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Mostrando postagens com o rótulo Literatura: Austria

Nobel 2018 e 2019

A Academia Sueca anunciou na semana passada o Nobel de Literatura de 2018 e de 2019. A polonesa Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke foram os indicados. Os dois autores são bem conhecidos do público europeu. Olga Tokarczuk (1962) já recebeu o Man Booker Prize recentemente pelo romance fragmentado Flights, que comecei a ler justamente no dia em que o Nobel foi anunciado. Prometo escrever sobre ele. Mas o leitor brasileiro terá a oportunidade de lê-la. A editora Todavia publica em novembro o romance Sobre os ossos dos mortos .  A polêmica do ano foi a indicação de Handke, já publicado por aqui. Confesso que só o conhecia de roteiros - ele escreveu alguns para Wim Wenders, como Asas do Desejo . Mas seu nome despertou a ira de boa parte da Europa: ele apoiou os sérvios e Slobodan Milosevic, e relativizou o massacre de Srebrenica, quando milhares de muçulmanos bósnios foram exterminados por forças sérvias, durante a Guerra da Bósnia nos anos 90. A Academia tem uma ...

Conto da semana, de Franz Kafka

Prova de que até meios insuficientes - infantis mesmo podem servir à salvação: Para se defender das sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e se fez amarrar ao mastro. Naturalmente - e desde sempre - todos os viajantes poderiam ter feito coisa semelhante, exceto aqueles a quem as sereias já atraíam à distância; mas era sabido no mundo inteiro que isso não podia ajudar em nada. O canto das sereias penetrava tudo e a paixão dos seduzidos teria rebentado mais que cadeias e mastro. Ulisses, porém, não pensou nisso, embora talvez tivesse ouvido coisas a esse respeito. Confiou plenamente no punhado de cera e no molho de correntes e, com alegria inocente, foi ao encontro das sereias levando seus pequenos recursos. As sereias entretanto têm uma arma ainda mais terrível que o canto: o seu silêncio. Apesar de não ter acontecido isso, é imaginável que alguém tenha escapado ao seu canto; mas do seu silêncio certamente não. Contra o sentimento de ter vencido com as próprias forças ...

Conto da semana, de Thomas Bernhard

Sim, ele de novo. Thomas Bernhard (1931-1989), Borges, Gonçalo Tavares aparecem, e aparecerão, com frequência por aqui. Aqui, Sucesso estrondoso, na tradução de Sergio Tellaroli. Um assim chamado conjunto de música de câmara, famoso por tocar música antiga somente em instrumentos de época e também por um repertório que contempla apenas Rossini, Frescobaldi, Vivaldi e Pergolesi, apresentou-se num antigo castelo à beiro do lago Atter e experimentou nessa ocasião o maior sucesso de sua carreira. Os aplausos só cessaram quando, bis após bis, já não lhes restava repertório a executar. Somente no dia seguinte revelaram aos músicos que eles haviam tocado numa instituição para surdos-mudos.

Conto da semana, Poseidon, de Kafka

Poseidon estava sentado à sua mesa de trabalho e fazia contas. A administração de todas contas. A administração de todas as águas dava-lhe um trabalho infinito. Poderia dispor de quantas forças auxiliares quisera, e com efeito, tinhas muitas, mas como tomava seu emprego muito a sério, verificava novamente todas as contas, e assim as forças auxiliares lhe serviam de pouco. Não se pode dizer que o trabalho lhe era agradável e na verdade o realizava unicamente porque lhe tinha sido imposto; tinha-se ocupado, sim, com frequência, em trabalhos mais alegres, como ele dizia, mas cada vez que se lhe faziam diferentes propostas, revelava-se sempre que, contudo, nada lhes agradava tanto como seu atual emprego. Além do mais era muito difícil encontrar uma outra tarefa para ele. Era impossível designar-lhe um determinado mar; prescindindo de que aqui o trabalho de cálculo não era menor em quantidade, porém em qualidade, o Grande Poseidon não podia ser designado para outro cargo que não compo...

Conto da semana, de Thomas Bernhard

No tribunal distrital de Wels, uma senhora com quarenta e oito condenações anteriores, que o juiz, logo na abertura deste seu mais recente julgamento, como relata o jornal local, caracterizou como ladra anciã e bem conhecida da justiça e cuja presente acusação se devia ao furto de um monóculo inteiramente inútil para ela, roubado havia pouco de uma falecida frequentadora da ópera, a qual já não conseguia andar fazia muitos anos, não ia mais à ópera e, por essa mesma razão, não apenas nunca mais utilizara o monóculo mas também o esquecera por completo, como se verificou ao longo do julgamento – essa senhora, pois, logrou ter sua pena de apenas três meses de prisão aumentada mediante um safanão que desferiu no juiz tão logo proferida a sentença. Esperava conseguir no mínimo nove meses de prisão, porque não suportava mais viver em liberdade, alegou ela Aumento.  Tradução de Sérgio Tellaroli. Integra O Imitador de Vozes, Companhia das Letras.

3 de julho é dia de Franz Kafka

3 de julho. Em 1883, nasceu Franz Kafka. O destino de Kafka foi transmudar as circunstâncias e as agonias em fábulas. Escreveu sórdidos pesadelos em um estilo límpido. Não em vão era leitor das Escrituras e devoto de Flaubert, de Goethe e de Swift. Era judeu, mas, que eu me lembre, a palavra 'judeu' não consta em sua obra. Ela é intemporal e talvez eterna (J. L. Borges, Biblioteca Pessoal). Seu O Processo deveria ser leitura obrigatória nas faculdades de Direito, ainda que eu ache que o impacto e o estranhamento causados num estudante inglês ou americano sejam maiores do que no brasileiro - e a culpa, obviamente, não é de Kafka. Mas muito do seu pesadelo burocrático é rotina por aqui. A melhor versão para o cinema é, disparado, esta, de Orson Welles, com o próprio, Anthony Perkins e Romy Schneider, de 1962: No final, o próprio Welles lê os nomes dos atores para terminar: Eu fiz o papel do advogado, escrevi e dirigi este filme. Meu nome é Orson Welles....

Três aforismos de Elias Canetti

Como narrador bondoso, adquiriu a confiança da humanidade dois meses antes de ela ir pelos ares. * Ele se considera profundo, pois apenas imita aqueles autores dos quais não resta mais nada senão frases incompletas. * Aquele tem um poeta na barriga, se ao menos o pudesse por na língua! Elias Canetti, Sobre os Escritores, tradução de Kristina Michahelles – José Olympio Editora.

Conto da semana, de Thomas Bernhard

Pisa e Veneza Os prefeitos de Pisa e Veneza tinham concordado em molestar os visitantes de suas cidades, que havia séculos se encantavam em igual medida tanto com Pisa como em Veneza, mandando transferir, em segredo e da noite para o dia, a torre de Pisa para Veneza e o campanário de Veneza para Pisa, instalando-os no novo local. Mas não conseguiram manter segredo de seu intento e, justamente na noite em que pretendiam mandar transportar a torre de Pisa para Veneza e o campanário de Veneza para Pisa, foram internados no manicômio: naturalmente, o prefeito de Pisa no manicômio de Pisa e o prefeito de Veneza no manicômio de Veneza. As autoridades italianas lograram tratar a questão dentro do mais absoluto sigilo. O conto está em O Imitador de Vozes, Companhia das Letras. Tradução: Sergio Tellaroli.

Pequena Fábula, de Kafka

Pequena Fábula, de um dos heróis da Biblioteca, na tradução de Modesto Carone. O desenho acima é do americano Peter Kuper, em Desista!, HQ baseada na obra de Kafka e publicada pela Editora Conrad: - Ah - disse o rato - o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro. - Você só precisa mudar de direção - disse o gato -e devorou-o.

Thomas Bernhard e o imitador de vozes

O conto da semana é de Thomas Bernhard, que integra o livro de mesmo título (Companhia das Letras, 2009, traduzido por Sergio Tellaroli): Convidado de ontem à noite da Sociedade Cirúrgica, o imitador de vozes, depois de se apresentar no Palais Pallavicini a convite da própria Sociedade Cirúrgica, já havia concordado em se juntar a nós na Kahlenberg para, sempre ali, na colina onde mantemos uma casa sempre aberta a todas as artes, apresentar seu número, naturalmente não sem o pagamento de cachê. Entusiasmados com o espetáculo a que tínhamos assistido no Palais Pallavicini, pedimos ao imitador de vozes, natural de Oxford, na Inglaterra, mas que freqüentou escola em Landshut e exerceu de início a profissão de armeiro em Berchtesgaden, que, na Kahlenberg, não se repetisse, mas apresentasse algo inteiramente diferente daquelas imitadas no Palais Pallavicini, o que ele prometeu fazer. E de fato o imitador de vozes imitou na Kahlenberg vozes inteiramente diferentes daquelas apresentadas ...