sábado, 19 de dezembro de 2015

Alberto Manguel, diretor da Biblioteca Nacional

Atualmente em Nova York, onde está lecionando um semestre em Princeton e em Columbia sobre Borges (2016 é o 30º ano de sua morte), Alberto Manguel é o novo diretor da Biblioteca Nacional argentina. Borges esteve à frente da instituição de 1955 a 1973.



2015

A esta altura, já dá para entrar na onda das intermináveis listas de fim de ano.

Ano dedicado principalmente aos clássicos - o segundo volume da Comédia Humana de Balzac e o Purgatório e o Paraíso de Dante. E descobri que, quando se escreve (ficção) não se consegue ler tanto. Difícil é saber se vale a pena... Mas, em resumo, os destaques do ano:


Ficção: Amos Oz (Judas) e Gospodinov (The Physics of Sorrow, ainda inédito no Brasil). E, com atraso de mais de década, o excelente Desonra do sul-africano Coetzee. Manuel Mira e o romance El olivo que no ardió en Salónica estão à espera de uma editora brasileira.

Brasil: Alberto Mussa e a história do Rio em A primeira história do mundo. Também gostei do pesadelo imaginado por Miguel Sanches Neto - A segunda pátria.

Biografias: a do Philip Roth, escrita pela Claudia Pierpoint Roth (sem parentesco com o biografado).


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A lição, de Kristina Grozeva e Petar Valchanov


Um filme muito bom que você provavelmente não viu, mas que já está disponível - até! - na TV a cabo. Uma professora dura, esposa de um fracassado alcoólatra, mãe de uma menininha, filha de um pai que vive com uma mulher bem mais nova...

A rigorosa professora Nade trabalha numa escola tentando fazer com que seus desanimados e perdidos alunos aprendam inglês, e se mostra implacável com uma situação de furto em sala de aula. Mas ela é professora, ganha mal (acham que isso não acontece na Europa?) e faz bicos com traduções.

Uma sucessão de desgraças surge a partir daí, num filme que não tem qualquer preocupação com fotografia ou trilha sonora - e que talvez, por isso mesmo, passe uma incômoda sensação de realismo. Não há dramalhão, mas uma angustiante luta de uma mulher para salvar a própria casa das besteiras do marido irresponsável.

A questão, a partir daí, é: como fica a rígida professora, cheia de princípios, diante desse caos que a atinge? O desfecho da história é de certa forma surpreendente neste sentido.

O brasileiro vai se identificar com uma pessoa apanhada por uma burocracia atrasada, um poder público corrupto (o comissário de polícia trabalha para o agiota que a explora - e que propõe que Nade se prostitua para pagar sua dívida), funcionários de banco capazes de levar qualquer sujeito à beira da psicopatia e empresas que fecham de uma hora para outra deixando os funcionários à deriva.

A Bulgária é um dos países europeus mais desconhecidos dos brasileiros, apesar dos esforços expedicionários de Campos de Carvalho - bom, o pai da Dilma era búlgaro... - que ignoram sua literatura e seu cinema. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Woody Allen aos 80


Em 1º de dezembro de 1935, nasceu Allan Stewart Königsberg. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, Manhattan, A Era do Rádio, Todos dizem eu te amo, Match Point, Desconstruindo Harry, Meia-noite em Paris...

A falsa amante, de Balzac

As famílias ricas vivem atualmente entre o perigo de arruinar os filhos se os têm em grande número, e o de se extinguirem se se limitarem a um ou dois - singular resultado do Código Civil, que Napoleão não previu.

Balzac era conservador; hoje seria chamado de reacionário. No caso - o Código Napoleão acabou com os privilégios da primogenitura, resquício medieval capaz de preservar o poder e a riqueza da aristocracia. Não é a primeira vez que vemos sua repulsa ao novo regime de forma tão clara.

Oeuvres illustrées de Balzac. Ursule Mirouët. La Fausse maîtresse. Les Célibataires : Pierrette, Le Curé de Tours, Un ménage de garçon. L'Illustre Gaudissart. La Muse du département. La Paix du ménage. Une passion dans le désert. Physiologie du mariage. Autre étude de femme


Clementina du Rouvre é casada com o rico imigrante polonês Adam Mitgislas Laginski, que além de rico é incrivelmente feio - há duas espécies de poloneses, como há duas espécies de ingleses. Quando uma inglesa não é muito bela, é horrivelmente feia, e o conde Adão pertence à segunda categoria. 

Tadeu Paz é o amigo também polonês de Adam, a quem deve favores e evita qualquer envolvimento com a assanhada Clementina. A ponto de inventar uma "amante", uma atriz de circo, Málaga (mania de colocar Espanha ou Itália como ambientes selvagens). Passa a financiar Málaga para dar credibilidade ao seu intento. Clementina se sente extremamente ofendida por ser desprezada em detrimento a um ser tão, digamos, inferior - ser este que, por outro lado, não entende exatamente o que está acontecendo, uma vez que Tadeu não tem, de fato, nenhum interesse nela.

Tadeu escreve para Clementina dizendo partir para a Rússia, e lhe revela toda a verdade - ele sempre esteve de olho na mulher do amigo. Clementina descobre então que toda a história da amante era falsa - e nós ficamos sabendo que Tadeu sempre esteve em Paris - Condessa, ir ao Cáucaso para me fazer matar e levar comigo seu desprezo, é demasiado - escreve-lhe na carta.

Paulo Rónai fala, na introdução ao conto, que a figura de Tadeu se baseou no conde Tadeu Wylezynski, primo de Eveline Hanska e que, por não poder se casar com ela, "tê-la-ia adorado à distância silenciosamente, não só depois de casada, como também após o começo do idílio com Balzac". Mas como personagem, Tadeu é por demais virtuoso para um leitor do século XXI...



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Ian McEwan sem utopia




 O sr. viveu muito próximo da ameaça do fanatismo religioso quando foi decretada a fatwa contra seu amigo Salman Rushdie (foi condenado à morte pelo aiatolá iraniano Ruhollah Khomeini), a quem o sr. escondeu durante um tempo em uma casa de Cotswolds. Foi o momento em que o Ocidente se deu conta de que o século XXI não estaria livre dessas ameaças?
R. Nos anos oitenta, para muitos de nós que moramos na Europa pós-cristã, a religião nunca entrava na conversa. Era algo que a gente fazia há 150 anos, antes de Darwin. Mas o que aconteceu com Salman, primeiro, e sobretudo o que veio depois com o 11 de setembro, nos colocou frente a frente com o poder da fé religiosa.
P. O que o sr. pensa quando lê sobre as meninas londrinas que fogem de casa para se unir à jihad?
R. É um mistério total. Uma das noções mais destrutivas da história do pensamento humano é a utopia. A ideia de que é possível formar uma sociedade perfeita, seja nesta vida ou em outra posterior, é muito destrutiva. Porque a consequência é que não importa se você matou um milhão de pessoas no caminho: o objetivo é a perfeição e isso desculpa qualquer crime. É uma fantasia que teve seus equivalentes seculares, no comunismo soviético, por exemplo, e também com os nazistas. A ideia da redenção, uma ideia milenar, sempre exige inimigos.
O restante da entrevista, em português, no El País.

sábado, 21 de novembro de 2015

Fetichismo literário

Pratico o fetichismo literário: adoro visitar as casas, túmulos, bibliotecas dos escritores que admiro, e se além disso pudesse colecionar suas vértebras, como fazem os crentes com os santos, o faria com muito gosto. (Eu lembro que, em Moscou, fui o único, no grupo de convidados, a fazer sem me desesperar a infinita peregrinação tolstoiana, o ínico a farejar com prazer desdde as babuchas e samovares até a última pena de ganso.

Vargas Llosa, A orgia perpétua. Alfaguara.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

70 anos de Nuremberg


O filme é de 1961, mas os julgamentos de Nuremberg tiveram início em 20 de novembro de 1945. 

Key hearings: The Nuremberg trials were a defining moment in international justice that saw the 21 defendants accused of acts such as crimes against peace and humanity, and abuse and murder of prisoners

Churchill era contra - por ele, fuzilava todos em questão de minutos. 

Expôs sua opinião em Yalta, mas Roosevelt achava importante para os americanos levar os criminosos à justiça; Stalin via nos julgamentos uma excelente forma de propaganda do regime.

Para Churchill, era um sinal imperdoável de hipocrisia.

Foi o que revelaram os diários de Guy Liddell, diretor de contra-espionagem do MI5 - que vieram a público em 2012.


Talks: Winston Churchill (left) was said to have been swayed against the idea for summary executions at the Yalta 'Big Three' conference in 1945 by US president Franklin D Roosevelt (centre) and Joseph Stalin (right)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Estudo de mulher, de Balzac



Os principais personagens de toda Comédia estão neste curtíssimo texto: Eugène de Rastignac, que será de fundamental importância em O pai Goriot e o famoso médico, o doutor Horace Bianchon, seu narrador. Até aqui, o primeiro narrador personagem de Balzac. A "ideia" (mais que propriamente um enredo) central - um jovem comete uma grosseria, e tenta se desculpar do ato.

Rastignac escreve uma carta à sua amante, a Sra. de Nucingen (filha de Goriot). Todos sabem dessa ligação - no Baile de Sceaux, já se comentava com bastante ironia... Mas a carta acaba nas mãos da sra. de Listomère, que se faz de surpresa - mas está achando tudo muito bom. Mas leva um balde de água fria:

- Senhor, o silêncio será de sua parte a melhor das escusas. Quanto a mim, prometo-lhe o mais absoluto esquecimento, perdão de que é pouco merecedor.

- Minha senhora - disse Eugênio com vivacidade -, o perdão é inútil quando não há ofensa. A carta - acrescentou em voz baixa - que a senhora recebeu, e que deve ter achado bastante inconveniente, não lhe era destinada.

Eugène é um tapado, e somente irá descobrir a grande besteira.

Eis os erros que cometemos aos vinte e cinco anos. Essa confidência causou uma violenta comoção na sra. de Listomère, mas Eugênio ainda não sabia analisar um rosto de mulher ao olhá-lo apressadamente ou de viés.

Mas ao longo da Comédia, ainda encontraremos Eugène de Rastignac em ocasiões mais favoráveis...

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A sra. Firmiani, de Balzac

Não se sabe exatamente o que Balzac queria com esse A sra. Firmiani. Para Rónai, "um romance não acabado, talvez nem começado". A ação de Otávio de Camps, influenciado pela sra. Firmiani nos é relatada; ficamos sabendo do desfecho, mas isso é o que menos importa.

Balzac descreve uns tipos por aí que, descobrimos, estão entre nós até hoje:

O Observador - fala como um profeta. Temos de aceitar suas palavras, suas anedotas, suas citações como verdade, sob pena de passarmos por um homem sem instrução e sem meios. 

O Contraditor - essa espécie de gente faz a errata de todas as memórias, retifica todos os fatos, aposta sempre cem contra um, tem certeza de tudo.

Os Plantadores - gente habituada a se dar conta de tudo e a fazer negócios como os camponeses.

Tudo isso na rue du Bac, onde a sra. Firmiani tinha seu palacete. Hoje:

Rue du Bac, Paris

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Sergio Augusto e os 100 anos da Metamorfose

Antes de submeter A Metamorfose à apreciação de uma revista editada por Robert Musil, Kafka a leu para um grupo de amigos. Todos riram à beça. Como não rir de uma insólita tragicomédia como a vivida por Gregor Samsa?

Como sempre, um texto imperdível de Sergio Augusto, sobre o centenário da Metamorfose, de Kafka, que pode ser lido aqui. Um dos meus favoritos.

Sergio Augusto lembra do desprezo que a esquerda lhe conferiu - satanizado na Rússia e no leste europeu, sem espaço numa sociedade na construção do socialismo...

Mas ainda prefiro O Processo.



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sábado, 7 de novembro de 2015

A paz conjugal, de Balzac

Image illustrative de l'article La Paix du ménage


A aventura narrada nesta cena passou-se em fins de novembro de 1809, momento em que o fugaz império de Napoleão atingia o apogeu de seu esplendor. As fanfarras da vitória de Wagram ecoavam ainda no coração da monarquia austríaca.

Não se engane. Balzac não deixa isso passar em vão:

Naquele tempo os corações eram nômades como os regimentos. De um primeiro a um quinto boletim do Grande Exército, uma mulher podia ser sucessivamente amante, esposa, mãe e viúva. Seria a perspectiva de uma viuvez próxima, de uma dotação ou a esperança de usar um nome destinado à história que tornaram os militares tão sedutores para as mulheres?

Neste pequeno texto, Balzac nos coloca dentro de um dos grandes bailes do Império e nos apresenta ao conde de Soulanges, cortejando (oh, adorável século XIX) a Mme. Vaudremont que, por sua vez, parece mais afeiçoada a Marcial. Este, por sua vez, não tira os olhos de uma desconhecida mulher de azul. Aposta com o coronel Montcornet que conseguiria tirar a enigmática dama para dançar. 

Seu êxito, no entanto, traz algumas consequências: a mulher pede-lhe o anel que o coronel trazia em seu dedo, no que foi atendida. Mas quem é a mulher?

- Marcial - disse severamente a condessa - é a sra. de Soulanges, e seu marido lhe faria saltar os miolos, se é que o senhor ainda os tem.

A mulher é a condessa de Soulanges - seu marido roubara-lhe aquela mesma joia e a entregou à Mme. Vaudremont - que o deu a Marcial. A Marcial a mulher responde - os diamantes me pertencem! para o espanto do já desolado par.

Por trás de tudo e todos, a ardilosa Mme. de Lansac.

Ao encontrar o marido, a condessa de Soulanges - que descobrimos chamar-se Hortênsia - comenta o fato de haver achado o diamante, "que tu me dizias perdido"... 

Não acredito que Nelson Rodrigues não tenha lido esta A paz conjugal.

Um dos menores - e certamente dos melhores - trabalhos de Balzac até agora, já ao final do segundo volume da edição organizada pelo Paulo Rónai.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Novo livro de Padura

Daniel Kaminsky levaria vários anos para se habituar ao barulho esfuziante de uma cidade que se levantava sob a mais indisfarçada algaravia. Havia descoberto logo que ali tudo se tratava e se resolvia aos gritos, tudo rangia por causa da ferrugem e da umidade, os carros avançavam entre as explosões e o ronco dos motores ou os longos bramidos das buzinas, os cães latiam com ou sem motivo e os galos cantavam até a meia-noite, enquanto cada vendedor anunciava sua presença com um apito, um sino, uma corneta, um assovio, uma matraca, uma flauta de bambu, uma quadrinhabem rimada ou um simples berro. Ele tinha encalhado numa cidade na qual, ainda por cima, toda noite, às nove em ponto, retumbava um canhonaço sem que houvesse guerra declarada nem muralhas para fechar, e onde sempre, sempre, em épocas de bonança e em momentos de aperto, alguém escutava música, e cantava

Aqui, trecho do novo romance de Leonardo Padura, Hereges, que acaba de ser lançado no Brasil.


sábado, 31 de outubro de 2015

Mencken






ISTO E AQUILO

O principal conhecimento que se adquire lendo livros é o de que poucos livros merecem ser lidos.


O cínico é aquele que, ao sentir cheiro de flores, olha em torno à procura de um caixão.



Nunca superestime a decência da espécie humana.



A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável. 



Pode ser um pecado pensar mal dos outros, mas raramente será um engano. 



É difícil acreditar que um homem esteja dizendo a verdade quando você sabe muito bem que mentiria se estivesse no lugar dele. 



Quanto mais envelheço, mais desconfio da velha máxima de que a idade traz a sabedoria. 



Pelo menos numa coisa homens e mulheres concordam: nenhum deles confia em mulheres. 



De fato, é melhor dar do que receber. Por exemplo: presentes de casamento.



Finalmente passou a ser legal que uma mulher católica recorra à matemática para evitar a gravidez, mas continua sendo-lhe proibido recorrer à física ou à química.

Livro dos Insultos

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

As torradas de Proust

O manuscrito de Proust

E as madeleines seriam, afinal, torradas. 

O primeiro dos cadernos, Le manuscrit du pain grillé (“o manuscrito do pão torrado”, em tradução livre), contém a primeira de todas as versões do “episódio da madalena”, datada de 1908 – é a versão da torrada com mel. No segundo caderno, Proust recomeça, dessa vez com um biscotte. No terceiro, intitulado Le manuscrit des Petites Madeleines (“o manuscrito das pequenas madalenas” junta duas vozes: a de Proust e a do seu copista, num diálogo sobre o trabalho da escrita.
"Estes três cadernos inéditos permitem voltar à genealogía literária do momento mais emblemático do universo proustiano", diz a editora em comunicado. No seu site, as Éditons des Saint-Pères explicam também o seu “amor pelos manuscritos, os objectos raros e preciosos” da literatura: “Enquanto o digital avança, nós dedicamo-nos a restaurar a magia da escrita enquanto veículo de um acesso mais intimo e comovente à obra e ao seu autor.”

É o que revela a matéria publicada no Público aqui.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Frick Collection, NY, 2015

© The Frick Collection

Cresci em Nova York, que tem mais Vermeers (oito) do que qualquer outra cidade no mundo. Do que qualquer país (há apenas sete na Holanda). Eu nunca vivi numa cidade sem um Vermeer.

É assim que termina o poema Why I love Vermeer, do americano Lloyd Schwartz. E, assim sendo, seu museu favorito em NY é a Frick Collection, na 5ª Avenida com 70, que possui em seu acervo três Vermeers.


Considerado um dos melhores museus pequenos do mundo, a Frick vale a visita mas, como ocorre na Morgan Library, passa despercebida e esnobada pela turba de turistas. Melhor assim. Além de Vermeer, encontramos Rembrandt, Van Dycks, Goyas. Há uma sala para Fragonard. Os italianos da Renascença, como Giovanni Bellini, são aquisições de sua filha (ele não gostava). Frick apreciava também os ingleses Turner e Constable.



Henry Clay Frick (1849-1919) não era um sujeito fácil. Foi considerado o homem mais odiado da América, devido ao seu notório antissindicalismo e sua participação na repressão a diversas greves (resultando em 10 mortes em 1892). Foi o episódio da aciaria de Carnegie, na cidade de Homestead. Frick era o gerente de sua fábrica. John Micklethwaith e Adrian Wooldridge contam a história em Companhia: breve história de uma idéia revolucionária.

Andrew Carnegie reduziu os salários dos seus empregados, o que, obviamente, resultou em greve. Frick construiu um muro em torno da usina, com arame farpado, holofotes móveis e fendas para 200 rifles. Contratou 30o homens da agência Pinkerton de detetives - que se renderam em uma batalha que já havia resultado em 16 mortes. Mas o governador mandou 8 mil soldados; Frick infiltrou entre os fura-greve negros, rejeitados pelos sindicatos, e a greve foi esmagada.

Mas Frick gostava mesmo era de Vermeer.



quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Dante

A obra de Dante tem uma profundidade estética e intelectual que permite encontrar quase qualquer coisa que se possa procurar nela. Também tem uma espécie de perfeição artística, que é algo milagroso. Numa perspectiva intelectual isso pode explicar-se pela grande inteligência e pela grande capacidade de Dante para assimilar os conhecimentos da sua época e os transformar em poesia, encontrando vínculos entre os diferentes temas que aborda. Mas a beleza da Divina Comédia não se pode explicar por razões intelectuais ou técnicas. Tem algo de música, tem algo visual, tem uma beleza conceptual também. Todos esses elementos juntos são, cada um, extraordinários, mas tampouco chegam para explicar o conjunto tão extraordinário da obra. É a obra mais milagrosa da literatura universal.

(Alberto Manguel em entrevista ao Público - Ipsilon - aqui.)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Morgan Library, NY, 2015




Finalmente consegui conhecer a incrível The Morgan Library, em Nova York (Madison com 36), sem dúvida uma das mais bonitas e instigantes que existem. 

De quebra, conseguimos ver o último dia da exposição comemorativa dos 150 anos da edição de Alice no País das Maravilhas - não se esqueçam: Monteiro Lobato foi o primeiro a traduzi-la para o Brasil - e outra, sobre Ernest Hemingway entre guerras. 

E a Morgan é, além de tudo, uma demonstração da combinação de uma arquitetura do século XIX e do início do XX (o prédio da biblioteca é de 1902-1906) com o que de mais moderno existe em arquitetura - o anexo é assinado por Renzo Piano.

Piano foi contratado em 2000 para criar um espaço que integrasse a residência do banqueiro Pierpont Morgan (do séc. XIX), a biblioteca e um anexo, criado nos anos 20, com o crescimento da coleção. O resultado é este aqui:




O espaço se tornou público a partir de 1924, e é ponto de romaria para qualquer bibliófilo.

Nas prateleiras, obras completas de Dickens, Balzac, entre outros. 

Para melhorar, ainda é praticamente intocada pela turba de turistas que assola a cidade, o que permite uma visita tranquila e, eventualmente, uma conversa com o pessoal que trabalha por lá - o que nos rendeu algumas histórias, como a passagem secreta que Morgan usava para subir pelos três andares de seu salão principal. Isso torna a visita interessante até para quem, em princípio, torceria o nariz para a idéia de conhecer uma biblioteca.


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Um texto de Svetlana Alexievich

O site (fundamental) Words Without Borders publicou em abril de 2005 The wondrous deer of the eternal hunt (em inglês), sobre a viúva de um sobrevivente de um campo de trabalho stalinista.


Inédita nessas bandas, provavelmente não por muito tempo. O fim do homem soviético foi publicado este ano pela editora Porto, de Portugal.

Não a conheço. Mas fiquei curioso. Abstraindo as injustiças com Roth e, em menor escala, outros ficcionistas, é interessante conhecer novos nomes (para nosso universo paralelo no Brasil). Além disso, há jornalismo e jornalismo, e muitos mereceriam o prêmio - Mencken, John Reed, John Hershey e companhia. Será o caso?


quarta-feira, 7 de outubro de 2015

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

A literatura europeia do século XX



Basicamente, é isso.

(Trampantojo, por Max. El País do dia 2/10)

Uma dupla família, de Balzac


Image illustrative de l'article Une double famille
Neste Uma dupla família Balzac usa o que hoje chamamos de flashbacks: a narrativa se inicia com o rico Roger e a jovem operária Carolina Crochard. Terão dois filhos. Na segunda parte, M. de Ganville, advogado promissor, convidado para o tribunal (desde o século 19 parece melhor ser um "magistrado do ministério público" do que um simples advogado), casa-se, por interesse, com a jovem e bela Angélica Bontemps.  E logo percebemos que estamos o tempo todo a falar de Roger Granville - a tal dupla família do título. 

Angélica mostra-se fria, austera, uma verdadeira beata, o que torna a vida de Roger insuportável:

Uma manhã, o pobre Granville notou, com tristeza e dor, todos os sintomas da carolice em sua casa. Encontram-se pelo mundo certas sociedades nas quais existem os mesmos efeitos  sem que sejam produzidos pelas mesmas causas. O tédio traça em torno dessas casas infelizes um círculo de ferro que encerra o horror do deserto e o infinito do vácuo. Um lar não é então um túmulo, mas coisa pior, um convento.

Ele irá se dedicar a Carolina, que se tornará mãe de seus filhos e o fará um homem feliz.
A família é o grande tema da época e, por isso mesmo, Balzac, no início do século XIX, não pode deixar essa família clandestina terminar bem.

Em 1822, o padre Fontanon conta a Angélica que Roger possui uma segunda família e a esposa oficial consegue flagrar o casal; em 1833, Roger conta a Horácio Bianchon que Carolina o trocou por Solvet - e se perdeu, indo à ruína financeira e moral - seu filho Carlos Crochard é preso por roubo - e tentou se safar alegando ser o filho de Granville.

Somos efetivamente um país do início do século XIX. Faltam apenas 200 anos para chegarmos ao século XXI.

Muitos criticam a opção de Balzac por este final "moralista", mas deve-se dar um desconto à época.

Neste texto Balzac apresenta seus temas mais caros: a mãe manipuladora, a oposição entre os pobres e os ricos de Paris (e seus respectivos interesses), o dinheiro. Atenção a Horácio Bianchon: o médico estará presente em Pai Goriot e em inúmeros outros romances, como Ilusões Perdidas. O próprio Roger Ganville volta em O esplendor e as misérias das cortesãs, César Birotteau e Primo Pons.

E Balzac sempre tem uma palavra carinhosa para falar do meio jurídico:

O jovem de Granville deitou-se, pois, formulando mil projetos cada qual mais belo Poderosamente protegido pelo arquichanceler, pelo grande juiz e por seu tio materno, um dos redatores do Código, ia estrear-se num posto cobiçado, ante a primeira corte do Império, e via-se membro do ministério público, onde Napoleão costumava escolher os altos funcionários da sua política.

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Mencken e o Filósofo

O FILÓSOFO

Não há registro na história humana de um filósofo feliz: só existem nos contos da Carochinha. Na vida real, muitos cometeram suicídio; outros mandaram seus filhos porta afora e surraram suas mulheres. Não admira. Se você quiser descobrir como um filósofo se sente quando se empenha na prática de sua profissão, dê um pulo ao zoológico mais próximo e observe um chimpanzé na sua chatíssima e infindável tarefa de catar pulgas. Ambos - o filósofo e o chimpanzé - sofrem como o diabo, mas nenhum dos dois consegue ganhar.

O Livro dos Insultos

Elias na Corvus Review

Acaba de sair a edição da Corvus Review, com meu conto Elias. De Ruse, passando pelo Rio e chegando a Milwaukee.

O número 3 (Falls) pode ser lido aqui.




Já posso dizer que sou um autor traduzido...


A Vendetta, de Balzac

— Ah! Vocês não são mais corsos — exclamou Bartolomeu, numa manifestação de desespero. — Adeus. Em outros tempos eu os protegi — acrescentou em tom de censura. — Sem mim tua mãe não teria chegado a Marselha — disse ainda, dirigindo-se a Napoleão, que permanecia pensativo, o cotovelo apoiado sobre o pano da chaminé. 

— Em consciência, Bartolomeu — respondeu Bonaparte —, não te posso acobertar com minha proteção. Tornei-me o chefe de uma grande nação, sou o chefe da República e devo fazer cumprir as leis. 

— Ah!, ah! — fez Bartolomeu. 

— Mas posso fechar os olhos — continuou Bonaparte. — O preconceito da vendeta impedirá por muito tempo o reinado da lei na Córsega — acrescentou, falando consigo mesmo. — É preciso contudo destruí-lo a qualquer preço


A Comédia prossegue.  Em 1800, uma família de refugiados abandona a Córsega e chega a Paris. Bartolomeo di Piombo, sua esposa e sua filha deixam para trás a violenta ilha -  as famílias Piombo e Porta se chacinam mutuamente: Bartolomeo perde um filho e mata uma criança Porta. 

Mas, em Paris, se apresenta a Napoleão ainda quando o futuro imperador era um dos cônsules, apenas quatro anos antes de se tornar Imperador. 

Não devemos nos esquecer que Balzac escreve um perfil de Napoleão apenas quinze anos depois do último desastre, que o levou para Santa Helena. Trata-se de um grande homem, sincero (e corso), que procura garantir a segurança de Bartolomeo e sua família na França, mas alerta o conterrâneo: aqui na França ninguém faz justiça pelas próprias mãos. Alerta-o que qualquer desrespeito a essa regra básica iria  custar-lhe a amizade e a proteção


(Furne, 1846)



Balzac deixa claro: Napoleão quer realmente acabar com o antigo sistema de castas e privilégios aristocráticos e nepotistas. Mas também está a um passo de capturar para si todo o poder e também ficar acima de tudo e de todos. Bartolomeo poderia ser um personagem raso ou apenas caricato, mas não é: suas virtudes e defeitos estão sob a lente do narrador. É um personagem fascinante: orgulhoso, inteligente, fiel e carinhoso, mas (do nosso ponto de vista) cruel e intransigente, preso à Córsega (que, como percebemos, é mencionada ao longo do texto, mas não é o palco da história), torna sua esposa uma prisioneira de suas vontades e convicções - aos leitores mais ativistas, vale lembrar que o romance data de 1830.

Há um salto temporal: estabelecida a família em Paris, passam-se quinze anos.

Napoleão está definitivamente derrotado. E, como em qualquer ligar do mundo, os bonapartistas são perseguidos e a aristocracia retoma seus postos e poder.

A filha de Bartolomeo - Ginevra - estuda no ateliê do mestre Servin (sempre há pintores na França da Comédia). A mais bela, talentosa - e a mais pobre. Lá, como hoje, isso é um problema quando se está no meio da alta sociedade. Nesta segunda parte da história, o protagonismo deixa Bartolomeo e chega à sua filha. 

Ginevra encontra um jovem, escondido no ateliê de Servin. Luigi esconde-se da onda aristocrata e da reação. O inevitável acontece: forma-se um casal... Mas Balzac não deixa a coisa morrer aí - o que tornaria A Vendetta uma novela descartável.

Há, claro, a história de amor - e nos lembramos imediatamente de Romeo e Julieta, uma história entre o amor pela família e o amor "pessoal". Mas a questão é outra, e Ginevra goza anos de felicidade impossível. E a tragédia não está na vendetta corsa, mas justamente na incapacidade em se abandonar seu propósito. O erro e a tragédia são resultado da desobediência ao conselho dado por Napoleão.

Como Balzac é um curso de Direito à parte, temos nesta novela os "atos respeitosos" - ato judiciário através do qual o filho maior intima os pais para obter o consentimento ao seu casamento, para que não o realize sem o consentimento deles.


terça-feira, 29 de setembro de 2015

Alberto Savarus, de Balzac



Albert Savarus é um advogado parisiense que acaba parando em Besançon. Balzac explica que "nenhuma cidade oferece resistência mais surda e muda ao progresso". E, pior: 

De Victor Hugo, de Nodier, de Fourier, as glórias da cidade, não se fala, ninguém lhes dá atenção.

Paulo Rónai avisa - Savarus é o próprio Balzac, "basta ler o retrato físico de Alberto, que, no decorrer da novela, aparece com todos os traços, idealizados, do romancista, vestindo-lhe até o famoso robe de chambre"; na novela de Savarus aparecem alguns personagens da Comédia

Uma das grandes famílias de Besançon é a dos Watteville. A mulher do barão é uma jararaca controladora; a filha é Rosália, que logo se apaixona pelo advogado. Aproveita-se do namoro entre os respectivos criados e passa a ler as cartas de Alberto para a Duquesa Argaiolo. Os dois têm um caso. 

Alberto escreve um conto - que nos é "recontado" por Balzac, O ambicioso por amor. Rosália escreve uma carta para a Duquesa, passando-se por Alberto, onde afirma que irá se casar com uma Watteville. Rosália é uma vilã de novela. A Duquesa casa-se com Duque de Rhétoré; Alberto vira monge...

Anos depois, resolve contar seu plano à duquesa; depois, sofre um acidente: o vapor explode e ela perde o braço direito e a perna esquerda; seu rosto apresenta horríveis cicatrizes que a privaram de sua beleza; sua saúde, sujeita a terríveis perturbações, deixa-lhe poucos dias sem sofrimentos. Enfim, ela, hoje, não sai mais da Chartreuse dos Rouxey, onde leva uma vida inteiramente devotada às práticas religiosas.

Final melodramaticamente forçado; esse Alberto Savarus é para aqueles que se dispõem a conhecer a Comédia em sua integralidade. Balzac não desenvolve o advogado Savarus a ponto d torná-lo interessante por este aspecto.




quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Circunferência em toda parte e centro em lugar nenhum


INTERNET: Um lugar que, como o Deus dos estudiosos medievais, tem sua circunferência em toda parte e seu centro em lugar nenhum. Como a lua de Ariosto, é um reino onde pode ser encontrado tudo o que esquecemos, e nos alivia da responsabilidade de lembrar de coisas por conta própria. Seus defensores esperam que, eventualmente, a internet vai aliviar-nos de pensar completamente.

(Alberto Manguel para seu Dicionário)

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

António Lobo Antunes ataca mais uma vez

Obrigado por receber-nos em sua casa aqui em Lisboa, a cidade de Pessoa.

Não sou admirador de Pessoa.

Como assim!?!? O Livro do Desassossego...!

O livro do não se o quê que me aborrece de morte. A poesia do heterônimo Álvaro de Campos é uma cópia de Walt Witman; a de Ricardo Reis, de Virgílio. Questiono-m se um homem que nunca fodeu pode ser um bom escritor.

Se você chegou até aqui e quiser ler a entrevista completa publicada na semana passada no El País, clique aqui.

Obs.: agradecendo a dica do leitor José Alexandre Ramos, segue o link para a entrevista em português,  aqui.





domingo, 20 de setembro de 2015

Mapa mundi

Martin Vargic is a 17-year-old artist from Slovakia who specialises in creating intricate maps drawn from modern data and pop culture.

O mundo literário, na visão de um artista, Martin Vargic, de 17 anos. Ele não esconde sua preferência pela prosa de ficção. A matéria completa, em inglês, aqui.

Vargic told BuzzFeed: “The Map of Literature is a graphical visualization of how the world's literature evolved from the ancient era to the present day.”

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Um golpe de mestre, de Reha Çamuroglu

 
Um golpe de sorte
Reha Çamuroglu
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Tradução de Marina Mariz
Sá Editora, São Paulo, 2011, 130p.
 
Sultão Vermelho - era com essas duas palavras que todos os adversários do sultão - gregos, armênios, árabes e os Jovens Turcos - o descreviam. Aos sussurros, eles falavam de seus porões de tortura, dos cadáveres que a maré trazia pela manhã e, com ódio, medo e às vezes com uma inveja que não conseguiam ocultar, eles se queixavam desse homem que comandava o império há trinta anos. Contudo, Anna tinha razão. Todos eles pertenciam à elite. Ou tinham bons negócios que arrecadavam muito dinheiro, ou eram filhos de paxás e nobres. Charles via e sentia claramente que as camadas populares amavam o Sultão Vermelho, enquanto a elite - inclusive nos círculos em torno do monarca - o odiava profundamente.
 
Em muitos casos, a literatura de um país se resume, para o público externo, a um grande nome. O Brasil mesmo, lá fora, foi reduzido a Jorge Amado e, nos últimos anos, suprema decadência, a Paulo Coelho. No caso da Turquia, nos últimos (muitos) anos domina o Nobel Orhan Pamuk.
 
Um golpe de mestre, de Reha Çamuroglu, publicado no Brasil pela Sá Editora, tenta quebrar essa situação (a editora já editou meia dúzia de novos autores turcos).
 
O enredo se situa na Constantinopla de 1905, sede do moribundo Império Otomano que não duraria mais vinte anos, sob o reinado do sultão Abdulhamid II, o Sultão Vermelho. Um anarquista belga, Charles Jorris, junta-se à resistência armênia para matar o Sultão. Sabe que a polícia está à sua cola, mas as coisas não são assim tão simples... A participação do próprio Sultão é decisiva para o desfecho da trama.
O jovem Sultão, em 1868
 
A História é pano de fundo para uma história de suspense policial, de leitura rápida, inspirada no poeta Tevfik Fikret. O atentado é real; ocorreu, efetivamente, patrocinado pela Federação Revolucionária Armênia, matando 26 pessoas - e sequer ferindo o Sultão que, apesar de extremamente hábil (ao menos no romance) não teve grande sobrevida: foi deposto em 1909 e foi o último a reinar com poderes absolutos.
 
Um livro interessante, mas não espere grandes detalhamentos históricos.
 
Ah, o poema de Tevfik Fikret está no final do livro:
 
Um baque... fumaça...toda uma multidão
Por uma mão, feroz, maligna, rancorosa
Como num festival, levada de roldão
Fazendo chover sangue, ossos, cabeças...
 
 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Uma estreia na vida, de Balzac

Oeuvres illustrées de Balzac. Le Médecin de campagne. Adieu. Le Curé de village. La Bourse. Les Chouans. Un drame au bord de la mer. Mémoires de deux jeunes mariées. La Maison du Chat-qui-pelote. Un début dans la vie. Maître Cornélius

Pouquíssimo lembrado, o curto romance Uma estreia na vida merece uma leitura mais cuidadosa. Oscar Husson é um homem comum, manso, sem pretensões, modesto e sempre se mantendo, como o seu governo, num justo meio. Não causa nem inveja nem desdém. É, enfim, o burguês moderno.

Oscar é detestável: pobre com vergonha da mãe, procura fazer carreira, mas tem uma inacreditável habilidade de falar e fazer besteira, que sempre coloca tudo a perder. 

Boa parte da narrativa se passa nos coucous, modalidade de transporte ainda explorada por particulares na França. Balzac, aliás, inicia seu romance falando que isso logo fará parte dos "velhos tempos":

As estradas de ferro, num futuro já agora não muito distante, deverão fazer desaparecer certas indústrias, modificar algumas outras, principalmente as que concernem aos vários modos do transporte em uso nos arredores de Paris. Também, breve, as pessoas e as coisas que forma os elementos desta cena lhe darão o mérito de um trabalho arqueológico.

Pierrotin é um dos transportadores. Faz a rota Paris - Val-d'Oise; o senador, conde de Sérisy, viaja incógnito, desconfiado de seu administrador Moreau. Nessa mesma diligência, Oscar, recomendado pela mãe a Moreau. E, para completar, dois outros viajantes. José Bridau aparece aqui mais uma vez - amigo íntimo de Hipólito Schinner (A bolsa) e e testemunha do casamento de Luísa de Chalieu com Maria-Gastão (Memórias de duas jovens esposas).

Ignorado, por que razão deveria Uma estreia na vida despertar o interesse em pleno século 21?

Em primeiro lugar, a insegurança, a vaidade e a mediocridade de Oscar: cai em desgraça não uma, mas duas vezes. E, além disso, a presença de personagens dúbios: Moreau dilapida seu patrão o conde, mas ajuda sinceramente a sra. Clapard e seu filho Oscar; Desroches, um grande advogado, é implacável com o mesmo Oscar. Como diz Rónai na apresentação, em cada um deles encontraremos essa incoerência orgânica que é a prova mais inequívoca da vida real.

Atenção com Desroches: assim como Oscar na vida, faz sua estréia na Comédia, onde irá aparecer em diversos momentos, como em Coronel Chabert. O mais astuto dos advogados parisienses. A vida nova vida de Oscar no escritório da rua de Béthisy, no antro da chicana,  é descrita por Cardot: 

ele jantará conosco e se alojará na pequena mansarda ao lado do seu quarto; o senhor lhe medirá o tempo necessário para ir daqui à Escola de Direito e de lá voltar, de modo que ele não perca cinco minutos; tratará de fazer com que ele aprenda o Código e se torne forte nas suas aulas, isto é, que quando tiver terminado seus trabalhos no escritório, o senhor lhe dará tratadistas para ler; finalmente, deve ele ficar sob sua imediata direção, e eu olharei por isso.

Oscar, diga-se, dedicava-se bastante aos estudos, lia o Código (o Civil, Napoleão), às vezes ia ao Palácio da Justiça e ajudava o terrível e implacável Godeschal.

Uma segunda ocorrência lhe fechará mais uma vez as portas do sucesso, e Oscar, depois de anos no Exército e até então uma quase nulidade social, acaba como coronel, agora um herói na Argélia.



sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A Dama Dourada (2015): Simon Curtis




A Dama Dourada provavelmente renderá a Helen Mirren mais uma indicação ao Oscar, no papel de Maria Altman, uma senhora judia que consegue escapar de Viena, deixando para trás a família durante o regime nazista.

Há duas questões principais - a história de Adèle Bloch-Hauer, sua tia, modelo de Klimt para seu quadro a dama dourada e do quadro, que foi levado da casa dos pais de Maria pelos nazistas; e a batalha judicial que ocorreu a partir de 1999.

Quanto à primeira, vem-me imediatamente o livro de Edmund de Waal, A Lebre com Olhos de Âmbar, que comentamos por aqui. Como no livro, o filme mostra de forma bem evidente que os austríacos não foram exatamente vítimas, mas ativos participantes do regime nazista. A história de Maria Altmann tem ainda um ingrediente especial: ocorreu no momento em que o então presidente da Áustria, Kurt Waldheim, eleito após uma passagem como secretário-geral da ONU, é reconhecido como capitão do Exército com passagem bastante ativa na então Iugoslávia. Nesse momento, houve uma discussão mais intensa na sociedade a respeito do real papel do país no nazismo.

Em outro livro, A irmã de Freud, de Goce Smilevski, Adolfina, uma das irmã de Sigmund, trava amizade com Klara, irmã de Gustav Klimt.

Os dois livros dão uma grande e ampla visão da sociedade austríaca dos anos 30/40. E, não se pode deixar de notar, como, nos anos 80/90 muitos austríacos foram francamente crueis com a velha judia que voltou depois de décadas para recuperar um quadro que vale uma fortuna.

Quanto à batalha jurídica, temos um jovem e medíocre (caminhando para o fracasso) advogado, neto de Schoenberg, que conhece Maria. Acaba de ser contratado por um grande escritório de advocacia.

A princípio cético com relação a qualquer possibilidade de reaver para sua cliente o quadro de Adéle, acaba se envolvendo com a causa (um advogado que não é vilão) e consegue um reconhecimento, pela Suprema Corte, da possibilidade de recorrer à Justiça dos EUA. 

Apesar disso, a palavra final é da mediação, em Viena. O papel do governo austríaco, sempre negando o fato de o quadro ter sido, literalmente, levado da casa dos Altmann, é vergonhoso. Para piorar, o quadro, nas palavras do personagem do ótimo Daniel Brühl (o único verdadeiro aliado da dupla em Viena), é a "Monalisa austríaca".


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