segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Uma dupla família, de Balzac


Image illustrative de l'article Une double famille
Neste Uma dupla família Balzac usa o que hoje chamamos de flashbacks: a narrativa se inicia com o rico Roger e a jovem operária Carolina Crochard. Terão dois filhos. Na segunda parte, M. de Ganville, advogado promissor, convidado para o tribunal (desde o século 19 parece melhor ser um "magistrado do ministério público" do que um simples advogado), casa-se, por interesse, com a jovem e bela Angélica Bontemps.  E logo percebemos que estamos o tempo todo a falar de Roger Granville - a tal dupla família do título. 

Angélica mostra-se fria, austera, uma verdadeira beata, o que torna a vida de Roger insuportável:

Uma manhã, o pobre Granville notou, com tristeza e dor, todos os sintomas da carolice em sua casa. Encontram-se pelo mundo certas sociedades nas quais existem os mesmos efeitos  sem que sejam produzidos pelas mesmas causas. O tédio traça em torno dessas casas infelizes um círculo de ferro que encerra o horror do deserto e o infinito do vácuo. Um lar não é então um túmulo, mas coisa pior, um convento.

Ele irá se dedicar a Carolina, que se tornará mãe de seus filhos e o fará um homem feliz.
A família é o grande tema da época e, por isso mesmo, Balzac, no início do século XIX, não pode deixar essa família clandestina terminar bem.

Em 1822, o padre Fontanon conta a Angélica que Roger possui uma segunda família e a esposa oficial consegue flagrar o casal; em 1833, Roger conta a Horácio Bianchon que Carolina o trocou por Solvet - e se perdeu, indo à ruína financeira e moral - seu filho Carlos Crochard é preso por roubo - e tentou se safar alegando ser o filho de Granville.

Somos efetivamente um país do início do século XIX. Faltam apenas 200 anos para chegarmos ao século XXI.

Muitos criticam a opção de Balzac por este final "moralista", mas deve-se dar um desconto à época.

Neste texto Balzac apresenta seus temas mais caros: a mãe manipuladora, a oposição entre os pobres e os ricos de Paris (e seus respectivos interesses), o dinheiro. Atenção a Horácio Bianchon: o médico estará presente em Pai Goriot e em inúmeros outros romances, como Ilusões Perdidas. O próprio Roger Ganville volta em O esplendor e as misérias das cortesãs, César Birotteau e Primo Pons.

E Balzac sempre tem uma palavra carinhosa para falar do meio jurídico:

O jovem de Granville deitou-se, pois, formulando mil projetos cada qual mais belo Poderosamente protegido pelo arquichanceler, pelo grande juiz e por seu tio materno, um dos redatores do Código, ia estrear-se num posto cobiçado, ante a primeira corte do Império, e via-se membro do ministério público, onde Napoleão costumava escolher os altos funcionários da sua política.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário