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Mostrando postagens com o rótulo Literatura: República Tcheca

A alfândega austríaca, de Jaroslav Hasek

Minha tradução de um conto de Jaroslav Hasek, a partir de The Bachura Scandal and other stories and sketches, na tradução para o inglês de Alan Menhennet.      Estava em Dresden e, um dia, perambulando pelos arredores da cidade, fui atropelado por um trem expresso. Fiquei tão retalhado que foi necessário um ano e meio para me juntarem novamente. Eu planejava retornar a Praga em quatro dias, mas fiquei em Dresden por mais de dezoito meses.     Estamos todos nas mãos de Deus, é claro, mas eu também estive nas mãos dos médicos.     Eu era uma figura medonha. Até hoje, não sei o quanto de mim é realmente meu. Tudo o que sei é que eu fui artificialmente reconstruído por dezoito médicos e cinquenta e dois assistentes. E que eles fizeram um excelente trabalho. Recebi um atestado detalhando minhas partes reconstituídas, de modo que eu me qualificaria para apoio como inválido, e esse atestado tinha quatorze páginas.   ...

Humildemente, caro leitor, comunico que Svejk chegou ao Brasil!

- Então eles mataram o nosso Ferdinand - disse a empregada ao senhor Svejk, que abandonara havia alguns anos o serviço militar por ter sido declarado definitivamente idiota por uma junta médica do exército e vivia da venda de cães, monstruosos vira-latas para os quais inventava falsas genealogias. Afora esta ocupação, sofria de reumatismo e, naquele exato momento, estava massageando os joelhos com uma pomada de cânfora. - De qual Ferdinand está falando, senhora Mullerová? - perguntou Svejk, sem parar de massagear os joelhos. - Eu conheço dois Ferdinands. Um é o criado do farmacêutico Prusa, aquele que bebeu certa vez, por engano, um frasco de brilhantina, e também conheço um tal de Ferdinand Kokoska, que recolhe cocô de cachorro. Não temos motivos para se lamentar por nenhum dos dois. - Meu caro senhor, estou me referindo ao arquiduque Ferdinand, o de Konopiste, aquele homem gordo e piedoso. Como antecipamos, chegou a edição brasileira. As ilustrações de Lada se res...

O Bom Soldado Svejk (IV)

O terceiro livro é o último concluído, já que o quarto tem cerca de oitenta páginas (os outros três, aproximadamente 200 cada). Logo no início, um trem carregado de entusiasmados soldados passa pela companhia de Svejk (a 91ª, a mesma na qual serviu o autor); um deles perde o equilíbrio, despenca do vagão e acaba empalado numa alavanca junto aos trilhos... Como diz Hasek, pessoas estúpidas precisam existir. Se todos fossem inteligentes haveria um excesso de bom senso no mundo, que acabaria enlouquecendo. A esta altura, já está evidente: do seu jeito, sendo ridicularizado e desprezado, Svejk demonstra toda sua rejeição ao império e ao imperador. Fica claro que não é o idiota que todos vêem. Do seu jeito, obedecendo automática e inquestionavelmente todas as ordens que recebe, Svejk inviabiliza o funcionamento do Exército. E mais uma série de episódios e situações desfilam pelas páginas - um cadete, Biegler, que literalmente se borra nas calças. Todos pensam se tratar de desint...

O Bom Soldado Svejk (III)

O segundo livro - No Front -, ao contrário do que o titulo pode indicar, não se passa propriamente na frente de batalha. O bom soldado bem que tentou, mas ficou preso na teia burocrática do império. Ele seguiu de Praga para um local de treinamento. Mas o trem acaba parando (o freio de emergência é acionado) e, enquanto sua participação é investigada, fica retido na estação.  O trem segue com seu regimento e, a partir daí, ele tentará chegar à companhia. Com os personagens loucos para escapar da guerra - só os austríacos estavam realmente empenhados - é claro que poucos realmente acreditam no objetivo de Svejk.  Diante das suas habituais respostas curtas e desconcertantes, é inicialmente tomado por um espião russo altamente qualificado, querendo chegar ao front para passar imediatamente suas preciosas informações ao inimigo.  Não há descrições sobre as batalhas; elas aparecem de forma indireta. Lá pelo meio deste segundo livro, o autor passa a ser mais explíci...

O Bom Soldado Svejk (II)

O pendant humorístico, genialmente humorístico, é o soldado Svejk, de Hasek: o soldado checo, anti-herói, forçado a servir no exército austríaco contra os irmãos eslavos, ilude os oficiais, fingindo-se de idiota; e como idiota pode dizer, com a cara mais ingênua, verdades subversivas, enquanto pagando a franqueza pela humilhação sem vergonha. É a epopéia picaresca da guerra e uma as grandes obras satíricas da literatura universal, muito lida mas ainda não bastante apreciada. Otto Maria Carpeaux, História da Literatura Ocidental, volume 4, pág. 2531 .

O Bom Soldado Svejk (I)

A sra. Müller e Joséf Svejk a caminho do quartel (Josef Lada) Um dos meus objetivos para 2014. Antecipo-me, pelo Kindle, à edição brasileira que deve sair este ano, pela Alfaguara. Vale a pena tê-lo "em analógico". Mais ainda se acompanhada das ilustrações de Josef Lada, amigo de Hasek. Jaroslav Hasek (1883-1923) não conseguiu concluir sua obra-prima (como Kafka, aliás, com quem é sempre comparado - um Kafka com humor e escrevendo em tcheco). Sua ideia era fazê-lo em seis livros. Morreu ditando o quarto. Azar o nosso. Trata-se de uma divertidíssima história sobre a Primeira Guerra do ponto de vista de um império decadente e que sabidamente seria derrotado, a partir de Joséf Svejk, na vida civil um negociante de cães roubados - vira-latas vendidos como de pedigree, graças às falsificações de suas "árvores genealógicas" - e que foi dispensado do exército por ser oficialmente declarado idiota. Alguns episódios que foram tratados pelo autor em seus contos (im...

Mendelssohn no telhado, de Jiri Weil

Até ler o romance HHhH, de Laurent Binet, o nome de Jiri Weil não me dizia nada.  Jiri Weil (1900-1959) Resolvi ler este Mendelssohn no telhado  por me lembrar não apenas de Binet, que estará na FLIP, mas também pelo recente 200º aniversário de nascimento de Richard Wagner. E, também, pelo fato de o autor ter sido praticamente redescoberto por Philip Roth. Wagner e Mendelssohn - ou melhor, suas estátuas - estão na gênese do enredo. O romance é ambientado na Praga ocupada - o Protetorado - comandada por Reinhard Heydrich, o HHhH de Binet. Para livrar a cidade - que, segundo os nazistas, sempre fora alemã, e que acidental e temporariamente havia sido ocupada pelos tchecos - dos símbolos judaicos, os invasores decidem arrancar a estátua do judeu Felix Mendelssohn, no telhado da Ópera de Praga. O membro da SS Julius Schlesinger é o encarregado para tanto mas, lá chegando, descobre que há uma infinidade de estátuas de outros compositores. Qual a de Mendelssohn? Qua...

O Pecado do Padre Ondrej, de Jaroslav Hasek (uma história para ler na faculdade de direito)

O conto da semana é novamente de Jaroslav Hasek. O padre Ondrej completava dezoito anos no Purgatório, sem saber o porquê. Seu caso ainda não havia transitado em julgado, e ele vivia perguntando aos Anjos a razão de sua permanência. Um dia, peticionou à Honorável Corte do Último Julgamento, que respondeu que o seu caso não estava previsto para os próximos anos... Anos se passaram. Um belo dia, recebeu uma intimação para comparecer ao Sagrado Senado. Lá chegando, ouviu uma voz: “Estamos estudando o Livro da sua vida. Tudo está bem, com exceção de uma página... Eu te pergunto: você tem um irmão na Austrália?” “Sim”, respondeu. O Senado insistiu, com a solenidade peculiar – você escreveu para ele?, ao que respondeu afirmativamente – para Sydney, em 1882. Então, foi dito que, de acordo com De Retractione vel Librorum Recensione, Santo Agostinho proclama que a crença nos antípodas é uma heresia; como a Austrália é parte dos antípodas, acreditar na sua existência é heresia, ...

Conto da Semana – Jaroslav Hasek (uma história para ler na fila da alfândega...)

Jaroslav Hasek é um daqueles escritores que acompanharam os últimos anos da Áustria-Hungria de Francisco José. Nascido em 1883, em Praga, lutou por pouco tempo na I Guerra, sendo capturado pelos russos em 1915. Tornou-se comunista, viveu na Rússia revolucionária e morreu em 1923. Hasek é conhecido pelo romance O Bom Soldado Schweik, obra que não teve tempo de concluir. Até onde eu sei, não há edição de seus contos no Brasil. Gosto particularmente de um, A Alfândega Austríaca, publicado pela primeira vez em 1912. O narrador, viajando por Dresden, é atropelado por um trem. Estamos todos nas mãos de Deus, claro, mas eu estive também nas mãos dos médicos. Mais exatamente 18 médicos e 52 assistentes: desde esse dia, eu não sei o que exatamente é realmente meu (...) Recebi um certificado detalhando as partes do meu corpo que foram reconstituídas, de 14 páginas. Os únicos pedaços de mim foram uma parte do cérebro, uma parte do estomago, cerca de 15 quilos de minha carne e meio li...