terça-feira, 24 de maio de 2011

Caim, de José Saramago



“Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria”.

E assim começa o romance de Saramago, saído por aqui em 2009 mas que só agora li. Também não li O Evangelho Segundo Jesus Cristo, onde ele se encarrega de criticar a Igreja Católica e que foi muito lembrado e comparado a Caim. Recentemente, li A Viagem do Elefante.

Saramago era ateu e comunista, e nutria pouca simpatia pelo povo do Antigo Testamento (Como sempre tem sucedido, à mínima derrota os judeus perdem a vontade de lutar). Sobra para todos, desde Abraão (...fora isso não compreendo como irão ser abençoados todos os povos do mundo só porque Abraão obedeceu a uma ordem estúpida... p. 56) ao próprio Deus (“Antigamente o senhor aparecia à gente em pessoa, por assim dizer em carne e osso, via-se que sentia mesmo certa satisfação em exibir-se ao mundo, que o digam adão e eva ... Agora, o senhor esconde-se ... p. 76) ou então: Naquela época as maldições eram autênticas obras-primas literárias, tanto pela força da intenção como pela expressão formal em que se condensavam (p. 78).

Para Caim, a culpa de tudo é de Deus – afinal, ele poderia mas não impediu a morte de Abel. E, assim, Caim é poupado pelo Criador. A partir daí, inicia uma viagem pelo tempo, e Saramago revisa praticamente todo o Antigo Testamento: presencia a destruição da torre de Babel, Moisés, Sodoma, o Dilúvio... sempre deixando sua marca, interferindo nos acontecimentos e deixando descendentes. No final, um confronto entre Caim e o senhor:

Caim és, e malvado, infame matador do teu próprio irmão, Não tão malvado e infame como tu, lembra-te das crianças de Sodoma. Houve um grande silêncio. Depois caim disse, Agora já podes matar-me, Não posso, palavra de deus não volta atrás, morrerás da tua natural morte na terra abandonada e as aves de rapina virão devorar-te a carne, Sim, depois de tu primeiro me haveres devorado o espírito. A resposta de deus não chegou a ser ouvida, também a fala seguinte de caim se perdeu, o mais natural é que tenham argumentado um contra o outro uma vez e muitas, a única coisa que se sabe de ciência certa é que continuaram a discutir e que a discutir estão ainda. A história acabou, não haverá mais nada a contar.

5 comentários:

  1. Creio que Saramago será um autor a ser esquecido no futuro próximo. Mas, independentemente da posição politica, é um bom escritor. O Ano da Morte de Ricardo Reis (será este o título correto?) pode ficar entre os grandes da literatura portuguesa. O Evangelho também vale a pena ser lido.

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  2. Oi,

    Recomendo outros dois livros de Saramago: 'Ensaio sobre a cegueira' e 'Todos os nomes'. Não sei se no Brasil os títulos são iguais.

    Excelente blog!

    Haruki Murakami

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  3. Respostas
    1. Obrigado pela visita, Miguel, e parabéns pelo seu blog. Os livros do Saramago têm o mesmo título do lado de cá (e a mesma grafia; era uma exigência do autor que todas as edições brasileiras destacam). Grande abraço!

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