quinta-feira, 19 de julho de 2018

Nobel Alternativo?

Depois do vexame e do escândalo, o Nobel de Literatura de 2018 foi cancelado.

Surge agora uma Nova Academia, que propõe uma premiação alternativa. Algumas coisas não mudam: não há qualquer escritor brasileiro na lista.

Mas, sinceramente, colocar no mesmo patamar Ian McEwan e Amós Oz com J.K. Rowling... De fato, algumas coisas nunca mudam mesmo.


The Silk Roads: A New History of the World, de Peter Frankopan



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The Silk Roads: A New History of the World
Peter Frankopan
Bloomsbury Publishing

Lançado em 2017, esse livro de Peter Frankopan permanece inédito no Brasil. Não sei se alguma editora irá publicá-lo por aqui - fica a sugestão/pedido. Li, obviamente, pelo Kindle, mas merece um lugar na estante.

É comum nos depararmos com "novas histórias", novas visões, mas raramente percebemos o "novo". Frankopan, por outro lado, acerta em cheio. Especialista em Bizâncio e na Ásia Central, ele simplesmente conta a história do mundo a partir daquilo que viemos a chamar de "Rotas da Seda", abandonando uma visão mais eurocêntrica. Afinal, escreve, a Ásia Central é o lugar onde os impérios foram criados". 

O Império Persa, por exemplo, se sobressai, por volta do século VI a.C, expandindo-se até o Himalaia, o Mar Egeu e o Egito. Segundo ele, quando pensamos em globalização como algo do século XXI, ignoramos esse "pequeno detalhe" - há mais de 2000 anos, foi um fato, que criou oportunidades, gerou problemas e alavancou um progresso tecnológico notável. 

As religiões também são estudadas - em especial, as relações iniciais entre Cristianismo, Islamismo e Judaísmo. Por outro lado, o avanço dos mongóis (que atacaram a China, Bagdá e avançaram pela Europa) e a Peste Negra estão intimamente ligados - e Frankopan enxerga nesse conjunto de fatos o início de uma mudança no eixo do poder europeu, que se desloca do Mediterrâneo.

Com a Peste, a população diminuiu drasticamente, os salários aumentaram na mesma proporção (mão-de-obra escassa, afinal), os camponeses e trabalhadores urbanos aumentaram o seu poder em relação aos proprietários de terra. Houve uma redistribuição de riquezas no continente. Por outro lado, aumentou a demanda por artigos de luxo. As transformações advindas da Peste Negra formaram a base para a ascensão da Europa do Norte e Ocidental.

Por outro lado, países que estavam longe de Constantinopla passaram a ter um protagonismo inesperado, com as descobertas e as conquistas coloniais da Espanha e de Portugal. Essas províncias longínquas, que estavam "do lado errado do Mediterrâneo" agora se transformam em potencias globais, afetando drasticamente as rotas da Ásia Menor para as cidades italianas, cuja decadência se acentua. 

Com a fundação de Manilla, nas Filipinas, "a primeira cidade global", diz Frankopan, é possível conectar América e Ásia sem passar pela Europa. E depois a crise da Espanha e o surgimento de uma nova potência, a Inglaterra, e por aí vai. Frankopan chega até os dias atuais, do início do século XXI...

Enfim, é impossível enumerar as passagens e os enfoques estudados por Frankopan que, na melhor tradição da língua inglesa, nos oferece um livro de alta qualidade num texto extremamente agradável de se ler. Mas talvez dê para colocar esse The Silk Roads nos seguintes termos: uma história do mundo a partir do comércio, tão antigo quanto a própria civilização. 

Imperdível. Que alguma boa editora traga esse livro para cá.


sábado, 14 de julho de 2018

Ulisses e Eumeu

Ao que parece, foi encontrado o mais antigo registro escrito da Odisseia, mais exatamente uma placa com fragmento do Canto 14, aquele em que Ulisses, tendo retornado a Ítaca, reencontra o seu criado Eumeu. O achado se deu durante escavações na cidade de Olímpia e, ao que tudo indica, data do século III a.C.



Ismail Kadaré escreveu o romance O dossiê H, passado na sua Albânia. Na história, dois irlandeses, Max Roth e Willy Norton, viajam na década de 30 para estudar a epopeia albanesa para descobrir a forma de composição dos dois poemas.

Há uma eterna discussão: existiu um sujeito chamado Homero, que teria criado essas histórias? Muitos acreditam que não, e que o que lemos hoje seriam "obras coletivas" passadas de geração em geração por cantores épicos. 

O achado em Olímpia não resolve a questão, mas é fascinante encontrarmos um registro tão antigo da epopeia.