entender alguma coisa antes que seja tarde demais. Você viaja para ver o que pode acontecer.

Ainda assim, seguir a Rota da Seda é como seguir um fantasma. Essa trilha se estende pelo coração da Ásia, mas oficialmente não existe mais, tendo deixado para trás apenas marcas de seu frenético ápice: fronteiras forjadas, povos não catalogados. As estradas se bifurcam e se perdem em desvios por toda parte. Não há um só caminho, mas inúmeros, formando uma teia de opções. A que escolhi se estende por mais de 11 mil quilômetros e tem alguns trechos perigosos.

Nada mais lugar-comum que o sujeito que, na infância, lia todas as versões disponíveis do Livro das Maravilhas do Marco Polo e sonhava em ser jornalista da National Geographic ou membro da equipe do Jacques Cousteau, terminar advogado. O que nos resta, portanto, é ler a literatura de viagens disponível.

Já falamos de Philippe Valéry e seu Par les sentiers de la soie: a pied jusqu'en Chine. Um livro muito bem editado na França e que, infelizmente, ainda não apareceu por aqui. Mas eis que descubro, como quem não quer nada, este livro do britânico Colin Thubron, escrito em 2006 e somente agora publicado no Brasil, pela L&PM.  O trajeto percorrido não é o mesmo de Valéry (que passou pela Bulgária, Turquia europeia, Geórgia e Armênia).

A Rota da Seda é, como diz Thubron, um emaranhado de rotas, que ligaram o Império do Meio ao Mediterrâneo. A seda foi uma das grandes moedas de troca de caravanas de árabes, persas, ugures, chineses, indianos e, séculos mais tarde, europeus.

Segundo a lenda, foi Lei-tzu quem descobriu a seda. Enquanto andava pelo seu jardim, ela teria reparado em uma estranha lagarta que devorava folhas de uma amoreira. Durante vários dias, ela ficou observando enquanto a criatura fiava uma linha dourada, e imaginou que aquela deveria ser a alma de algum ancestral. Em seguida, Lei-tzu viu a lagarta se fechar e pensou que ela tinha morrido - até uma mariposa emergir do casulo. Enquanto brincava intrigada com esse manto recém-descartado, a imperatriz o derrubou por acidente no chá. Em seguida, ela pegou o casulo amolecido e começou a desfiá-lo, ficando cada vez mais maravilhada, até chegar a um longo e reluzente fio de seda. Tempos depois, ela se tornou professora, ensinando a tecelagem e a criação da misteriosa lagarta.

Thubron tem extensa obra publicada, não só de suas viagens (Damasco, Sibéria, Ásia Central), como também na ficção (escreveu alguns romances). Percebemos essa desenvoltura num texto extremamente agradável e fluido, sem prescindir de informações exatas. Ele consegue falar com desenvoltura o mandarim e o russo, o que já o coloca como um observador privilegiado. 

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Partindo de Xian, ponto final (do ponto de vista ocidental) da rota, capital da China por séculos e berço da dinastia Chin (lá está o exército de terracota), Thubron mistura informação histórica precisa e um toque pessoal quando se depara com as questões, digamos, mais atuais. Passa por cidades que, hoje, são verdadeiros desastres ambientais ou estão em ruínas por guerras. E por situações de alta periculosidade, não apenas pelos conflitos bélicos, mas também por burocracias herdadas dos soviéticos e epidemias pós-soviéticas. Estava na China quando a SARS (síndrome respiratória aguda grave) se alastrava pelo norte do país. Como um viajante (e não um turista), passou por situações bastante delicadas, como uma quarentena num posto fronteiriço, de onde foi liberado, segundo suas próprias palavras, porque temiam que ele (afinal, um inglês conhecido no mundo todo) morresse por lá...


Passa por Zhangye, cidade natal de Kublai Khan, atravessa a Ásia Central (Quirquistão, Uzbequistão, Afeganistão, onde é obrigado a interromper a viagem, que somente seria completada no ano seguinte, na mesma estação). Passa por cidades como Bucara e Samarcanda, que uma rápida pesquisa no Google Maps nos acomete de uma  inveja quase incurável. Atravessa o Irã - onde a distância entre Oriente e Ocidente fica mais evidenciada, principalmente quando o autor conversa com jovens iranianas - uma mistura de ressentimento e desejo pelo Ocidente. Na Turquia, chega a Antioquia, já no Mediterrâneo, o ponto final do trajeto.

Uma leitura obrigatória para gosta de viagens.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A resistência, de Julian Fuks

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A resistência
Julián Fuks
Editora Companhia das Letras, 2016
144 páginas


Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado. Se digo assim, se pronuncio essa frase que por muito tempo cuidei de silenciar, reduzo meu irmão a uma condição categórica, a uma atribuição essencial: meu irmão é algo, e esse algo é o que tantos tentam enxergar nele, esse algo são as marcas que insistimos em procurar, contra a vontade, em seus traços, em seus gestos, em seus atos. Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em caráter. Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz.

O romance rendeu ao autor o Prêmio Saramago de 2017. Durante a leitura, lembro do que Tolstoi escreveu sobre as famílias, na primeira frase de sua Anna Karenina. 

Os pais do narrador (Sebastián) são psicanalistas argentinos que, diante da ferocidade da ditadura argentina de 1976, fogem para o Brasil, onde nascem seus filhos. Mas o narrador, brasileiro, tem um irmão adotivo argentino.

Não se trata de uma narrativa linear - como nunca o são as memórias. Esse ponto torna o narrador uma figura não inteiramente confiável, mas, sem dúvida, bastante real e crível. As lembranças muitas vezes são mostradas de forma um tanto confusa, não por um defeito do autor. Pelo contrário: é uma das qualidades do texto:

isto é história e, no entanto, quase tudo o que tenho ao meu dispor é a memória, noções fugazes de dias tão remotos, impressões anteriores à consciência e à linguagem, resquícios indigentes que eu insisto em malversar em palavras.

Assim é que vai se formando um quadro com várias "resistências": a mais óbvia - os pais contra a ditadura que fogem para o Brasil que, entre os anos 70 e meados dos 80, também o era (ainda que menos violenta que a argentina); a resistência de Sebastián em relação ao irmão adotivo (e mais velho) e, a mais importante: a resistência do irmão em relação à família adotiva (o que acaba sendo natural se pensarmos nas possibilidades - sabemos que o regime militar sequestrava crianças de seus pais perseguidos e as recolocava em famílias cuidadosamente escolhidas).

Altamente recomendável. O autor esteve na Flip deste ano e falou da questão da autoficção e de seu processo de criação deste romance.

domingo, 12 de novembro de 2017

A noite da espera, de Milton Hatoum

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O Lugar mais sombrio: A noite da espera
Milton Hatoum
Companhia das Letras
216 páginas


Grande surpresa ao receber A noite da espera, o primeiro dos três volumes de O lugar mais sombrio, que marca o retorno de Milton Hatoum ao romance, após um intervalo de nove anos. Já havia lido Dois Irmãos logo após o seu lançamento, em 2000 ou 2001.

Apesar de a história se passar também em Paris e em São Paulo, o cenário, ao menos neste primeiro volume, é a Brasília do início dos anos 70, uma cidade com pouco mais de dez anos de fundação e ainda um imenso deserto. Martim muda-se com o pai (Rodolfo)  para a capital, após a separação traumática e, até o momento, não explicada, deste com a mãe, Lina. Pai e filho mal se falam.

Martim está relembrando esses tempos, agora já vivendo em Paris.

Como Martim, o autor morou na capital por alguns anos para estudar arquitetura, curso inexistente na sua Manaus. Acabou estudando na USP. Como Martim, foi detido pela polícia e passou uma noite preso em Brasília - foi ameaçado mas não torturado, diz, após deixar claro que ouviu gritos de tortura. Mas Miltom nega que Martim seja seu alter ego. A entrevista pode ser lida aqui (Veja).



Os próximos volumes serão lançados em 2018 e 2019. 



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A história do amor (2016), de Radu Mihaileanu




Não sei se já passou nos cinemas daqui, mas consegui assistir na TV a cabo a mais um trabalho do excelente Radu Mihaileanu (Trem da Vida, O Concerto, A fonte das mulheres). Este A história do amor é uma adaptação do romance da norte-americana Nicole Krauss e tem como protagonista Derek Jacobi, que interpreta Leo Gursky. 

Leo deixou sua pequena vila na Europa com a chegada dos nazistas. Alma Mereminski (Gemma Arterton), sua amada, já tinha feito as malas antes. Os dois fizeram juras de amor eterno e de troca de cartas mas, por alguma razão, as cartas de Leo nunca chegaram a Alma. Leo quer ser escritor, e avisa que irá escrever sobre aquilo que mais entende: Alma. Seria o romance A história do amor.

Décadas depois, Leo é um idoso que vive em Chinatown, num apartamento microscópico, com o amigo Bruno Leibovitch (Elliot Gould). Passa os dias sacaneando a atendente do café, uma jovem alemã, entornando café (Leo não gosta de alemães), ou posando nu numa escola de pintura - quer alguma atenção. 

Paralelamente a essa história, temos outra Alma (Sophie Nélisse), uma adolescente solitária que vive no Brooklyn, determinada a arrumar alguém para sua mãe, Charlotte (Torri Higginson), leitora fã do livro A história do amor, escrito por... Zvi Litvinoff (Claudiu Maier), a ponto de dar o nome da personagem principal à sua filha.

O irmão dessa jovem Alma, Bird (William Ainscough) é uma figura à parte: acredita ser um Lamed Vovnik, um dos homens justos que sustentam o mundo... 

Mas, voltemos a Zvi, improvável autor d'A história do amor.

Na juventude, Leo, Bruno e Zvi formavam um trio que disputava as atenções de Alma. O livro, na verdade, fora escrito por Leo, que o enviou a Alma Mereminsky. Como chegou a Zvi? O que aconteceu com o manuscrito?

Há quem tenha visto no filme uma bela história mas, parando para pensar, e evitando aqui qualquer coisa parecida com spoiler (obviamente para quem, como eu, não leu o romance), como uma pessoa pode ter sequestrado toda (toda mesmo) a vida de outro; uma apropriação por completo - carreira, fama, mulher (mesmo não tendo se casado com Alma). Como nos outros filmes de Radu Mihaileanu, a recomendação é sempre positiva: assista.


Cinco Esquinas, de Mario Vargas Llosa

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Em 1990, o candidato  Vargas Llosa é derrotado por Alberto Fujimori, que se torna, então, Presidente do Peru. Azar do Peru, uma vez que sabemos o que aconteceu a partir de então. E sorte de Vargas Llosa, que passa a se dedicar integralmente à literatura. Em 2010, recebe o Nobel. Em 2010, Fujimori já se encontrava condenado a uma infinidade de anos de prisão...

Mas os anos Fujimori tinham de, em algum momento, ser trabalhados por Vargas Llosa, que o fez agora, com Cinco Esquinas (editora Alfaguara, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, 213 páginas). Como dito pelo próprio autor, trata-se de um romance que aborda vários aspectos do regime que durou de 1990 a 2000, com seus toques de recolher, medo de atentados, mas também o uso, pelo governo, de jornais sensacionalistas para destruir reputações de opositores ou de qualquer um que não cedesse aos seus achaques (tema, aliás, já tratado em seu ensaio A civilização do espetáculo, que não li).

E aqui entram os dois casais da história, Marisa e Enrique (Quique) Cárdenas, engenheiro de sucesso, e Chabela e Luciano, grande advogado. O livro abre com uma noite em que as mulheres passam juntas (na conversa, perdeu-se a hora de ir embora e o toque de recolher as obrigou a compartilhar não apenas o mesmo apartamento como também a mesma cama). Os maridos não desconfiam de nada. As mulheres se dedicam a Miami e às compras; os maridos se dedicam a enriquecer. 

E eis que o engenheiro Enrique se vê chantageado por uma figura estranha, que comanda um jornal da imprensa marrom. Uma foto tirada do respeitável pai de família Cárdenas numa orgia... Por trás disso, há uma figura ainda mais sinistra, o Doutor (que não é ninguém menos que Vladimir Montesinos, chefe do Serviço de Inteligência Nacional do período Fujimori). 

Um bom livro, que li num feriado. O sonho do celta foi mais interessante. E, agora, preparo fôlego para Guerra do fim do mundo. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov

Há quem considere O mestre e Margarida, do ucraniano soviético Mikhail Bulgákov (  -  ) o melhor romance russo do século XX. Acabo de lê-lo, na edição de 2010 da Alfaguara, traduzida do russo por Zóia Prestes. Agora, terminada a leitura, descubro que a 34 vai lançar uma outra tradução, do Irineu Franco Perpétuo.

A história de Woland (o Diabo) e seu séquito, composto por um gato preto (Behemoth), um sujeito com pince-nez (Koroviev), um caolho (Azazello) e uma ruiva nua (Hella) que aparecem na Moscou stalinista de 1929 (o diabo nunca esteve tão à vontade como quando passou por lá) é objeto de culto em várias parte do mundo. A ponto de o apartamento do autor, onde se passa a história, ser objeto de peregrinação e culto até hoje. A história também acompanha o julgamento de Jesus por Pôncio Pilatos.

Moscou se torna uma cidade insegura com a chegada de Woland. O primeiro a sofrer é Berlioz, presidente de uma associação de escritores (uma associação do regime, diga-se), decapitado por um trem em circunstâncias no mínimo estranhas... Os escritores oficiais, diga-se, passam o tempo em picuinhas. O que menos fazem é... escrever...


Nenhum texto alternativo automático disponível.
Elena Gracheva, Rússia, 2015

Uma forma interessante de ler o livro é aproveitar os diversos sites que se dedicam a identificar os locais por onde a história se desenvolve. 


Outro: uma coleção com 75 capas do romance, que podem ser vistas aqui.

O livro foi escrito na década de 1930, no auge do terror stalinista; teve seus originais queimados pelo próprio autor e só foi publicado muito após a sua morte, em 1966.

Um dos livros mais divertidos que já li e que influenciou escritores como Salman Rushdie (Versos Satânicos) e até mesmo músicos como Franz Ferdinand (seu Love and Destroy é baseado no vôo de Margarida). 






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sábado, 7 de outubro de 2017

Churchill, de Jonathan Teplitzky (2017)


Acabo de assistir ao filme de Teplitzky. É o primeiro dos dois filmes sobre Churchill que chegam ao Brasil. Este aqui é interpretado por Brian Cox. Na verdade, o mais esperado, e provavelmente melhor, é o interpretado pelo Gary Oldman, que só deve chegar por aqui pelo final de novembro.

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Este é um filme mais, digamos, psicológico: apresenta um Churchill temeroso com a Operação Overlord (Dia D), atormentado pela sua responsabilidade pelo desastre de Gallipoli (em 1915, quando 250 mil soldados ingleses e australianos foram dizimados num ataque frontal ao Império Otomano). Aparecem alguns personagens importantes, como Clementine, sua mulher, o Rei, Montgomery e Eisenhover, mas não desenvolve muito o ambiente histórico.

Sim, é um bom filme, mas se parece muito (e vários críticos apontaram para esse detalhe) com uma peça de teatro. E Churchill, apesar de tudo, aparece aqui muito mais como um sujeito já meio incapacitado para conduzir a guerra. 

Espero ainda mais ansioso pelo filme de Gary Oldman.