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Mostrando postagens com o rótulo Jorge Luis Borges

Com Borges, de Alberto Manguel

Com Borges Alberto Manguel Traduzido por Priscila Catão Editora Âyiné, 2018 Abro caminho com os ombros no meio da multidão na Calle Florida, entro na recém-construída Galeria del Este, saio pelo outro lado e atravesso a Calle Maipú e, encostando-me na fachada de mármore vermelho do número 994, pressiono o botão do 6B. Entro no hall frio do prédio e subo os seis andares de escada. Toco a campainha e a empregada abre a porta, mas, antes que ela me deixe entrar, Borges sai de trás de uma cortina, com a postura bastante ereta, terno cinza abotoado, camisa branca e gravata amarela listrada levemente torta, arrastando-se um pouco ao se aproximar. Cego desde quando havia quase sessenta anos, ele se move hesitante mesmo num espaço que conhece tão bem quanto o seu. Estende a mão direita e me dá as boas-vindas com um aperto distraído e fraco. Não há mais formalidades. Ele se vira e me guia até a sala de estar, sentando-se ereto no sofá virado para a entrada. Eu me acomodo na poltro...

Borges, anarquista conservador

É como o próprio Borges se definiu, numa curiosa entrevista a um garoto que precisava fazer um trabalho escolar. A entrevista saiu na edição brasileira do El País. Um trecho: Como o senhor imagina o futuro da Argentina? Quero pensar que já terei morrido, mas acredito que vamos ladeira abaixo. Eu já não tenho esperança. Vocês são jovens, talvez tenham esperanças. Eu já não tenho nenhuma. Muitas declarações suas geram polêmica, e há quem acredite que o senhor procura justamente esse efeito... Claro que não! Quem pensa isso não me conhece em nada. Para terminar, o senhor gostaria de nos deixar algum conselho ou mensagem? Eu não soube administrar minha vida, então não posso dirigir a vida dos outros. Minha vida foi uma série de equívocos. Não posso dar conselhos. Ando um pouco à deriva. Quando penso no meu passado, sinto vergonha. Eu não transmito mensagens, os políticos transmitem mensagens.

Conto da semana - jogando xadrez

Um conto do escritor argentino radicado na Espanha, Andrés Neuman, que pode ser lido aqui no original, diretamente do site da revista chilena   Ojoseco. A Partida trata de um encontro entre amigos - Riquelme e o narrador - que há muito não se viam. Os dois se encontram para uma partida de xadrez - presença garantida em contos e romances... Para ficar na literatura argentina, lá vai Borges: I Regem no seu recanto os jogadores As lentas peças. Esse tabuleiro Demora-os toda a noite no severo Âmbito em que se odeiam duas cores. Dentro irradiam mágicos rigores As formas; torre homérica, ligeiro Cavalo, sagaz dama, rei postreiro, Bispo oblíquo e peões agressores. E quando os jogadores tiverem ido, Depois do tempo os ter já consumido, Decerto não terá cessado o rito. No Oriente incendiou-se esta guerra Cujo anfiteatro é hoje toda a terra. Como o outro, este jogo é infinito. II Tênue rei, torto bispo, encarniçada Dama, torre direta e peão ladino Sobre ...

Conto da semana, de Jorge Luis Borges

Há muito tempo não falamos dele. Neste "A Casa de Astérion", Borges traz a história do minotauro, na versão desconhecida do próprio. Do primeiro volume das Obras Completas, da Editora Globo. * Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, e talvez de loucura. Tais acusações (que castigarei no devido tempo) são irrisórias. É verdade que não saio de casa, mas também é verdade que as suas portas (cujo número é infinito) estão abertas dia e noite aos homens e também aos animais. Que entre quem quiser. Não encontrará aqui pompas femininas nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão. Por isso mesmo, encontrará uma casa como não há outra na face da terra. (Mentem os que declaram existir uma parecida no Egito.) Até meus detratores admitem que não há um só móvel na casa. Outra afirmação ridícula é que eu, Astérion, seja um prisioneiro. Repetirei que não há uma porta fechada, acrescentarei que não existe uma fechadura? Mesmo porque, nu...

O Livro

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões do seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação. (...) Fala-se do desaparecimento do livro. Creio que isto é impossível. Dir-se-á: que diferença pode haver entre um livro e um jornal ou um disco? A diferença é que um jornal é lido para ser esquecido; um disco é ouvido, também, para o esquecimento, é algo mecânico e, portanto, fútil. O livro é lido para ficar na memória. Jorge Luis Borges (quem mais?) - Obras Completas, volume IV, Editora Globo, 1999.

Conto da semana, de Jorge Luis Borges - Episódio do Inimigo

Voltamos a Borges. Este curto Episódio do Inimigo está no 2º volume das Obras Completas editadas pela Globo. É um bom método para se livrar de inimigos: Tantos anos fugindo e esperando e agora o inimigo estava na minha casa. Da janela o vi subir penosamente pelo áspero caminho do cerro. Ajudava-se com um bastão, com o torpe bastão em suas velhas mãos não podia ser uma arma, e sim um báculo. Custou-me perceber o que esperava: a batida fraca na porta. Fitei-o, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho interrompido e o tratado de Artemidoro sobre os gregos. Outro dia perdido, pensei. Tive de forcejar com a chave. Temi que o homem desmoronasse, mas deu alguns passos incertos, soltou o bastão, que não voltei a ver, e caiu em minha cama, rendido. Minha ansiedade o imaginara muitas vezes, mas só então notei que se parecia de modo quase fraternal, com o último retrato de Lincoln. Deviam ser quatro da tarde. Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse. - Pensamos que os anos pa...

Funes, o Memorioso, de Jorge Luis Borges

Há uns dois dias, saiu uma reportagem sobre pessoas com uma memória infalível. São os chamados “Googles humanos”, que possuem uma síndrome raríssima, chamada Memória Autobiográfica Altamente Superior (HSAM), e não se esquecem de quase nada do que lhes aconteceu na vida. Lembrei-me de um dos meus contos favoritos de Borges – Funes, o Memorioso – que integra Ficções (1944). No conto da semana, uma memória prodigiosa: Irineu Funes simplesmente se lembrava de tudo: Ouvi de repente a alta e zombeteira voz de Irineu. Essa voz falava em latim; essa voz (que vinha da treva) articulava com moroso deleite um discurso ou prece ou encantação. (...) Irineu começou por enumerar, em latim e espanhol, os casos de memória prodigiosa registrados pela Naturalis Historia : Ciro, rei dos persas, que sabia chamar pelo nome todos os soldados de seus exércitos; Mitridates Eupator, que administrava a justiça nos 22 idiomas de seu império; Simônides, inventor da mnemotécnica; Metrodoro,...

Jorge Luis Borges

O conto da semana é de Borges. Na verdade, assinado por George Loring Frost, e consta do livro Antologia da Literatura Fantástica, organizada por Borges, Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares. Mas não há referência alguma a Frost na literatura inglesa (ele teria nascido em Brentford, em 1887, e o conto, aparecido em seu livro Memorabilia , de 1923). Muitos adivinharam a brincadeira de Borges, e o tem como o autor do conto El creyente. Al caer de la tarde, dos desconocidos se encuentran en los oscuros corredores de una galería de cuadros. Con un ligero escalofrío, uno de ellos dijo: - Este lugar es siniestro. Usted cree en fantasmas? - Yo no - respondió el otro - Y usted? - Yo sí - dijo el primero y desapareció. Outros, no entanto, se referem ao conto como de autoria do inglês. O que você acha?