quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Complô contra a América na TV

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Philip Roth já havia falado numa entrevista ao NYT. Agora, David Simon confirmou que está produzindo uma mini-série em seis episódios a partir do romance Complô contra a América

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Pantaleão e as visitadoras, de Mario Vargas Llosa



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Pantaleão e as visitadoras
Mario Vargas Llosa
Alfaguara
Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman
246 p. 




Publicado em 1973, é um dos mais conhecidos e elogiados romances de Mario Vargas Llosa. Pantaleão Pantoja é um oficial com um futuro brilhante pela frente no Exército, e recebe a missão (secreta) de organizar o Serviço de Visitadoras para Guarnições, Postos de Fronteiras e Afins, sob a burocrática sigla SVGPFA. Uma operação para baixar a temperatura da tropa: um serviço de prostitutas que devem saciar os soldados solitários e perdidos em serviço no interior da selva amazônica, e que se tornaram uma ameaça para as mulheres e animais da região.

Diligentemente, Pantaleão, que não fuma, não bebe, jamais traiu sua mulher - um sujeito que não cede a vícios e tentações - faz um estudo de mercado completo. Sua planilha merecia ser estudada nos MBA: quantifica o público alvo, estabelece o número de visitadoras a contratar, o tempo de cada "visita". Pantaleão participa pessoalmente da seleção de sua "equipe". O romance mescla cartas, relatórios típicos de repartição pública (a história se passa nos anos 50... parecem, às vezes, saídos de um personagem de Nelson Rodrigues).

O Serviço foi concebido para dar errado. No entanto, nas mãos diligentes de Pantaleão, é um sucesso - indigesto, diga-se. Os militares e a Igreja não aceitam a divisão, e tão interessante quanto Pantaleão é o personagem Francisco, um fanático que incentiva a crucificação de animais e de pessoas, sempre para combater o Mal...

O romance foi ao cinema em 2000, em filme dirigido por Francisco Lombardi, também peruano.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A história dos judeus, de Simon Schama


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Passei a acompanhar Simon Schama assistindo aos seus documentários sobre arte, que começaram a ser transmitidos no incrível canal da TV a cabo Arte1. E, conhecendo o autor, fui direto ao primeiro volume da sua História dos Judeus, que saiu por aqui pela Companhia das Letras.

O título original é Story, e não History of the Jews. A ideia é mesmo a de um contador de histórias, muito mais que o trabalho de um historiador. 

Assim, o livro começa com uma carta escrita por um pai aflito ao seu filho, um mercenário por volta de 475 a.C. – você está sendo pago? Está comendo direito? – que integrava a tropa judaica, nas ilhas Elefantinas, último posto da civilização à beira do deserto da Núbia. Schama mostra que era possível ser judeu e egípcio. Como, depois, por séculos, seria perfeitamente natural ser judeu e árabe. Até que Maomé aparece e mais uma religião monoteísta aparece.

Das ilhas Elefantinas até a expulsão dos judeus da Espanha dos Reis Católicos, Schama mostra a vida cotidiana dos judeus, e apresenta sua ideia de que sempre foram abertos à miscigenação e ao contato com outros povos. E identifica no arcebispo de Antioquia, São João Crisóstomo, no século IV, um grande responsável pela ideia – até então inexistente – de que judeus e cristãos não poderiam compartilhar, jamais, o mesmo espaço – casas, ruas; as mulheres cristãs poderiam ser seduzidas pelos assassinos de Deus. Logo os judeus seriam equiparados a vampiros. Não era mais possível ser judeu e bizantino. E a Idade Média ainda não havia começado... 

Um capítulo mais sombrio é o da Mulher Asquenaze, onde Schama relata os assassinatos e massacres da época das Cruzadas. Matar os judeus se torna “necessário” para liberar Jerusalém. Afinal, eles não sequestram meninos cristãos na Páscoa? A história de Hugo de Lincoln, menino de 9 anos, aparece no The Prioress’s Tale, de Chaucer (Canterbury Tales).

O inglês, que há anos mora em Nova York (“o melhor lugar do mundo para ser judeu”) e dá aulas na Universidade de Columbia, resolveu dar continuidade ao projeto de Cecil Roth, interrompido nos anos 70 com a sua morte. O projeto deu origem a dois livros (o segundo volume acaba de ser lançado nos EUA e não deve demorar a chegar aqui) e uma série de televisão em cinco episódios (será que conseguiremos assistir daqui?).

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Aharon Appelfeld (1932-2018)

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Ontem, dia 4, morreu o escritor israelense Aharon Appelfeld, aos 85 anos. Dele, li Badenheim 1939, um dos melhores livros sobre o Holocausto.   

Appelfeld nasceu em Czernowitz, então parte da Romênia e hoje território ucraniano. Sobreviveu ao Holocausto escondendo-se nas florestas da Romênia, trabalhou por alguns meses para o Exército Vermelho, que deixou em 1945 e, no ano seguinte, aos 14 anos, emigrou para a Palestina - segundo ele, não havia lugar para órfãos na Europa. Recusava a classificação de "escritor do Holocausto", por entender que não se pode ser um "escritor da morte". Foi professor de letras na Universidade Ben Gurion. 

Era grande amigo de Philip Roth (há uma conversa entre ambos no livro Entre nós, do escritor americano), que nele se inspirou para escrever seu melhor romance, Operação Shylock.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Lincoln in the Bardo, de George Saunders




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O último livro que li em 2017 foi o vencedor do Man Booker Prize do ano. Lincoln in the Bardo, de George Saunders, será lançado no início de 2018 pela Companhia das Letras, e recebeu críticas entusiasmadas na imprensa americana.

Talvez por ter lido no Kindle, demorei algumas páginas para entrar no espírito da obra, estranhando um pouco a formatação. Mas valeu a pena.

Uma obra estranha, sem dúvida, de um experimentalismo pouco usual. Em determinados momentos, uma colagem (que faz sentido) com notas de diários, livros e periódicos do período; em outros, monólogos e diálogos entre fantasmas.

Logo na abertura, um monólogo de um certo Hans Vollman, que conta que tinha 46 anos no dia de seu casamento com uma jovem de 18 e que, ciente de todas as circunstâncias, não forçou sua noiva a nada, apenas propondo-lhe sua amizade. Com o passar do tempo, essa amizade se tornou em verdadeiro amor e, quando Hans e a esposa finalmente iriam "expandir as fronteiras de sua felicidade", uma viga cai sobre sua cabeça. É o que conta ao amigo Roger Bevins III.

Somos apresentados a uma série de fantasmas. Bardo é um termo tibetano que significa um estado "intermediário", em que as almas vagam pelo cemitério, contando suas histórias, até aceitarem sua partida para o inferno ou o paraíso. Uma espécie de limbo.

O espírito do pequeno Willie, no entanto, não quer sair. Está à espera da visita do pai. Willie Lincoln era o filho mais novo do presidente Abraham Lincoln e morreu de tifo. O menino ardia de febre enquanto o pai participava de um jantar de Estado e a Guerra Civil despedaçava o país. Descobrimos que o presidente era considerado um pai leniente demais, que seus filhos podiam fazer tudo. A culpa irá perseguir o pai, que permitiu que o filho passeasse montado no pônei que acabara de ganhar de presente. Chovia muito no dia e o menino adoeceu - para nunca mais se recuperar.

Saunders ficou impressionado ao descobrir que o pai foi à cripta para estar com Willie diversas vezes, a ponto de se inspirar nessa história para escrever o livro.

A imprensa foi bastante cruel com Abraham Lincoln, chamando-o de insensível, de ignorar a doença de Willie, de preferir os comensais ao leito do filho. Os fantasmas, contudo, percebem que pai e filho são pessoas especiais. Precisam ajudar o espírito de Willie a deixar o Bardo. O que fazem para isso é o ponto alto da narrativa. A descrição de Lincoln diante da morte do filho é forte, emocionante e bem escrita como poucas (pouquíssimas). 

Da minha lista de 2017, certamente o melhor romance do ano.