sexta-feira, 17 de novembro de 2017

A resistência, de Julian Fuks

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A resistência
Julián Fuks
Editora Companhia das Letras, 2016
144 páginas


Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado. Se digo assim, se pronuncio essa frase que por muito tempo cuidei de silenciar, reduzo meu irmão a uma condição categórica, a uma atribuição essencial: meu irmão é algo, e esse algo é o que tantos tentam enxergar nele, esse algo são as marcas que insistimos em procurar, contra a vontade, em seus traços, em seus gestos, em seus atos. Meu irmão é adotado, mas não quero reforçar o estigma que a palavra evoca, o estigma que é a própria palavra convertida em caráter. Não quero aprofundar sua cicatriz e, se não quero, não posso dizer cicatriz.

O romance rendeu ao autor o Prêmio Saramago de 2017. Durante a leitura, lembro do que Tolstoi escreveu sobre as famílias, na primeira frase de sua Anna Karenina. 

Os pais do narrador (Sebastián) são psicanalistas argentinos que, diante da ferocidade da ditadura argentina de 1976, fogem para o Brasil, onde nascem seus filhos. Mas o narrador, brasileiro, tem um irmão adotivo argentino.

Não se trata de uma narrativa linear - como nunca o são as memórias. Esse ponto torna o narrador uma figura não inteiramente confiável, mas, sem dúvida, bastante real e crível. As lembranças muitas vezes são mostradas de forma um tanto confusa, não por um defeito do autor. Pelo contrário: é uma das qualidades do texto:

isto é história e, no entanto, quase tudo o que tenho ao meu dispor é a memória, noções fugazes de dias tão remotos, impressões anteriores à consciência e à linguagem, resquícios indigentes que eu insisto em malversar em palavras.

Assim é que vai se formando um quadro com várias "resistências": a mais óbvia - os pais contra a ditadura que fogem para o Brasil que, entre os anos 70 e meados dos 80, também o era (ainda que menos violenta que a argentina); a resistência de Sebastián em relação ao irmão adotivo (e mais velho) e, a mais importante: a resistência do irmão em relação à família adotiva (o que acaba sendo natural se pensarmos nas possibilidades - sabemos que o regime militar sequestrava crianças de seus pais perseguidos e as recolocava em famílias cuidadosamente escolhidas).

Altamente recomendável. O autor esteve na Flip deste ano e falou da questão da autoficção e de seu processo de criação deste romance.

domingo, 12 de novembro de 2017

A noite da espera, de Milton Hatoum



Grande surpresa ao receber A noite da espera, o primeiro dos três volumes de O lugar mais sombrio, que marca o retorno de Milton Hatoum ao romance, após um intervalo de nove anos. Já havia lido Dois Irmãos logo após o seu lançamento, em 2000 ou 2001.

Apesar de a história se passar também em Paris e em São Paulo, o cenário, ao menos neste primeiro volume, é a Brasília do início dos anos 70, uma cidade com pouco mais de dez anos de fundação e ainda um imenso deserto. Martim muda-se com o pai (Rodolfo)  para a capital, após a separação traumática e, até o momento, não explicada, deste com a mãe, Lina. Pai e filho mal se falam.



Martim está relembrando esses tempos, agora já vivendo em Paris.



Como Martim, o autor morou na capital por alguns anos para estudar arquitetura, curso inexistente na sua Manaus. Acabou estudando na USP. Como Martim, foi detido pela polícia e passou uma noite preso em Brasília - foi ameaçado mas não torturado, diz, após deixar claro que ouviu gritos de tortura. Mas Miltom nega que Martim seja seu alter ego. A entrevista pode ser lida aqui (Veja).



Os próximos volumes serão lançados em 2018 e 2019. Parece temporada de série.



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A história do amor (2016), de Radu Mihaileanu




Não sei se já passou nos cinemas daqui, mas consegui assistir na TV a cabo a mais um trabalho do excelente Radu Mihaileanu (Trem da Vida, O Concerto, A fonte das mulheres). Este A história do amor é uma adaptação do romance da norte-americana Nicole Krauss e tem como protagonista Derek Jacobi, que interpreta Leo Gursky. 

Leo deixou sua pequena vila na Europa com a chegada dos nazistas. Alma Mereminski (Gemma Arterton), sua amada, já tinha feito as malas antes. Os dois fizeram juras de amor eterno e de troca de cartas mas, por alguma razão, as cartas de Leo nunca chegaram a Alma. Leo quer ser escritor, e avisa que irá escrever sobre aquilo que mais entende: Alma. Seria o romance A história do amor.

Décadas depois, Leo é um idoso que vive em Chinatown, num apartamento microscópico, com o amigo Bruno Leibovitch (Elliot Gould). Passa os dias sacaneando a atendente do café, uma jovem alemã, entornando café (Leo não gosta de alemães), ou posando nu numa escola de pintura - quer alguma atenção. 

Paralelamente a essa história, temos outra Alma (Sophie Nélisse), uma adolescente solitária que vive no Brooklyn, determinada a arrumar alguém para sua mãe, Charlotte (Torri Higginson), leitora fã do livro A história do amor, escrito por... Zvi Litvinoff (Claudiu Maier), a ponto de dar o nome da personagem principal à sua filha.

O irmão dessa jovem Alma, Bird (William Ainscough) é uma figura à parte: acredita ser um Lamed Vovnik, um dos homens justos que sustentam o mundo... 

Mas, voltemos a Zvi, improvável autor d'A história do amor.

Na juventude, Leo, Bruno e Zvi formavam um trio que disputava as atenções de Alma. O livro, na verdade, fora escrito por Leo, que o enviou a Alma Mereminsky. Como chegou a Zvi? O que aconteceu com o manuscrito?

Há quem tenha visto no filme uma bela história mas, parando para pensar, e evitando aqui qualquer coisa parecida com spoiler (obviamente para quem, como eu, não leu o romance), como uma pessoa pode ter sequestrado toda (toda mesmo) a vida de outro; uma apropriação por completo - carreira, fama, mulher (mesmo não tendo se casado com Alma). Como nos outros filmes de Radu Mihaileanu, a recomendação é sempre positiva: assista.


Cinco Esquinas, de Mario Vargas Llosa

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Em 1990, o candidato  Vargas Llosa é derrotado por Alberto Fujimori, que se torna, então, Presidente do Peru. Azar do Peru, uma vez que sabemos o que aconteceu a partir de então. E sorte de Vargas Llosa, que passa a se dedicar integralmente à literatura. Em 2010, recebe o Nobel. Em 2010, Fujimori já se encontrava condenado a uma infinidade de anos de prisão...

Mas os anos Fujimori tinham de, em algum momento, ser trabalhados por Vargas Llosa, que o fez agora, com Cinco Esquinas (editora Alfaguara, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, 213 páginas). Como dito pelo próprio autor, trata-se de um romance que aborda vários aspectos do regime que durou de 1990 a 2000, com seus toques de recolher, medo de atentados, mas também o uso, pelo governo, de jornais sensacionalistas para destruir reputações de opositores ou de qualquer um que não cedesse aos seus achaques (tema, aliás, já tratado em seu ensaio A civilização do espetáculo, que não li).

E aqui entram os dois casais da história, Marisa e Enrique (Quique) Cárdenas, engenheiro de sucesso, e Chabela e Luciano, grande advogado. O livro abre com uma noite em que as mulheres passam juntas (na conversa, perdeu-se a hora de ir embora e o toque de recolher as obrigou a compartilhar não apenas o mesmo apartamento como também a mesma cama). Os maridos não desconfiam de nada. As mulheres se dedicam a Miami e às compras; os maridos se dedicam a enriquecer. 

E eis que o engenheiro Enrique se vê chantageado por uma figura estranha, que comanda um jornal da imprensa marrom. Uma foto tirada do respeitável pai de família Cárdenas numa orgia... Por trás disso, há uma figura ainda mais sinistra, o Doutor (que não é ninguém menos que Vladimir Montesinos, chefe do Serviço de Inteligência Nacional do período Fujimori). 

Um bom livro, que li num feriado. O sonho do celta foi mais interessante. E, agora, preparo fôlego para Guerra do fim do mundo. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov

Há quem considere O mestre e Margarida, do ucraniano soviético Mikhail Bulgákov (  -  ) o melhor romance russo do século XX. Acabo de lê-lo, na edição de 2010 da Alfaguara, traduzida do russo por Zóia Prestes. Agora, terminada a leitura, descubro que a 34 vai lançar uma outra tradução, do Irineu Franco Perpétuo.

A história de Woland (o Diabo) e seu séquito, composto por um gato preto (Behemoth), um sujeito com pince-nez (Koroviev), um caolho (Azazello) e uma ruiva nua (Hella) que aparecem na Moscou stalinista de 1929 (o diabo nunca esteve tão à vontade como quando passou por lá) é objeto de culto em várias parte do mundo. A ponto de o apartamento do autor, onde se passa a história, ser objeto de peregrinação e culto até hoje. A história também acompanha o julgamento de Jesus por Pôncio Pilatos.

Moscou se torna uma cidade insegura com a chegada de Woland. O primeiro a sofrer é Berlioz, presidente de uma associação de escritores (uma associação do regime, diga-se), decapitado por um trem em circunstâncias no mínimo estranhas... Os escritores oficiais, diga-se, passam o tempo em picuinhas. O que menos fazem é... escrever...


Nenhum texto alternativo automático disponível.
Elena Gracheva, Rússia, 2015

Uma forma interessante de ler o livro é aproveitar os diversos sites que se dedicam a identificar os locais por onde a história se desenvolve. 


Outro: uma coleção com 75 capas do romance, que podem ser vistas aqui.

O livro foi escrito na década de 1930, no auge do terror stalinista; teve seus originais queimados pelo próprio autor e só foi publicado muito após a sua morte, em 1966.

Um dos livros mais divertidos que já li e que influenciou escritores como Salman Rushdie (Versos Satânicos) e até mesmo músicos como Franz Ferdinand (seu Love and Destroy é baseado no vôo de Margarida). 






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sábado, 7 de outubro de 2017

Churchill, de Jonathan Teplitzky (2017)


Acabo de assistir ao filme de Teplitzky. É o primeiro dos dois filmes sobre Churchill que chegam ao Brasil. Este aqui é interpretado por Brian Cox. Na verdade, o mais esperado, e provavelmente melhor, é o interpretado pelo Gary Oldman, que só deve chegar por aqui pelo final de novembro.

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Este é um filme mais, digamos, psicológico: apresenta um Churchill temeroso com a Operação Overlord (Dia D), atormentado pela sua responsabilidade pelo desastre de Gallipoli (em 1915, quando 250 mil soldados ingleses e australianos foram dizimados num ataque frontal ao Império Otomano). Aparecem alguns personagens importantes, como Clementine, sua mulher, o Rei, Montgomery e Eisenhover, mas não desenvolve muito o ambiente histórico.

Sim, é um bom filme, mas se parece muito (e vários críticos apontaram para esse detalhe) com uma peça de teatro. E Churchill, apesar de tudo, aparece aqui muito mais como um sujeito já meio incapacitado para conduzir a guerra. 

Espero ainda mais ansioso pelo filme de Gary Oldman.

Kazuo Ishiguro

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E eis que, desta vez, a Academia escolheu um escritor de literatura para o Nobel. Kazuo Ishiguro, autor de Vestígios do dia (não li, mas vi o excelente filme de 1993 com Emma Thompson, Anthony Hopkins, Christopher Reeves e Hugh Grant).

Segundo Vargas LLosa, é um


"escritor magnífico, de clara raiz japonesa, ainda que perfeitamente integrado tanto na literatura inglesa como na sociedade britânica. Um exemplo perfeito dessa integração é Os Vestígios do Dia, romance no qual, com grande delicadeza, aborda os rituais da aristocracia britânica, vista com enorme sutileza e espírito crítico por um mordomo dotado de grande perspicácia. É uma delícia de novela, que introduz o leitor nesse mundo inglês com grande destreza narrativa" (trecho de seu artigo publicado no El País, e que pode ser lido, em português, aqui.


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Cervantes 470 anos

Miguel de Cervantes nasceu  em Alcalá de Henares, em 29 de setembro de 1547.

"Y así, del poco dormir y del mucho leer, se le secó el cerebro, de manera que vino a perder el juicio."
--Don Quixote de la Mancha (1605–1615)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Nobel 2017: apostas

Já virou tradição da Biblioteca trazer a lista com os favoritos ao Nobel de Literatura, de acordo com a casa de apostas Ladbrokes:

Vamos aos 10 primeiros:

1. Ngugi Wa Thiong'o, queniano.

2. Haruji Murakami (sempre, sempre ele)


3. Margaret Atwood - canadense. Nunca li, mas é muito bem conceituada pela crítica e pelo público. Manguel adora. Seu romance mais conhecido, O conto da aia, que está na minha fila de espera, virou série de sucesso na televisão. Momento político pode ajudar.

4. Amos Oz. Israelense que costuma irritar esquerda (à qual pertence) e direita.

5. Claudio Magris. Italiano, de Trieste (escreve em italiano e fala o dialeto local). Escreve ficção, mas li Danúbio, ensaio que por si só já o coloca como merecedor do Nobel.

6. Javier María, espanhol de quem nada li.

7. Adonis, poeta sírio. Muito bom, e pode ser ajudado pela geopolítica.

8. Don deLillo, americano. Nunca li nada dele.

9. Yan Lianke, chinês não muito querido pelo regime, o que o coloca, por definição, com chances (não faço a mais vaga ideia se merecido ou não).

10. Ko Un, sul-coreano que virou budista e defende a reunificação do país. Idem...

E mais: Jon Fosse (norueguês), António Lobo Antunes (o Fla - ou flu - do fla-flu com Saramago), Cesar Aira, Ismail Kadare (albanês que já devia ter recebido o prêmio), Laszlo Krasznahorkai (húngaro conceituadíssimo na Europa) e A.B. Yeoshua (israelense).

Philip Roth aparece mais abaixo mas, fazer o quê... um norte-americano não deve ganhar nos próximos dez anos...

Provavelmente o vencedor está mencionado neste post.

domingo, 3 de setembro de 2017

Uma sensação estranha, de Orhan Pamuk

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Uma sensação estranha
Orhan Pamuk
tradução (indireta) de Luciano Vieira Machado
Companhia das Letras, 2017, 590p.


Esta é a história da vida e dos sonhos de Mevlut Karatas, vendedor de boza e de iogurte. Nascido em 1957 na fronteira ocidental da Ásia, numa aldeia pobre que dava para um lago enevoado da Anatólia Central, aos doze anos foi para Istambul, a capital do mundo, onde passou o resto da vida. Quando tinha vinte e cinco anos, voltou para a província natal e de lá fugiu com uma jovem, num estranho episódio que determinou o curso de seus dias.  Voltou para Istambul, casou-se, teve duas filhas e pôs a trabalhar sem desconto - vendeu iogurte, sorvete e arroz como ambulante, e exerceu o ofício de garçom. Mas à noite nunca deixou de perambular pelas ruas de Istambul, vendendo boza e sonhando sonhos estranhos.

Assim começa mais um romance de Orhan Pamuk que acaba de chegar ao Brasil (quando, ao que parece, ele acaba de lançar outro, que deverá levar mais alguns anos para ser editado por aqui).

Uma estranha sensação é, mais uma vez (já virou um lugar-comum, diga-se), uma história cujo principal personagem é nada menos que a cidade de Istambul. Um livro que apresenta mapa genealógico, uma cronologia que alcança fatos históricos e os personagens da história e fotos e ilustrações do próprio autor.

Mevlut Karatas é um homem comum, um vendedor de boza, que chega à cidade em 1963, vindo do interior da Anatólia, parte asiática do país. Vender boza pelas ruas é algo hoje impensável; Mevlut faz parte de uma cidade que hoje já não mais existe. Começou a trabalhar antes de as grandes empresas distribuírem iogurte diretamente nas lojas, e antes de o álcool ser liberado (quem vai beber boza, até então uma das únicas formas de consumir álcool, quando agora pode se deleitar com o raki?). Casa-se com Rayiha, mas escrevia cartas para os olhos de Samiha, entregando-as a Suleyman... 

Uma jogada de Pamuk é alternar as vozes. Isso ele já fez, muito bem, em Meu nome é vermelho, para muitos, sua obra-prima. Mas também gostei muito de Museu da Inocência, que, acho, reconstitui a história da cidade com superioridade.

Pamuk escreve sobre a História de seu país e também sobre grandes temas (identidade nacional, amor, desenvolvimento urbano,  concentração de riqueza) a partir de pequenas histórias familiares (no caso, fica evidente o crescimento absurdo e desordenado da cidade ao longo das últimas décadas; o golpe militar de 1980, o 11 de Setembro, a ascensão de Erdogan, entre outros.