segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A ilustre casa de Ramires à venda

A ilustre casa de Ramires está à venda - sério. Aqui.

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Uma pechinca: 990 mil euros. A família proprietária (há mais de quatro séculos) reconhece o potencial turístico, mas admite não ter condições de explorar a Casa da Torre da Lagariça.

De acordo com a reportagem:

"Apesar de no livro A Ilustre Casa de Ramires não existirem referências directas à Casa da Torre da Lagariça, investigadores e historiadores não têm dúvidas em apontar as coincidências geográficas e toponímicas da obra e dos lugares em Resende. O padre Joaquim Correia Duarte, membro da Academia de História, nas suas várias monografias sobre a história do concelho, defende mesmo que “Resende acaba por ser cenário principal ou secundário de quatro das obras mais importantes” do escritor".

Meu projeto de criar uma rede de hotéis literários poderia decolar...

Um leitor: Julien Sorel

- Pois bem, preguiçoso! Vai continuar a ler esses malditos livros enquanto está de guarda na serraria? Leia de noite, quando vai perder seu tempo na casa do cura, isso sim.

Julien, embora atordoado pela força do golpe e todo ofendido, aproximou-se de seu posto oficial, ao lado da serra. Tinha lágrimas nos olhos, menos por causa da dor física do que pela perda de um livro que adorava.

- Desça daí, animal, quero falar com você.

O barulho da máquina outra vez impediu Julien de ouvir a ordem. O pai, que havia descido, não querendo se dar ao trabalho de escalar novamente o mecanismo, foi buscar uma comprida vara de derrubar nozes e com ela bateu-lhe no ombro. Mal Julien chegou ao chão e o velho Sorel, enxotando-o rudemente à sua frente, empurrou-o na direção de casa. "Sabe Deus o que vai fazer comigo!", pensava o rapaz. De passagem, olhou tristemente o riacho onde caíra o livro; era de todos o que mais prezava, o Memorial de Santa Helena.

(O Vermelho e o Negro, Stendhal, tradução de Raquel Prado, Cosac Naify, p. 35-36).


segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Noites brancas, de Dostoievski



Mais novo, sempre lia algum autor russo nos escaldantes meses de verão do Rio. Todos podiam estar se dissolvendo à minha volta, mas havia um certo consolo em ler alguma história passada numa São Petersburgo ou numa Moscou - para não falar de algum ponto esquecido na Sibéria - congelada pelo tal General Inverno. 

No final de semana anterior ao Natal, finalmente leio Noites brancas, um daqueles livros que conhecemos antes mesmo de termos lido. Entre duas excelentes opções disponíveis para o leitor brasileiro, fiquei com a edição da Companhia Penguin, com a tradução de Rubens Figueiredo (um luxo, aliás, termos agora que escolher qual das boas edições da 34 ou da Companhia das Letras).

O problema de traduzir do russo não foi exclusivo do Brasil. Carpeaux já reclamava:

Dostoievski apareceu aos europeus ao lado de Turgeniev e Tolstoi; e nada mais natural do que a confusão entre eles: as traduções medíocres e pouco exatas não permitiram descobrir a imensa diferença dos estilos. Também se ignoravam as diferenças da condição social: Turgeniev e Tolstoi eram grandes senhores rurais; Dostoievski, um intelectual pequeno-burguês, homem da cidade.

O Sonhador caminha pelas ruas de São Petersburgo, sozinho, sem amigos ou conhecidos, mas que é capaz de "conversar" com a própria cidade - como se a arquitetura tomasse vida e expressasse sua opinião a respeito das últimas novidades... O sol mal se põe no verão russo. Na primeira noite, contudo, encontra uma jovem, desesperada e em prantos. Aproxima-se dela como nunca havia feito com ninguém; irá consolá-la. Ao longo das próximas noites, a aproximação improvável cresce, até o final abrupto da história.

Nos tempos de boas locadoras, hoje tão longínquos, consegui assistir à versão de Luchino Visconti (Le Notti Bianche, 1957), com Marcello Mastroianni e Maria Schell. Visconti troca São Petersburgo por Livorno. Aqui, o trailer:


Fique com os dois. Poucos grandes autores foram tão - e tão bem - levados ao cinema quanto Dostoievski.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

2018

2018 foi um ano atípico para este blog, que promete voltar à assiduidade dos seus primeiros anos.

Numa retrospectiva, diria que o melhor livro de não ficção que passou por aqui foi o livro de Peter Frankopan - The Silk Road: a new History of the World. Como disse naquela ocasião, um livro que, na melhor tradição da língua inglesa, um texto de alta qualidade e extremamente agradável, contando a história da civilização através do comércio.

Foi um ano mais dedicado à não-ficção, sem dúvida. O livro da Lília Schwarcz, sobre a história da Biblioteca Nacional,não foi, de forma alguma, um lançamento de 2018, mas tive o prazer de conhecer a autora num evento aqui em Belo Horizonte. O incêndio do Museu Nacional, quando estava no início da leitura, mudou radicalmente o estado de espírito do blog. 

Por fim, a monumental História dos Judeus, de Simon Schama. O primeiro volume caminha até 1492. O autor dedica especial atenção ao início do antissemitismo cristão, a partir das ideias de São João Crisóstomo, bem antes da Idade Média - o que fere o senso comum...

Na ficção, destaco o romance de Igor Stiks, o romance-documentário de Olivier Guez sobre Mengele, e Jogo de Cena em Bolzano, de Sandor Marai. Não resenhada neste blog, a última leitura de 2018, o romance Eufrates, do brasileiro André de Leones, também merece todas as atenções - inclusive desta biblioteca, tão relapsa durante o ano que se encerrou ontem. O post fica para os próximos dias.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Elza, a garota, de Sérgio Rodrigues

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Elza, a garota. A história da jovem comunista que o partido matou
Sérgio Rodrigues
Companhia das Letras
216 páginas

Tinha dezesseis anos. Ou assim dizem. As versões variam. Em algumas, Elza é mulher feita, vinte e um. Na maioria tem dezesseis. A idade altera talvez o grau de escândalo da união, mas não o fato de que Elza era a namorada, mulher, companheira, concubina, amante, amásia oficial do secretário-geral do Partido Comunista do Brasil —  o cargo máximo da organização —  em 1935. O ano em que a esquerda brasileira tentou o lance mais ousado e sofreu a maior derrota de sua história. Miranda tinha quase a idade do século. Bem-apessoado, simpático, dizia a todos os companheiros que amava Elza e pretendia, assim que as circunstâncias políticas permitissem, fazer dela uma mulher honesta. Antes, porém, precisava se desincumbir daquele trabalhinho de tomar o poder no país.

Com atraso de quase dez anos do lançamento, li Elza, a garota, de Sérgio Rodrigues (seu O drible está na minha lista). Trata-se da história de Elvira Cupello Calônio, codinome Elza Fernandes, namorada do secretário-geral do PCB e assassinada, a mando de Prestes, em 1936. Em muitos momentos, o romance se oculta num livro de História, ainda que, ao contrário do que fez Olivier Guez com o seu livro sobre Mengele, há, aqui, de forma bastante presente o elemento ficcional.  A história real é, de fato, uma tragédia. Impossível não lembar de Olga Benário, que por sua vez, não poderia ser mais diferente de Elza... 

Uma curiosidade: o livro fora encomendado a Sérgio Rodrigues como um trabalho de não-ficção, uma grande reportagem, um livro de História. De fato, vários autores são citados ao longo das mais de 200 páginas, como William Waack e seu Camaradas. Lá pelas tantas, o autor percebeu que poderia e deveria se transformar em romance. Um bom romance, diga-se, sobre um período histórico que estudávamos com mais detalhes na escola até o final dos anos 80. 

Ao que consta, está para ser adaptado ao cinema.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Jogo de cena em Bolzano, de Sándor Márai

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Jogo de cena em Bolzano
Sándor Marái
Tradução de Edith Elek
Companhia das Letras, 2017
248 p.

Deveria matá-lo? Seria um grande erro. O homem que é amado, quando morto, constitui um inimigo perigoso; você estaria lá, do nosso lado à mesa, na cama da condessa, com os passos  leves dos mortos você nos espiaria nos quartos, no jardim, estaria presente em todo lugar. Sua imagem estaria cercada pelo luto, pela pompa majestosa, as emoções e as lembranças embaladas em veludo preto e prata. E a vingança púrpura flutuaria em torno de sua memória, um vingança muda e fumegante iluminaria o caminho de suas lembranças, e eu me converteria no covarde e egoísta, no mesquinho e palerma que matou o único e maravilhoso homem que Francesca precisava ver! Não, meu filho, não vou matá-lo.

Jogo de cena em Bolzano é o último romance  de Sándor Marái (1900-1989) publicados no Brasil. 

Giacomo Casanova nasceu em Veneza em 1725 e logo se tornou sinônimo de libertinagem. Por atividades antirreligiosas, foi preso na sua cidade em 1755 e, no ano seguinte, consegue escapar do cárcere, com o abade Balbi. O romance se passa quando, após essa fuga espetacular, em 31 de outubro de 1756, Casanova está escondido em Bolzano. Nesta cidade, reencontra seu rival, o conde de Parma, com quem, anos antes, duelou por Constança, agora condessa.

À época, o conde prometeu a Casanova que a próxima vez que o encontrasse seria também a última: jura-o de morte. Agora, anos mais tarde, o Conde de Parma resolve visitá-lo, entregando-lhe uma carta e uma proposta. O Conde se humilha de uma forma absolutamente arrasadora. Ao contrário do que ocorrera no passado, o confronto entre o Conde e Casanova, agora, se dá através de uma tensa conversa, que tomará praticamente todo o livro.

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À primeira vista, um trabalho bem diferente dos demais de Marái, autor de As brasas, Confissões de um burguês, Divórcio em Buda, Liberdade. Numa leitura um pouco mais atenta, porém, vemos os mesmos elementos: uma grande conversa entre dois rivais (são dois amigos que se reencontram depois de quarenta anos em As brasas). 



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Lobo Antunes na Pléiade

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"Sonhei com este prémio desde os 13 ou 14 anos, desde a adolescência até agora. É o maior reconhecimento que se pode ter enquanto escritor, muito maior do que o Nobel".

Foi o que afirmou António Lobo Antunes pouco depois de ser informado de que a Biblioteca La Pléiade quer publicar a sua obra. Visivelmente emocionado com a sua entrada nesta prestigiada colecção francesa, o escritor acrescentou: "Estar no meio desta gente sábia dá-me muito prazer e muita alegria."

A matéria pode ser lida aqui.


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A longa viagem da biblioteca dos reis, de Lilia Moritz Schwarcz e outros



Frágil em sua história, nossa Biblioteca seria guardada na memória, como tantas outras que resistiram a seu destino e vingaram tal qual muralhas. É porque na história das bibliotecas sempre se impôs esta mesma duplicidade: observadas internamente são frágeis e passageiras; vistas com maior distanciamento parecem indestrutíveis. Alocadas em grandes edifícios e compostas por coleções de coleções, por livros milenares e documentos cuja data se perdeu, as bibliotecas guardaram uma imagem de estabilidade e solidez que, na verdade, pouco combinou com seu destino. A história mostra como essas livrarias foram e continuam sendo destruídas, seja por motivos naturais ou por conta da razão instável dos homens. E, cada vez que uma caía, tombava com ela uma parte da civilização. Foi assim com Alexandria, que durou apenas um século e, com ela - com seus 700 mil volumes - desapareceu parte do conhecimento disponível sobre a Grécia. Não por acaso os ingleses queimaram a Biblioteca do Congresso em 1814, e um novo acervo cultural teve de ser construído. Foi assim quando Monte Cassino foi bombardeada, durante a Segunda Guerra Mundial, e perdeu-se boa parcela do conhecimento sobre a Europa medieval. E, não faz muito tempo, a destruição da Biblioteca Nacional do Camboja, pelo Khmer Vermelho, levou consigo o maior estoque de informações sobre a civilização cambojana. Por sinal, esse era o objetivo de seus algozes, que pretendiam reduzir o passado a zero e recomeçar do nada: criar uma memória; inventar de novo uma mesma nação. Não por acaso destruíram 80% dos livros e mataram 57 doe seus sessenta bibliotecários.

Por uma dessas coincidências inexplicáveis, estava ainda nas primeiras cem páginas d' A longa viagem da biblioteca dos reis, de Lilia Moritz Schwarcz, com Paulo Cesar de Azevedo e Angela Marques da Costa, quando soube do incêndio que consumia outro legado da vinda de D. João VI, o Museu Nacional. 

Estava pensando nas goteiras da Biblioteca Nacional quando as labaredas reduziam a pó o museu... Uma semana antes, estivemos com a autora, que falava de seu mais recente trabalho, a biografia de Lima Barreto.

O livro desmente algumas ideias comuns, como a de que a vinda da Corte teria sido uma fuga - nem o mais letrado monarca se preocuparia em levar uma biblioteca de milhares de volumes em uma  fuga de última hora, e conta a história a partir do fatídico terremoto de 1755, passando pelo período pombalino, o Reino Unido e a Independência de um país sem grandes apreços pela cultura e que foi "inaugurado" por uma carta, pagou 800 contos (uma fortuna) a Portugal pela biblioteca (na Independência). 

A biblioteca já esteve no prédio da Ordem do Carmo, na então rua Primeira, e com a República ganhou seu espaço atual, na Cinelândia, próximo ao Museu Nacional de Belas Artes e do Teatro Municipal, o que deveria garantir à praça um status imbatível de centro cultural nacional. Ande mais alguns minutos e você chegará a outra biblioteca - na minha opinião, até mais bonita - o Real Gabinete de Leitura.

A peculiar proibição de livros na América portuguesa não encontra equivalentes na colonização espanhola, que desde o século XVI já criava universidades - como bem destaca Jorge Caldeira em seu História da Riqueza no Brasil, que comento daqui a alguns dias.

Como diz Lilia, "uma história diferente da independência brasileira, contada por bibliotecários".

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Dante por Ian Thomson



Artigo, em inglês, publicado no site da Spectator, sobre o livro de Ian Thomson sobre a Divina Comédia. Dante, segundo ele, é o patrono dos perseguidos: Oscar Wilde tinha um exemplar do livro à mão, Primo Levi procurava se lembrar de seus versos enquanto lutava pela sobrevivência em Auschwitz, Osip Mandelstam só saía de casa com um exemplar no bolso.

A autora do artigo, Frances Wilson, destaca a existência de cerca de 50 traduções desse monumento para o inglês. Mas, afinal, o que atrai um leitor do século XXI à leitura da Comédia? Simples:

The reason Dante still matters, Thomson argues, is not because readers today ‘fear damnation or are moved by the beauty of the Christian revelation, but because he wrote the story of an ordinary man — an Everyman — who sets out hopefully in this life in search of renewal’.


A Promessa, de Friedrich Dürrenmatt

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Pouquíssimo conhecido no Brasil, como a literatura suíça em geral, Friedrich Dürrenmatt (1921-1990) escreveu peças e romances policiais. Salvo engano, foi publicado por aqui lá pelos anos 90.

A Promessa (1958) é quase uma tese sobre o romance policial. Um ex-comandante da polícia encontra o autor após uma conferência literária sobre o gênero. Começa a criticar ambos: o romance policial é uma farsa, os escritores nos enganam, dando um crédito indevido à lógica... e começa a contar um episódio.

Assim, em poucas páginas, o narrador deixa de ser o autor e passa a ser o próprio ex-comandante, que conta uma história ocorrida há muitos anos. Matthäi, grande comissário de polícia, prestes a deixar a Suíça para assumir um posto na Jordânia, resolve postergar sua nova missão para investigar o assassinato de Gritli Moser, uma menina de Magendorf. Matthäi promete aos seus pais desolados encontrar o assassino. É a promessa.

O corpo foi encontrado na floresta pelo caixeiro viajante (ainda existem caixeiros viajantes?) von Gunten. Todos os indícios levam à sua culpa. Matthäi discorda, mas a população exige um culpado. Coincidências de local, horário, bem como o fato de o suspeito vender, entre outras coisas, uma faca, criam em todos a convicção de que o crime está solucionado.

Cético, Matthäi se envolve definitivamente no caso com o suicídio de Von Guten. Está convencido de que um trágico erro fora cometido. E, dessa forma, não cumpriu a promessa feita aos pais da vítima. 

A forma como Matthäi se vincula à promessa feita pode ser considerada por muitos, cinicamente, irreal, mas é o grande motor desse romance de cerca de 150 páginas. Sua vida é completamente alterada, ele desiste da Jordânia, acaba se isolando em um posto de gasolina, perde boa parte de sua reputação... busca uma racionalidade perfeita, explica-a ao narrador da história. Numa história policial clássica, o desfecho seria, certamente, outro, com toda essa dedicação culminando em uma recompensa ao dedicado comissário. Mas não é exatamente isso o que acontece.

O subtítulo - "um réquiem para o romance policial" - acaba sendo injusto: trata-se de um réquiem para a própria razão.