sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A Vendetta, de Balzac

— Ah! Vocês não são mais corsos — exclamou Bartolomeu, numa manifestação de desespero. — Adeus. Em outros tempos eu os protegi — acrescentou em tom de censura. — Sem mim tua mãe não teria chegado a Marselha — disse ainda, dirigindo-se a Napoleão, que permanecia pensativo, o cotovelo apoiado sobre o pano da chaminé. 

— Em consciência, Bartolomeu — respondeu Bonaparte —, não te posso acobertar com minha proteção. Tornei-me o chefe de uma grande nação, sou o chefe da República e devo fazer cumprir as leis. 

— Ah!, ah! — fez Bartolomeu. 

— Mas posso fechar os olhos — continuou Bonaparte. — O preconceito da vendeta impedirá por muito tempo o reinado da lei na Córsega — acrescentou, falando consigo mesmo. — É preciso contudo destruí-lo a qualquer preço


A Comédia prossegue.  Em 1800, uma família de refugiados abandona a Córsega e chega a Paris. Bartolomeo di Piombo, sua esposa e sua filha deixam para trás a violenta ilha -  as famílias Piombo e Porta se chacinam mutuamente: Bartolomeo perde um filho e mata uma criança Porta. 

Mas, em Paris, se apresenta a Napoleão ainda quando o futuro imperador era um dos cônsules, apenas quatro anos antes de se tornar Imperador. 

Não devemos nos esquecer que Balzac escreve um perfil de Napoleão apenas quinze anos depois do último desastre, que o levou para Santa Helena. Trata-se de um grande homem, sincero (e corso), que procura garantir a segurança de Bartolomeo e sua família na França, mas alerta o conterrâneo: aqui na França ninguém faz justiça pelas próprias mãos. Alerta-o que qualquer desrespeito a essa regra básica iria  custar-lhe a amizade e a proteção


(Furne, 1846)



Balzac deixa claro: Napoleão quer realmente acabar com o antigo sistema de castas e privilégios aristocráticos e nepotistas. Mas também está a um passo de capturar para si todo o poder e também ficar acima de tudo e de todos. Bartolomeo poderia ser um personagem raso ou apenas caricato, mas não é: suas virtudes e defeitos estão sob a lente do narrador. É um personagem fascinante: orgulhoso, inteligente, fiel e carinhoso, mas (do nosso ponto de vista) cruel e intransigente, preso à Córsega (que, como percebemos, é mencionada ao longo do texto, mas não é o palco da história), torna sua esposa uma prisioneira de suas vontades e convicções - aos leitores mais ativistas, vale lembrar que o romance data de 1830.

Há um salto temporal: estabelecida a família em Paris, passam-se quinze anos.

Napoleão está definitivamente derrotado. E, como em qualquer ligar do mundo, os bonapartistas são perseguidos e a aristocracia retoma seus postos e poder.

A filha de Bartolomeo - Ginevra - estuda no ateliê do mestre Servin (sempre há pintores na França da Comédia). A mais bela, talentosa - e a mais pobre. Lá, como hoje, isso é um problema quando se está no meio da alta sociedade. Nesta segunda parte da história, o protagonismo deixa Bartolomeo e chega à sua filha. 

Ginevra encontra um jovem, escondido no ateliê de Servin. Luigi esconde-se da onda aristocrata e da reação. O inevitável acontece: forma-se um casal... Mas Balzac não deixa a coisa morrer aí - o que tornaria A Vendetta uma novela descartável.

Há, claro, a história de amor - e nos lembramos imediatamente de Romeo e Julieta, uma história entre o amor pela família e o amor "pessoal". Mas a questão é outra, e Ginevra goza anos de felicidade impossível. E a tragédia não está na vendetta corsa, mas justamente na incapacidade em se abandonar seu propósito. O erro e a tragédia são resultado da desobediência ao conselho dado por Napoleão.

Como Balzac é um curso de Direito à parte, temos nesta novela os "atos respeitosos" - ato judiciário através do qual o filho maior intima os pais para obter o consentimento ao seu casamento, para que não o realize sem o consentimento deles.


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