sábado, 20 de dezembro de 2014

2014

Ano difícil para manter a leitura em nível satisfatório. Mas lá vai:

Ficção: O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, A balada de Adam Henry, de Ian McEwan; a edição brasileira de As aventuras do bom soldado Svejk, de Jaroslav Hasek. No Brasil, gostei muito d'O Professor, de Cristóvão Tezza, ao mesmo tempo que admito algumas lacunas que deverão ser preenchidas em janeiro. E, ainda que no meio do Inferno, Dante é uma viagem inesquecível.

Não ficção: Barbara Reynolds e seu Dante. Também gostei muito do primeiro volume do Getúlio de Lira Netto.

Cinema: fico com O Grande Hotel Budapeste; O Físico decepcionou.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Ele está de volta, de Timur Vermes


Ele está de volta
Timur Vermes - tradução de Petê Rissatti
Intrínseca, 304p.


Eu me lembro do momento em que acordei, devia ser início da tarde. Ao abrir os olhos, vi o céu acima de mim. Estava azul, com poucas nuvens, clima ameno, e logo ficou claro que estava ameno demais para abril. Quase se podia dizer que estava quente. Parecia relativamente calmo, acima de mim não havia nenhuma aeronave inimiga, nem o estouro da artilharia, nenhum ataque nas proximidades, nenhuma sirene de alerta de ataque aéreo. Também observei que não havia chancelaria do Reich ou o bunker do Führer. Virei a cabeça e vi que eu estava deitado no chão de um terreno baldio, cercado pelas paredes de tijolos das casas vizinhas, que tinham sido parcialmente pichadas por pivetes; ver isso me deixou irritado no mesmo instante e decidi, espontaneamente, chamar Dönitz para uma conversa. A primeira coisa que pensei, meio sonolento, foi que Dönitz também devia estar em algum lugar por ali. Mas então, a disciplina e a lógica venceram e logo percebi a peculiaridade da situação: eu não costumava acampar a céu aberto.

Um livro estranho, esse do alemão Timur Vermes. O peço de capa, na Europa, é 19,33 euros.  Tudo uma grande provocação. Uma história narrada por um perturbado Adolf Hitler, que acorda num terreno baldio em Berlim. Procura por soldados nazistas e soviéticos, e logo percebe o que lhe aconteceu: está em 2011, num mundo completamente estranho (ainda bem).

Numa Alemanha que lhe é exótica, acaba confundido com um ator que imita Hitler - à perfeição, as pessoas reconhecem. Participa de um programa de televisão de um comediante turco... e, evidentemente, ninguém imagina que aquela figura é, de fato, o Führer. O sujeito se vê numa Alemanha coalhada de imigrantes muçulmanos - em determinado momento, sobra até para as "amantes brasileiras", quase um item de cesta básica alemã. É evidente que, ao longo da leitura, há diversos momentos hilários.

E esse parece ser, no fundo, o problema. Na história, é óbvio que ninguém sabe que Hitler é Hitler. Mas o leitor sabe. E percebe como as pessoas reagem ao vê-lo e ao ouvi-lo. Ele critica Merkel, a União Europeia; o Partido Verde é visto como uma agremiação perfeitamente compatível com o seu pensamento; os imigrantes foram uma grande sacada - ao invés de matá-los, escravizá-los ou deportá-los, os alemães agora os colocam para trabalhar em atividades periféricas com salários baixos - como ele nunca havia pensado nisso?

A crítica à Alemanha e à Europa modernas feita por Hitler causou grande desconforto e polêmica na Europa, onde o livro de Vermes foi recebido em meio a intensa polêmica. O "comediante Hitler" faz sucesso porque, no fundo, a pacata e civilizada plateia alemã está farta de tudo isso, e é presumível que a esquerda verde odeie autor e obra.

E é esse o ponto que torna o livro mais interessante: será que, hoje, a civilizada sociedade europeia estaria imune a outro Hitler? A resposta do livro é um sonoro não.

Mas o próprio livro é por vezes caricato demais - o pessoal da mídia só quer saber da audiência; os políticos, todos oportunistas. Não espere nada sutil. Por outro lado, hoje perdemos a capacidade de perceber um deboche desacompanhado de "kkk" ou "rsrsrs", e talvez se possa lê-lo como isso - um grande deboche das forças "progressistas" e "europeias".

Ao final, trata de como os alemães reagiram a um ataque físico sofrido pelo narrador:

Também fui apontado não só como combatente da violência, mas várias vezes um defensor dela (cristãos democratas, duas associações de atiradores e um fabricante de armas de fogo) e uma vez vítima da violência contra idosos (Partido da Família). Com especial diletantismo, se destacou uma ligação do Partido Pirata, que acreditou reconhecer no meu comportamento e, especialmente, na minha renúncia a um boletim de ocorrência, um protesto contra o policiamento e um especial distanciamento do Estado e, nessa lógica, eu tinha um "pensamento pirata" completo. 

Vermes é o roteirista da versão cinematográfica que está em andamento. 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

domingo, 7 de dezembro de 2014

A balada de Adam Henry, de Ian McEwan

Meu artigo sobre o livro, publicado ontem no caderno Pensar do jornal Estado de Minas. Para os assinantes, aqui.:


A balada de Ian McEwan

A Balada de Adam Henry
Ian McEwan/Tradução: Jorio Dauster
Companhia das Letras
200 páginas


Nas últimas décadas, quatro amigos passaram a ocupar um lugar de destaque na literatura britânica: Salman Rushdie, Martin Amis, Ian McEwan e Christopher Hitchens. O quarteto se tornou um trio quando, em 2011, Hitchens morreu de câncer no esôfago. Nenhum deles fugia de uma polêmica – aliás, é difícil encontrar, hoje, um grupo de escritores tão dispostos ao debate público. Essa amizade se mostrou sincera e poderosa quando, em 1989, o aiatolá Khomeini condenou Rushdie à morte pelos seus Versos Satânicos – uma amizade que aparece em seu recente Joseph Anton.

Um dos últimos livros de Hitchens foi Deus não é grande, onde critica a fé religiosa e defende a superioridade intelectual e moral do ateu. Reservou um capítulo para defender sua ideia da incompatibilidade da religião com a saúde, destacando a influência perversa exercida pela fé sobre políticas públicas. O livro foi dedicado ao seu grande amigo Ian, “cuja ficção mostra uma extraordinária habilidade em elucidar o divino sem nenhuma concessão ao sobrenatural. Ele sutilmente demonstrou que o natural é maravilhoso o suficiente para qualquer um”. E, para variar, despertou admiração rasgada de seus leitores fieis e ira incontida dos religiosos.

O romance de McEwan (1948), A balada de Adam Henry, que será lançado pela Companhia das Letras este mês, é, em certa medida, uma retribuição ao amigo. Mas, como bons polemistas, uma retribuição não significa uma adesão às cegas.

Fiona Maye é juíza da High Court e está às voltas com sua crise no casamento: beirando os sessenta, seu marido Jack, um belo dia, lhe diz que ambos se transformaram em “irmãos” e que, apesar de ainda amá-la, quer um novo pacto, que lhe permita saciar seu apetite sexual com mulheres mais jovens. Sente-se morto, e necessita de um grande caso.

Fiona consegue, apesar de tudo, tocar sua vida profissional. Juíza de família, é obrigada a decidir casos como o da comunidade haredi (judeus ultra-ortodoxos), que vê toda a vida dentro da prática religiosa. Como um estado laico, como o britânico, lida com a questão? Um membro da comunidade pode impedir sua filha de frequentar a escola? E o bem-estar da criança? O que é representa esse bem-estar? Resume-se a aspectos financeiros ou mesmo de conforto físico?

Ou ainda o caso dos irmãos xifópagos Mateus e Marcos (outra vez a religião!). O coração de Marcos sustentava os gêmeos; o cérebro de Mateus era malformado, incapaz de um desenvolvimento normal; seus pulmões, incapazes de funcionar corretamente. Não viveria mais de seis meses, e quando morresse, tragaria Marcos. O hospital foi à Justiça procurar uma autorização para separá-los, de modo a salvar Marcos e, deliberadamente, sacrificar Mateus. Mas isso seria aceitável? Separá-los mataria um dos irmãos; a inércia, ambos. Fiona desenvolveu a tese de que Mateus, que morreria de uma forma ou de outra, não tinha interesses, ao contrário do irmão. E recorreu a uma teoria do direito inglês, a chamada doutrina da necessidade – através da qual seria possível infringir uma lei criminal para impedir um mal maior. A decisão, contudo, não sairia barato para Fiona, que recebeu cartas ameaçadoras; o Arcebispo de Westminster defendeu a morte de ambos, para não interferir nos “desígnios de Deus”.

Mas vamos ao caso Adam Henry, filho de Kevin e Naomi: uma criança, para a lei. Adam tinha dezessete anos. Possui uma inteligência notável: é, a rigor, um adulto com pleno discernimento de sua real situação. A opção pelo título na tradução brasileira esconde o original – The Children Act, algo como A Lei da Criança. A questão – já vivida por juízes brasileiros: internado num hospital, sofrendo de leucemia, necessita urgentemente de transfusão de sangue para sobreviver. Mas ele, tal como seus pais, é Testemunha de Jeová, que proibe o procedimento.

Os jornais estão nervosos, prontos para a cobertura e aguardando a decisão de Fiona. Os sites já divulgaram fotos do jovem com seus pais. Somos apresentados aos advogados do hospital e da família, desenvolvendo suas teses. Fiona busca equilibrar interesses e ideias, razão e fé.

McEwan nos oferece um belo apanhado do sistema judiciário inglês, do sistema do common law, baseado em casos concretos e precedentes judiciais, e lida com grandes questões do direito deste início do século XXI. Um trabalho a ser dissecado nas nossas faculdades de direito, que andam histericamente presas à dogmática jurídica e a tecnicismos que nos fazem esquecer o que Lord Justice Ward, citado no livro, nos adverte: o dever do juiz é aplicar os relevantes princípios do direito ao caso que lhe é posto – um caso que é único.

Fiona (ou McEwan?) não se furta às perguntas e comentários que poderiam ter sido feitos por Hitchens: a proibição da transfusão pelas Testemunhas de Jeová, evidentemente, não estava no Gêneses, mas data de 1945 – o que você acha da ideia de o destino da vida de seu filho ser decidido por um comitê no Brooklyn? – indaga Fiona aos pais de Adam.

O que deve prevalecer? A vontade do paciente (menor, mas às portas da maioridade) e sua família? O direito à religião? Ou, pelo contrário, o direito à vida teria um caráter absoluto? Essa discussão não nos é estranha. Recentemente, o STJ analisou um caso ocorrido no Rio de Janeiro, onde, há mais de vinte anos, uma adolescente de treze anos morreu exatamente nestas circunstâncias; os pais impediram a transfusão, o que foi acatado pelos médicos. O STJ isentou os pais de culpa, mas responsabilizou os médicos, por infração ao Código de Ética Médica.

Não tenho interesse em comentar o caso; estamos comentando um romance, e não a postura do tribunal brasileiro. Adianto que Fiona julga o caso em favor do hospital. O que acontece a partir daí, é claro, deve ser descoberto pelo leitor. Fiona acaba manifestando sentimentos contraditórios em relação a Adam, que pouco tempo depois de salvo atinge a maioridade.

Mas o que posso adiantar é: McEwan não é um autor previsível. Em uma entrevista à New Republic, em 2008, ele se declarou um ateu que jamais se preocupou em esconder seu posicionamento, ao mesmo tempo em que afirmou não ser um “ateu ativista”. E mais: a religião jamais será erradicada, e a simples ideia de que isso possa acontecer é simplesmente terrível.

A balada de Adam Henry pode não ser o livro de McEwan – particularmente, acredito que O Inocente, Reparação (por muitos, considerado o seu melhor) e Serena são superiores como obras literárias – os dois primeiros, inclusive, renderam belas adaptações cinematográficas - mas é um grande romance, fruto de um escritor que domina a técnica de narração como poucos e, além disso, sempre tem algo a dizer.

sábado, 6 de dezembro de 2014

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Sérgio Augusto


A turma da New Yorker é indispensável. Idem, a maioria dos colaboradores da New York Review of Books. Assino uma porção de publicações, a maioria online, atualmente, de modo que seria fastidioso listar quem sigo, já segui e deixei de seguir. Já li com assiduidade Paul Krugman, mas economia não é minha praia. Da prata da casa, Elio Gaspari, Janio de Freitas, Renato Janine Ribeiro, Milton Hatoum, Fernando Calazans e Lúcia Guimarães são os primeiros nomes que me ocorrem, e desde já peço desculpas aos que mereciam ter sido lembrados mas não foram - vistam a carapuça da vaidade.

Uma bela entrevista com Sérgio Augusto, que pode ser lida aqui.

Parabéns ao jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná.




terça-feira, 25 de novembro de 2014

Memórias de duas jovens esposas, de Balzac

BalzacMemoirsYoungWives01.jpg

A ideia de ler toda a Comédia leva invariavelmente a descobrir romances, contos e novelas que costumam ser esquecidos do público - ao menos, o brasileiro - e é justamente o caso destas Memórias de duas jovens esposas. Romance epistolar, acompanha duas amigas dos 17 aos 30 anos, que saem do convento e tomam destinos bem diferentes -  Luísa de Chaulieu passará sua vida à procura de amor; a outra, Renata de Maucombe, procura um marido. Como consta de uma das cartas, uma terá as flores sem os frutos, a outra, os frutos sem ter tido as flores.

Luísa vem de uma das grandes famílias da França, e vai encontrar o que quer duas vezes - dando-se mal em ambas; um professor de espanhol, o duque de Soria, e Maria-Gastão, um artista duro (eles estão sempre por aqui na obra de Balzac... no Chat-qui-pelote, temos Augustine e Theodore de Sommervieux). Tirana, arrasta os dois infelizes.

Renata é mais conformada; dedica-se à família e abandona Paris para a província. São os frutos em flor.

Escreve Renata de l'Estorade:

No dia seguinte ao casamento, o ato terrível, que faz da donzela uma mulher e do enamorado um marido, pode derrubar os andaimes de tuas sutis preocupações. Precisas saber, pois, finalmente, que dois namorados, da mesma forma que duas pessoas casadas, como eu e Luís, vão buscar, sob as alegrias de uma boda, segundo a expressão de Rabelais, "um grande talvez".

Bom, há que se esclarecer que Rabelais se refere à morte...

E é o que inevitavelmente ocorre. Luísa pensar ter uma rival e, quando descobre o que de fato se passa, é demasiado tarde!: empenhou-se em pegar uma tuberculose e acabou morrendo.

O romance é lento  - André Gide o achava confuso e pastoso - mas é sempre um grande retrato da França pós-Napoleão. A aristocracia procurava restaurar seus privilégios, a burguesia procurava uma forma de conciliar os interesses de ambos. O direito civil aparece em toda a Comédia:

O Código Napoleão de 1804 instituiu a igualdade entre herdeiros do mesmo grau. Antes, apenas os filhos homens recebiam o patrimônio.

O pai de Luísa pede-lhe que abra mão de sua parte na herança em favor do irmão, para que este constituísse um morgado, condição para ascender à aristocracia. Para ele, o infame Código Civil do sr. de Bonaparte (...) fará com que metam no convento tantas moças nobres quantas ele fez casarem. E diz à filha:

Sabes, minha filha, quais são os efeitos mais destruidores da Revolução? Jamais os suspeitarias. Ao cortar a cabeça de Luís XVI, a Revolução cortou a cabeça de todos os chefes de família, há somente indivíduos. Ao querer tornar-se uma nação, os franceses renunciaram a ser império. Ao proclamar a igualdade de direitos à sucessão paterna, mataram o espírito de família, criaram o fisco. Prepararam, pois, a fraqueza das superioridades e a força cega da massa, a extinção das artes, o reinado do interesse pessoal e abriram caminho à conquista. Achamo-nos entre dois caminhos: ou constituir o Estado pela família, ou constituí-lo pelo interesse pessoal.

Preste atenção em José Bridau: aqui, o pintor - que é sempre associado a Eugéne Delacroix, muito admirado por Balzac -  testemunha o casamento secreto de Maria Gastão e Luísa, em 1833. Mas ele está em outras partes da Comédia.



domingo, 16 de novembro de 2014

De livros e livros

Sérgio Augusto (sua coluna é imperdível), no Estadão deste sábado:

Os últimos romances com mais de 500 páginas que li de fio a pavio, sem obrigação, foram os de Jonathan Franzen, o taludo 2666 de Roberto Bolaño (que a rigor são cinco romances numa única lombada), e Vício Inerente (Pynchon, cujas 459 páginas o enquadram nessa categoria). Custei um pouco a atravessar os quatro primeiros capítulos de Homem que Amava Cachorros, de Leonardo Padura, por já saber tudo o que gostaria de saber sobre Trotski, via Isaac Deutscher. Apesar de minha obsessão pela 2ª Guerra Mundial, faltou-me coragem para encarar as quase mil páginas de As Benevolentes, de Jonathan Littel. A restrição de uma amiga foi uma desculpa em que me apoiei para deixar O Pintassilgo (792 páginas), de Donna Tartt, na salmoura; prova de que o conselho de Virginia Woolf afinal me entrou por um ouvido e saiu pelo outro. 

O artigo, completo, está aqui.

Não consegui ler 2666 (sim, confesso, podem me mandar para o paredão da Cuba de Padura). Gosto dos romances curtos de Bolaño, mas simplesmente não levei adiante seu grande romance grande. Franzen ainda não me animou. Littel já esteve na minha mão mais de três vezes nas livrarias, mas sempre acabei deixando por lá. Já Padura me agradou muito: em 2014, os tijolos que li foram Homem que Amava Cachorros e As aventuras do bom soldado Svejk, de Hasek. 

José Pacheco Pereira, no Público (Lisboa) deste sábado (Vale a pena ler livros novos?):

Já uma vez coloquei essa pergunta de modo biográfico, dizendo que, por regra, não lia nada que não tivesse aguentado dez, quinze anos, de "necessidade de leitura". Isso provocou reacções muito negativas. Eu, se fosse autor de ficção contemporânea, não acharia graça nenhuma em ser substituído na leitura nem que fosse por Balzac ou Tolstoi. Compreendo bem as reacções, mas elas não iludem o problema: vale a pena ler livros novos de ficção, poesia, teatro etc? Não está tudo já escrito e reescrito com qualidade já tesada e com real ligação com o que de mais indispensável existe na nossa história cultural? Como podemos viver sem Ibsen, Molière, Bocaccio, Stendhal, Cervantes, Safo, Virgílio, mesmo quando já não temos tempo para os ler como merecem sem também já escolhermos entre Proust ou Claudel, ou Dickens e Conrad, ou Nabokov e Updike?  Sim, porque mesmo num cânone muito limitado, e tendo nós que ler outras coisas, sejam manuais escolares, sejam livros técnicos, sejam memórias, sejam livros de actualidade, o tempo não chega. 

O artigo completo está aqui.

O drama existencial de todo leitor. No meu caso, são fases. A cada ano, tento traçar pelo menos um grande livro do cânone. Já houve o ano Guerra e Paz; já passei seis meses lendo José e seus Irmãos (Mann). Este ano o objetivo é pelo menos visitar todos os círculos infernais de Dante.


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sábado, 8 de novembro de 2014

25 anos

A Biblioteca até que tenta, mas não consegue. A culpa, claro, é do bibliotecário. Abaixo, foto do site do The Independent: Berlim ontem à noite, com 8 mil balões recriando o traço do Muro.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O Físico

Poster do filme O Físico


Chega aos cinemas brasileiros a adaptação do romance do americano Noah Gordon. Nunca tinha ouvido falar do diretor, Philipp Stölzl. Descobri que foi o diretor de um videoclip do Depeche Mode, Stripped, banido sob a acusação de apologia ao nazismo...

Outro fato curioso: o livro foi um dos mais vendidos, inclusive por estas bandas. E, no entanto, o filme andou pouco por aqui - poucos cinemas e por pouco tempo.


Mas o livro é muito bom - li em 1989 - e o elenco tem Ben Kingsley (Ibn Sina) à frente. E resolvi arriscar.

Há grandes saltos no enredo. No livro, o leitor acompanha, por exemplo, a luta de Rob Cole em aprender a jogar duas, três e quatro bolas para acompanhar o barbeiro (Bader, por Stellan Skarsgard) - no filme, toda a história do Rob ainda criança é suprimida. O mesmo vale para o "treinamento" de um católico de uma obscura ilha do norte para se fazer passar por judeu no centro do mundo, Isfahan.

Mas talvez o mais duro seja centrar o enredo no relacionamento proibido entre Rob e Rebecca. Noah Gordon desenvolve melhor no livro as origens da Medicina e o papel de Avicena (afinal, o nome latinizado de Ibn Sina), além de deixar evidente o relacionamento entre judeus e muçulmanos, que o filme apenas constata.

Bela fotografia. Não chega a decepcionar, mas não vá com muita expectativa, principalmente se você leu o livro. Um outro diretor poderia ter feito um grande filme.



Pequeno Larousse Ilustrado



Tantas cosas ya se han ido
al cielo del olvido,
pero tú sigues siempre a mi lado,
Pequeño Larousse Ilustrado.

Cuántas veces me abriste la puerta
pra ir jugar
en voz baja a una isla desierta
por un mar dibujado en el mar.

Todavía eres el embeleco
de una infancia que tiene tu edad
y palabras, en vez de muñecos,
asesina su curiosidad.

Universo de la miniatura
y aljibe total
donde sigo pescando figuras,
y no temo llegar ao final.

Tú me ayudas con buenos consejos
a hacer versos por casualidad
y me asombras igual que el espejo
con la fábula de la verdad.

María Elena Walsh (1930-2011), Vals del diccionario (Valsa do dicionário)


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Revista Samizdat, nº 42


RECOMENDAÇÃO DE LEITURA
Kappa, Edweine Loureiro
AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA
História de menina e moça, Bernardim Ribeiro
CONTOS
És feliz, Joaquim Bispo
Dúvida, Leandro Luiz
Confissões a Santo Antonio, Claudia Isadora Fernandes de Oliveira
Sem Fim, Yvisson Gomes dos Santos
O espelho, Priscila Queiroz
Introdução ao corpo nu, João Gilberto Engelmann
De se comer com os olhos, Caio Russo
A menina dos amores trancados, Fernando Sousa Leite
O enCanto da sereia da baía, Luísa Fresta
Lucas pensa que não é possível, Anderson F. Freixo
Passos no telhado, Cinthia Kriemler
Buraco negro, Mario Filipe Cavalcanti
Trívia, Chris Sevla
Abate, Guilherme Scalzilli
Segundo, Volmar Camargo Junior
ARTIGO
4 Razões por que todo escritor deveria ir à Feira do livro de Frankfurt pelo menos uma vez na vida, Henry Alfred Bugalho
TEORIA LITERÁRIA
O Túnel de Ernesto Sábato, por ele mesmo, Tatyanny Souza do Nascimento
CRÔNICA
Do atum ao mate, Ana Beatriz Manier
POESIA
Reverberar, Francisco da Silva
Do destino à origem, J. Maffeis
Quatro improvisos, Leonardo Alves
Pueril, Ju Blasina
Consequência, Gilmar Ricarte de Almeida





Dia 4 na Revista Samizdat

O problema de estar avançando em um determinado projeto é que isso te deixa tão concentrado que atrapalha as demais atividades. Neste mês, lanço mão de mais uma tradução, que pode ser lida aqui.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Os grandes livros que você não leu

Você concorda que "a vida é muito curta para ler livros muito compridos"? Este artigo publicado no El País Brasil traz novamente a discussão. Dos que li (ou tentei), passei por Crime e Castigo e As aventuras do bom soldado Svejk. Mas não consegui ir adiante com Cervantes.

A Divina Comédia está em andamento. Leitura em conjunto com a biografia de Dante de Barbara Reynolds.

A questão é: qual o livro que "todos" leram, menos você, que o largou no meio? Aquele que, como já dizia Millôr, depois que você larga, não consegue pegar mais?

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O Homem mais procurado (2013), de Anton Corbijn

O Homem Mais Procurado (2014) Poster

Para quem gosta de filmes de espionagem, o bom e velho John le Carré está de volta, agora sob a direção do (para mim) desconhecido Anton Corbijn. Um dos últimos filmes de Philip Seymour Hoffman (no papel do alemão Gunther Bachmann).

Nunca li Le Carré, mas assisti a diversos filmes baseados em sua obra. O que mais me deu raiva foi A Casa da Rússia, que consegui ser confuso com Sean Connery, Michelle Pfeiffer e Klaus Maria Brandauer. A culpa, claro, não foi de Le Carré, mas o diretor bem que poderia passar um tempo sendo interrogado pelos serviços de inteligência.

Aqui, o resultado é outro - o filme é ótimo. Sai Moscou, entra Hamburgo.

Como fruto de Le Carré, a história nunca é preto-e-branco (diversas agências de inteligência tentando passar a perna umas nas outras, por exemplo); há uma dúvida até os últimos instantes - na verdade, duas, envolvendo o imigrante checheno Issa Karpov e o badalado Abdullah, que vive dando palestras e é um senhor respeitabilíssimo. Os muçulmanos são muitos e não compõem um mundo monolítico.

Bachmann pertence a uma agência de inteligência alemã, que já foi passado para trás pelos "colegas" americanos (em quem não confia). Está de olho em Issa e desconfia tremendamente de Abdullah - e usa um para chegar ao outro. Issa é ajudado por uma advogada (Rachel McAdams). Willem Dafoe tem papel coadjuvante, e Daniel Brühl também dá as caras, na equipe alemã.

PS. Sabendo como as coisas terminaram, é quase impossível dissociar Bachmann de Hoffman (gordo, fumando o tempo todo, com um ar de quem não está suportando mais nada)...

Magia ao Luar, de Woody Allen





Colin Firth é o escolhido para fazer Woody Allen - Stanley Crawford ou Wei Ling Soo, um "mestre chinês" ilusionista. Um velho amigo, também mágico, pede sua ajuda: Crawford é conhecido por desmascarar mediuns picaretas por toda a Europa. Desta vez, porém, terá de enfrentar Sophie Baker (Emma Stone) e sua mãe, hospedadas na residência dos multimilionários Catledge. 

Brice Catledge está apaixonado por Sophie, e passa os dias tocando e compondo músicas de amor insuportavelmente chatas e cafonas - cada aparição do mancebo rende risos na plateia. Stanley não esconde sua rabugice e má-vontade para com a moça - um certo desprezo. Um racionalista absoluto - claro, caricatural - com uma confiança inabalável em seu intelecto.

Evidentemente, as coisas não serão tão fáceis assim - e é previsível o que acontece entre eles... e seu cérebro acaba capitulando diante de Sophie. Até que ponto o sujeito acredita no que vê ou no que quer? O final, claro, se dá numa rápida guinada, e o cérebro de Stanley salva seu hospedeiro.

Curiosamente, lembra duas obras do diretor que não tem nada de comédia - Match Point e O Sonho de Cassandra - inclusive pela foma como se dá a conclusão do enredo. Mais um conto de Woody Allen na tela.


Camões na Rússia

Daria um belo conto: o sujeito, em São Petersburgo, pela primeira vez concluía a tradução d'Os Lusíadas para sua língua materna, quando  as tropas alemãs iniciam o cerco à então Leningrado...

O tradutor, Mikhail Travtchetov, entregou sua versão à editora Gossizdat em 1940, mas não foi possível publicá-lo, devido ao bloqueio à cidade. Ao que consta, Travtchetov recusou-se a sair da cidade e lá morreu em dezembro de 1941, não se sabe se de fome ou em combate. Seu traduzido também não teve muita sorte - Camões morreu pobre e esquecido.

Após a guerra, sua irmã lutou para a publicação da tradução. 

O que somente ocorreu nesta terça, dia 17.