terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Lincoln in the Bardo, de George Saunders




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O último livro que li em 2017 foi o vencedor do Man Booker Prize do ano. Lincoln in the Bardo, de George Saunders, será lançado no início de 2018 pela Companhia das Letras, e recebeu críticas entusiasmadas na imprensa americana.

Talvez por ter lido no Kindle, demorei algumas páginas para entrar no espírito da obra, estranhando um pouco a formatação. Mas valeu a pena.

Uma obra estranha, sem dúvida, de um experimentalismo pouco usual. Em determinados momentos, uma colagem (que faz sentido) com notas de diários, livros e periódicos do período; em outros, monólogos e diálogos entre fantasmas.

Logo na abertura, um monólogo de um certo Hans Vollman, que conta que tinha 46 anos no dia de seu casamento com uma jovem de 18 e que, ciente de todas as circunstâncias, não forçou sua noiva a nada, apenas propondo-lhe sua amizade. Com o passar do tempo, essa amizade se tornou em verdadeiro amor e, quando Hans e a esposa finalmente iriam "expandir as fronteiras de sua felicidade", uma viga cai sobre sua cabeça. É o que conta ao amigo Roger Bevins III.

Somos apresentados a uma série de fantasmas. Bardo é um termo tibetano que significa um estado "intermediário", em que as almas vagam pelo cemitério, contando suas histórias, até aceitarem sua partida para o inferno ou o paraíso. Uma espécie de limbo.

O espírito do pequeno Willie, no entanto, não quer sair. Está à espera da visita do pai. Willie Lincoln era o filho mais novo do presidente Abraham Lincoln e morreu de tifo. O menino ardia de febre enquanto o pai participava de um jantar de Estado e a Guerra Civil despedaçava o país. Descobrimos que o presidente era considerado um pai leniente demais, que seus filhos podiam fazer tudo. A culpa irá perseguir o pai, que permitiu que o filho passeasse montado no pônei que acabara de ganhar de presente. Chovia muito no dia e o menino adoeceu - para nunca mais se recuperar.

Saunders ficou impressionado ao descobrir que o pai foi à cripta para estar com Willie diversas vezes, a ponto de se inspirar nessa história para escrever o livro.

A imprensa foi bastante cruel com Abraham Lincoln, chamando-o de insensível, de ignorar a doença de Willie, de preferir os comensais ao leito do filho. Os fantasmas, contudo, percebem que pai e filho são pessoas especiais. Precisam ajudar o espírito de Willie a deixar o Bardo. O que fazem para isso é o ponto alto da narrativa. A descrição de Lincoln diante da morte do filho é forte, emocionante e bem escrita como poucas (pouquíssimas). 

Da minha lista de 2017, certamente o melhor romance do ano.

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