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Conto da Semana – Jaroslav Hasek (uma história para ler na fila da alfândega...)

Jaroslav Hasek é um daqueles escritores que acompanharam os últimos anos da Áustria-Hungria de Francisco José. Nascido em 1883, em Praga, lutou por pouco tempo na I Guerra, sendo capturado pelos russos em 1915. Tornou-se comunista, viveu na Rússia revolucionária e morreu em 1923.

Hasek é conhecido pelo romance O Bom Soldado Schweik, obra que não teve tempo de concluir. Até onde eu sei, não há edição de seus contos no Brasil. Gosto particularmente de um, A Alfândega Austríaca, publicado pela primeira vez em 1912.

O narrador, viajando por Dresden, é atropelado por um trem. Estamos todos nas mãos de Deus, claro, mas eu estive também nas mãos dos médicos. Mais exatamente 18 médicos e 52 assistentes: desde esse dia, eu não sei o que exatamente é realmente meu (...) Recebi um certificado detalhando as partes do meu corpo que foram reconstituídas, de 14 páginas.

Os únicos pedaços de mim foram uma parte do cérebro, uma parte do estomago, cerca de 15 quilos de minha carne e meio litro de meu próprio sangue (...) eu era um verdadeiro triunfo da ciência médica.

Todas as demais partes do seu corpo eram “de outras fontes”. Depois de visitar o cemitério, onde se despediu de seus antigos pedaços, tentou voltar para casa (Praga), não sem antes observar que “levava mais de sua visita a Dresden que qualquer outro turista”.

O problema inesperado foi passar pelos agentes da fronteira austríaca. O Inspetor-chefe da alfândega dos Habsburgos, realmente impressionado com o certificado médico, vê uma série de óbices no Código Aduaneiro para o seu ingresso no país: a placa de prata que substituiu a parte traseira do seu crânio, por exemplo – a prata estava sem a marca de autenticidade (12 coroas de multa); 120 gramas representavam, ainda, a aplicação do triplo da multa. O fêmur havia sido substituído pelo osso de cavalo (importação de osso não declarado, o que significou mais uma multa – o prejuízo para a indústria austríaca de ossos de animais era evidente. As costelas, substituídas por platina, geraram mais 1600 coroas de impostos.

Mas o problema definitivo foi a substituição dos rins pelos de porcos: Ora, meu caro senhor, a importação de porcos para a Áustria é proibida, o que se aplica também às partes do porco. Se você quer entrar na Boêmia, seu rim terá de permanecer na Alemanha.

E,  como não concordei com isso,  há dez anos estou, na Alemanha,  à espera da vitória do Partido Agrário (sou um agrarista) para permitir a importação de porcos pela Áustria. Então retornarei à minha terra natal.

Hasek tinha especial predileção por mostrar – e ironizar – a burocracia, em todos os seus setores (com especial “carinho” pela Justiça).  Serve como consolo quando estamos na interminável fila da alfândega e da imigração (aqui e em qualquer lugar).

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