sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Doutor Fausto, de Thomas Mann

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É o primeiro posto deste blog sobre Thomas Mann. Dele já li Os Buddenbrook, As confissões do impostor Felix Krull, Morte em Veneza e José e seus Irmãos. Mann não é um escritor "fácil", e nesta visita ao mito do Fausto, o leitor encontrará longas discussões sobre arte, teologia, teoria musical, filosofia, entre outros aspectos. Mas isso não deve intimidá-lo; pelo contrário: à medida em que se avança, a narrativa vai se tornando mais dinâmica - como nos demais romances do autor. 

A ideia de Fausto já havia sido objeto do romance Mephisto, de Klaus Mann, seu irmão. Publicado em 1936, já sob o regime nazista e antes do início da Segunda Guerra, tinha como foco o ator de teatro Hendrik Höfgen, baseado em seu ex-genro Gustav Gründgens. O nazismo é parte integrante do enredo deste romance, do qual me lembro mais da adaptação ao cinema por István Szábo, com o grande Klaus Maria Brandauer no papel-título, do que do livro propriamente dito.

Thomas, na verdade, é um ex-nacionalista convertido (apoiou o kaiser na Primeira Guerra e brigou com Klaus, que se alinhou à França) e, anos depois do irmão, escreve sobre a vida de sua genial criação, o compositor Adrian Leverkhün, narrada pelo seu amigo Serenus Zeitblom. Zeitblom escreve já numa Alemanha destroçada e invadida por ingleses, americanos e soviéticos. A cada capítulo, o narrador amaldiçoa o destino escolhido pelos seus compatriotas, ao mesmo tempo em que se recorda da vida do amigo.

Há, como tão ao gosto de Thomas Mann, um "episódio italiano", justamente quando Ele se apresenta e firma o pacto com Adrian. O Diabo já conhece muito bem seu cliente, e não joga para perder. Pede-lhe a alma em troca de glória por vinte e quatro anos. A "conversa", narrada pelo próprio Adrian, é o ponto alto da história. O Diabo impõe-lhe uma condição - jamais poderá amar alguém - e de novo aquela história da relação entre o Artista e a Solidão aparece. Essa, digamos, cláusula, será devidamente exigida pelo Tinhoso, já no final da história, em outro grande momento do romance - Nepomuk recebe todo o amor e carinho de Adrian, no entanto...

A edição da Companhia das Letras tem a tradução de Herbert Caro, um dos grandes nomes da cultura européia que vieram ao Brasil entre os anos 30 e 40, juntamente com Paulo Rónai, Carpeaux, entre outros. Sim, o Brasil deu essa sorte. Minha próxima aventura será a tentativa de ler a sua versão de A Montanha Mágica, também pela Cia. das Letras (minha antiga edição portuguesa não me foi muito atrativa).

Carpeaux: no seu romance épico Doktor Faustus, a carreira artística do grande compositor Leverkuehn coincide com a história política da Alemanha durante os últimos decênios: os dois grandes temas, a política e a música, estão ligados através de uma nova técnica novelística na qual 'tudo alude a tudo': tudo é realidade e tudo é símbolo; um fato real de significação simbólica, a tentação da Alemanha e do artista pelo Demônio, dá à obra a dimensão metafísica e transcedental. O estilo é, outra vez, complexo à maneira do estilo da velhice de Goethe, mas iluminado por todas as luzes da ironia.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O fim do homem soviético, de Svetlana Aleksiévitch

Comecei a ler O fim do homem soviético, da jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch ganhadora do Nobel de Literatura de 2015, nos últimos dias de 2016, coincidentemente após ler uma reportagem sobre um reality da TV russa em que os participantes poderão ir às últimas consequências: estuprar, matar, ser devorados por lobos famintos - uma versão real de um filme de bastante sucesso nos últimos anos.

Formado por depoimentos e entrevistas, estamos diante de um imenso mosaico, tão diverso quanto o próprio país que busca retratar. Idosos, stalinistas, jovens executivos, ex-prisioneiros saudosos do Socialismo, jovens que se adaptaram aos novos tempos, jovens que se desgraçaram (ainda mais) com o capitalismo, russos, asiáticos, caucasianos...

Gorbachev é visto ou como um traidor ou como um fraco. Mesmo os que o apoiaram e realmente queriam se livrar dos comunistas votam pela última opção. Yeltsin não é visto com olhos mais simpáticos, até porque foi sob seu governo (ou desgoverno, dependendo da avaliação) que o dinheiro que comprava um carro dava para comprar um pãozinho. E Pútin é aquele que poderia trazer de volta um passado glorioso.

A primeira coisa a chamar a atenção: como lêem os russos - e como liam os soviéticos. O que, claro, não os tornou sábios ou mais eficientes ou felizes, mas não deixa de ser impressionante. O sujeito não tinha nada, morava mal, comia pouco, congelava no inverno - mas tinha uma prateleira com Tólstoi, Dostoievski e outros não suprimidos pelo regime (e, por vezes, um dos proscritos através de samizdat.

Os relatos e depoimentos das vidas e desgraças dos entrevistados não devem causar surpresa a ninguém que conheça um mínimo da história da antiga União Soviética e do stalinismo (Soljenitzine, Chálamov etc), mas é evidente em muitas vozes uma nostalgia - até na desgraça. O entrevistado nasceu soviético, acreditava no Comunismo, foi preso e deportado, odiava o Stalin, mas... não tem lugar no mundo que surgiu após 1991. Talvez um paralelo interessante seja comparar essa mudança com o fim da civilização dos Habsburgos ou dos otomanos, no final da Primeira Guerra, ou com o fim da vida judaica do leste europeu com o nazismo. Em um dos meus documentários favoritos - Adeus, Camaradas, de Nekrasov, o diretor tenta explicar à filha como eles conseguiam acreditar - sinceramente - no regime.

Mas talvez o mais impressionante sejam os relatos do período pós-1991: jovens suicidas, a guerra na Chechênia e no Cáucaso, com destaque à questão de Nagorno-Karabach, entre Armênia e Azerbaijão, pessoas das antigas repúblicas soviéticas que se viam, agora, estrangeiras e indesejáveis. E os detestáveis novos-ricos (novos-bilionários, melhor seria). 

Numa das entrevistas, a revelação da existência de agências de turismo com pacotes, digamos, exóticos: uma competição entre casais (ela de prostituta, ele de cafetão; quem conseguir mais dinheiro nas ruas vence o jogo), uma caça ao mendigo (que recebe uma grana considerável: se sobreviver, "é o destino, fica com o dinheiro", enquanto os participantes se esforçam para matá-lo e, assim, ganhar a competição).

Talvez por isso, como afirma a autora:

Há um novo apelo pela União Soviética. Pelo culto a Stálin. Metade dos jovens de dezenove a trinta anos considera Stálin 'um grande político'. Num país em que Stálin aniquilou mais pessoas do que Hitler, um novo culto a Stálin?! (...) Ideias antiquadas estão de volta: do Grande Império, da 'mão de ferro', do 'caminho peculiar da Rússia'... Restituíram o hino soviético, existe um Komsomol, só que ele se chama Náchi, existe um partido no poder, que copia o partido comunista. O presidente tem o mesmo poder que o secretário-geral. Absoluto. Em vez do marxismo-leninismo, a Igreja ortodoxa...

O tal reality da TV russa é tão novidade na vida dos russos de hoje como o culto a Stálin.



quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O remanescente, de Rafael Cardoso

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O escritor e historiador da arte Rafael Cardoso lançou O remanescente, simultaneamente aqui (Companhia das Letras) e na Alemanha (Fischer). Romance baseado na vida de seu bisavô, Hugo Simon, ex-ministro das finanças, banqueiro judeu na Alemanha do entre-guerras, é o resultado de uma intensa pesquisa e reconstrução histórica.

Grande personalidade de Weimar, transitando entre personalidades como Thomas Mann e Einstein e um foco de resistência ao nazismo, Simon, junto com sua família, é obrigado a deixar a Alemanha, partindo inicialmente para a França, o que logo se revela uma opção não muito segura. Rafael Cardoso constrói com rigor seus personagens e seus ambientes - a Alemanha, o sul da França "livre", a vinda para o Brasil. O destino encontrado para sair da Europa foi um lugar meio esquisito e exótico - o Brasil do Estado Novo, ainda não decidido a apoiar os aliados.  

O uso de passaportes falsos (Hugo Simon e sua esposa Gertrud se transformaram no casal tcheco Hubert e Garina Studenic; o filho, Wolf, e sua esposa Ursula se transformaram no casal André e Renée Denis, franceses) foi eficiente, claro, mas traumático: para despistar as autoridades francesas e brasileiras (não se esqueça que o Brasil ainda era simpático ao Eixo), eles não puderam embarcar como uma família. Assim, Hugo e Gertrud viveram no Rio, Penedo e Barbacena; Wolf e Renée em Curitiba e, mais tarde, em São Paulo  Somente em 1972 conseguiram restabelecer suas identidades.

Mas o mais interessante, na minha modesta opinião, é a descoberta da saga familiar pelo autor (que podemos acompanhar no Prelúdio e nos três Interlúdios). A Segunda Guerra se transformou num tabu, em algo a não ser tocado na vida brasileira dos parentes alemães, de modo que, até os 16 anos, o autor acreditava ser descendente de franceses. E, passada a guerra, fica cada vez mais evidente o esquecimento em que Simon é aprisionado. 

Um imenso grupo de exilados surge nas quase 500 páginas do romance, de Stefan Zweig a George Bernanos. Curiosamente, não consegui encontrar nenhuma resenha, ou mesmo uma nota nos jornais brasileiros a respeito do livro... Uma pena; um dos grandes romances do ano.

PS. Consta tratar-se do primeiro volume - O tempo no exílio -, o que nos permite esperar pelo prosseguimento desta verdadeira saga (sem trocadilhos adolescentes) familiar.

2016

Ano complicado, dedicado a escrever - o que tira muito do tempo para ler. Mesmo assim, um ano muito bom; a qualidade superou, em muito, a quantidade.

Quatro clássicos (ou três e meio, vá lá): Madame Bovary, de Flaubert, As Viagens de Gulliver, de Swift, o Livro I de Don Quijote e Doutor Fausto, de Thomas Mann. Isso, por si, já justifica um ano de leituras.

O negociante de inícios de romances, de Matéi Visniec, para mim, foi uma grande surpresa e, até onde sei, um dos livros negligenciados pelos resenhistas. O messias de Estocolmo, de Cynthia Oczik não é um lançamento, permanecendo inédito por aqui, infelizmente. Ponto para o livro digital... e, claro, um ano de lançamento de Ian McEwan (Enclausurado) é sempre um ano diferente. Brasileiros: os ótimos O romance inacabado de Sofia Stern, de Ronaldo Wrobel, e O Remanescente, de Rafael Cardoso.

2016 foi não apenas um ano com novidade de McEwan, mas também de Manguel (Uma história natural da curiosidade). E se Philip Roth pendurou a caneta, saiu no Brasil sua autobiografia Os fatos. 







 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O complexo de Portnoy, de Philip Roth


Este blog nasceu em 2011, quando Philip Roth já havia pendurado a caneta. De minha parte, comecei a ler sua obra a partir de 2000, com Operação Shylock (1993). Este ano, numa homenagem privada, depois do papelão sueco, resolvi ler aquele que, para muitos, é o seu melhor livro: O complexo de Portnoy, de 1969.

Escrito no auge da revolução sexual, é para mim um dos livros mais divertidos e engraçados que conheço. Há, sim, algo de Woody Allen na história de Alexander Portnoy, que narra sua vida, suas neuroses e suas frustrações ao psicanalista (que nada fala), o dr. Spielvogel. A mãe judia, o pai que trabalhava numa corretora de seguros (como, aliás, o pai de PR), a irmã obesa. A namorada culta não é boa de cama; a namorada liberada é simplesmente "inapresentável" intelectualmente - o que me lembra uma versão muito mais divertida de Cabeças Trocadas e Thomas Mann. E seu ataque frustrado a uma jovem do exército israelense... aliás, Roth é criticado com frequência pelas feministas.

Lê-lo em 1969 foi, certamente, mais revolucionário e perturbador do que em 2016. No entanto, o livro não ficou datado; pelo contrário: é inesperadamente atual. A biografia escrita por Claudia Roth mostra o quão revoltada ficou uma parte considerável da comunidade judaica americana. A ponto de o autor telefonar para a mãe, avisando-a que "provavelmente alguns jornalistas irão procurá-la para falar sobre nossa vida". Um erro comum nos leitores de Roth é encarar todos os seus livros como direta e escancaradamente autobiográficos.

E, hoje, passados mais de sete anos de sua aposentadoria, não há quem construa personagens tão bem quanto PR.


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O pecado do padre Ondrej, de Jaroslav Hasek


Tradução a partir da versão inglesa:



Padre Ondrej estava agora em seu décimo oitavo ano no Purgatório e ainda não entendia o porquê. Seu caso ainda não havia alcançado a sentença final, embora a pressão das almas chegando ao Purgatório tenha aliviado nos últimos dois anos. A maioria das almas hoje em dia faz apenas uma rápida parada por lá e é então conduzida, rangendo os dentes, para o Inferno. De vez em quando, ele criava coragem para perguntar a um dos Anjos da Guarda: “Por que os senhores continuam me prendendo aqui? ”

Eles encolhiam suas asas e diziam: “Seu caso ainda não foi decidido, Senhor Reverendo.”

Essas palavras o deixavam desconfortável, como apenas uma alma no Purgatório poderia sentir, pois não lhe constava ter cometido qualquer pecado. Ele era um exemplo de manual de um padre venerável. Durante sua estadia na Terra, encaixou-se na descrição em cada particular: os longos cabelos brancos, a voz trêmula de um ancião, a pureza moral, Primeira Classe.

E aqui estava ele, ainda detido para investigação no Purgatório.

Recentemente, ganhou a companhia de um certo capelão, que podia enxergar dez mil anos à frente. Na Exibição de Jubileu¹, o pobre diabo passou quinze minutos assistindo a pessoas escorregando por uma rampa e, depois, sofreu um derrame a caminho de casa.

“Uma verdadeira renda de Bruxelas, Padre”, diria o desafortunado capelão ao Padre Ondrej, cuja alma pura não poderia perceber a diferença entre um saiote comum e outro de renda.

E os anjos voaram calmamente em torno do Padre Ondrej. Eles lamentaram por ele e cantaram agradáveis canções com palavras dos Santos Padres. E disseram: “escreva uma petição, Padre”.

E ele escreveu uma petição:

Para a Excelentíssima Corte do Juízo Final:
A alma abaixo-assinada vem respeitosamente rogar a submissão desta humilde petição para liberar-se do Purgatório, trazendo como razões para seu pleito os seguintes aspectos:
A.O abaixo-assinado nada encontra em sua consciência que deponha em seu desfavor;
B. Ele tem sido exaustivamente purificado, como pode ser atestado pelo magistrado local Paluska, atualmente localizado no caldeirão 253 na Zona Purgatorial Temperada, onde estão os ventiladores;
C.Esta mesma afirmação, sobre sua purificação, pode ser confirmada pelo Sargento Josef Loukota, atualmente residente, em estado de beatitude, no Céu, próximo à catraca nº 5;
D.O abaixo-assinado descobriu uma fonte milagrosa e desviou sua água para orfanatos e casas de correção, sem qualquer custo;
E.Ele se distinguiu como estudante, como pode ser confirmado por Alexius, do Diretor da Escola de Gramática, atualmente vinculada à unidade da Escola de Gramática do Anjo da Guarda no Purgatório;
F.O abaixo-assinado tem uma especial compreensão de Latim, Grego, Hebraico e Aramaico;
G.O abaixo-assinado nunca se envolveu em qualquer problema ou discussão sobre qualquer assunto.

A petição foi devolvida. “Falta a rubrica”, disse o anjo que a apanhou. Este anjo trabalhou por toda sua vida terrena como um funcionário público em um departamento governamental.

Padre Ondrej escreveu no verso: “A alma de Padre Ondrej solicita sua libertação do Purgatório nos termos de A, B, C, D, E, F e G”.

No aniversário da sua morte – também não costumam dar muita atenção a uma petição na Terra – recebeu uma resposta:

Respeitável senhor,
Tomamos a liberdade de informá-lo que a Corte do Juízo Final não se reunirá no futuro próximo. Assim, encaminhamos sua petição para a Alta Corte do Purgatório, com a solicitação de que seja dada a maior urgência, e informamos que o senhor deve ser levado à Sessão Regular Purgatorial para o exame de seu pecado.
Em nome do Comitê de Exame Preliminar da Corte do Juízo Final,
(Assinado) Gabriel

E assim se passaram os anos seguintes, acompanhando os lamentos das almas sob purificação e os tocantes acalantos dos anjos nos berços dos não-batizados.

Finalmente, Padre Ondrej recebeu uma intimação para comparecer perante o Senado Sagrado.

O Senado era uma assembleia na pérgola da Baixa Corte do Purgatório, visível apenas aos Anjos da Guarda trazidos ao acusado. O Livro da Vida do Padre Ondrej pairava no ar, e suas páginas, viradas por uma mão invisível.

“Padre Ondrej”, disse uma voz, “você vê aqui o Livro de sua vida. Está puro, exceto por uma página. Eu ordeno que você responda a verdade a esta pergunta: você teve um irmão na Austrália? ”

“Sim, meus Senhores do Senado”.

“Perguntamos ainda: você escreveu para seu irmão na Austrália? ”

“Sim, meus Senhores; para Sydney, no ano de 1882”.

O livro foi fechado e uma voz profunda reverberou, uma voz que parecia pertencer ao Presidente do Senado Sagrado: “Você estudou todos os livros escritos por Santo Agostinho, o Professor da Igreja? ”

“Sim”.

E agora, ouviu-se um murmurinho de asas. A Corte entrou em recesso para deliberar seu veredito. 
Um novo barulho de asas e, do alto, uma voz:

“Padre Ondrej é sentenciado a quinze mil anos de confinamento no Purgatório, incluindo vinte e dois anos de detenção para investigação. As razões para esta decisão são as seguintes:

No Livro De Retractione, vel Librorum Recensione, Agostinho, o Mestre da Igreja, declarou a heresia (ver página 213). Como a Austrália é parte dos antípodas, a crença na existência da Austrália constitui o pecado da blasfêmia, cometido e confirmado pelo Padre Ondrej ao enviar uma carta para seu irmão aos antípodas, a saber, em Sydney, Austrália. O estado de purificação do acusado e sua confissão, franca e espontânea, constituem circunstâncias atenuantes”.

“Não chore”, os anjos disseram para consolar o homem condenado. “Isso poderia ter acontecido em qualquer tribunal da Terra”.

¹ Exposição do Jubileu de Praga, em 1891

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Enclausurado, de Ian McEwan

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Um ano com lançamento de Ian McEwan é sempre um bom ano. Enclausurado tem como narrador um feto. 

Se Machado de Assis criou um autor defunto, McEwan tratou de nos apresentar um autor nascituro, ainda inominado.

Poderia perfeitamente se chamar Hamlet, já que McEwan parece trazer para a Londres de hoje a história de Shakespeare. Gertrude (Trudy) e Claude planejam o assassinato do marido/irmão, John Cairncross, para se apoderarem do imóvel da família, uma velha casa em ruínas mas localizada num ponto da cidade que a faz valer alguns milhões.

O Hamlet intra-uterino de McEwan é consciente. É como se, de dentro de sua mãe, dispusesse de uma boa biblioteca ou, vá lá, acesso ao Google: ele reconhece ser um felizardo, já que, de todas as opções possíveis, será um europeu ocidental. Claro, nem tudo é perfeito: não terá os benefícios sociais nem o poderoso fundo soberano de um norueguês, nem nascerá na ensolarada decadência italiana (e sua culinária) ou na França, com seu amor próprio e, principalmente, seu pinot noir. Em vez disso, herdarei um reino em nada unido governado por uma rainha idosa e reverenciada, onde um príncipe que também é um homem de negócios, famoso por suas boas ações, seus elixires (essência de couve-flor para purificar o sangue) e intromissões inconstitucionais, aguarda com impaciência a coroa. Esse será o meu lar, e vai dar para o gasto. Eu poderia ter vindo ao mundo na Coréia do Norte, onde a sucessão também é garantida, mas onde faltam liberdade e alimentos. McEwan continua McEwan.

Esse futuro promissor, no entanto, é abalado com a descoberta da trama de assassinato. Sua própria futura existência se vê ameaçada - afinal, seria ele abortado ou abandonado? A Inglaterra não seria um lugar adequado para essa circunstância...

Um Hamlet que precisa se proteger do pênis do tio - "temo que ele rompa a barreira, perfure os ossos ainda moles do meu crânio e irrigue meus pensamentos com a essência dele, com o creme abundante de sua banalidade". 

Banalidade, aliás, compartilhada entre Claude e Trudy. O pai, por sua vez, é um poeta fracassado e um editor mal-sucedido, que gosta de poesia - o que causa ânsia de vômito em sua esposa e em seu irmão. Nosso heroi conhece os clássicos. Sua mãe, por mais oca, gosta de ouvir podcasts e acaba ouvindo alguns clássicos. 

No final da história, o narrador, tal como seu par shakespeariano, precisa vingar o pai, e o fará. Provavelmente esculhambará com toda a trama planejada pela mãe e o tio. Fará a única coisa ao seu alcance: nascerá.

Uma última observação: nosso experimentadíssimo feto já sabe das coisas: pensa em escrever um ensaio, assim que sair de sua mãe e tiver "condições". Afinal, "o mundo clama por novos empiristas". Uma pérola, não?

Mas ele escuta todas as conversas da mãe, e logo descobre a trama. Sua relação com o tio não poderia ser pior - ele tem de se desviar do pênis de Claude, proteger seu cérebro - "

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Bob Dylan

Estava em Roma na semana passada quando foi anunciado o nome de Bob Dylan para o Nobel de Literatura de 2016, pela Academia Sueca. Não é correto dizer que foi uma grande surpresa pois, afinal, seu nome já apareceu como favorito na lista da Ladbrokes há alguns anos. Desta vez, no entanto, não aparecia entre os 10 mais apostados (ainda que, na madrugada de 12 para 13 de outubro, seu nome tenha despontado para quarto lugar - deve haver algum vazamento nesse negócio).


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Martin Amis, Michael Cunningham e Salman Rushdie foram os primeiros - que eu saiba - a elogiar a decisão. Dylan é um grande músico e, como tal, um grande poeta, dizem. Em Tangled Up in Blue, por exemplo:

Then she opened up a book of poems  
And handed it to me
  Written by an Italian poet
From the thirteenth century

Will Self, por outro lado, disse que Dylan terá a grande chance de imitar Sartre e, felizmente, recusar o prêmio...

O que dizer? Todos os leitores do mundo parecem ter o poder-dever de dar sua opinião sobre o Nobel, de forma que aqui vai a minha.

Primeiro, o desapontamento. Não propriamente por Dylan, mas pelo fato de o prêmio ter sido conferido para um norte-americano. Na geopolítica da Academia, isso significa que provavelmente os EUA não serão agraciados novamente dentro de dez ou quinze anos. Roth tem 83 anos e, seguindo esse roteiro, suas chances de receber o prêmio são bastante reduzidas. O problema não é dele - é da Academia, que perde a chance de dar-se credibilidade. Azar o dela. Roth também não será o único entre os grandes a ficar de fora - Joyce, Calvino, Woolf, Proust, Borges: a lista é imensa.

Segundo, uma tentação milenarista: estamos caminhando para o fim de uma civilização livreira. Por mais que se leia bastante, lê-se cada vez menos literatura. O fenômeno não é brasileiro (por aqui nunca se leu muito mesmo), mas universal. Nos EUA, na Espanha, França e Itália é fácil encontrar análises que mostram que, a cada ano, as pessoas lêem menos, as vendas diminuem, e os clássicos vão sendo deixados de lado. Nas universidades americanas, os cursos relacionados às Artes são frequentados, cada vez mais, por asiáticos, e menos pelos wasps.  O que leva uma civilização a seu término, nas palavras do Kenneth Clark - Civilization - é a exaustão. Ela simplesmente se cansa de defender seus valores fundamentais.

Tendo a embarcar nessa onda pessimista, mas temo estar  tomado por um daqueles pânicos milenaristas - o mundo está acabando, como se diz, pelo menos, desde o ano 1000.

Mas há, de fato, algo de errado. Não por Dylan (de quem, aliás, não sou fã). Mas pelo fato de, novamente, não se premiar um romancista, um poeta ou mesmo um dramaturgo. Se é certo que grandes obras literárias estarem presentes em textos jornalísticos (a bielorussa Svetlana Aleksievitch, vencedora em 2015), sou conservador o suficiente para defender a teoria do "cada macaco no seu galho" com relação à música ou à canção. 

Sim, é possível defender que, no início, de Homero até os trovadores medievais, essa distinção nunca foi muito evidente. Isso é verdade. Mas, pessoalmente, continuo incomodado com a escolha deste ano.
Um dos melhores livros que li este ano foi O negociante de inícios de romance, do romeno Matéi Visniec. Lembro-me da carta de despedida de um professor de romeno aposentado, fervoroso amante dos livros que, aos 67 anos, não suportou a Academia Sueca. Uma onda de suicídios literários cometidos na Romênia no fim do segundo decênio do século XXI. A razão? O fato de a Academia jamais ter escolhido um escritor de língua romena. Imagino que essa epidemia ficcional seria agravada em 2016.

Estava em Roma no dia 13. Curiosamente, nesse mesmo dia faleceu o Nobel de 1997, também à época uma opção da Academia bastante criticada - o italiano Dario Fo. Não deixa de ser irônico.

Como também não deixa de ser irônico o fato de, ao menos até este momento, manhã do dia 18 de outubro, Dylan ainda não ter dado as caras - ele sabe da premiação? O que ele está fazendo? Ele irá a Estocolmo?